vivendo de todas as expectativas, as apostas: sou um jogador. esvaziando as razões pelas quais se pode viver não se vive mais. e há razões. não tive coragem de dizer a uma amiga que penso na morte causada todos os dias. minha amiga é muito viva. não penso na morte causada como um drama, como uma vingança; penso a morte causada como um fim pragmático. não estou certo, contudo, de que qualquer fim da vida possa ser considerado pragmático. não me parece que é dessa forma que a vida se finda em si mesma. é possível imaginarmos que a vida quer acabar consigo? ou a vida vai deixando de querer, aos poucos, até que desiste? "esvaziando", eu pensei hoje enquanto dirigia. mas ainda sim em pé, como um boneco que se mantém pelas dobras, não por estar inflado. esvaziando do engano, da cena, do drama. um personagem que morre, cuja vida vai desistindo dele. e outro que revolve dentro da pele podre desse ator maldito, feto inesperado, que diz: "haja tudo em meu caminho, por tudo haverei de passar, e haverá morte onde precisar haver, pois nenhum obstáculo precisa ser intransponível, nenhum corpo há de ser imortal, tudo deve perecer e saber sorrir quando é chegado seu fim".
sempre soube ao longo da vida de pessoas que ouviam vozes. apenas isto: que ouviam vozes. era intrigante pra mim essa proposição tão radical: ouvem-se vozes. é óbvio que nossa primeira consideração é: de onde elas vêm? quem as enuncia? quem são os donos das vozes? e o mais interessante é saber quem é essa pessoa que ouve, que dá atenção às vozes pronunciadas por não se sabe quem. hoje eu soube, afinal, do que se trata ouvir vozes. pois eu as escuto às vezes. ouvir vozes é pensar palavras, em primeiro lugar. eu particularmente não penso em palavras; na maioria esmagadora das vezes eu penso em imagens. até mesmo para fazer cálculos matemáticos eu uso imagens: para acrescentar três ao nove eu imagino 3 tijolos, três lacunas; para cozinhar a massa, eu imagino 5 espaços do relógio (por exemplo, dos 20 aos 25 minutos de qualquer hora) mais dois espaços pequeninos dos ponteiros. ouvir vozes não é pensar em imagens; é pensar em palavras. começa com palavras soltas, porém densas, como se fossem pedradas na mente: "viado", "incompetente", "burro", "brocha", "pedante". essas palavras podem aparecer a qualquer momento e te fazer estremecer. são pedradas mesmo. anos mais tarde, já acostumado com as palavras soltas como se fossem pedras, aparecem as frases inteiras, as frases de ordem, sempre depreciativas acerca de nós mesmos: "tu é um lixo", "tu é ridículo", "ele te odeia", "ele sente vergonha de ti", "ela te esqueceu". fica mais grave quando o pensamento se complexifica e atribui às frases declinações plurais: "eles te ignoram"; "nós não valemos a pena". hoje eu entendi o que significa ouvir vozes. é deixar de pensar em imagens, é pensar na frase, no tom da voz, no timbre, na entonação. é ler a frase como imagem, no pensamento. é acordar do cochilo pensando em "fracasso" - e a palavra fulgura como um slide show. pois não se trata de "ouvir" vozes, mas de ler vozes no pensamento.
estou um pouco desorganizado, um pouco obtuso em relação àquilo que
quero e àquilo que vi. não entendo bem o que quero para amanhã, nem
entendo o que sonhei ou de onde veio o que sonhei. espero respostas
dos outros (e haveria alguma resposta que não viesse do outro, nem que
sejam aquelas que temos que dar a nós mesmos?), respostas que nunca
vêm, cuja bifurcação me levariam para caminhos completamente
diferentes. mudo ou não mudo? permaneço ou não permaneço? aprovou-se
ou não aprovou-se? devolvo a casa ou não devolvo a casa? o ato de
devolver é sofrível, pois nunca "devolvemos" a coisa; a coisa está
sempre transformada, transfigurada, convertida, amassada, disforme por
aquilo que fizemos dela, com ela. não devolverei uma casa: devolverei
algo diferente de uma casa, algo que um dia foi um casa, com seus
compartimentos tão bem separados, tão bem climatizados, tão bem
decorados, tão bem pintados, tão bem localizados, tão bem iluminados:
não é mais uma casa. devolverei um buraco, uma caverna, uma rocha
vazada, um túnel, uma colmeia, uma ilhota, uma distopia. e onde entrarei?
esse lugar para onde vou, como me está sendo entregue? como um buraco?
estou indo morar no buraco, no túnel de outrem? espero um pagamento, o resto
majoritário do pagamento que me devem. o resto rico do meu trabalho. o resto dos
meus finais de semana, o resto de várias noites. espero que me paguem
o resto a que tenho direito - e é perverso pensar que tenho direito a
restos. o resto de amizade, o resto do sorriso, o resto do respeito.
hoje, por exemplo, vi um homem que me considera um resto esquecido (o
resto esquecido ainda goza do status de resto?). eu não o esqueci. pra
mim ele não é resto. eu não sou resto, pois nada em mim resta da vida,
nada em mim resta a viver: eu não sou hoje aquilo que de mim restou de anos
atrás.
entendo o que sonhei ou de onde veio o que sonhei. espero respostas
dos outros (e haveria alguma resposta que não viesse do outro, nem que
sejam aquelas que temos que dar a nós mesmos?), respostas que nunca
vêm, cuja bifurcação me levariam para caminhos completamente
diferentes. mudo ou não mudo? permaneço ou não permaneço? aprovou-se
ou não aprovou-se? devolvo a casa ou não devolvo a casa? o ato de
devolver é sofrível, pois nunca "devolvemos" a coisa; a coisa está
sempre transformada, transfigurada, convertida, amassada, disforme por
aquilo que fizemos dela, com ela. não devolverei uma casa: devolverei
algo diferente de uma casa, algo que um dia foi um casa, com seus
compartimentos tão bem separados, tão bem climatizados, tão bem
decorados, tão bem pintados, tão bem localizados, tão bem iluminados:
não é mais uma casa. devolverei um buraco, uma caverna, uma rocha
vazada, um túnel, uma colmeia, uma ilhota, uma distopia. e onde entrarei?
esse lugar para onde vou, como me está sendo entregue? como um buraco?
estou indo morar no buraco, no túnel de outrem? espero um pagamento, o resto
majoritário do pagamento que me devem. o resto rico do meu trabalho. o resto dos
meus finais de semana, o resto de várias noites. espero que me paguem
o resto a que tenho direito - e é perverso pensar que tenho direito a
restos. o resto de amizade, o resto do sorriso, o resto do respeito.
hoje, por exemplo, vi um homem que me considera um resto esquecido (o
resto esquecido ainda goza do status de resto?). eu não o esqueci. pra
mim ele não é resto. eu não sou resto, pois nada em mim resta da vida,
nada em mim resta a viver: eu não sou hoje aquilo que de mim restou de anos
atrás.
mais uma vez: chutando paredes, descendo até o chão com a testa, ajoelhando no asfalto quente. segmentos lacunares de pessoas que preencho com todas as hipóteses e suposições. elas vêm de algum lugar, fluem para dentro de mim de uma exterioridade e se divertem. chamam meus esqueletos para dançar - os esqueletos de pessoas mortas, que eu matei, que já não estão mais na minha vida, mas que mesmo assim ainda mantêm seus restos mortais na coisa viva que é minha história: a narrativa que faço de mim. não vou destituir os mortos (os assassinados por mim) do seu lugar na minha memória, do seu espaço nas lembranças que eu resgato e aciono para contar de mim. esses estão aqui com seus restos mortais, com sorrisos em suas caveiras, mortos (assassinados) porém presentes. pessoas que eu odeio - odeio? é ódio o que eu sinto? ou o que sinto é uma janela aberta no temporal, sinto uma superfície pública vulnerável, sinto um buraco vazio exposto - uma parte de mim que é cemitério em dia de finados. uma parte de mim que é um leprosário em dia de parto. isto não é nenhuma novidade: pensei que (desejei que) hoje talvez pudesse ter sido apenas um sonho ruim. não um pesadelo, apenas um sonho desconfortável, um dia que tenha a duração e o conteúdo de um dia angustiante. não houve momento na minha vida em que eu tenha pensado que talvez o dia pudesse ter sido alguma vez um sonho bom (ou apenas, como dizem os felizes, "este dia foi um sonho!"). nenhum dos meus dias foi sonho até hoje. pensei que (desejei que) a morte talvez pudesse ser algo não totalmente expulso do campo de possibilidades de se lidar com o mundo. morrer (assassinar) pode ser uma forma de lidar com o mundo. volto a ajoelhar no asfalto quente, lidando com a vida.
não tenho medo, e é impressionante que eu não tenha medo, não tenho medo do escuro ou do breu, não tenho medo da distância nem do carro que precisarei guiar, nem da estrada, nem do preço da gasolina: em menos de quatro horas emergiu de mim, como uma Atlântida perdida, uma parte destemida, um rosto nem furioso nem benevolente, mas simplesmente calmo. um rosto que pode levar o tapa, que sofrerá com o tapa, que talvez sentirá vergonha do tapa. ainda assim um rosto, uma parte pública do meu corpo que olha para frente, em prospectiva e não em retrospectiva. o fato de eu ter morrido para algumas pessoas é bastante libertador. permite-me vaguear, nomadizar. cumpro minhas tarefas num silêncio a-egoico, como um monge, como um lavrador, como um burocrata do saber. não quero meu nome em referências bibliográficas pirotécnicas. quero meu salário e minhas alunas, meus alunos. quero poder escrever - o que não é brilhante, nem inovador, nem midiático, nem televisivo. não sei sequer qual a estrutura de um romance, não sei como planejar uma narrativa, nem como costurar uma história. não sei dar densidade aos personagens, não sei fazer ficção de longo fôlego. em verdade, domino pouco as normas do português escrito, cometo erros de grafia e de sintaxe. às vezes me cansa o exercício woolfiano de grudar as palavras nas costas de um ritmo, estetizar a onda e o fluxo das frases para focar ou adensar uma situação, um diálogo, a descrição de um espaço, a passagem do tempo, as águas. porque, a rigor, não faço ficção. não consigo criar personagens. meu mito individual de neurótico restringe muito minha capacidade criativa de fantasiar com vidas outras. não tenho mais medo nem de admitir isto: que não sou criativo e que não escrevo para além de um palmo além do meu umbigo (já ia escrevendo "nariz"). no entanto, é importante de dizer que jamais assino os comentários que faço acerca da minha própria vida. invisto na prosa, na possibilidade de encontrar palavras imprevistas e modos de narrar o que me acontece de uma maneira impensada - ou de uma maneira bastante laboriosa. jamais assino. não é meu nome que dá princípio de unidade àquilo que escrevo. não tenho medo do meu nome. se tivesse, seria ele que eu poria logo abaixo de cada parágrafo.
estou prestes a mudar. o emprego do reflexivo "mudar-me" faria mais sentido e toda a diferença. no entanto, quero salientar precisamente a beirada da iminência de trocar, renovar, substituir, refazer. como numa roupa nova que vestimos em frente ao espelho, que tocamos com as mãos, tocamos as costuras com as pontas dos dedos, num esboço de sorriso frente à nossa imagem refletida. e nos orgulhamos de cada detalhe, da cor e do caimento no corpo, dos botões: trocados, renovados, substituídos, refeitos. um novo chão onde pisar (ainda sim um chão e ainda sim pisando), novas paredes e novos tijolos em que se pode arranhar as unhas, novas divisórias que levam a novas formas de olhar, novos cheiros, novas luzes, amanheceres desconectados de qualquer glória. são apenas um sol surgindo, tomados exatamente naquilo são, sem promessas de novas vidas ou de vidas diferentes. porque minha vida permanecerá esta, se caso eu não operar mudanças no que vejo, sinto, penso, digo e faço. apenas mais um sol circundando o globo, sem nenhuma promessa de melhoria, de sabedoria, de um pau maior e mais duro, de um romance ou de reconhecimento profissional nacional ou internacional. apenas um sol me acordando, só isso, só mais uma luz, que se afasta daqueles que perdem seu significado. resquícios de vozes, que sei de quem são, chegam à minha janela. em breve não será mais minha janela, nem mais essas vozes. o mesmo sol, a mesma vida, para outras vozes e para outras janelas.
todo impacto dessa massa terrível e cinza se faz em uma parte desconhecida de mim que absorve a pancada, como um colchão pequeno mas vigoroso. não apenas os vizinhos, as suas vozes, os seus tamancos, as suas gargalhadas, as suas crianças, as suas vidas. não apenas as tempestades que batem na minha sacada, que eu vejo chegar, que eu vejo desfazer minha crença num outono primal. tudo é uma barricada de pneus em chamas contra o outro. há essa outra parte, que são os ouvidos moucos, os olhos vesgos, o corpo sincero. sou uma corrente magnética que impede um asteroide gigante de se chocar contra mim mesmo. sou os aneis de saturno embelezando um planeta mórbido. sou uma desorganização que te fascina, que te faz ficar, que te faz querer mais, que te faz estar aqui por perto.
uma semana surpreendente. descobri duas coisas: quem eu julgava me odiar comigo simpatiza; outros, que eu julgava me odiarem, de fato me odeiam. quem eu julgava me julga. é apenas fechando a porta e ficando em paz com o chão, deixando as pessoas partirem, que se pode ouvir as risadas indo embora, os comentários desaparecendo no silêncio do corredor, se afastando. no chão ainda, sendo deixado por quem te despreza. ou, de outra forma, achando formas civilizadas de evitar encontrar o amigo que está namorando e viajando e em lua-de-mel e rico. não seria suportável sem um toque de mau humor. o único mau humor com que consigo (sofregamente) lidar é o meu próprio. o mau humor dos outros considero uma afronta. tudo o que é meu eu suporto com dificuldade. precisamente por isso esta semana foi surpreendente: coisas minhas agradaram quem eu não esperava - minhas aulas, minha voz, minhas ideias, minhas discussões. meu corpo expressou sua mais concreta sinceridade em termos sexuais - novamente. quem gostou, gostou. "Queria ter um namorado, parceiro, pra todas minhas fantasias, mas que houvesse respeito, acho que isso é impossível!", ela escreveu. e é realmente impossível. é realmente intocável, irrealizável. mas ela espera alguém que a absolva daquilo que ela deseja e daquilo sobre o que ela fantasia; o parceiro e o namorado para todas as fantasias não existe. ele, em si, é a fantasia-toda. quantas camadas de dores prévias dessa mulher não recairiam sobre um homem, se acaso ele existisse, que viesse sentar-se no trono de "parceiro". localizar o sofrimento em sua própria medida, sem adicionar nem tirar nada àquilo que lhe dá tamanho, é um descanso imenso. tomar o sofrimento em seu próprio tamanho é fazer as pazes com deus. e liberar as pessoas da nossa história, desvencilhá-las, desconectá-las de nós como um cabo caído e inoperante é seguir. afastar-se dessas pessoas, as arrastadas e pesadas, que carregamos como quem carrega um saco, é também deixá-las flutuar: colocá-las em liberdade de nós. quem carrega peso é tão responsável pelo peso do que a própria pessoa pesada. nesta semana eu liberei três pessoas pesadas da responsabilidade de eu carregá-las. é ainda bonito lembrar que me dei conta disso dirigindo um carro: um peso mais pesado que eu e que me carrega.
cheguei ao ponto de ter um fio de cílio inflamado. um ponto dolorido no canto do meu olho esquerdo, que pulsa e incha, avermelhado. um cantinho de mim, um ponto mais ou menos profundo, um resto de olho, uma esquina pequena das minhas curvas: inflamada. aqui estou avançando a madrugada ao som do ar-condicionado da vizinha, de uma ave desregulada que canta e pia, de um cão latindo muito ao fundo, de um zunido surpreendente de silêncio que sobrepõe as demais vibrações. um silêncio ao redor, em volta do meu cílio inflamado. atravessei corredores hoje com um passo firme e um rebolado cativante, vestido em calça e camisa justas: pisando um dois, um dois, um dois, bem firme, para o solado do sapato estremecer quem me via (e ouvia) passando. numa dessas travessias, me perguntei o que eu estava fazendo lá. não por estar perdido, não por ter momentaneamente esquecido o que eu tinha para fazer. não, a pergunta era bastante consciente, consciente do trajeto do corredor e do fio de cílio, consciente de mim naquela caminhada de avestruz: "o que eu estou fazendo aqui?". percorri o corredor sem nenhuma resposta. o percurso foi silencioso, apensar de meus passos firmes. mesmo assim, aqui estou avançando a madrugada com a mesma pergunta. tenho ainda dois dias pela frente, mais tudo o que poderá advir de suas horas, de suas maldades. devo corrigir-me inteiramente para refazer a pergunta; do contrário o cílio permanecerá inflamado e o corredor, silencioso.
[os dias têm sido problemática precípua desde que retomei o exercício de "diariamente" revolver minha linguagem. acredito que parte desse interesse diz respeito à obsessão pela rotina, obsessão em desmantelar a rotina, obsessão em achar o momento final. a necessidade pelo fim é o que me faz grudar na narrativa dos dias, das sensações disparatadas de um dia, dos intervalos incoerentes dos dias. eu sei quando o dia começa, o que eu preciso fazer no seu percurso e, o mais importante, eu aguardo pelo seu fim. pois, nos seus derradeiros minutos, faço o que mais me dá prazer em um dia: adormeço.]
quando ele foi embora o dia estava como o de hoje: o sol aparecia vez que outra, impedido por nuvens um pouco cinzas. ventava muito, a ponto de uivar na quina do prédio. fazia calor quando o sol brilhava, e em seguida fazia frio quando era encoberto pelas nuvens um pouco cinzas. ele foi embora numa segunda-feira. hoje foi um dia em que aconteceu de tudo um pouco, como no dia em que ele foi embora: teve sol, teve vento, teve nuvem, teve frio, teve calor; teve suor, teve lágrima e teve sêmen; teve reconciliação e em seguida teve traição; teve dor de cabeça, teve azia. teve todos, menos ele. ele que dava consistência àquilo que eu queria, à coisa toda da minha vontade. ele que me olhava e tecia uma história inteira a partir de um gesto meu ou de uma palavra minha. ele que entendia o sintoma de um silêncio. ele hoje não houve.
acertar os ponteiros do despertador, mais cinco dias de ranger de dentes. raiva pelo chão onde rolam fios de cabelo, onde se amontoa pó, onde aranhas montam suas teias. raiva pelos tijolos todos. a solução é engolir tudo, dissipar na digestão enquanto se lê um trecho da biografia. a solução é engolir tudo. virar-se e tentar dormir. virar-se. virar-se. tentar, tentar. e quando finalmente adormecer, embarcar no sono de três, quatro horas, para despertar e ouvir os sons da vizinhança ainda acordada. há ruídos de pessoas fechando porta de carros e acionando alarmes, outras afastando móveis, luzes nas salas e cozinhas, televisões ligadas. e uma risada lá no fundo. pânico ao acordar e perceber que dormiu pouco, e que o pouco que dormiu cabe no dia produtivo de outras pessoas. e há mais cinco desses por vir. a solução é engolir tudo, de uma vez, fingir que está tudo calmo ao ler um livro. mais um relógio que não acerta minha hora.
hoje foi um dia extremamente silencioso na minha casa. por todo o lado. apenas a chuva trazia algum som. não houve sol. perambulei um pouco pela sala e pela cozinha, às vezes no banheiro. limitei-me ao interior da casa, não cheguei perto das janelas. há dias, talvez semanas, eu não vou à sacada. estou de pés descalços há mais de quarenta e oito horas. toquei com as pontas dos dedos as paredes pintadas, ásperas, deslizei os dedos e arranhei levemente as unhas no concreto. sentei-me num canto, junto da porta de entrada. permaneci ali enquanto ouvia a chuva amainar e depois retomar sua força. comi pouco. desejei ser outro, alguém diferente deste, e quis ir embora.
há momentos em que eu aposto, ou desejo acreditar, que na vida há certo equilíbrio, para não dizer mas já dizendo: justiça. penso que se tenho pouco aconchego no coração é porque tenho dinheiro sobrando no banco. penso que se tenho poucos músculos inflados, ou pelo menos definidos, é porque fui doutor aos 28. penso que se tenho poucos amigos é porque tenho muitos admiradores nem tão secretos. é imensamente triste pensar a vida nesses termos. é pobre, cinza, estreito e sufocante. é um toma-lá-dá-cá magro de qualquer coloratura ou densidade. não há nenhum equilíbrio, menos ainda justiça. há, sim, luta e disputa, ecos embaralhados. experiências desconexas que urdimos com cuidado, uma articulada com outra, criando uma linha entre tais que depois viemos a chamar de "nossa história de vida". isso não é o equilíbrio na forma de uma balança de dois braços, na qual o que falta de um lado é compensado de outro; não há nenhuma compensação. isso é equilíbrio na forma do equilibrista que se mantém sobre a corda-bamba, linha traiçoeira, rodeada pela queda. não há justiça, pois a justiça só precisou ser inventada, e só precisa vigorar, quando o equilíbrio da balança é perturbado. no equilíbrio do equilibrista, da corda-bamba, da linha traiçoeira, não existe justiça que restaure o estado ótimo do equilibrista; o equilibrista simplesmente cai da corda. isso é vida para quem não acredita que viver é algo reconfortante.
no momento em que eu morrer, peço humildemente por um pôr de sol amarelado, desses que acometem o céu quando tempestades acontecem pouco antes das dezoito, e por já ter chovido encontram-se pingos de água sobre as janelas, sobre os telhados e nas bordas das folhas das árvores, o chão úmido, e ainda se ouvem trovões distantes acompanhados pelas gotas de chuva que continuam caindo ali perto, e certo ar se movimenta fresco por entre aqueles que me jazem. apenas tranquilidade.
a Vida nos fode, nos presenteia, nos falta, nos celebra, nos prega peças, mente... e depois vai embora. pra sempre - como um namoro, um casamento. pois hoje seria mais um domingo da Vida. ela começou bagunçando meu sono. roubou minha manhã. me adulou com chuva e vento fresco. quis me anestesiar com cerveja. e já no fim, no fim do dia, no momento e no espaço onde já não cabia mais sonho ou energia, um rapaz veio me visitar. e minutos antes de ele entrar no meu apartamento eu pensei sobre quem eu apresentaria para ele. eu, ou débil? ou o frágil? ou o brocha? não tinha energia para nenhum. quando a campainha tocou, e eu arrumei meu cabelo, abri um pouco a camisa, olhei a distância o olho mágico da porta - havia um ser do outro lado, arredondado pela lente - eu fui eu onde eu não pensava. um eu que não pensava em si. e gostei de seduzi-lo, de beijá-lo, de lambê-lo. não pensei em que fazer e como fazer. junto com ele eu fui descobrindo o que a Vida queria de nós. a Vida quer pouco, mas um pouco intenso.
a minha necessidade de escrever nunca foi tão urgente, mas justamente por isso recuso a ideia de abrir a tela em branco e rasgar as linhas, de empurrar o cursor com as palavras até o fim da margem, de responsabilizar-me pelo sentido geral do que será escrito. preciso escrever, preciso, e fujo da autoria. a fuga, contudo, não me auxilia em nada a lidar com o amplo espectro de fantasias que habitam meu dia a dia, meu cotidiano. eu estava deitado agora há pouco, já com as luzes do apartamento todas apagadas, deitado de bruços, querendo dormir. impossível, pois cogitei que se escrevesse mais sobre cada grão de pensamento atordoante que me ocorre - escrita mesclada com exercícios de drama, de romance, de ficção -, se eu escrevesse mais sobre cada bandeirola fincada a força no trajeto, eu talvez seria mais calmo, mais sereno, mais consistente. são pequenas as coisas, as coisinhas sobre as quais eu poderia escrever: a) o reincidente olhar de relance para minha bunda refletida no espelho, orgulhando-me de tê-la empinado pela prática regular de exercícios nos últimos meses; b) o pavor, a aflição e o fascínio pelo vizinho do prédio ao lado, que me impedem de usar mais minha sacada e certas beiradas do meu escritório próximas à janela, temendo e desejando ser visto por ele; c) o medo da emergência de um período de ditadura no país, regido pela violência e intolerância de toda ordem, no qual seremos todos governados por quem odeia e odiaremos uns aos outros como forma paradigmática de relação; d) meu cabelo, sempre meu cabelo, comprido e cacheado, ondulado e anelado, já grisalho em estado avançado para minha idade, cujos fios caem às dezenas por dia acumulando-se no ralo do chuveiro e nos cantos dos cômodos; e) memórias pontuais, porém repetidas, de desilusão e tristeza pelos ex-amigos, ex-companheiros, que de súbito escolheram não mais falar comigo, e que eu com isso concordei pois por isso desejava, roendo as pontas das desde sempre frágeis cordas que me atam a este mundo; f) dinheiro, sua existência e a perspectiva de sua falta, produzindo o receio de dívida próxima e alimentando uma fantasia (também permanentemente atualizada) de empobrecer até o fim dos meus dias e morrer sem um tostão, sem um amigo, sem aquilo que é tão fundamental para os fracos: reconhecimento; g) a dúvida sobre a profissão de docente no ensino superior, se é esse mesmo o ofício ao qual devo me agarrar ou do qual devo me desgarrar - o que se junta ao medo de empobrecer; h) flashes de uma experiência sexual e afetiva com um homem casado, cujos primeiro e último encontros foram para mim vergonhosos, de quem nunca mais obtive nenhuma palavra, homem sobre o qual fantasio que sente pena de mim e arrependimento por ter praticado sexo comigo, lembranças e suposições que só fazem sentido se articuladas a um forro denso de neurose depreciativa que é indubitavelmente atravessada pela experiência singular que tenho do meu próprio corpo - daí, talvez, a razão de olhar reincidentemente para minha bunda refletida no espelho e orgulhar-me por tê-la empinado, ao mesmo tempo apavorar-me com o olhar do vizinho, temer a ascensão de um ditador (que no mais já existe em mim), supor minha pobreza (com que já vivo), admirar meu cabelo crespo e grisalho, magoar-me com quem um dia me magoou... colocar essas coisinhas em palavras e frases é responsabilizar-me pelo significado que vão adquirir. é ter de medir a extensão da linha, equilibrar as vírgulas, eventualmente trocar um verbo por outro e achar aquele substantivo preciso. é fazer da frase uma flecha, ou míssil. é ter de reler o que me atordoa e o que me desfaz, o que me transforma em borrão, é ter de realinhar e reagrupar em novas unidades de sentido tudo isso que me dá sentido. parar de escrever só quando sinto fome, aquela fome que dói. eu não sei pesar a frase, medi-la, não sei encontrar a proporção da descrição nem o equilíbrio da precisão em relação à sugestão. tenho que me haver com a escrita, com aquilo que escrevo, responsabilizar-me pelo sentido. escrever é responsabilizar-se. é assustador porém necessário, e eu não consigo viver sem esse terror mesmo que me falte técnica, mesmo que me falte domínio da língua, mesmo que me falte maturidade literária. estou comprometido com minhas próprias narrativas.
as coisas pelo meio, meio não ditas e meio olhadas, coisas pela metade, ô como me incomodam! ou olha pra mim e diz tudo o que queres ou não olha - neurótico, diriam? mas que coisa escrota seria a recusa de toda a miríade entre o olhar e não olhar? eitcha, que cansaço! ou olha ou não olha, cabra! porque não há nenhuma dúvida no olho de quem me olha: ou me olha ou me ignora. Ou me sabe aqui ou apenas se deita na rede. Eu quero falar sobre ele, sobre ele, sobre mim. Que sou eu, na verdade. Eu quero falar sobre ele, eu quero vê-lo, eu quero, eu faço tudo, que horror, eu faço tudo para que ele me veja. Oi. To de boas lendo biografia da Virginia Woolf. Sou culto. Sou rico. Não tenho pau grande, nem barriga tanquinho - IH, PERDEU, PLAYBOY, SAI DA PRAIA QUE A BAIA É NOSSA. Não me venha com coisas meigas ou bonitas, ninguém dá uma piça por coisas bonitas. Pessoas querem aquilo que rasga seu cu. Não me cause coisa, erupção ou cândida, não me cause coisas no tumulto que já sou. Sim, ele está ali do lado, Não, ele não sabe quem eu sou, Sim, ele sabe que meu andar é o sexto, Não, ele não sabe que eu sou vindo, Sim, ele é vindo, Não, não tenho corpo como dele, Sim, ele ignora quem tem um Fiesta e um corpo normal. Sou eu. Sou eu o tempo todo no outro apartamento, e quando me dei conta disso nada mudou, sabe? eu continuei achando uma merda ser quem eu sou e uma maravilha ser quem ele é. Porque é isso, não tem uma medida, uma coisa bonita na qual o ponteiro pare ou balance. Não. Não tem. É isso mesmo, essa coisa cheia de areia, cheia de coisas esfareladas que te jogam na cara o tempo inteiro, e hoje sobretudo. Hoje mais do que nunca, mais do que eu desejaria. E eu desejei, ô, se eu desejo, e eu queria saber - alou, PROCON da Vida! - eu queria saber se o pau dele é maior que o meu. Vou ser direto e já propor o que eu quero saber. Sim, eu já sei a resposta, mas a coisa toda não gira em torno da resposta, mas da pergunta. As coisas todas girando num redemoinho feio, com dor e coisas. Coisas no meu nariz também - mas olha amiga, faz tempo que não faço. To bem sóbrio, bem coisinha, bebeu vaziozinho de tudo o que VOCÊ ME PRIVOU, sua porra. tu não sabe o que tá perdendo - e isso é sempre o que diz o narcisista louco e impossível. Eu sou possível. A frase mais linda e adequada que eu poderia escrever na porra deste teclado, com as coisas todas queimando e ficando feias, tudo isso é tão ridículo frente ao "eu sou possível", e eu sou tão absurdamente meio-fio da rua. aos pés de quem sabe pisar. Sou eu. Eu e tudo mais, a história, o sotaque, e toda a música que puder carregar. Coisas belas, ô, belíssimas. DEIXA EU SAIR COM UAM COISA CLARA: EU TO MELHOR SEM ESSA MERDA RESSENTIDA QUE É TU. merda = ralo; ressentida = esquecimento.toda essa coisa afável é porque rola $. não é porque tu é tu. É porque tu pode ser qualquer coisa que o $ pagar.
E eu não sou assim,
E eu não sou assim,
vestiu-se com seu mito individual. saiu pelas ruas sombrias da cidade, à noite, todo vestido. andou por lá e por cá, mas não sem rumo: na sua pequenez individual havia tudo planejado. surpreendeu-se com os transeuntes nus: ninguém mais acreditando estar em face do outro, tornavam-se pálidos si mesmos sem nenhuma mediação com aquilo que a noite esperava deles. e ele todo produzido para uma noite longa, noite de cantos e becos, de esquinas em velocidade, uma noite toda do tato. os transeuntes nus tiravam toda a excitação das surpresas que as ruas poderiam trazer. pois já estava tudo visto, já estava tudo sentido. zumbis nus. por onde ele ia, seu mito se manifestava.
que tantos males houve nessa trajetória, nessa corda-bamba, que tanto mau humor e recalque? o que foi recalcado que permanece recalcitrante naquilo que dizes hoje de mim? de todos os indícios recontados, não há um sequer que tenhas ao menos me indicado. recontas agora todo o caminho, toda a corda-bamba, como fio da navalha no qual caí e me despedacei. que monstro foi liberado, que monstro em que me tornei? que tanta amargura, raiva, que não cabem em uma frase ou em uma pergunta a mim dirigidas? que medo, que receio de ouvir minha resposta? que tanta covardia? que tanta mesquinhez em fazer chegar até mim o que pensas por meio de bocas que não é a tua? que tanto ressentimento, me pergunto, é capaz de dividir o mundo entre os que ainda não odeias, os que já odeias e os que ainda não conheces?
não mais a verdade, mas as políticas da mentira de um modo geral a partir das quais contamos a alguém aquilo que somos. e o que somos não é mentira, não é mentiroso, mas é efeito de uma lacuna na cadeia de meias-verdades sobre o que somos. a lacuna, como a própria palavra remete, não é tampouco em si mesma uma mentira. poderá eventualmente ser. mas é antes e acima de tudo um silêncio e um pano de fundo cinzento indiscernível. elo quebrado da cadeia de meias-verdades daquilo que somos. a pequena sala trancafiada e escondida em cujo teto estão inscritas a hora e as condições da morte de Sétimo Severo. o pastor tebano para quem Jocasta entregou o recém nascido Édipo, que também viu Édipo matar Laio em uma encruzilhada, pastor tebano que se refugiou e se ocultou em sua cabana. não mais a verdade sobre o que somos e sobre os caminhos que nos conduziram até aqui. nenhum passado que condena. mas, por outro lado, as pequenas salas trancafiadas, os simples pastores refugiados, os lugares velados e os sujeitos não-cônscios.
um período imenso de silêncio para decantar.
"decantar" sempre foi uma linda palavra, pois significa "separar" e "enunciar melodicamente".
hoje dei uma volta inteira ao redor do furo do desejo. inlcui basicamente duas paradas:
1. uma pergunta a ser feita para meus pais (mais precisamente para minha mãe, embora a coisa toda faça convergência para meu pai);
2. uma afirmação a ser feita para mim (mais explicitamente anunciada, pois já está de todo modo enunciada para quem está por perto).
não vou melhorar, mas vou abrir caminhos.
"decantar" sempre foi uma linda palavra, pois significa "separar" e "enunciar melodicamente".
hoje dei uma volta inteira ao redor do furo do desejo. inlcui basicamente duas paradas:
1. uma pergunta a ser feita para meus pais (mais precisamente para minha mãe, embora a coisa toda faça convergência para meu pai);
2. uma afirmação a ser feita para mim (mais explicitamente anunciada, pois já está de todo modo enunciada para quem está por perto).
não vou melhorar, mas vou abrir caminhos.
a parte ausente sempre produz temor. porque qualquer coisa ou qualquer pessoa - menos nós próprios - pode habitar aqui mesmo. a parte ausente é um trono, um berço, uma cadeira de balanço para o outro. a ausência é, em si, uma lacuna concreta e material. o nada está aqui. temos a companhia de algo que nos falta. compartilhamos com o vazio (essas bolhas, os vacúolos) a existência. existir é também ser vazio: estar acompanhado de buracos. o vento assovia alto quando encana pelos buracos. às vezes faz frio, outras vezes faz calor: sempre cintila o espaço oco, afirmando-se na sua presença. o medo é justamente de que a presença da ausência seja suprimida pela irrupção do outro em mim. medo de que a lacuna seja substituída pela história que o outro vai contar de mim. medo de quando a bolha estoura, de quando o vacúolo é inundado, quando o nada ganha corpo e o vazio, um rosto.
sonho 7:
preciso chegar à universidade. escolho ir até lá escalando prédios. quanto mais eu avanço, percebo que as paredes estão tomadas de limo. chego num determinado ponto em que não tenho mais onde me apoiar. preciso voltar e recomeçar o percurso, agora caminhando.
estou em um ginásio onde acontece um jogo de vôlei. as jogadoras são todas meninas. o técnico de um dos times é um grande amigo da época da faculdade; o técnico do outro time é meu atual chefe.
preciso chegar à universidade. escolho ir até lá escalando prédios. quanto mais eu avanço, percebo que as paredes estão tomadas de limo. chego num determinado ponto em que não tenho mais onde me apoiar. preciso voltar e recomeçar o percurso, agora caminhando.
estou em um ginásio onde acontece um jogo de vôlei. as jogadoras são todas meninas. o técnico de um dos times é um grande amigo da época da faculdade; o técnico do outro time é meu atual chefe.
sonho 6:
subo uma escadaria, junto com muitas outras pessoas. outras muitas descem. um homem vestido com farda militar, em tons de verde, absolutamente lindo, desce as escadas em minha direção. um pedaço da sua farda toca levemente meu rosto: sinto o brim verde roçando na minha bochecha. penso que jamais na minha vida chegarei tão perto de um homem tão bonito de novo. (quis o destino que hoje, acordado, eu pegasse um taxi com um rapaz bastante atraente, e que ele, ao trocar a marcha do carro, roçasse a mão no meu joelho.)
subo uma escadaria, junto com muitas outras pessoas. outras muitas descem. um homem vestido com farda militar, em tons de verde, absolutamente lindo, desce as escadas em minha direção. um pedaço da sua farda toca levemente meu rosto: sinto o brim verde roçando na minha bochecha. penso que jamais na minha vida chegarei tão perto de um homem tão bonito de novo. (quis o destino que hoje, acordado, eu pegasse um taxi com um rapaz bastante atraente, e que ele, ao trocar a marcha do carro, roçasse a mão no meu joelho.)
sonho 4:
vou a um encontro romântico com um jovem rapaz. nos encontramos em um café na cobertura de um prédio alto. o chão do café é todo feito de vidro, e sentamo-nos em uma mesa na beirada da cobertura. eu sento de costas para o horizonte. por causa do chão de vidro e da minha posição na mesa, eu entro em pânico, com medo de cair da cobertura do prédio. fico paralisado, e o jovem rapaz se frustra pelo encontro. sinto-me fracassado. em seguida, já não estou mais na cobertura do prédio e lembro-me da sensação de quase-cair, também da sensação de fracasso romântico. ao lembrar-me da cena e dos sentimentos, penso que aquilo não foi um sonho e sim algo absolutamente real; fico em dúvida. (surgem, de repente, buracos de viagem no tempo que abrem portais para outros espaços: ao atravessá-los, qualquer coisa e qualquer pessoa pode viajar. são buracos que engolem pilastras e carros, nos quais eu mesmo desejo entrar.)
vou a um encontro romântico com um jovem rapaz. nos encontramos em um café na cobertura de um prédio alto. o chão do café é todo feito de vidro, e sentamo-nos em uma mesa na beirada da cobertura. eu sento de costas para o horizonte. por causa do chão de vidro e da minha posição na mesa, eu entro em pânico, com medo de cair da cobertura do prédio. fico paralisado, e o jovem rapaz se frustra pelo encontro. sinto-me fracassado. em seguida, já não estou mais na cobertura do prédio e lembro-me da sensação de quase-cair, também da sensação de fracasso romântico. ao lembrar-me da cena e dos sentimentos, penso que aquilo não foi um sonho e sim algo absolutamente real; fico em dúvida. (surgem, de repente, buracos de viagem no tempo que abrem portais para outros espaços: ao atravessá-los, qualquer coisa e qualquer pessoa pode viajar. são buracos que engolem pilastras e carros, nos quais eu mesmo desejo entrar.)
sonho 1:
o pró-reitor me pergunta se o projeto de pesquisa já está pronto par ser submetido à agência de fomento. envergonhado, respondo que está em processo de finalização.
sonho 2:
uma professora pergunta-me se já li o trabalho de conclusão de curso da sua aluna. eu respondo que não, que jamais soube que eu faria parte da banca de avaliação. percebo neste momento que falo nu, sem roupas. a professora me entrega uma cópia do trabalho, na qual há várias anotações com minha letra. percebo que já havia lido, sim, o trabalho e que era interessantíssimo: a aluna fazia um mapeamento de palavras novas que surgiam na língua portuguesa a cada dia, que eram absolutamente originais, neologismos cotidianos atualizados, cujos significados eram ricamente construídos de acordo com a vida que as pessoas levavam. ela prova que essas novas palavras tornam outras obsoletas.
sonho 3:
moro num apartamento belíssimo, cheio de quartos e de salas, de cozinhas e de banheiros, no qual somente eu moro. é um apartamento tão grande que eu mesmo ando por ele e descubro novos cômodos fantásticos, todos mobiliados. preocupo-me, porém, em como manterei a limpeza de espaços dessa magnitude (são, efetivamente, espaços magnéticos, pois sinto por eles uma atração, um calor no peito de euforia em saber-me morando em um lugar assim).
o pró-reitor me pergunta se o projeto de pesquisa já está pronto par ser submetido à agência de fomento. envergonhado, respondo que está em processo de finalização.
sonho 2:
uma professora pergunta-me se já li o trabalho de conclusão de curso da sua aluna. eu respondo que não, que jamais soube que eu faria parte da banca de avaliação. percebo neste momento que falo nu, sem roupas. a professora me entrega uma cópia do trabalho, na qual há várias anotações com minha letra. percebo que já havia lido, sim, o trabalho e que era interessantíssimo: a aluna fazia um mapeamento de palavras novas que surgiam na língua portuguesa a cada dia, que eram absolutamente originais, neologismos cotidianos atualizados, cujos significados eram ricamente construídos de acordo com a vida que as pessoas levavam. ela prova que essas novas palavras tornam outras obsoletas.
sonho 3:
moro num apartamento belíssimo, cheio de quartos e de salas, de cozinhas e de banheiros, no qual somente eu moro. é um apartamento tão grande que eu mesmo ando por ele e descubro novos cômodos fantásticos, todos mobiliados. preocupo-me, porém, em como manterei a limpeza de espaços dessa magnitude (são, efetivamente, espaços magnéticos, pois sinto por eles uma atração, um calor no peito de euforia em saber-me morando em um lugar assim).
estar na ilha e separar-se do continente, mas a ilha é o continente. a ilha vem a ser um continente. é próprio deste terreno tornar-se seco e imóvel. eventualmente a ilha cessa sua deriva, estanca, e aglomera-se com outras ilhas, ou permanece isolada. o que define a ilha não é seu movimento, mas a qualidade da separação em relação aos continentes. entretanto, as ilhas imóveis são pequenos continentes insulares. recuso o pensamento de uma comida, de um prato de comida, com medo de sentir fome. a ilha não dá de comer ao corpo. os livros estão bem organizados na ilha. o saber tem seu lugar, mas eu não tenho lugar no saber. o sonho ideal de fechar a porta do mundo repete-se toda a noite. das segundas às terças e das quartas às quintas é como se eu vivesse pequenos sábados para domingos. das sextas aos sábados e dos sábados aos domingos é como deveria ser. trata-se de uma ilha quase hermética, impermeável ao continente. se pudéssemos conceber, ao revés, um continente enquanto uma ilha, eu voltaria ao continente cônscio de que não importa a terra onde eu pise: seca, isolada, estanque, imóvel, separada dos pequenos continentes, a ilha sempre haverá de me encontrar, de fazer-se em mim. a problemática das ilhas nunca foi a distância, mas propriamente a separação dos grandes continentes. também nunca foi emblemática a imobilidade das ilhas, posto que sua grande marcação distintiva é o fato de serem desertas.