Ah, não

Não, não e não! O salto não deu certo. Mas não tão certo quanto eu imaginava que ele pudesse dar. No Brasil me parece que qualquer chute pode ser grávido, mas meus pés não fecundam. Bebo, bebo, bebo.... Oferece-me algo mais interessante que isso? Não quero calções por baixo, nem foto de baixo, mas quero ser um profissional. E isso me incomoda porque jamais serei. Não há estrutura, não há conforto. Os sonhos são vários. Mas os corpos são maiores do que eu imagino do que eu poderia ser. Não poderia ser meu oponente se eu não pudesse sê-lo de alguma forma. Eu preciso ser aquele que eu supero. Mas ele continua tão belo. E me diga, me diga no meu lugar, o que tu vês por essa janela que é tão pequena e que me deixa ver tão pouco do teu corpo. Se há recortes do teu corpo é porque tua janela me impõe navalhas. E há perigo? Há perigo para tuas secreções? Não sei se pras minhas, mas pras nossas... As luzes não costumavam me chamar tanto. Nem costumavam significar tanto. Nunca observei o sol que eu tinha sobre minha cabeça. E tu, tinhas? Tua janela me suporta, me rasga. E se meu corpo não resiste mais, se porque o espelho se encarrega da minha mensagem, ou se minha imaginação fertilizam teus caminhos, eu poderei dizer “nunca”. Mas eu jamais direi “nunca”, porque nenhuma letra antes dessa jamais disse. Eu não estou ausente para ti. Eu estou aqui. Pule a janela, corte-se. Isso que fica pro lado do corte que sangra não nos pertence. Desce. Há mais dores do que tu imaginas. Mas meu beijo não corta, meu beijo cura. Depois de toda a batida, depois de todo choro, anda precisas de mais uma gota de sangue para abatumar? E se eu cortar a garganta daquele que eu gosto de perfurar? Sugira-me outras lâminas pra eu me matar. Porque teus peitos não me sufocam, nem tuas bolas, nem tuas barbas... E se tu pulasse da minha imaginação? É ruim. É péssimo. Porque tu é aquele que me mantém na camadas 8 às 10. E eu adoro. Deixa eu ficar, deixa eu me acomodar nos sulcos do teu pescoço? Eu me deleitaria nesse carpete marrom, bem sexy... Mas jamais serei uma ponte, nem pro carpete, nem pro tapete. Nunca meu corpo denunciou minha verdade. Nunca meu oponente soube que eu chorara, ou que eu perdera pra um peso leve. Não há dinheiro que pague isso. O canudo que atravessa a cachaça consegue drenar o muco do coração. Eu sou de Ogum, e o coração está na espada. Briga comigo, e te machucarei com aquilo que me é mais precioso. Mas e se ele não entende? E se ele não me quer? Na sua paixão tardia, ele ainda deseja aquele que atrás de mim reside... O que posso levantar contra seu desejo? Com que lança posso rasgar seu pesar? Com que pincel posso borrar sua lembrança? Tudo é tão material, tão saboroso... Eu também sinto a carne dele. Seu corpo também está no meu. Ele respira perto dos meus ouvidos. E se eu me apaixonar? Eu daria um tapa na escuridão e diria: “aqui está meu testamento! Jamais uma manhã de desespero!” E quantas foram que tu mascaste na boca, agridoces? É que o corpo bate, e dói, junto com o que chamamos de palavras. Ás vezes vomita. Mas se vomita, é porque ele é saudável!

Retorno de Saturno

Apressado meu Saturno. Retornou ao seu grau de origem cerca de 4 anos antes do previsto.

Subitamente, ou não, uma profunda inconformidade com a razão, com a racionalidade, com os planos e com as estratégias que não foram bem paridos. Gestação rápida, in vitro, que colocou no mundo essa coisa estranha que sou hoje, essa entrecruzilhada justaposta. Não há caminhos, nem por cima, nem por baixo.

Caminhos impossíveis:
O caminho da frente é só terror [recusas, batalhas por um palmo de terra, discussões sobre um conceito, diferença mínima entre o grito e o silêncio {a não ser para o currículo lattes}, negações, reprovações, frases mal colocadas, resumos mal feitos, apresentações mal planejadas, inércia, invisibilidade, mais-uma-gota-no-mar-de-teses-e-artigos-sem-que-o-volume-do-todo-se-modifique, frustração, análises e sínteses deslocadas, mau planejamento, mau argumento, repetição não-diferencial, ventríloquo, fontoche, puppet, 4 encadernações com 4 formulários preenchidos e 4 vias homologadas até o quinto dia útil do mês {o pagamento NUNCA é feito no quinto dia útil do mês; não obstante minhas obrigações devem seguir à risca um calendário pouco afeito às elasticidades}, defesa, anteprojeto, banca, defesa, projeto, defesa, tese, título, defesa {se há defesa é porque há ataque}]. Sei que tenho pouco fôlego para esse afogamento em vaidades e citações bibliográficas. De qualquer modo, não é afogado que me imagino morto.
O caminho de trás já se fechou – e jamais esteve aberto. Vim dar aqui onde estou, em primeiro lugar, porque nunca planejei, porque nunca desejei, porque ao me deitar na cama à noite, até pegar sono, nunca construí sonhos com tudo o que vivo agora. Vim dar aqui onde estou porque, desde criança, sempre gostei da contramão, da contra-corrente, de acelerar no sinal vermelho, de estacionar em fila dupla, de sentar no banco do motorista e ir manejando o volante e as marchas como se o carro estivesse em movimento [quando na verdade estava parado dentro da garagem de casa, e meu pai estava dormindo sem saber que eu roubara as chaves]. Vim dar aqui porque fui pululando de não-em-não, espremido entre algumas poucas possibilidades que chegaram a me cuspir nesse ponto. Tenho pouca paciência para esse esmagamento incalculável que me empurra de um lado para outro. De qualquer modo, não é esmagado que me imagino morto.

Caminhos possíveis:
Pirueta dupla com um carpado de nu frontal. Sexy, porém perigoso. Posso decidir que vou dando de mim a quem quiser, fazendo a linha Geni acadêmica; posso ir vendendo meu corpo como mão-de-obra e minha [rasa] capacidade de reflexão a quem quiser ouvir minhas advertências e meus conselhos. Michetagem intelectual a $100 hora/aula. Posso escrever maravilhas para o governo, ser financiado e viver a vida repassando alguns mil das contas públicas para minha conta pessoal sem que haja nenhum monitoramento nem avaliação dos usos e abusos que vou fazer do dinheiro que você, caro cidadão, paga todo ano à tigresa de unhas negras e íris cor de mel [leão? Imposto de renda no Brasil tá mais pra tigresa que pra leão]. E quando cansarem dos meus pareceres? E quando não houver mais bichas morrendo de aids? E quando, finalmente, todos nós nos reproduzirmos por derivação e ninguém mais se importar com as {vômito} identidades sexuais {arroto}? Meu corpo não está sendo esculpido a goivas gregas [e aveia em todo café da manhã, 0% de gordura e reduzido teor de carboidratos] para morrer depois de uma sessão de tortura tupiniquim numa sala qualquer da Polícia Federal para em seguida ganhar as capas dos jornais como “A BICHA ESTELIONATÁRIA QUE SE MATOU NA PRISÃO DEPOIS DE ENFORCAR-SE COM SUA CUECA CALVIN KLEIN”. De qualquer modo, não é torturado que me imagino morto [nem me imagino morto e vestindo uma cueca Calvin Klein].
Triplo mortal de costas com fio-dental. Exige treino, concentração, obstinação, foco, tanto quanto os antigos samurais eram disciplinados pelos seus mestres [vide Kill Bill 2, a própria interpretação do Retorno de Saturno]. O problema é que não sou samurai, sou um cigano com desvio de déficit de atenção que está em tratamento com ritalina e lorazepam. Nômade, meu pensamento e meu corpo creem que o pior labirinto é a linha reta [maldito filósofo francês que me ensinou isso!]. Eu quero, eu desejo, eu acho que consigo. Mas sinto que fracassaria, sinto que não teria paciência, não teria força. Ou melhor, sei que tenho a força [momento He-Man, aquela Barbie loira passiva que confundiu tudo na minha cabecinha], mas acho que minha força iria se dissipar, iria encontrar curvas, iria se desprender, porque minha força raramente encontra alvo fixo e sempre vai-e-vem aos turbilhões, atirando para todos os lados sem acertar em nada exatamente, sem rasgar nenhuma jugular. Só arranha algumas veias periféricas. Minha força não é mortal; ela pode matar, mas é demasiado pulverizada para fazer morrer. Mas seria maravilhoso poder terminar de costas para o público, depois de desenhar no ar três círculos com minhas pernas e meus braços; de costas para o público que acha que é loucura largar de tudo para reaparecer num outro ponto da espiral; de costas para o público e mostrando minha bunda branca/flácida de desprezo a todos os mal-comidos, brochas, paus-pequenos, ejaculadores precoces, frígidas, recalcados de todos os gêneros, conservadoras carolas e moralistas. Seus olhares de raiva sobre mim são um verniz de orgulho. Porque eu teria esnobado suas expectativas, teria desdenhado de seus planos para mim e teria cravado meus pés no solo depois do triplo mortal com fio-dental que alguns achariam ridículo e infame, outros achariam justo para com eles próprios [menos concorrência para a vaga de Professor Estúpido nível 1], outros chorariam e se perguntariam, rasgando suas roupas, “por quê, meu deus, por quê?”. E eu extasiado, simplesmente por ter conseguido vestir o fio-dental e dar três giros no ar, sem saber se no chão eu pousaria com sucesso. Esse público perverso deixaria que eu morresse sozinho, no meu apartamento próprio de 1 quarto em Petrópolis, encontrado dias depois de fazer-a-passagem porque os vizinhos chamariam os bombeiros devido ao mau cheiro da carne em avançado estado de decomposição [será no ápice do verão úmido de Porto Alegre que vou deixar este mundo, porque ninguém merece o verão, e minha morte será a mais profunda manifestação de desgosto por esta estação do ano], estendido em frente à porta de entrada [os bombeiros teriam dificuldades em abri-la porque meu corpo a emperraria], com o braço direito alongado e o dedo indicador sobre o número 9 do telefone [“coitada desta bicha”, diriam alguns bombeiros gostosões, “ainda tentou discar 192 para pedir ajuda, mas não conseguiu”. É, bofe, mas antes disso consegui trepar com o michê e me dar conta que ele já ia me dando um boa-noite-cinderela, coloquei o michê pra correr com uma faca de cortar carne, dei um talho no rosto dele, ainda voltei pra casa, escrevi duas cartas de adeus pra dois amigos queridos {aqueles que talvez não tenham me apoiado em todas as minhas decisões, mas que sempre confiaram na possibilidade de eu arcar com as consequências delas}, tomei um banho, passei uma base no rosto, pus meus cílios postiços, meu perfume Bvlgari e só então que eu decidi ligar pra SAMU pra pedir ajuda. Se não fiz antes foi porque eu simplesmente NÃO QUIS, bonita.]... É... Assim eu me imagino morto.

Qual meu lugar aqui?

Os corpos não pedem “com licença” nem dizem “muito obrigado”: eles somente circulam, se movem pelo asfalto ou se sentam nas cadeiras dos quiosques. Mas há entre eles alguns jogos mais intensos, mais crus, que os colocam em permanentes encruzilhadas ou negociações: um deles é o jogo entre o nu e o vestido; outro é o jogo entre o seco e o molhado; também existe o jogo da luz e da sombra; e há ainda o jogo complexo do olhar e do ser visto, o regime de dispersão dos olhares, que obedece a uma série de coações e regras imbricadas entre o nu e o vestido, a luz e a sombra e o seco e o molhado... Eu poderia seguir expondo mais e mais jogos que observei ali: o jogo entre a velhice e a juventude, o jogo entre o rico e o pobre, o jogo entre o móvel e o estático, o jogo entre os homens e as mulheres... É que nossa história ocidental, pelo menos desde Platão, seguiu firme na construção de pares dicotômicos de pólos interdependentes. Num método de divisão de visava à pureza das representações e à busca da verdade, tudo no mundo foi constantemente submetido a classificações mais ou menos rigorosas que criaram buracos-negros opostos, porém interligados. Os binarismos foram úteis na história das ideias porque essencializam as verdades do mundo, donde se torna mais fácil, pelo menos para as mentes menos argutas, apreender o saber das coisas e ter poder sobre elas. Pelo menos deste o Século das Luzes cada vez mais investimos em pares binários para compreender e produzir o mundo em que vivemos. E vemos isso no chão do calçadão: há pedras brancas e pedras negras, intercaladas, formando curvas contínuas do Morro do Leme ao Forte de Copacabana, opondo-se mutuamente por mais de seis quilômetros – muitas e muitas vezes vi crianças brincando de correr somente sobre as pedras brancas ou somente sobre as pedras negras, disputando pra ver quem chegava primeiro no final do caminho. E essa imagem, de duas crianças colocadas em cada um dos dois tipos distintos e opostos de pedra disputando uma vitória ingênua, é exatamente essa imagem de frivolidade que perpassa a construção dos binarismos, dos pares dicotômicos. Porque nossa existência nunca esteve nos pólos extremos, mas sempre nos interstícios, no meio-do-caminho entre eles; seus significados sempre estão em disputa lá onde eles borram suas fronteias, e isso se dá exatamente na sua interdependência, no seu meio-termo, no entre-lugar que os binarismos criam, dos quais as dicotomias dependem pra existir. Exatamente porque os interstícios dos binarismos lhes são constitutivos, é na profunda interrelação de dois pólos opostos que está sua ruína. Desvelar, apontar, sublinhar, fazer crescer até implodir o entre-lugar que constitui a série de binarismos que recém descrevi é um modo de desconstruí-los. E é essa a intenção político-teórico-metodológica do uso da palavra “jogo”. O jogo entre os pólos de uma dicotomia é o movimento de seus significados, é a mediação da significação dada aos extremos do par. O jogo entre eles precisa ser narrado, seus deslizes, o ponto-cego onde o jogo das significações já não pode mais operar precisa ser construído. O jogo sutil das relações que instituem lugares para os sujeitos e para os corpos, o jogo dos princípios de inteligibilidade das palavras, das coisas, dos corpos e das subjetividades: é no jogo, estratégico ou não, sempre acontecendo mediante uma certa distribuição peculiar de coações, em que pretendo encontrar meios de desestabilizar os binarismos. Por “jogo” não conoto um vale-tudo onde nenhuma regra regula; nos “jogos” pretendo fazer ressaltar o conjunto coercitivo de permissões e proibições mais ou menos pesadas que balizam a relação entre os dois pólos de uma dicotomia.

(... CONTINUA ...)

Qual meu lugar aqui?

Preâmbulo:
Chego e imediatamente sei que estou aqui: um feixe denso de rostos que só essa cidade tem me abraça. É o calor úmido e o vento constante que, graças ao mar, fazem a maresia atravessar a metrópole; são os cheiros intensos de mijo seco, de creolina, da descarga dos automóveis, novamente da maresia, do lixo esquecido nas lixeiras, das poças d’água, paradas e negras, que ainda não estão secas; são os longos asfaltos quentes, curvos, que sobem e descem e atravessam uma série de morros em túneis confeccionados para ligar as zonas sul às zonas oeste, zonas que não são tão sul nem são tão oeste na rosa-dos-ventos; os Dois Irmãos gêmeos que caminham de sunga pela praia; os Pães de Açúcar desmancham nas centenas de padarias e confeitarias de cada esquina. Atravessando a ponte para o outro lado da baía dou-me conta de que o Cristo está de braços abertos somente sobre a Guanabara: há todo um mundo e submundo que escapam ao seu olhar cego; há toda uma massa de gente que não está sob a guarida de seu manto.

O calçadão e seus jogos:
O único lugar gratuito era o calçadão de Copacabana. Se eu não estivesse passando por uma grave crise financeira pessoal, talvez eu não frequentasse com tanta insistência essa parte do bairro. Provavelmente eu estaria sentado dentro de um shopping, de arquitetura homogênea, com lojas repetitivas, com ar-condicionado potente, com praças de alimentação óbvias: o capitalismo exige uma identidade espacial e uma abstração temporal nos shopping centers, de modo que eles a) nos ofereçam a sensação de “estarmos em casa” ou a certeza de entrar em qualquer um deles e sentirmo-nos seguros por saber como funcionam e como se distribuem, e b) nos suspendam do relógio e da sensação da passagem do tempo – nenhum shopping center tem relógios visíveis e múltiplos no seu interior; suas luzes internas são eficientes e suas janelas opacas o bastante para que o movimento do sol, lá fora, não seja percebido lá dentro. Mas é igualmente provável que tenha sido ótimo que o dinheiro, ou a falta dele, tenha me privado desta massificação capitalista. Havia um shopping bastante perto de onde eu morava, mas os poucos metros que o separavam do calçadão na faixa de areia revelavam um continuum que vai do terror da identidade (o shopping) à ferocidade da diferença (o calçadão). Porque o que encontrei nas minhas repetidas idas ao calçadão de Copacabana foi uma distribuição peculiar de permissividades, um rico regime de dispersão de olhares e coexistências pulsantes de corpos. Explico.

O calçadão não é uma calçada grande. O calçadão é feito de pedras quebradas, brancas e pretas, matematicamente posicionadas em curvas que imitam o movimento das ondas. O calçadão tem bares, bebidas, comidas, cocos, coqueiros, areia e asfalto. O calçadão também conta um uma pista de mão dupla especialmente feita para corredores e ciclistas. O calçadão se estende por cerca de seis quilômetros entre um morro e um forte. O calçadão abriga dois bairros: Leme e Copacabana. O calçadão não é limite, fronteira, nem aduana entre a areia e o asfalto: o calçadão é todo passagem, é um lugar para o trânsito, é o próprio trânsito, é o nomadismo, é o deslize, é o movimento nele próprio, é a espiral que não tem fim nem na areia nem no asfalto. O calçadão é rizoma. Entro por ele em quaisquer de suas entradas, e ele me garante múltiplas saídas, sempre. Porque ali o passo pode ser lento e rápido, e pode inclusive nem haver passo – há muitas cadeiras de roda e muletas. Os corpos não pedem “com licença” nem dizem “muito obrigado”: eles somente circulam, se movem pelo asfalto ou se sentam nas cadeiras dos quiosques. Mas há entre eles alguns jogos mais intensos, mais crus, que os colocam em permanentes encruzilhadas ou negociações: um deles é o jogo entre o nu e o vestido; outro é o jogo entre o seco e o molhado; também existe o jogo da luz e da sombra; e há ainda o jogo complexo dos olhares, o regime de dispersão dos olhares, que obedece a uma série de coações e regras imbricadas entre o nu e o vestido, a luz e a sombra e o seco e o molhado. Pois o jogo entre o seco e o molhado corresponde ao suor do corpo, fruto do exercício, da corrida, das flexões, ou do recém mergulho no mar, e também da chegada à praia, da chegada para a caminhada ou para a corrida, da chegada para o café, para o chopp ou para a cerveja: os corpos estão sempre num fluxo contínuo entre o sol reluzente que seca as gotas da água salgada do mar e, ao mesmo tempo, produz as outras gotas salgadas do suor; entre os goles de água, água de coco, cerveja, chopp e caipirinhas e os beijos estalados; há uma entrada seca para o corpo, que se prepara um molhado (do mergulho no mar ou do suor do exercício), e que em seguida se seca para a saída do rizoma. O calçadão é também feito de gotas, e de processos de secura. No mês de abril de 2010 foram colocadas novas plataformas de barras de inox reluzentes, cuja finalidade é servir de apoio para a contração de músculos, e que também atendem à urgência da homossociabilidade: entre as 17 e as 22 horas de cada dia de sol, são sobretudo grupos de três, quatro, cinco e até seis homens descamisados, às vezes de calção e às vezes de sunga, que param nessas plataformas para observarem uns aos outros, e também para se fazerem observados, durante sua sequência performática de movimentos corpóreos. No jogo entre o seco e o molhado, tais plataformas se constituem em poças de suor dentro deste nomadismo do calçadão.

(... CONTINUA ...)

"Uma pessoa intelectualmente ruminante"

- Que tal um Jogo rápido? Te digo uma palavra e vamos fazendo associações.

- Não sou muito afeito a jogos rápidos, sou uma pessoa intelectualmente ruminante. Mas aceito, a título desafio.

- Azul...

- Azul calcinha, azul pastel. Nunca muito forte.

- Perda...

- Infância, fui uma criança perdida.

- Infância...

- Morte. Dando significação à perda estava a morte.

- Família...

- Moldura grossa e velha.

- Conteúdo...

- Tempo. Também poderia dizer “paciência”, mas prefiro tempo.

- E paciência?

- Só com conteúdo!

- Sexo...

- Exercício diário.

- Trepar todo o dia?

- Sim, todo o dia um pouquinho: através do olhar, da imaginação, das palavras, das imagens e do silêncio.

- Dinheiro...

- Descontrole.

- Álcool...

- Descontrole! (gargalhadas) Minha relação com o álcool é a mesma que tenho com o dinheiro. De destempero, de excesso, de uso e abuso. Ambos, se existem, não param na minha mão nem na minha boca.

- Beleza...

- (silêncio) Tempo e paciência.

- E conteúdo também?

- Não necessariamente. Só tempo e paciência pra poder sentí-la.

- Sentí-la?

- Sim. Não vejo muita beleza, eu mais sinto beleza.

- E sentes recentemente?

- Mais do que eu sentia no passado, menos do que sentirei amanhã - não é isso que dizem os romances de autoajuda? Ela cresce voluntariosamente, explode onde eu julgava árido.

- Em que pessoas?

- Não em pessoas, pelo menos não ultimamente. As pessoas têm se mostrado feias. Sinto beleza em sons e paisagens, menos em pessoas.

- Por quê?

- Porque sinto pessoas muito iguais umas às outras. Não sinto beleza na identidade.

Não é mais fácil lidar com um vibrador que com um homem “inteiro”?

- E há dor nessa experiência?

- Há dor em toda a experiência, inclusive nessa. Tenho me empenhado na tentativa de estilhaçar o corpo. Porque sei que ele não funciona mais como um estado geral, como uma gestalt. Não há mais as partes que, se somadas, excedem o todo. O que há agora são partes, e as partes dizem de si próprias. Ainda não conseguimos ir a fundo pra escavar as ligações, as bases, as condições e as verdades que contribuem pra essa repartição do corpo. Mas sabemos que estamos recortados, separados da nossa integralidade. Não que essa integralidade tenha existido em algum lugar do passado... Mas sugerimos que há algo de utilitarista na relação do corpo com suas partes separadas. Não é mais fácil lidar com um vibrador que com um homem “inteiro”? Não é mais fácil lidar com uma vagina de plástico que com uma mulher “total”? Esses são apenas alguns toscos exemplos de como é preferível reduzir e simplificar a aumentar e complexificar. Porque sabemos que a redução do corpo de “homem” ao pênis não é tão simples – um homem não se resume ao seu pênis; no entanto parece ser tudo aquilo que o define, e assim também funciona para a mulher. Mas é óbvio que não é só essa característica corpórea de nos define e nos fixa, até porque a definição e fixação do que é um pênis ou um clitóris não parece tão clara. Há outras definições que nos são importantes, há outras medidas que nos fixam, e que junto com o gênero vão nos fazendo ser quem somos. Se eu pudesse estender a mão e pegar em todos os homens que excitam, eu não estaria aqui te dando este entrevista. E eu não posso. O corpo vai se comunicando com outros corpos, e alguns deles são colocados como impossíveis dentro do possível – porque todo corpo que existe em sua materialidade é possível –, e daí se forma essa gosma pegajosa que se insinua pelo ventre e pelo peito. O suor também desempenha seu papel aglutinador nesses casos. E nós ficamos sem nenhuma “aderência” a esses status. Porque nosso corpo se comunica – troca informações, permuta e comuta – não pelo peito nem pelo abdome, mas pelo rosto e pelos olhos, ás vezes pelas pernas. Sempre pelos cabelos.

- E tem tido sucesso?

- Não (risos).

- Isso não te dói?

- Doía há um tempo atrás. Hoje parece mais uma condição. Porque quando fiz 25 muita coisa pareceu mudar nessa concretude que é meu corpo: pelos começaram a nascer no nariz – na sua superfície e dentro das narinas, se confundindo com a barba – pelos começaram a nascer nas orelhas. Quando fiz 26 minha barriga começou a exceder minhas calças. Com 27 eu quis morrer, e com 28 eu me sabia uma bosta. Com trinta vi alguma luz possível, mas com 33 nem a cruz me salvou. O tempo não cura, o tempo agrava. E vamos nos insinuando pra ele, com dor e com delícia, esperando um arrego: toma uma brochada na cara! Toma uma miopia! Uma calvície! Uma gordura, uma sinusite! Porque isso é o tempo correndo pelo corpo, mas também é a história marcando o corpo. Porque nosso corpo diz da nossa história. Está tudo gravado ali. Há uma delícia na superfície das minhas mãos que não sei bem como descrever... Talvez seja essa a experiência mais gratificante: a de me perceber envelhecendo e me saber melhor que quando mais novo. De sentir minhas mãos ásperas onde antes reinava a ingenuidade.

"Não nos importamos nenhum pouco em sermos confundidos com aqueles que nos atropelaram de tal maneira tão intensa"

- Eu não sabia que tua avó tinha sido alguém tão importante pra ti.

- Mas eu não disse que minha avó foi importante pra mim. Apenas sublinhei que quando eu era criança, por causa da chuva que caía, ficava temeroso que sua casa viesse a baixo. Havia, sim, uma certa compaixão pela fragilidade daquela senhora idosa. Mas nunca disse que ela foi importante pra mim.

- Então ela foi apenas uma metáfora de fragilidade?

- Pode ser que sim. Nosso pai, filho dela, também nos foi uma metáfora de fragilidade, mas a seu modo específico. Mas não queremos manter as nossas lembranças nessa polaridade entre profundeza e superficialidade, dividindo aqueles que foram de fato importantes daqueles que funcionaram apenas como metáforas para a experimentação e sedimentação de alguns sentimentos. Há na nossa história uma série de experiências com pessoas tão distintas que não podem ser classificadas em categorias separadas e hierárquicas; não podemos classificar hierarquicamente essas experiências nem essas pessoas. Mas de um modo geral fazemos uma distinção sutil entre elas, mais a título de precaução e de segurança do que propriamente de hierarquização: houve e haverá aquelas com as quais simpatizamos, com cujos corpos ou palavras nós flertamos, pessoas mais ou menos admiráveis e que se mantêm num estado de reserva discreta nas nossas lembranças. Houve e haverá outras, um pouco mais sagazes, que de fato nos conquistam: nos tomam num átimo ou lentamente, nos cativam em velocidades diferentes, em tempos diferentes, vão nos entendendo e nos analisando, dialogando conosco, eventualmente propondo cortes e mudanças naquilo que somos. As pessoas que nos conquistam introduzem essa força diferencial, esse processo de diferir, mas ainda assim não borram a fronteira entre o ‘eu’ e o ‘outro’. Mas aí houve e haverá aquelas pessoas que nos rasgam, que se jogam contra nós como cavalos se lançam contra uma falésia, ou mais que isso, como asteróides que colidem contra planetas; são pessoas que não pedem licença, que nos arrombam – às vezes no sentido literal da expressão – que se chocam contra aquilo que nós somos com uma violência tamanha, empurradas por forças que são às vezes as mesmas que nos fazem estar em sua rota de colisão, ou que às vezes nos fazem delas fugir, forças que nos fazem por elas transpassar e entrecuzar. Essas pessoas são aquelas que, de fato, nos constituem: a força do nosso encontro, violento ou não, faz com que nos amalgamemos, faz com que se imploda a diferença entre o que era ‘eu’ e o que era ‘o outro’, que por sedimentação, choque, rasgo, integração ou assimilação fazem com que os limites definidores do ‘eu’ sejam suspensos. E passamos, então, a fazer parte destas pessoas às vezes tanto quanto elas fazem parte nos nós, sem que uma distinção essencial entre o ‘eu’ e ‘o outro’ seja necessária – isso porque não nos importamos nenhum pouco em sermos confundidos com aqueles que nos atropelaram de tal maneira tão intensa.

- E por que essa distinção serviria como precaução ou por motivo de segurança?

- Porque é destas últimas que nossas lembranças serão pra sempre povoadas. Porque estas últimas serão, provavelmente, aquelas cujos nomes vamos sussurrar segundos antes da morte, pois de alguma forma elas estarão ali morrendo um pouco junto conosco. Porque essas últimas são aquelas que num intervalo mínimo de tempo, com o carro parado na sinaleira, esperando na fila do caixa do supermercado, mijando no banheiro, são elas que vão emergir das brechas do nosso ‘eu’ e então diremos: "lembrei dele" ou "lembrei dela".

- E isso é tão ruim para que tenhamos que nos proteger dessas pessoas?

- Não sei se é ruim, mas certamente é perigoso.

"Só a chuva faz isso por mim"

- Mas e a chuva? A chuva não era algo que te fazia bem? Pensei ter lido isso em algum artigo seu publicado numa dessas revistas menos criteriosas, de nível reflexivo mais rasteiro...

- (risos) Sim, é verdade. Publicamos muitas ideias nessas revistas mais baixas, que rastejam lá onde o lugar comum reina, ou pelo menos onde elas margeiam o trivial. Nunca nos incomodamos, nem eu, nem ela, nem eles, de pensar junto com o comum. É que pensar comum, pensar sem requintes, pensar linearmente nos dava a doce sensação de não ter te arcar com a responsabilidade dos rococós filosóficos que levam alguns a abraçar cavalos. Abraçando cavalos seremos notáveis? Abraçando cavalos seremos dignos de publicações mais elevadas, hosana nas alturas, dos l'enseignement supérieur? Sobre a chuva fizemos algumas reflexões, sempre muito secas – pra não perder o trocadilho –, nunca muito profundas. Nossa questão nunca foi a chuva em si, mas a água e a maneira como que ela se manifesta. Sempre detestamos água: mar, rio, chuveiro, cachoeira, lago, banheira, balde, ribeirão, torneira. Consideramos a água traiçoeira. Mas a chuva em especial era algo que experimentávamos com o fervor do romantismo. A chuva sempre nos aparecia com camisas molhadas, transparentes, grudadas ao corpo e com gravatas encharcadas, com cabelos encaracolados pingando água sobre a barba rala. Nunca experimentamos com a chuva qualquer tipo de privação: toque de recolher ou estado de emergência. Acredito que tu estejas te referindo a uma outra chuva, que não tem a ver com água nem com umidade, mas que é igualmente traiçoeira: chuva de críticas, chuva de desaprovação, chuva de incompetência, chuva de insuficiência, chuva de não. Bem... essa chuva nunca nos fez bem, mas sempre nos catapultou para um outro patamar na espiral. Com uns ferimentos no ego aqui e ali, mas nunca nos acomodamos, nunca permanecemos inertes com essa chuva. Porque desde sempre essa chuva de incompetência nos desabrigou, nos soterrou, nos desalojou. Nunca voltamos pro mesmo ponto onde habitávamos depois que ela passou por nós. E, de fato, mesmo não sendo úmida, ela nos afogou muitas vezes. Mas acredito que lá nesse artigo que tu leste, nessa revista menos criteriosa, margeamos um pouco a ideia de que o que subjaz na nossa existência enquanto autores e autoras que somos é desde sempre uma profunda inconformidade com o que já está e um sincero desejo de multiplicar o que virá. Nenhuma novidade até aí. Mas é que me lembrei de quando eu era criança, de quando caíam tempestades tremendas lá na cidade onde nasci, eu ficava ansioso olhando pelo vidro da porta dos fundos e velando a casa onde morava minha avó. Porque era uma casa de madeira que ficava no terreno contíguo ao nosso, e lembrei que de lá onde eu zelava pela casa da minha avó eu pedia pra que a chuva não derrubasse a casa onde ela morava. Supunha a chuva forte e a casa da minha avó, frágil. Porque já desde essa época nós sabíamos que a chuva, qualquer que seja, nunca deixa as coisas onde se encontram, nenhum macaco permanecia em seu galho, nenhum morro mantinha-se intacto, nenhuma vida era poupada. E com chuva também eu me dei por conta de que esse ou aquele não poderia mais seguir sendo meu companheiro; assim como eu tinha sabido, não sem dor, que a chuva tinha a potência de arrastar a casa da minha avó, eu também sabia que quando eu chorasse – que quando eu chovesse – por causa de algum deles, quaisquer deles estavam fadados a soterrarem-se em mim, a desalojarem-se. Se havia chuva em mim, havia desabrigo – de algum deles talvez, mas certamente de mim mesmo. Minha concepção de masculinidade inclui, isso se já não supõe desde sua matriz, uma certa feiúra. Aqueles homens que não se tornam feios ao longo do tempo não têm condições de permanecerem ao meu lado sem que sejam deslizados do alto de seus morros. Minha concepção de corpo pede, isso se já não exige como pré-requisito, uma certa dimensão de fragilidade. Aqueles homens que nunca adoecem ou que jamais se machucam estão fadados a serem abandonados como carros enguiçados pela lama em ruas inundadas. Só a chuva faz isso por mim: me cinde, me incorforma e termina, mais tempo ou menos tempo, por me multiplicar. Talvez nessa revista menos criteriosa esteja publicada essa simples confissão.

"Um teatro de fantoches"

- (silêncio) E tu ou vocês não se sentem acuados como cães frágeis? Se aqui não adianta latir, se aqui há de morder além de latir, como tu ou vocês fazem pra lidar com a perda e com a omissão?

- Não nos concebemos exatamente como cães frágeis. Frágeis sim, mas talvez não como cães. Há uma humanidade mais refinada em mim. É dessa humanidade mais refinada que vem o latido, o ranger de dentes e a mordida. Mas também ela não se reduz a isso. Porque o latido, o ranger de dentes e a mordida estão diretamente ligados à proteção: fazemos sofrer para nos defender. O sofrimento é uma boa blindagem. Mas por mais refinada que seja essa humanidade protetiva, de vocação defensiva, que tem a capacidade de refletir sobre seu sofrimento e infligi-lo ao outro como modo de defesa, por mais que ela seja um pouco mais rebuscada, ela ainda não dá conta de explicar outras realidades ligadas, como tu bem colocas, à perda e à omissão. Das duas, na minha opinião, a mais grave é a omissão. Entretanto, deixaremos claro que omissão não é simplesmente a ocultação da verdade. Também pode ser isso, mas essa é a faceta rude e áspera da omissão. Acusar o outro de faltar com a verdade, de esconder a verdade, de ocultar a verdade por detrás de cortinas grossas que invariavelmente se ligam à mentira, tudo isso é de significado pertinente, porém rasteiro. Tampouco a omissão da qual falo aqui mantém laços estreitos com a falsidade; alguém omisso pode ser falso, mas também pode não ser. Alguém omisso pode ser frágil. Consideramos a omissão mais grave que a perda porque sentimos na omissão uma profunda cumplicidade com o medo, com o desespero, com a sombra. O não-dito é tão interessante quanto o prolixo. E voltamos novamente ao assunto do medo! (risos). É bem verdade quando tu dizes: “vais continuar nesse relacionamento moribundo? Porque ele está morrendo!”. Com que eficiência fomos capazes de criar um labirinto móvel de sinceridades, meias-verdades e omissões... De todo modo, estamos aí dentro. Eu me importaria menos com os desejos da carne saciados de modo canino, típico animal do cio, se eles fossem tratados como tal desde a gênese disso que erigimos para nós. Se eu apostaria ou não numa relação como essa, aí a questão é de outra ordem. Eu não me importaria em agir como uma cadela e ser tratado como uma. O que detesto é agir como eu mesmo e ser tratado como um cão frágil. Porque, como já mencionei, não sou um cão. Talvez cadela, talvez cadela frágil, talvez cadela frágil no cio, mas não um cão. O que realmente me apavora é ver o tempo suceder, incrustando com suas goivas afiadas sulcos na pele ao redor dos meus olhos, ver o fluxo do tempo confundir o espaço e borrá-lo como aquarela, ver o próprio espaço revigorando-se e tornando-se mais robusto, mais transparente e também mais sólido... E eu parado aqui pensando ser eu quando na verdade ele me pensa e me sente como um cão frágil. Quando dizemos que não adianta latir, há de morder, dizemos isso pra ele: latir em sua direção, mordê-lo! Com que assombro às vezes me pego repassando diversas cenas pelas quais passamos juntos e só então conseguindo ler na entrelinha de um olhar, de uma contração dos lábios, um sentimento denso e profundo de total cumplicidade que não está direcionado para mim. Com que desespero reconstituo frases, com seus substantivos robustos, e interpreto um texto que não foi escrito para mim nem por mim, cuja plateia ocupa apenas uma poltrona, cujas palmas ecoam vindas do passado – do passado dele, e não do meu. Ah, dou-me conta: é um teatro de fantoches.

"Sempre há lugar pra algum tipo de rancor pra quem tem uma boa memória"

- E ainda há algum tipo de rancor?

- Sempre há lugar pra algum tipo de rancor pra quem tem uma boa memória. Mas pensamos que não seja esse o assunto que devemos tratar com essa pergunta. Somos, eu e eles, eu e elas, surpreendidos com novas notícias de edições passadas do seu jornal. Nos surpreende, devemos admitir, que tu estejas aí parado na nossa frente fazendo as perguntas que fazes depois de tudo que viveste. Nós não sobreviveríamos depois de ter experimentado tanto luxo para em seguida cair na maloca do esquecimento e da autoajuda. Porque nesses casos a autoajuda de fato ajuda. Demorou, não é? Pra nós demoraria mais. Ficamos surpreendidos por não existir mais rancor, mais mágoa, mais desencantamento da tua parte. Por que nos lança essa pergunta? Tentas achar em nós uma resposta pra tua dor? De qualquer forma, podemos dizer que sim, existe rancor e mágoa. Mas fazemos deles trampolins para o sucesso. E tu, foste de onde pra onde depois do rancor? Veja que estamos te pondo contra a parede. É chegada a hora dos entrevistados quererem saber mais do entrevistador. Porque há rastros no teu olhar, momentos de deslizamento e de escorregões, em que percebemos claramente que te prendes de corpo & alma a tudo isso do qual hoje falas com boca cheia, cheia de detalhes e de sutilezas, com um certo galanteio, fazendo-se gabar de estar estado lá, de ter dormido lá, de ter sido a governanta da casa. Te perguntamos: há algum tipo de rancor? Porque se não há, deveria haver! Pela tua saúde! É impossível que não haja um sabor grotesco, bitter, ao se ver substituído. Porque os substitutos fizeram bem o teu papel, e até melhor! Não há rancor criando rugas no teu pescoço, ou mágoas se acumulando em torno do teu umbigo, um pouco acima das tuas cristas ilíacas? O corpo é o cartório da mágoa. Veja teus pares: pra onde foram? Qualquer lugar que chegaram, chegaram juntos. E vocês chegaram separados. Não há rancor em estar assim, jogado ao mundo, chegando à velhice sem ter por quem chamar? É triste teu futuro, sem ter uma campainha para apertar nem uma lágrima para ser secada. Vais segurar na mão de quem quando o desespero da carne arruinar o viço das tuas pernas? Porque ele tem toda segurança, e tu não tens ninguém. Vais morrer num corredor, sem parentes. E teu corpo sequer será enterrado: será usado como caderno de rascunhos por estudantes de medicina. Ele terá uma lápide, uma urna funerária, e tu terás um tanque de formol. Isso não causa mágoa? Ele deleita-se com o sol perto da água, e tu tens que contar as moedas para uma sunga? Não há mágoa na pobreza depois de ter experimentado o luxo?, volto a perguntar. O que ainda queres preservando isso tudo? O que te garante as lembranças de um tempo tão doce? Responda às perguntas somente se te convier. Afinal de contas, somos nós os entrevistados.

- (silêncio). As lembranças se devem ao cuidado que ele teve comigo.

- E vai ser ele a trocar tuas fraldas quando estiveres no hospital? O passado só te garante um futuro solitário. Não há admiração, querido. Não há carinho, nem respeito. Há somente pena, compaixão. (silêncio). Muita compaixão, a julgar pelo teu olhar baixo. (silêncio). Jamais vamos nos acostumar com tua pequenez.

"Somos eficientes em produzir péssimas realidades para nossos relacionamentos"

- Sem chance de ter mais vida nessa relação?

- Com chances, com muitas chances. Não é disso que somos feitos? De chances, de possibilidades, de bifurcações em potencial? Frequentemente vejo homens sentados em bancos do parque, à espreita de um corpo que se movimente entre as árvores de modo suspeito e sugestivo. Também vejo homens caminhando sem camisa já quando o sol não brilha mais, e ainda sim há uma certa luz do cair do dia iluminando a cidade. É um horário estratégico, muito mais estratégico que o breu da madrugada. Nada disso tem mais efeito do que o olhar que eles lançam. Há algo ali, naqueles olhares, não exatamente o sinal de uma busca e de uma procura, mas algo mais positivo, algo que produz. Um olhar que produz situações. Não tem nada dessa história de quebra-cabeças, da minha peça em que falta uma parte e da tua peça que tem outra parte de sobra e ambas se encaixam perfeitamente, não metade da laranja nem tampa de panela. Não há um olhar que busca e outro que é buscado. Não há algo em mim que penetre num espaço vazio do outro. Não há encaixe harmonioso que forme uma peça perfeita. Há uma produção lá onde eu atuo, onde meu olhar desliza. Lá naquele corpo, vários desejos – que pode ser meu desejo, ou desejo do outro sobre mim. Lá naquela boca, várias palavras – que podem fazer sentido pra mim ou sequer me afetarem. Lá naquela história, várias lembranças. E nisso não há quebra-cabeças, volto a insistir nisso. Porque na ideia de quebra-cabeças sempre subsiste a noção de incompletude, de falta, de negação. De algo que me faz incompleto, de algo que o outro tem e que me preenche lá onde antes eu era vazio, lá onde antes era o nó da minha depressão. Na história dele ou dela, não há situações ou lembranças que me preenchem, que se encaixam no meu quebra-cabeças onde antes havia um vazio. Não me aproprio da história dele ou dela para fazer disso a minha própria história ou, pior ainda, a história de nós dois. Acontece que a minha história com a sua história – o meu corpo com seu corpo, minhas palavras com as tuas – se encontram e se multiplicam: produzem algo novo, inesperado, produzem uma realidade na qual acreditamos ser, abre aspas, o nosso relacionamento, fecha aspas. Quando um relacionamento chega ao fim é porque sua potencial capacidade de multiplicar realidades também acabou. Mas esse é o jeito menos comum de uma relação terminar. A maneira mais usual, que mais vemos acontecer por aí, é quando a potencial capacidade de um relacionamento multiplicar realidades se transforma numa fábrica incansável de sofrimento, de cobranças, de medos e de fantasmas. Continua multiplicando, continua bifurcando, espumando, pressurizando, borbulhando, fervendo: de raiva, de insegurança, de ciúmes, de rancor e de mágoas. Somos eficientes em produzir péssimas realidades para nossos relacionamentos.

"suicidamo-nos quando damos uma opinião e assinamos abaixo"

- Há algo mais que tu ou que vocês gostariam de falar sobre o medo?

- Poderíamos fazer teses sobre o medo. Na verdade, há um livro que chama A história do medo no Ocidente, que é uma referência. Mas de um modo bem geral, geral mesmo, sendo até mesquinhos em reduzir o assunto a esse espectro, podemos que dizer que o medo é esse vácuo escuro que trepida nos nossos interstícios. O medo, os medos, é uma eletricidade que produz tensão. Ou não: pode ser um gelo seco, o silêncio da mente. É inútil tentar achar uma identidade para o medo, justamente porque é próprio do medo não poder ser reconhecido em uma definição só. (silêncio). Sinto medo ao pensar que alguém pode ler isto tudo que estou falando pra ti agora, e sinto mais medo ainda ao pensar que isso tudo não interessa a ninguém (risos). Medo é isso: tentar achar uma saída e continuar preso no mesmo lugar. Sentimos medo da separação, da exclusão, do ciúme, da inveja, da morte: morremos quando damos uma opinião; suicidamo-nos quando damos uma opinião e assinamos abaixo. Tu me deixarias se tu pudesses? Claro que sim, e claro que não! Nós valemos a pena! (gargalhadas). Não há como prever o fim de nós dois. A imprevisibilidade, a impossibilidade de controlar o futuro, é a maloca do medo.

"E eu não senti nada"

- Tu achas que vais conseguir lidar com o fim desse relacionamento de maneira fria?

- Talvez sim. Houve um tempo em que trabalhei como bombeiro. E no período em que trabalhei como bombeiro, houve uma enchente bastante grande pelas cidades do interior. Numa dessas cidades, o rio que cortava o município transbordou cerca de quinze metros. Foi realmente horrível. As águas eram turvas, cor marrom, como esses achocolatados que são vendidos nos supermercados. Tivemos que resgatar as pessoas ilhadas, presas em suas casas. Uma comunidade ribeirinha foi quase que totalmente apagada do mapa: cerca de vinte pessoas morreram nesta enchente. E tivemos que resgatar os corpos já sem vida de pessoas afogadas. Resgatamos quase todos os cadáveres em menos de quarenta e oito horas depois de as buscas começarem. Mas só faltou um corpo, de um homem de quarenta e dois anos. Não conseguíamos encontrar seu corpo em nenhum lugar. Levamos cinco dias para encontrá-lo, e à medida que as horas passavam eu ficava mais e mais nervoso, atordoado com o fato de que o corpo estava na água, na água marrom e turva, e que seu processo de decomposição se acelerava em progressão geométrica a cada instante. Cada água não revirada, cada árvore não observada, cada busca mal sucedida era um peso a mais nos meus ombros, porque depois das chuvas intensas o sol brilhou com força e veio um calor insuportável, úmido. Eu tinha medo de encontrar aquele corpo, e era o único que nos faltava (silêncio). Até que o encontramos. Avançadíssimo seu estado de apodrecimento, irreconhecível até para o legista. E eu não senti nada. Não havia mais nada ali, só um monte de vermes uns sobre os outros. Só pude identificar os olhos esbugalhados entre as carnes em decomposição. A expressão dos olhos dos cadáveres é o que de mais aterrador e definitivo eles podem nos legar sobre a vida após a morte: um túnel no vácuo. Toda essa história para dizer que nossa relação, depois de seu fim, terá tanta expressão quanto a dos olhos do cadáver que resgatei naquela enchente.

"Um movimento constante que tangencia o rígido e o fixo, desmontando-os"

- Então é por isso que ainda estão juntos? Porque me parece que há mais rotas de colisão entre vocês, um com o outro e com vocês próprios, do que propriamente caminhos a serem seguidos em conjunto.

- Mas as rotas de colisão também são maneiras de seguir em conjunto.

- E até quando, até onde vai esse caminho em conjunto? O quanto se aguenta, o quanto se sustenta uma relação sempre em erosão?

- Não sei, nunca sabemos. Não me interessa saber até quando vamos ficar juntos, não quero datas nem horários. Saber o dia da morte significa já ir se deitando no caixão. Mas sem dúvida não vai muito além da nossa paciência. E nossa paciência não suporta muita erosão: um fluxo contínuo que corrói paredes em blocos. Um movimento constante que tangencia o rígido e o fixo, desmontando-os. Fazemos isso um com o outro, erodimos certas partes de nós. E isso não é exatamente ruim; ruim é o fato de usarmos esses pedaços de rigidez, esses blocos de fixidez que desmontam de nós próprios para, então, arremessá-los um contra o outro. Fazemos isso o tempo inteiro, nas mínimas situações: ao usar adoçante no suco de uva e no cafezinho para não engordar; ao usar uma regata mais justa para espremer os músculos; ao colocar a campainha do celular no último volume para que um saiba bem quando o aparelho do outro recebe uma ligação ou uma mensagem. Provocamo-nos mutuamente, de um modo um pouco inconsequente, como se nossa paciência resistisse à erosão que nos submetemos. E ela não resiste, não irá resistir. Ela já dá sinais de fratura, de cansaço.

- Podes sugerir um fim? Se pacífico ou litigioso?

- (silêncio) Se pacífico ou litigioso, será um fim absolutamente necessário. Queremos dizer com isso que o momento em que terminar, essa relação terminará sem que reste uma só gota em sua ebulição. Conhecendo-nos como nos conhecemos, vamos até as últimas consequências, até as raias, até o elástico romper, até nos exaurirmos um com as coisas tolas do outro. Exaustos, só depois de um certo tempo é que vamos nos dar por conta de que o fim chegou e que não resta mais nada. E aí seguiremos em frente, ou pra trás, como se jamais tivéssemos nos encontrado. É por isso que achamos que não será um fim pacífico, tampouco um fim litigioso. Será um fim em si mesmo, um fim que apagará qualquer vontade de continuar as rotas de colisão e as erosões. Seremos inteiramente prescindíveis um para outro depois do fim. Tornaremo-nos, enfim, estranhos e ilustres desconhecidos na história de vida um do outro. Sem mágoas nem rancores, nem vinganças calculadas de maneira fria.

"É uma forma de fazer nós em fios muito retilíneos"

- Mas vocês estão solteiros, namorando, casados? Houve a consumação do matrimônio? Ou o mundo está diante de mais uma, abre aspas, amizade colorida, fecha aspas?

- Não, nunca houve nenhuma consumação em minha vida (risos). Atribuir nomes e status àquilo que emerge e que constitui as relações entre as pessoas, sobretudo delas com elas próprias, é sempre uma inglória. É sempre uma mesquinhez, uma pequena vileza que cometemos: dar um substantivo é fechar uma série de portas, desacelerar as turbinas, cobrir com verniz uma superfície porosa que poderia conectar-se com tantas outras... Mas vá lá, vamos usar uma palavra que defina isso que temos entre nós, mas que também deslize o suficiente a ponto de permitir apenas o mínimo possível de rigidez. O que nós temos, em relação a nós próprios e em relação a nós dois, em relação ao mundo, é exatamente isso: relações. Múltiplas, infindáveis, mutantes, amorfas, disformes, polivalentes, ambíguas, duvidosas, perigosas, secretas, silenciosas relações. Ache os adjetivos que quiser para abrilhantar o substantivo. O que temos hoje não é nada de concreto, não é nenhum tipo de alicerce. É puro gás circulando, ora mais denso e perfumado, ora mais rarefeito e putrefato. Antes eu dizia que era ele quem precisava de mais matéria, de mais solidez e de mais definições do que eu para poder lidar com isso tudo que estamos vivendo. Obviamente esta foi mais uma das minhas perversas artimanhas em jogar a responsabilidade da insegurança no outro, de modo a afastar de mim qualquer dúvida sobre meu volume subjetivo. Sou eu que preciso do peso das memórias, sou eu quem investiga seu passado e o reconstitui à minha imagem e semelhança, impondo-lhe verdades ainda insuspeitas e sentimentos supostamente nunca sentidos mas ali latentes em sua alma. Eu digo que eu sei, que está claro para mim, que se ele ainda não se apercebeu da paixão recolhida que o consome é porque lhe falta maturidade para enxergar e para sentir. Eu crio culpas e decalco-as de mim, grudo-as nas paredes dele e rio disso. Atribuo sensações e desejos, atribuo vontades aos rodopios de seu olhos. Que caminhos no breu o conduziram até aquele brilho no olhar refletido no corpo seco de gorduras, no sorriso branco, no rosto quadrado, no peito musculoso, no braço rijo... Que faz ele comigo, então; que relação móvel ele estabelece com alguém que em nada se associa àquilo que ele viveu, com alguém que não entende sua história nem tudo e todos que dão sentido a essa história, com alguém cujas direções dos caminhos são tão obtusas quanto são estreitas suas passagens, cujo corpo é tão amorfo e disforme quanto a própria relação construída entre ambos? Eu sigo impondo minhas verdades a essa relação e vou constituindo um núcleo duro e sedimentado de emoções nunca experimentadas – nem por mim, nem por ele. Em outras palavras, é uma forma de fazer nós em fios muito retilíneos (risos). (Silêncio) Sentimos muita vergonha às vezes (silêncio). Sentimos muita raiva dessas incompatibilidades todas, desses desencontros em choque, elétricos, explosivos (silêncio). Sentimos tristeza e desolação pelo nosso estado de exílio, abre aspas, estrangeiros um na vida e no corpo do outro, fecha aspas. Soa como sendo uma relação trágica, mas é bastante gostosa quando gargalhamos um do outro, dessas cenas dramáticas e das reações exageradas que temos (risos).

Continuação da entrevista V - "De medo estou e estamos borbulhantes"

- Será algum medo da responsabilidade de articular estas palavras e ideias, além de publicá-las?

- (silêncio)... Medo e responsabilidade, que delícia de temas! O que seria do medo se não houvesse a responsabilidade, não é mesmo? Acho ou achamos que, de fato, uma das questões principais dessa problemática acerca do autor ou dos autores destes textos todos aqui publicados gira em torno exatamente do princípio de responsabilidade. Atribuir palavras, e palavras são atributos das ideias, atribuir palavras e ideias a um autor específico entre tantos que por aí criam outras coisas além de textos – há quem crie cores nunca antes vistas, há quem crie novas formas de extrair esperma dos testículos de um homem, enfim, nenhuma dessas pessoas é considerada um autor, com letras maiúsculas – essa atribuição só se faz necessária quando tais palavras e tais ideias rompem com algo previamente dado. Aí se torna importante atribuir um texto a um autor. Porque daí se produz a responsabilidade, e o princípio de responsabilidade tem a ver com o rompimento de algo que não se supunha passível de ser rompido. Não é o fato de ser “um autor original”, mas de ser alguém capaz de arcar com essa responsabilidade, de responder afirmativamente no meio de uma multidão e quando questionado: “sim, fui eu quem escreveu” ou “sim, fui eu quem pensou”. Eu não faço ou nós não fazemos nada disso: não rompo nem rompemos com coisa alguma. Mas isso não basta para justificar esse mistério acerca do autor ou dos autores dos textos aqui publicados. O princípio de responsabilidade só existe com o objetivo de recortar isso que chamamos de autor de uma massa amorfa e insípida para, então, expô-lo à visibilidade. O princípio de responsabilidade é também um regime de visibilidade no qual inscrevemos o autor ou os autores: para controlá-los, para saber deles, para conhecê-los, explorar-lhes os meandros da mente, as maneiras com que associam ideias, os modos com que sua subjetividade foi construída ao longo de sua história de vida, as razões que o lveram a morrer da forma com que morreu, se morreu. E em nome desse regime de visibilidade reviramos a biografia daqueles que elegemos como sendo autores em busca das esquinas que essas pessoas precisaram dobrar, em busca dos traumas de infância pelos quais passaram, na tentativa de reconstruir – seja através de filmes, de músicas, de fotografias ou mesmo através de outros textos – os momentos seminais que fizeram do autor isto que conhecemos, e não uma outra coisa. Queremos beber desta vida e apertar a mão daqueles que foram seus mestres. Entendes a crueldade? Eu não quero nem nós queremos dar o rosto à vista, ou dar a assinatura à pena, sequer as impressões digitais à tinta, porque não quero nem queremos ver nossas vidas revisadas por qualquer outro que seja. Porque da minha vida só sei eu, e da nossa história só escrevemos nós. E se outros as quiserem contar, que esteja claro que estas vidas recontadas são biografias absolutamente irrelevantes, produções editadas de um material que não é passível de representação – porque, como já sabemos, por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz. Com isso não quero dizer “minha vida é apenas minha”, nem “nossa história é somente nossa”, porque não há vida que tenha um único dono ou uma mesma dona; com isso sugiro que não há vida que legitime nem subjetividade que responsabilize suficientemente alguém por dizer o que diz ou por escrever o que escreve. Não é perscrutando a biocronologia de uma pessoa que vamos achar as causas, as justificativas, os porquês ou as motivações veladas de se pensar o que se pensa. Se eu não assumo um rosto aqui é porque há abutres querendo comer a carcaça do ventríloquo que aqui fala através deste teclado; se nós não assinamos estes textos com nome e sobrenome é porque não faltarão pessoas a nos cobrar recalques, depressões, desejos sexuais perversos de onde supostamente emanam as razões de escrever isto que está publicado aqui há mais de um ano. Não tenho e não temos por que matar esse limbo feliz de uma não-identidade em nome de um princípio de responsabilidade, muito menos sob a insígnia de um regime de visibilidade. Por outro lado, quanto ao medo... (silêncio)... Sinto e sentimos, de fato, muito medo. Se há algo que posso ou que possamos dizer que me ou que nos caracteriza, isso seria o medo. Porque há muito que posso perder e há muito que possamos sofrer com rostos, com assinaturas, com impressões digitais. Assumir um nome, ou vários nomes, seria endossar nosso assujeitamento ou complacência sobre certas posições das quais não me orgulho, nem nos orgulhamos. Sou e somos indulgentes com muitos de quem amamos, e expor essa veia aberta nesse regime de visibilidade me traz e nos trazem problemas éticos gravíssimos. Não posso contar a vida de terceiros aqui simplesmente usando-os como motivo de chacota ou de deboche e também não podemos descrever cenas que muitos considerariam íntimas para censurar-lhes as fraquezas. Não é só pelo fato de eu ou nós considerarmos que a definição de privacidade é fazer cocô de portas fechadas que fará disto um conceito para todos. Há quem não se importe em ver aqui publicada sua história de como foi cagar em um banheiro público sem portas, e esse mesmo alguém pode se sentir prostrado em ver sua depressão, sua insegurança e sua infelicidade contada aos detalhes, às minúcias ricas em ironia, para quem quer ler. De medo estou e estamos borbulhantes.

- Há algo mais que tu ou que vocês gostariam de falar sobre o medo?

Continuação da entrevista IV

- Mas o autor não é capaz de criar? Nós não somos capazes de originalidades?

- E quem de mim ou quem de nós disse em algum momento que somente autores criam? Salvemo-nos da obrigação de criar, salvemo-nos da ditadura da originalidade, por favor. Mais: criação nunca foi sinônimo de originalidade. Criar algo não significa que esse algo criado é absolutamente novo, inédito, inaugural. Pense: o que em ti é inédito? O que te faz pensar que tu és a autora da tua existência? Passamos boa parte das nossas vidas respondendo às demandas que nos são oferecidas – veja, usei ou usamos a expressão ‘oferecidas’ e não ‘impostas’, como gostariam alguns intelectuais. Se a sociedade pede, respondemos afirmativamente buscando novos corpos, novas profissões, novas especializações, novas terapias pro ego, novos silicones pras nossas caídas e despeitadas subjetividades (risos). Então, quando dizemos ‘a sociedade pede’, ‘a sociedade demanda’, ‘a sociedade impõe’, quando dizemos estas coisas todas estamos também nos colocando no lugar de quem pede, demanda e impõe. Todos nós estamos no mesmo barco, cujo nome é ‘sociedade’. Há mesmo algo de novo pairando no ar? Há de fato algum novo espectro rondando a Europa? Há realmente algo de podre no reino da Dinamarca? Nem Marx nem Shakespeare foram autores absolutamente originais. Apenas equalizaram a polifonia de suas épocas, meteram em megafones vozes que antes eram murmúrios. Eles pinçaram burburinhos sem nome, capturaram os sussurros impotentes e lhes deram filiação, endossaram suas verdades através do ajuste que fizeram com as regras do então jogo, compactuaram com as leis do enunciável de suas épocas e vociferaram ideias que não são necessariamente só suas, mas que são toda a expressão de um tempo, de uma geração. Marx e Shakespeare hipertrofiaram palavras magras e, de brinde, assinaram-nas com seus nomes, documentos nominais com suas assinaturas, isso que hoje chamamos com muita pompa e circunstância de ‘suas obras’, converteram-se em ‘autores’. Aquilo que cintila e que ecoa, tudo aquilo de visível e de dizível que cada época tem, isso tudo não é da ordem da originalidade: isso tudo é da ordem do assujeitamento, pois aqueles que se assujeitam às regras do poder dizer e do poder fazer ver é que, de fato, nos aparecem como autores – e na maioria das vezes ainda ganham o glorioso adjetivo de ‘originais’. Falam para nós - e quase sempre falam de nós, falam coisas que supostamente deveríamos saber sobre nós - de modo claro e nos fazem ver coisas que antes julgávamos inexistentes. Oh, exclamamos nós, que pessoa original! Interessantes mesmo são aqueles que gritam em vez de nos falar, são aquelas luzes que nos cegam em vez de nos iluminar. Interessantes são aqueles que derivam, que incomodam, os inclassificáveis. Van Gogh não vendeu um quadro sequer até morrer porque suas pinturas eram desprezadas. Mas o bárbaro de Van Gogh não é sua assinatura; a originalidade de Van Gogh, pra usar uma expressão que talvez te faça entender melhor meu argumento, estava no fato de ser solenemente ignorado pelas regras de sua época. Sua técnica de pintura e seus temas eram profundamente desprezados; eis seu magnetismo.

- Ótimo, muito bom. Tu te considera ou vocês se consideram autores, ou autores originais?

- Não. Eu não me considero, nem nós. Não assinamos nada, não doamos nossas impressões digitais, não temos caligrafia, nem rosto para uma foto três por quatro. Não há nada em mim, nem nada em nós, que me faça ou que nos faça arcar com a responsabilidade disso que está sendo falado aqui.

- Será algum medo da responsabilidade de articular estas palavras e ideias, além de publicá-las?

- (silêncio)...

Quando ninguém mais nos ama

Te aceito com tudo que vem contigo: tua história, tua proveniência, tua trajetória, tuas certezas e também com os parasitas da acne que perfuram teu nariz. Aceito de bom grado tudo o que te fez chegar até mim deste jeito, e não de outro. Ignoro os erros, o sêmen desperdiçado, as horas de sono que avançaram sobre as aulas da faculdade – ondas que apagam o rosto desenhado na areia. Desvio das tuas dores e das doenças que maltrataram teu corpo, que foram laceando o couro sobre o qual eu hoje me deito, e empurro mais para o lado, suavemente, o viço opaco da tua pele saudosa de juventude. A história de cada um tem essa beleza, a de corroer cada dia mais a arrogância do nascimento. Suspendo por um instante os amantes que te fizeram amar como hoje tu amas, e todas suas músicas e murmúrios lânguidos, sonolentos, suas promessas pretensiosas de paixões eternas que, ria-te se fores capaz, provaram ser cópias farsantes de um romantismo vil unicamente pelo fato de tu estares aqui hoje desejando meu corpo. Meu corpo não te promete, não contrai dívidas contigo; não jura nenhuma verdade, nem entrega amiúde relatório da sua viagem. Meu corpo recebe tua história sem pompa, sem recepção solene, e se insinua pelos teus cantos, esguio, balbuciando palavras frias das quais só se escuta o eco reverberando lá dentro de ti (vazio, apesar da proveniência altiva): “ninguém mais nos ama”.

Cartas a uma jovem bicha que deu certo - saudades portuguesas

Oi, minha amiga!

Desculpe a demora em te responder.

Olha só:

- dê o cu em Portugal. Por favor, Beibe, deixa de ser boba e libere o buts. Não vem me dizer que “ai, dói”, ou “os paus que tem por aqui são muito grandes” ou “estou plenamente satisfeita dando minha buceta”. Para com isso. A questão é tu deixar de achar que o cu é igual à merda, ou deixar de achar que merda é sempre ruim, e soltar essa louca anal que há em ti (que há em todos nós, na verdade). O problema é tu achar que é um problema cagar fora de casa, ou com gente por perto escutando os sons, os ruídos, os cheiros. Isso é corpo, e corpo tem cheiro ruim, tem sons e ruídos, o corpo é de última. Dar o cu é aceitar o corpo, a merda e o prazer que ele tem a nos dar. E passar um belo de um cheque é ter de encarar a dor e a delícia de ter um corpo, de viver num corpo. Tu até podes fazer a chuca pra não passar o cheque (não sei como fica essa história da chuca aí em Portugal, já que o chuveirinho que nós usamos aqui no Brasil pra lavar o reto eles aí usam pra lavar a cabeça – vá entender), mas saiba que passar o cheque FAZ PARTE DO PROCESSO DE ENTREGA E DE EXPERIÊNCIA DO CORPO. Não dá pra ser bonita sempre. Seja feia alguma vez, mas se dê de presente um orgasmo anal.

- desejo do fundo do meu coração (que é raso) que tu voltes daí carregando uma pedra em cima do nome do Bófi. Deu, acabou, terminou, passamos pra outra fase do videogame. Aí na Europa tu podes perceber que há outros homens no mundo, outros homens bonitos, outros homens inteligentes, outros homens de outras cores, e tu é apenas e tão-somente mais uma mulher no mundo. Não adianta usar isso pra justificar “ah, mas o Bófi é tudo, mas com o Bófi eu tive um relacionamento de verdade, mas ele é tão culto, com ele eu podia ir ao cinema e conversar sobre o filme logo depois” só porque outros caras não conseguem ser do mesmo jeito que ele é. Não dá pra continuar procurando o Bófi nos outros. Será que não é tu que insiste em dar valor somente a algumas características e esquece que as pessoas têm várias qualidades? Detestei ver o Bófi no aeroporto aquele dia, mas entendo perfeitamente os motivos que o levaram até lá e também entendo o fato de tu ter gostado de vê-lo por lá. Só que não consigo concordar com isso, não gosto dessa pseudo-relação que vocês mantêm, acho que faz mal pra vocês dois – e pros terceiros e terceiras que existem entre vocês. Vai viver outras coisas e deixa que ele viva outras coisas também. Vocês já aprenderam o suficiente um com o outro, não há mais porquê vocês ocuparem as moitas e não darem lugar pra outras pessoas passarem nas vidas um do outro.

- trabalhe. Trabalhe de graça, trabalhe com sub-remuneração, tenha (mais uma vez na vida) a experiência de dar tudo o que tu podes dar e ganhar bem pouco em troca. Mais ou menos aquilo que tu viveste no X ou no Y. Não quero que tu fique pra sempre trabalhando que nem uma camela e ganhando pouco, mas acho que quando a gente sente na pele a injustiça que é o trabalho, a injustiça que é a profissão, o desgosto que é ter de arcar com a responsabilidade de produzir alguma coisa pros outros e praticamente não ser recompensada nem ser reconhecida por isso, a gente quase sempre se torna mais humilde. Eu mudei muito minha relação com meus pais (e até sobre tudo o que penso sobre minha irmã) depois que eu comecei a trabalhar sério no Z e na faculdade por causa da bolsa. Mudei minha relação com meus amigos. Mudei a maneira com que eu valorizo as pessoas que eu passei a conhecer na minha trajetória. Não acho que “o trabalho dignifica o homem”, mas acho que o trabalho dá um outro sentido pra nós, muda o jeito com que a gente lida com o dinheiro, com nossos valores e nossos princípios. Sabe por que eu te escrevo isso? Porque quando a gente sentar na Redenção ano que vem, depois de eu ter voltado do Rio e tu de Portugal, eu não quero te ouvir falar só dos homens tu pegou durante a semana. Quero te ouvir falar também sobre eles, sem dúvida, mas não quero ouvir só isso, como se beijar e trepar fossem os acontecimentos máximos da tua vida. Tu tem potencial pra muito mais que isso, pra trabalhar e pra estudar, pra viver outras coisas além dos prazeres da conquista. A gente deixou de ser adolescente já faz um tempão, tu não precisa mais me perguntar o que eu acho de tu mandar um cartão de ‘feliz aniversário’ pra um namoradinho teu (lembra disso? Foi nossa primeira conversa na escada do XXX, quando tu me perguntou se tu deveria escrever um cartão pro Outro Bófi). Hoje em dia a gente pode fazer de tudo, Beibe, tudo mesmo, a gente conseguiu chegar num estágio ou num patamar que até viajar pra fora de Porto Alegre, pra fora do Brasil a gente pode. Acho que está na hora de nós dois sermos mais adultos. Eu espero isso de mim, e ficaria feliz em te sentir da mesma forma.

- aproveite. Não é todo mundo que tem o pai e mãe que tu tem, que podem te dar uma viagem pro exterior pra estudar. Eles são ótimos, cada um com seus defeitos e suas qualidades, mas eles são bárbaros e fazem de um tudo por ti. Acho que tu tem isso de maravilhoso, que é viver rodeada de pessoas que gostam muito de ti e que desejam que tu vá sempre pra frente. SEMPRE PRA FRENTE, e não parada num mesmo lugar, não indo de lado como um caranguejo ou dando pra trás. Sempre adiante, com ritmo e vontade. Se tu tiver tirado todas as fotos que tu queria tirar de algum lugar, tire mais algumas, de um outro ângulo, de uma outra paisagem ou de algumas outras pessoas. Sempre tem algo de novo nas pessoas ou nos lugares que a gente pode enxergar. Se te convidarem pra um café, pra um vinho do Porto ou pra um bacalhau, aceite. Pode ser péssimo, e daí a gente vai rir muito disso. E pode ser ótimo, e tu jamais vai esquecer dessa situação. Sempre aceite os convites, sempre deixe guardado mais um “sim” pra dizer pros outros. Sempre tenha mais um olhar fatal pra lançar pra um português (ou italiano, ou espanhol, ou alemão, ou norte-americano ou.... ou um brasileiro!). Sempre tenha mais 5 minutos pra ficar na cama em dia de chuva. Essa parte do email ficou parecendo “Filtro Solar” do Pedro Bial, mas a minha mensagem é que A GENTE SEMPRE PODE FAZER MAIS COISA QUE A GENTE PENSA. E isso é o que eu chamo de ‘aproveitar’.

E eu tou bem triste aqui. Porque me dei conta que não tenho mais amigos. Aos poucos, com esse meu jeito sensível de ser, eu cortei as pessoas da minha vida. De alguns eu não sinto falta, ou até sinto, mas entendo que não podem fazer mais parte da minha vida porque simplesmente já vivemos o que tínhamos pra viver, já aprendemos juntos, foi legal e passou. De outros eu sinto muita falta, saudade mesmo. Fica um buraco em algum momento do dia, são pessoas pra quem eu podia ligar pra dar um ‘oi’ e não posso mais. Eu sou meio assim, vou podando as pessoas, cortando, rasgando, amassando e seguindo em frente, deixando rastros e migalhas pra trás. Chega num ponto em que a gente paga por ser desse jeito. Abri mão de muita coisa em nome do trabalho, em nome do estudo, em nome do namoro, em nome do sono. Mas eu sempre soube, às vezes mais claramente e às vezes mais sombriamente, que esse seria o meu jeito de levar a vida: como um turista, um estrangeiro perdido, um exilado. Eu sei que vou morrer sozinho, isso já não me assusta tanto; o que me interessa é ‘aproveitar’ até chegar lá. Fazer sempre mais do que eu acho que posso.

E desculpe se esse email tem muitas palavras repetidas como ‘vida’, ‘os outros’, ‘viver’. É que essas coisas todas (vida, os outros, viver) tão me azucrinando nos últimos meses, elas têm estado na minha cabeça zanzando como moscas.

Beijo e saudades, saudades grandes e densas!
Use gel lubrificante pra dar o cuzinho!!!

Continuação da entrevista III

- Eu gostaria de esclarecer o seguinte: o que seria isso que tu chamas de reinvenção de si?

- Essa é uma pergunta fundamental, importantíssima. Reinvenção de si, para mim ou para nós, significa estar sempre atento ou atentos àquilo que poderíamos ser diferentes de antes. Reinvenção de si, para mim ou para nós, é entrar no fluxo do processo de não ser sempre O Mesmo, não ser sempre idêntico. É dobrar sempre mais uma esquina, entrar sempre por mais uma porta ou sair sempre por mais uma janela. É olhar-se e nunca reconhecer-se como outrora, é como ser um constante retrato cubista. Sobretudo, significa transformar a questão “quantos leões terei de matar hoje?” para “quais os leões que posso domar hoje?”. Reinventar-se é a possibilidade de mudar a todo momento as relações que nos assujeitam. Isso tem importantes implicações, por exemplo, para a função autor a partir da qual começamos essa nossa conversa. O autor ou a autora, ou os autores ou as autoras, não é ou não são proprietários e proprietárias, sequer inventores ou inventoras, de seus textos. Colocando-me ou colocando-nos contra a vontade da maioria, que nem de longe é democrática, não admito ou não admitimos ser punido ou punidos por aquilo que escrevo ou escrevemos. Sou ou somos porta-vozes dessa nossa polifonia. Admito ou admitimos, então, que posso ou podemos ser boca-maldita ou boca-do-inferno, mas tão-somente se a maldição e o inferno forem aqueles compartilhados por todos nós.

- Mas o autor não é capaz de criar? Nós não somos capazes de originalidades?

Continuação da entrevista II

- (...) Parece-me que tu tens uma certa aversão à noção de identidade...

- (silêncio)... Jamais disse ou dissemos que a noção de identidade me ou nos causava aversão. (silêncio). Veja, esse problema, o da identidade, não é apenas uma questão teórico-conceitual, não é apenas um modo de expor ou de descrever as maneiras com que o mundo hoje se produz e as maneiras com que ele é vivido. Dizer “o mundo é assim hoje por causa disso e daquilo”, ou dizer “o que estrutura o mundo hoje é isto e aquilo” são formulações que empobrecem isso mesmo que têm pretensão de explicar: o mundo. Não me ou nos interessa tanto o mundo quanto as pessoas que dele fazem parte, que o sustentam e que fazem do jeito que aí está. (silêncio). Seria possível de levantar a questão do mesmo, da identidade, do idêntico, enquanto função que cruza o domínio da produção das subjetividades de modo contundente. Com isso, sugiro ou sugerimos que O Mesmo, assim escrito, com letras maiúsculas, implanta não exatamente um lugar confortável a se habitar, mas faz aparecer um jogo a partir do qual ele será produzido e re-produzido constantemente. Tenho ou temos um casal de amigos que estão juntos há quase quinze anos e em todo aniversário da relação eles vão ao Mesmo restaurante, comem a Mesma comida, depois vão para o Mesmo ponto da cidade admirar a vista – que não é a Mesma de quinze anos atrás, e por isso eles reclamam – e depois fazem sexo e gozam na Mesma posição. Para este ano, eles planejam renovar ou reafirmar o voto de matrimônio. Perguntamo-nos: é necessário? Respondemos: Sim! Porque O Mesmo precisa, requer, demanda, pede, grita pela reafirmação, pela repetição. (silêncio). O problema da mediocridade me parece ou nos parece que tem a ver diretamente com o jogo do Mesmo, da identidade. É a repetição à exaustão daquilo que é idêntico ao anterior: casamento, família, amor romântico... Mas não só isso! Temos o costume de enxergar com desprezo todos esses valores pequeno-burgueses, assim mesmo, com esse nome, por causa de nossa genealogia marxista. Outrora acreditamos que a revolução da classe oprimida nos libertaria da coisa mais odiosa que pode haver: a própria opressão. E foi então que, depois de investir fortemente na produção desta revolução, nos demos por conta que a classe oprimida também faz uso da opressão. Mais uma vez, nos deparamos com o jogo da identidade: a opressão não está intrínseca à classe e àqueles que a compõem, mas na relação que a classe estabelece com as demais. Há também repetição e mediocridade nesse culto à putaria, à cocaína, à prostituição. Acredito ou acreditamos, contudo, que há muito mais possibilidades de reinvenção de si para aqueles que habitam tais margens, como as da putaria, da cocaína e da prostituição do que para aqueles que insistem na família e no amor romântico como modelos de vida a serem perseguidos, como é o caso desse casal que acabei ou acabamos de mencionar. Eles detestam o fato de a paisagem da cidade ter mudado em quinze anos, ou seja, detestam o movimento que o diferente imprime ao idêntico. As ditas classes oprimidas exerceram opressão idêntica àquela que sofreram, e o jogo do Mesmo se atualizou. Não houve reinvenção nem para as classes oprimidas, nem para meu ou nosso casal de amigos. (silêncio). Haveria rompimento da repetição, talvez, se esses dois amigos que estão juntos há quinze anos cheirassem cocaína no dia de aniversário da sua relação, e pagassem pelos serviços de um profissional do sexo para trepar com eles, e se mesmo depois disso eles estivessem juntos no seu aniversário de dezesseis anos de relação para, então, ir ao Mesmo restaurante e pedir a Mesma comida e perceberem que o tal restaurante tem uma cozinha horrorosa. O que quero ou queremos dizer é que a diferença provoca e desafia a identidade, não no sentido de superá-la para dar-lhe outra identidade, mais reforçada que a anterior, mas no sentido de fazê-la reorganizar seu sentido. (silêncio). Isso porque a diferença não tem um lugar, não tem uma marca, ela não compactua com nenhuma regra do jogo da identidade. (silêncio) E quando falamos em “o autor”, quando lhe atribuímos um nome próprio ou uma coerência à obra por ele ou por ela produzida, estamos endossando o jogo da identidade, o jogo do Mesmo. Seja pela sua caligrafia, seja pela sua estilística. Desculpe-me ou desculpe-nos pelos inúmeros momentos de silêncio. É que essa problemática da identidade é algo que me comove ou nos comove.

- Entendo perfeitamente e louvo sua habilidade em falar de um assunto tão difícil; voltaremos a esse tema em breve. Eu gostaria de esclarecer o seguinte: o que seria isso que tu chamas de reinvenção de si?

Continuação da entrevista

- (...) Mas voltemos a um ponto: o da caligrafia. Tu achas que o fato de os textos, hoje em dia, serem digitados no computador faz com que a caligrafia se perca? A digitação desconstrói essa identidade da letra desenhada com o próprio punho?

- Essa pergunta me parece ou nos parece interessante. Penso ou pensamos que não faz sentido falar numa perda da caligrafia, ou numa perda da identidade da escrita de próprio punho. A princípio, tenho ou temos sempre a vontade ou o desejo de entrever a positividade dos acontecimentos: a caligrafia não se desfaz com os teclados dos computadores, ela é reinventada. Pensemos, por exemplo, no quão difícil era entender o que estava escrito numa receita médica. A total confusão das palavras ali escritas, do modo com que elas estavam escritas pelo punho do médico, era ela própria uma relação de poder: somente o médico ou a médica e o farmacêutico ou farmacêutica entendiam o que ali estava – e às vezes nem um nem outro (risos). O paciente, ou o cliente, ou o usuário dos serviços de saúde não decifrava o que estava escrito, apesar de saber sua saúde em estado de dependência daquele texto incompreensível. Se um médico ou uma médica hoje em dia pode escrever sua receita através de um programa de computador e apresentá-la impressa para seu paciente ou seu usuário, isso desfaz muitos mal-entendidos! Digamos que essa – abre aspas – perda da identidade – fecha aspas – da caligrafia médica tem a potencialidade de mudar a relação de poder entre médico e paciente. Pensemos, por outro lado, o quão difundidos eram algumas décadas atrás os tais cadernos de caligrafia. Eu cheguei a fazer muitos exercícios neste caderno, meus pais me estimulavam para isso. Minha mãe, que é professora primária, dizia que isso facilitava o trabalho das professoras e dos professores na correção dos textos dos alunos, sobretudo quando nas séries iniciais, de alfabetização. Ora, os cadernos de caligrafia não passam de uma técnica de disciplinamento dos corpos! Eles efetivamente se constituem numa estratégia de docilização dos corpos, no sentido de compor uma uniformização da letra escrita sob a alegação de prover maior e melhor clareza e compreensão do texto do aluno ou da aluna em processo de alfabetização – o que não passa de um incremento no controle exercido pelo professor ou pela professora sobre seus alunos e alunas. Mais que isso: os cadernos de caligrafia, atuando na uniformização da letra escrita, acabavam por apagar isso que hoje chamamos saudosamente de – abre aspas – identidade da caligrafia – porque visavam a um modo único de escrever. Em suma, essa mudança técnica, conceitual e política que hoje se coloca para o exercício da escrita usando computadores já está inserida na nossa sociedade há muito tempo, mas através de outros processos que historicamente são invisibilizados. O caderno de caligrafia é um deles. A máquina de escrever, a seu tempo, foi outro. Mas o que eu queria ou nós queríamos é sublinhar que, sim, talvez exista atualmente uma descontrução disso que se chama a identidade da caligrafia, mas também me parece ou nos parece importante assinalar o deslocamento dessa suposta identidade do desenho da letra para a forma com que se usa ou se brinca com as palavras, com as vírgulas, com os travessões, com as regras de gramática e uso de expressões coloquiais nos textos escritos e publicados. Da estética visível, que é a caligrafia, para a estética sensível, que é a da compreensão e habilidade para jogar com a linguagem. Isso, é claro, renunciando avidamente esse lugar vazio, o do autor.

- Renunciar ao lugar do autor? Parece-me que tu tens uma certa aversão à noção de identidade...

- (silêncio)...

Entrevista com o, os, a, as autor, autora, autores

- Ouvi dizer que tu não és um, és vários. Isso é verdade?

- (risos) Veja que a pergunta traz em si suas próprias armadilhas. Em primeiro lugar, a expressão “ouvi dizer” já não combina com a palavra “verdade”, embora para alguns “a voz do povo é a voz de deus” (risos). Quando se ouve dizer, assim, num comentário ao pé do ouvido, num murmúrio longínquo, enfim, quando alguma informação sem autoria nos chega, é possível que nada dela se extraía a não ser calúnias com vontade de verdade. Acusações sérias e graves como essa normalmente não são feitas sem que seu autor, ou seus autores, tenham nome, endereço, cep, celular, email, perfil no orkut, tudo revelado. Isso porque muitos querem pra si o orgulho de que tal acusação seja verdadeira. Segundo, ser “um” é um sonho tão patético! Jamais somos “um! Na nossa masturbação diária em frente ao computador somos os mesmos daqueles que somos quando sentamos à mesa para almoçar com nossos pais, nossos filhos, nossos homens ou nossas mulheres? Por que motivo, então, me cobram ser um ou uma quando escrevo, ou quando escrevemos, para esse blog e outro ou outras quando saio ou quando saímos pra comprar pão? A questão de eu ser eu, ou não ser eu, ou de ser eu e mais outros tantos, entre outros tantos eus, é tão óbvia quanto irrelevante, porque tudo que aqui há também está nas novelas da televisão, nas letras das músicas do rádio e da internet, nas notícias dos jornais, em suma, as histórias que aqui se leem não são minhas ou dele, ou dela. São sobretudo nossas! São produtos de um tempo específico, do nosso tempo. E, perdoa-me, me parece muito antiquado perguntar “é verdade?” para um entrevistado, ou para vários entrevistados (risos).

- Por quê?

- Porque a questão da verdade não é formulada desse jeito, “isto que afirmo é verdadeiro ou falso”, não sem antes poder ser formulada no interior de um campo de possibilidades do verdadeiro.

- Podes explicar melhor?

- Sim, claro, sou generoso, ou generosa, ou somos generosos com as mentes menos brilhantes. Não faria sentido perguntar para um escriba da Mesopotâmia se ele era um ou vários autores dos pergaminhos escritos em seu colo, já que não havia muitos que soubessem ler e escrever. Não faria sentido perguntar para um remetente se ele ou ela era um ou vários autores da epístola que viajava de Veneza à Londres no século XVII. Isso porque, em ambas as épocas, as possibilidades técnicas de escrita dificultavam que houvesse mais de um autor para um mesmo texto, o que não significa que um escriba não pudesse continuar escrevendo um pergaminho inacabado, ou que algum impostor não pudesse falsificar a letra de um amante e escrevesse uma carta cuja autoria fosse uma – abre aspas – falsidade ideológica – fecha aspas. Com isso, quero ou queremos sublinhar que justamente numa época como a nossa, em que o teclado dos computadores digita letras sem caligrafia nas folhas em branco, em que existe um espaço como a internet em que os escritores de textos podem permanecer anônimos, nesta nossa época se faz possível um certo conjunto de dúvidas sobre a autoria de alguns textos que vemos circular. Nesta nossa época é possível duvidar que não exista apenas um autor ou uma autora para um ou vários textos. Duvida-se, de um lado, que um autor ou uma autora tenha escrito vários textos, e se duvida mais ainda que vários autores tenham escrito apenas um texto! Nessa nossa época é que se faz possível questionar-se sobre a verdade ou a falsidade de afirmações do tipo “você é um autor” ou “você são vários autores”.

- Obrigado, sua resposta foi bastante esclarecedora. Mas voltemos a um ponto: o da caligrafia. Tu achas que o fato de os textos, hoje em dia, serem digitados no computador faz com que a caligrafia se perca? A digitação desconstrói essa identidade da letra desenhada com o próprio punho?
Muitos substantivos, eles dizem, textos muito substantivados. O “eu” continua sendo o ator/autor da narrativa, continua sendo um personagem autônomo, autocentrado, cheio de poder para dar significado à vida. Usa demasiadas palavras para dizer o que pensa, e como pensa, quando na verdade o que existem são inúmeros vacúolos de silêncio no seio desse “eu” pensante que tenta disfarçar suas lacunas com palavras. Nada mais claudicante que palavras para dar conta do niilismo do “eu” – nem o corpo lhe serve como abrigo ou como substância.

Existe linguagem possível? Pra dizer que quando teus cabelos voaram sobre a testa, repartidos pelo meio da cabeça, e teu olhar me reconheceu e eu te reconheci? Pra dizer que te sabia por trás do interfone, subindo o elevador, caminhando pelo corredor? Pra quando senti teu dedo pressionando a campainha? Pra dizer que palpitou meu olhar e saltou minha mão, antes descansando sobre minhas pernas cruzadas, na direção da tua, pra dizer que teu peito passou demasiadamente próximo dos meus olhos e que não pude crer – nunca tinha percebido antes – o quão possante ele é? Eu sei que tu te insinuas, que tu baixas a cabeça quando não sabes o que dizer, mas mesmo aí nesses instantes teus olhos sobem e procuram os meus formando um ziguezague que nem desce ao chão e nem voa pelos ares. Eu sei que tu te enroscas nos postes, que tu deslizas pelas ruas na caça, na procura, na peregrinação solitária de mim. Eu estou aqui, estou aqui, e não em outro lugar.

De pé, em frente às portas abertas que dão para um imenso salão supostamente vazio e escuro, concordo que meu vazio és tu, que nunca será preenchido.

O que é um autor

Hoje me joguei na biblioteca. Me sentei e li durante alguns minutos várias páginas sobre o que foi, ou quem foi, um autor que gosto muito. Já morreu, faz tempo. Estranho exercício o de construir roupas, risos e rostos para atribuir as palavras que admiro tanto. Porque, na verdade, ele tinha muito de normal (justamente do ‘normal’, daquilo que ele passou boa parte de sua vida na inglória tarefa de desconstruir). Porque, na verdade, vejo muito de mim naquela figura esguia, cujos fundos das gavetas e das prateleiras pareciam guardar sempre mais caminhos interligados a cômodos impensáveis dentro de sua casa. E ontem me joguei no shopping. Comprei calcinhas finas, de pleno potencial para o rasgo, de modo que sejam facilmente sugadas pelo turbilhão do meu “meio”, do meu “entre”, do meu “meridiano” – tanto o frontal quanto o dorsal. Gostoso mesmo é sair da loja com a certeza de que não tenho como pagar pelas calcinhas, que não tenho muitos a quem mostrá-las, mas a delícia é usar algo que não é meu e, ao mesmo tempo, apoderar-se dele: sugá-lo para dentro, in-corpo-rá-lo. E anteontem me joguei na terapia. Fui tratar dessa compulsão pela verdade, pela retidão e acertos de escolhas, pela vontade de transparência. Não sou, não posso ser transparente, não quero exigir o mesmo dos outros. E como é difícil não poder intuir, ou fazê-lo minimamente, quase às cegas! Porque vontade de transparência e paixão pela verdade são formas de vigilância e de controle, tesão por governar o outro. Ora, que governo quero exercer? Já não me basta a calcinha enfiada no meio das pernas, ainda sinto desejo de vigiar a cueca alheia? Quem é esse autor?
Tardes cinzas que eu supunha esquecidas voltaram em tons degradê. No tobogã que se abriu em curvas, do branco ao preto, nenhum sulco colorido impediu meus movimentos. Não é somente um outro jeito de olhar, nem um outro jeito, talvez mais ingênuo, de se mostrar. A descrença e a desconfiança são modos de materializar a vida; tão concretas quanto as novas imagens que fazem e desfazem as telas onde lemos e escrevemos sobre nós mesmos.

Aniversários

No primeiro ano de namoro, comemoramos todos os meses. Meses como se fossem anos. Cada noite de cama compartilhada, cada dia amanhecido, cada reinado da escova de dentes de um na casa do outro, cada briga, cada gozo têm um aspecto de elefante. No primeiro ano de namoro, cada reconciliação é um novo começo e não um remendo mal feito numa roupa já puída pelo tempo, absolutamente demodê. Cada pedido de desculpas tem a mesma função de uma nova roupa estendida no varal: limpa, cheirosa, quase pronta e esperando para ser usada. No primeiro ano de namoro, o corpo de um jamais será uma formiga para o outro: é uma serpente, uma jiboia que enrosca, que sufoca, que aperta – mas não mata. Cada almoço ou café da tarde precisa ser detalhado, cada telefonema não pode ser suspeito. Não pode haver comunicação anônima, comunicação oculta, códigos e simbolismos. Tudo precisa ter uma vontade de transparência, ou ilusão de sinceridade, porque a proporção de uma semana, de um dia e de uma hora é de uma baleia para um verme. E a primeira noite separados, e o primeiro dia de mau humor, e a primeira agressão e a primeira lágrima, tudo pesa mais que rinocerontes. A metade de um ano nunca é só a metade; é sempre mais, sempre mais importante, mais densa, sempre significa mais que as próximas metades dos próximos anos. Os próximos seis meses talvez serão, aí sim, seis meses. Mas não os primeiros seis meses. Os primeiros seis meses são tigres albinos. No dia de aniversário do nosso namoro, são dois burros que assopram velinhas?

Escatologias indizíveis

Sentei no vaso sanitário e senti uma satisfação irrefutável. Entrei no elevador e precisei soltar um: alegria desconcertante. Feitas de pequenos prazeres, as escatologias indizíveis dessa minha vida de doente incurável se rebuscou com momentos de silêncio constrangedor em torno dos fluidos, gases, secreções e excrementos que meu corpo processava. Havia horas de vergonha profunda, quando eu ainda andava, quando eu ainda falava, e as outras pessoas ainda poderiam objetar que era falta de educação, insensibilidade e indelicadeza arrotar no restaurante depois do primeiro copo de cevada. Mas depois que me foi negada a possibilidade de usar meu corpo como todos os demais usam (para andar elegantemente, para sorrir de um modo polido, para cumprimentar, beijar e dançar), decidi, então, usá-lo como todos os demais jamais gostariam de fazer. Por experimentar umas outras experiências corpóreas. Comecei soltando gases, freneticamente um em seguida do outro, debaixo dos lençois e dos cobertores. Ninguém percebia até que algum movimento dos tecidos deixasse escapar alguns centímetros cúbicos do ar pesado que por baixo me esquentava – de fato, essa estratégia me foi útil nos dias de inverno rigoroso. A defecação também foi bastante proveitosa: a pressão do bolo fecal na última porção do intestino misturava uma certa ansiedade com a alegria do descarrego, da liberação. Sentir as fezes ultrapassando o corpo, tensionando o corpo, sentir o corpo expulsando as fezes é mais do que o último movimento da digestão. É um exercício de desapego, já que passei a não mais me preocupar com o cheiro, nem com os vestígios que isso deixa. O vômito também foi bem-vindo, mas exigiu maior maturidade, pois é exatamente o inverso da defecação. Precisei entender que às vezes é fazendo o caminho inverso que posso me sentir mais leve. Assim foi com o suor e com o hálito. Também com a urina. E não me preocupei com limpeza, pois pra mim tornou-se importante apenas a limpeza do meu corpo a contar da pele para dentro, e não da pele para fora. Da pele para fora, a limpeza do meu corpo só interessa a quem comigo está. Da pele para dentro, ela só interessa a mim mesmo. Resolvi deixar de atentar para o que os outros diziam sobre meu corpo. Da pele para dentro, meu corpo estava leve, mesmo tendo sido privado dos gracejos mais comuns e dos galanteios mais sedutores. Gracejos e galanteios são da pele para fora, e da pele para fora não há limpeza possível de apagar as marcas dos nossas escatologias.

Assassinos que há em mim

Tem por aí um cheiro forte de tarde que termina, um cheiro de cansaço do fim do dia, de gozo esquecido desde a manhã entre os lençois. Não chega a ser nauseante, nem é delicioso. É mais um dia já do segundo semestre de um ano ímpar que faz o sol se por.

E não haveria de ser? Pela manhã me satisfiz em arquitetar pequenas vinganças, mil vinganças pululantes para meu futuro próximo: um olhar de desprezo, um riso irônico, umas palavras cortantes (It’s word, its sword), dezenas de facas lançadas em velocidade cortante sem alvo algum. Fazem, todas essas, parte da minha bagagem – e da minha munição – para dar mais um passo além sem ter que baixar a guarda para nada.

À tarde me ocupei dos socos, dos tapas e dos pontapés que desejo dar, das grandes violências e dos assassinatos por estrangulamento que sonho em cometer – justamente por estrangulamento, de modo que minha vítima não fale, não sussurre, não seja capaz de pronunciar palavra sequer; ou seja, morte pelo silêncio. Entretive minha mente no planejamento dos espancamentos que anseio: pegar pelos cabelos e bater com força sua testa contra o marco da porta, reincidir uma cadeira em suas costelas, jogar pela escada e ver suas pernas e seus braços darem nós enquanto rola degraus abaixo. Jamais torturaria, pois gosto de agressões explosivas e agudas, nunca seria capaz de sofrimentos crônicos e requintados.

À noite, depois que o cheiro do fim se desprenda e depois que as pessoas esquecerem que lá se foi mais uma quarta-feira, acho que vou investir nas decepções e nas mágoas. Nos dramas que farei quando eu for trocado por um corpo mais rijo e mais enxuto, nos textos teatrais que vão misturar culpa e rancor, que vão se perguntar “por que eu não sou melhor?” – e cuja resposta será sempre um vácuo anônimo. Depois de assassinar, violentar e me vingar, vou lamentar tudo isso. Pra poder recomeçar do zero na manhã seguinte.

Cartas a uma jovem racha - saudades francesas

Pessoa insana;

pelamordeDIEU (sim, porque je parle Frances aussi), quando tu voltas, se é que voltas?

A umidade tá correndo solta por aqui, assim como a gripe suína. Ainda ontem eu tava tomando um café e tava com o nariz escorrendo, com um lenço a tira colo, e as pessoas me olhavam torto, me censurando, se levantando das mesas e saindo de perto de mim. O medo e a insegurança estão horríveis, nem mais boquete na Redenção à noite está rolando (os bofes tão exigindo exame que comprove soronegativo para vírus da gripe suína, por aqui também chamada pelo nome carinhoso de PIG). Mas eu não estou com a PIG, é tudo preconceito & discriminação - nada com o que eu não esteja acostumado.

Eu sempre detestei Brasília. Sempre. Quando tu me disseste que tu ia pra aí, eu te disse: "Brasília é a pior cidade que eu conheço". E é. Mas ainda bem que tu estás numa bolha de luxo & glamour, né, meu bem, porque bichas de terno fazendo a linha New Yorker é tuuuuuudo. Aqui eu tenho que aguentar até meia soquete com sapato de fru-fru.

E as festas? E os homens?
E o (piiiiiiiiiiiiii)? E aquela boca gostosa dele?

Eu sigo na minha vidinha matrimonial, cozinhando às quintas à noite pra esperar o marido (e se a janta não está na mesa quando ele chega aí eu apanho, apanho mesmo, apanho de vara e de pau duro, mas tu sabes que eu sempre fui mulher de brigadiano, eu góstio). Não piso numa buatchy desde aquele fatídico sábado de carnaval. Ah: comecei há um mês um curso de tarô & astrologia (porque já deu pra perceber que o doutorado não leva a nada). Tou linda e astróloga. E pasme: não bebo álcool há 14 dias - de nenhum tipo.

Quando termina esse curso?
Quando vai ter um novo concurso para Miss Elegância (já que nem eu, nem tu jamais fomos Miss Simpatia)?

muah, muah, au'revoir Shirley!