[...]arei uma lista com nomes e um "muito obrigado" no final, bem simples. os nomes serão estampados com fontes de impressora; a minha assinatura será a mão, cambaleante, pois estarei sob efeitos de remédios. penso eu. não é muito óbvio pra mim se farei de consciência nua. agora, pensando naquilo que a vida pode se transformar, tendo a achar que pode ser. tem uma dor fundamental - não porque é importante, mas porque é iniciante: está em mim desde sempre. pessoas me deixam. e me deixam porque sou algo ruim, ou feio, ou inútil. buenas, trata-se de uma experiência báááásica de quem está no mundo, e não configura crise pra uma parte dos indivíduos no mundo. pra outra parte, é o estopim pra o "foda-se". pra outra, a chave da cadeia. para a maior parte deles, suponho, trata-se de um descolamento do mundo lá onde o mundo deveria suturar-se às pessoas. lá onde o mundo deveria magnetizar os seres, há algo que os repele e que os expulsa do âmbito do vivível. um chamado a vivermos aqui, mas sem nós. é bem verdade que o mundo precisa de gente ruim, feia e/ou inútil para que as boas, belas e enérgicas sintam-se isso e mais que isso. acredito, porém, que há outros ganhos em estimular os indivíduos a surfar na maré de merda. porque a dor é fundamental: é estruturante da relação com o mundo, com o trabalho, com os amigos. é indicativa da forma de término: sempre radical. a onda que quebra, turbulenta, da qual queremos sempre sair, é ainda acrescida do péssimo gosto e cheiro. não tenho suficiente formação e informação para saber se tal experiência fundante modifica ou não a estrutura do cérebro, genes, relações entre as células. enquanto estiver aqui, contudo, saberei que me foi dado um script. não sou alguém que segue ordens, o que significa que posso ser feliz. ou apenas leve - é o meu sonho. ser alguém diante de quem não há elemento que puxe, que cole, que magnetize. não quero entrar pra história - quero apenas sair dela com o mínimo de dignidade. há uma dor fundante: querer-se, estando no mundo, menos. não porque o mundo não seja bom o bastante, mas porque apenas não se quer. não se tem vontade de estar nisso que foi feito do mundo.  e então não é mais problema o mundo em si, mas as práticas que o tornam o que é. entendo, mas não me chame para ser militância pró-salvação-do-mundo: digitar a palavra "militância" é próximo de digitar a palavra "satânica" e "militono", e acredito que tais atos-falhos devam ser incorporados. quero um mundo vivível não apenas por ser belo mas por ser razoável: que ouça minha razão. suponho um mundo corpóreo, organísmico (novamente): um mundo que vê, que ouve, que sente, que processa os sentimentos; um mundo sensível. penso que este é um mundo sensível, este no qual vivemos, o mundo que é. mas a sensibilidade geral que o faz, que o organiza, apenas não deixa tempo para que minhas partes côncavas se alinhem às suas convexas: como se fossem engrenagens, elas passam muito rápido por mim, desabilitando quaisquer acoplamentos. e ignoram que eu tenha parte convexas que poderiam contribuir para esta paisagem (triste) que vejo, na qual vivo. o fato é: este espaço vacante que tenho, e no qual as coisas do mundo se enganchariam em mim, se torna inútil; e aquilo que tenho para dar, eventualmente a quem puder, não é julgado relevante: sou uma engrenagem cujas vilosidades (sou um intestino?), cujas dentições (sou um boca?) são permanentemente desgastadas e apagadas. torno-me uma roda solta, reprodutora de si mesma num perpétuo movimento. não como nem cago nada. não sinto a dor e o gozo das outras dentições me penetrando. não me encaixo, afinal. e é isto que toda a maquinaria objetiva: que sejamos mais uma roda infértil girando dentro do motor. mas a dor fundamental não permitirá que isso aconteça. é próprio de que se sente ruim, feio e inútil que haja estremecimento, choque, vibração, atrito: entropia. haverá sabotagens. quis-me livre e cá estou implo[...]
[...]ogou o corpo do homem no mar. ele estava sem vida. mas ela lembrou de quando o conheceu, de quando ele assim chegou, de quando ela aceitou, de quando eles pegaram o barco e foram a alto mar. ela pôde beijá-lo e dar despedidas da vida aqui, homenageá-lo. pergunto-me se falta um pouco de homenagem na vida hoje. se falta um pouco de reverência, de silêncio frente ao corpo que não fala mais, que não age mais. se falta um pouco de solidariedade na nossa perspicácia de saber-nos mortais e findáveis. toda luz, toda rua e esquina, e o chão por onde passei não teriam sido o espaço contraído de um belo amanhecer no qual eu e os cheiros do lixo com vermes poderiam ter vibrado de modo a transmutar o resto em tudo? não terá sido isso toda a história da natureza? perdoe-me, mas ajoelho apenas para aqueles que despem-se. perdoe-me, mas gozo apenas para aqueles que estão nus no luar. queira-me, e te condeno a navegar. cuidado com o mar, com as lagoas e com os barcos em geral. eu os uso para matá-lo. e o mato. te quero silencioso como fumaça, adentrando meu quarto. te quero móvel, doce, macio. te mordo. quero tudo da grama, e me ajoelho nela, para tirar de vós aquilo que há de mais vivo. quero que saibas que estou aqui, ajoelhado. e que me queiras. e que a burka e a vergonha sejam apenas a alegoria para tu me querer mais. e não quero casar. nem te trazer pra minha casa. quero que tu esteja exatamente onde estás, encostado na árvore com a bermuda nos pés, seminu, convidando a mim e o mundo para estar entre as coisas que produzem arrepios. quero tudo que há em ti, e as pequenas canecas e os panos de prato, os bolos de pó debaixo da tua cama: quero tudo de ti, os sons de quando tu acorda e peida, o mijo espirando na água do vaso, o cuspe desnecessário para dizer que ocupa um mictório. quero tudo. danço e regojizo nas saliências da tua camiseta, que apontam para uma tristeza e que sei dúbia. tu não és infeliz; és apenas sozinho. verte de mim uma água morna radiante. piso no chão de madeira marchetada: levanta o taco secular, beija a árvore morta. sapateio em milhares de anos de seiva grossa. agora tenho uma dívida histórica com a natureza e preciso drenar qualquer coisa (seiva, saliva, lágrima, esperma) que me permita saldar o débito. pode ser qualquer secreção do corpo - mas terá de ser daquele que amo. a única breve informação que poderia dar a meu respeito, para qualquer marciano ou extraterrestre que aqui pousar, é que eu não extraio coisas de quem eu amo. eu produzo a partir do quem eu amo, eu monto e manufaturo o mundo junto de quem eu amo. não traga sua vergonha para habitar tudo isso que construí para mim e para quem eu amo (embora seja difícil e demorado dizer quem eu amo). se deus existisse, ele me quereria como seu embaixador. mas como ele não existe, continuo andando pelo canal de São João Del Rei achando-o lindo. mas como ele não existe, eu continuo bebendo cerveja até perder a noção de espaço (e cair de boca aleatoriamente). mas como ele não existe, eu permaneço na dúvida: com isso eu sou verdadeiramente mau? eu sou. sei que sou. suaves são as tintas pintadas por alguém que desconheço: não há coisa alguma de mim nelas. razão pela qual não penduro luminárias na minha casa. venha comigo e habite-me: invada e esteja-se: faça sua inteira adesão ao espaço que sou, às palavras que digo, ao cheiro que tenho: deite-se em mim: fale com minha língua, roçando nela: durma comigo. dormir é o ato mais puro. quede-se com sono. cheira-me o pescoço e durma. sinta-se livre para estar em minha presença. prove-me que não sou um monstro. ronq[...]
[...]vre-me desta baboseira que é viver. imagine você que hoje recebi uma "visita". [atente para as aspas, pois sempre que uso aspas eu quero dizer algo diferente do que digo. é uma suspensão de sentido.] a "visita" chegou, me encheu de conversinha sobre a mulher: "ela monitora meu celular", "ela quis separar porque recebi uma ligação de outra mulher", "ela decidiu que quer ter filhos", "eu preciso dar satisfações o tempo inteiro", "eu estou indo à academia todos os dias". acachapante para qualquer tesão, pois tive dificuldades de ereção. mas, de fato, ele estava bem melhor fisicamente que eu - meu corpo deformado em 2020 depois de 3 garrafas de vinho diárias entre sexta e domingo por longos meses de intensa tristeza devido a todas as decisões merda que tomei desde 2014. enfim, estou velho e gordo - eu diria "flácido", mas prefiro simplesmente dizer flácido mesmo porque não quero dizer nada diferente do que digo de mim mesmo. ele tirou primeiro a camiseta. ok, ótimo. mais conversinha: "ela fica mandando mensagens o tempo inteiro", "incomoda principalmente depois do horário comercial". [como deve ser chato ser incomodado depois do horário comercial, quando supostamente deveríamos apenas e tão somente descansar.] ele tirou a bermuda jeans. parabéns. [parece que andou malhando a perna.] começou a se tocar por sobre a cueca cinza de tecido sintético, marca Lupo. eu mandei tudo às favas e tirei a regata, abaixei a bermuda. tá tudo aí, meu filho, não se acanhe. ele discretamente abaixou a parte superior da cueca, mas não a tirou. seria um sinal de não ter gostado do que viu? sim, estou "flácido" e flácido, "gordo" e gordo. talvez tenha sido o "filminho" de DP hétero de rolando na televisão Qled da Samsung, 55 polegadas, que surtiu efeito em algum momento. perguntei se eu "poderia descer até lá". [são elegantes linguagens oitocentistas sobre práticas sexuais escusas.] cerca de 1 minuto depois de "chegar lá", ele diz: "melhor que mulher". pergunto-me agora se essa frase não deveria ser registrada na minha lápide e com as devidas aspas: "melhor que mulher". ou no meu obituário, no meu curriculum vitae. no meu cartão de visitas. "olá. sou 'melhor que mulher'", suspendendo o sentido, é claro. só duas vogais de diferença de uma palavra para outra, e todo o sentido muda. por que precisamos de aspas se um boquete revela toda a filosofia de linguagem necessária para viver?
temos um acordo: aceitamos a presença um do outro somente na medida em que nos tolerarmos. somente na medida em que nos calarmos. somente na medida em que permaneçamos imóveis, catatônitos. ou não temos acordo: uma coroa duradoura de espinhos sobre nossas cabeças ou recheando nossas bocas. cuspindo ameaças mútuas.
não temos acordo, e não porque quero espinhos, mas porque não há critério possível de concordarmos com isso que chamamos de amor. não estou convencido de que há amor entre duas pessoas que não se conhecem para saber, enfim, quem elas são. para saber, enfim, das suas memórias, compartilhá-las, preservá-las. desconhecemo-nos e, por isso, não há acordo.

não há verniz que se possa jogar por sobre amor quebrado, nem que seja para exibi-lo para as visitas no vestíbulo, de passagem.
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a experiência de desamparo devido a nossa distância desfaz qualquer esperança.
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enquanto ele tem medo da morte, eu ainda sigo com o medo infantil da imensidão da vida.
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sozinho no mundo, sem laço forte o suficiente que garanta guarida.
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faço muito esforço para estar junto das pessoas; elas, no entanto, não o fazem na mesma medida.
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há algo a se aprender com a recusa, ou esquecimento, das pessoas em se esforçarem para estar comigo.
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há algo a se aprender com o esforço que faço para ser reconhecido em meu esforço de estar com as pessoas.
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no final, terá sido vã a tentativa de colonizar cada hora do dia, todos os dias, com a promessa de paz?
o dia bonito e quente poderia terminar com uma/várias cervejas geladas! mesas na rua, olhares solícitos, vento, conversas do grupo de trás e ao lado entrecruzadas com as nossas. a confusão é agradável, estimulante. tudo pode acontecer num fim de dia belo e quente. é possível até mesmo estender a mão e tocar em corpos disponíveis. se isso não acontece, é hoje permitido imaginar essa cena, sonhar com ela: tocar em corpos, deslizar a mão sobre eles. ainda não conseguiram impedir que imaginemos as línguas roçando, o que já é um alívio. mas está chegando a hora de uma censura algorítmica cuja interdição nós receberemos sem compreender e, portanto, sem questionar (nenhuma censura é totalmente compreensível e nenhuma é inteiramente questionada). essa censura estará presente até na mesa do bar, até no final do dia bonito e quente, até na cerveja gelada. e as ruas já não serão mais que passagens; e os olhares já não serão mais que meros reconhecimentos faciais; o vento, uma brisa individual e costumizada, controlada por aplicativos; e as conversas serão "conversações em rede", comportadamente técnicas. apagar-se-ão a confusão e o caos, e o babelismo com o qual brindamos o final de dias quentes e bonitos será substituído por uma organizada alocação de corpos cujas interações obedecerão lógicas paralelas e diagonais, de ponto a ponto, criptografadas. sem mais toque, sem nenhuma disponibilidade dos corpos em serem tocados randômica e inesperadamente, acostumados de forma triste à frieza técnica da "conversação em rede", nem mais a imaginação das línguas roçando será viável. essa cena terá desaparecido das lembranças, memórias, tradições, mitos e lendas. por que imaginar algo que já não estará na borda daquilo que é possível acontecer? aí, então, a cerveja será substituída pelo relaxante muscular.
mudei todas as senhas - de email, de internet banking, da única rede social da qual participo, dos serviços profissionais online. escolhi um símbolo que, para mim, remete à transformação em corpo celeste de quem me deixou. todos, em bem da verdade, me deixaram; mas esse foi o primeiro. teria sido diferente se ele ainda estivesse aqui. eu não seria mais feliz, tampouco ele. eu apenas me satisfaço em me angustiar com pensamentos sobre o quão diferente seríamos. quero descrever precisamente isto: a satisfação da angústia em pensar ser diferente, em reconhecer que poderia ter sido de outra forma - que não é agora, que não será depois. mas que poderia ter sido. talvez a descrição mais perfeita seja precisamente verbal: poderia ter sido, o passado bifurcado, não realizado, daquilo que já aconteceu. o futuro de um passado abortado por escolhas de minha quase inteira responsabilidade. a descrição não pode se dar por adjetivos. não há palavras - ou há muitas, difusas, que só cobrem parte do imenso significado do que sinto - que possam caracterizar o esvaziamento provocado pelo fracasso em assumir as escolhas improdutivas que me separaram daquele que eu poderia ter sido. o poderia ter sido é angustiante e é de minha quase inteira responsabilidade o fato de não ser e de nunca vir a ser. esse lugar verbal do não ser, do poderia ter sido e do nunca vir a ser é morno como coisa média sem serventia, sem utilidade, objeto ordinário desprovido de franja alguma que permita e estimule a criatividade do mundo da vida. a tristeza derretida, lânguida, de quem escora a cabeça em paredes para não cair desmaiado de impotência no chão, de quem arrasta os dedos esticados como chicletes velhos grudados na sola do sapato porque não se mantém em pé. encosto-me em qualquer coisa que me pareça firme, nem que seja por alguns segundos, para não soçobrar. não cabe a pergunta "mas, agora, o que se é?". tal pergunta não cabe neste cadinho, nesta maloca, nesta grutinha escura e úmida do que eu sou agora. sou pequenino e esmagadinho, coisa diminuída e rebaixada pelas curvas tangentes às boas escolhas, nas quais me acomodei. de minha quase inteira responsabilidade. pressionado pela pressão atmosférica do mau encontro, puxado pela atração gravitacional da farsa escandalosa. por meio de quais demônios eu me conecto com o mundo? essa é uma pergunta que cabe na minha cela. a resposta sai fininha, espremida entre as paredes deste cubículo de vida que se fecham e comprimem meu corpo todo a ponto de macerar meus pulmões e extrair das minhas cordas vocais apenas sons felinos:
- "
eu simplesmente não posso mais pagar pelo serviço. eu sinto muito, mas essa asserção é franca e direta. sim, é provável que se trate de uma forte recusa em narrar tudo que há de errado, de equivocado ou de sofrido. eu não me importo de me recusar a falar do meu sofrimento. eu me importo em falar do meu sofrimento sem ter condições de pagar para que alguém me ouça. e mesmo que eu não me importasse, não é de todo impossível que outros gatilhos (conversações mínimas, insights durante tomar banho ou ao dirigir na estrada) me permitam, com certo atraso, entender o que no mundo há de mim, e o que desejo do mundo e se desejo algo whatsoever. há uma revolta fundamental: gostaria de continuar falando dos meus equívocos. não para corrigi-los, não para passar a acertar; porque são o que há de mais meu, de mais sinceramente eu. minhas fendas, meus pedaços de história mal dobrados, meus tecidos amarrotados de memória. é claro: será um espaço a menos no qual eu tenho a chance de recontar os vários modos pelos quais cheguei até aqui hoje e assim. porque, no final dos contas, é só disto que se trata: testemunhar a própria vida, reconhecer-me como aquele que caminha (e não aquele que domina o caminho). não insista, por favor; um ser caminhante tem dificuldades com o divã. ainda sobre a recusa, sobre a resistência, penso que funciona como uma moratória: assumo, não nego, resolvo quando puder. talvez neste momento eu precise caminhar um pouco mais. não insista.
já fui mais aguerrido, é verdade. mais inconformado, mais revoltado e, por isso, mais ativo. por vários momentos, reativo; ainda assim, mais móvel e inquieto. hoje valso mais na reticência. não estou empacado, nem regredindo. estou sendo puxado pelo tempo presente, por ora no redemoinho do presente contínuo. é um estranho fluir sem pressa ao qual estou e sempre fui pouco afeito. em setembro, Porto Alegre ganha cores lindas com o florescer dos jacarandás e ipês. me sinto um pouco como a cor das flores dos jacarandás e dos ipês: um instante que não age para deslocar-se e que desliza num agora duradouro, caindo das árvores e reaparecendo em intervalos mais ou menos calculáveis. não sei se essa forma de existir é mais conforme aos trinta e seis anos que adquiri há pouco; afinal, são os jovens que buscam. eu parei de fazer projetos e de querer coisas do futuro - de ver coisas no futuro. tenho dificuldades em retomar o curso da vida ao projetar objetivos, estabelecer metas para alcançá-los ou, simplesmente, imaginar-me em outro país ou em outra cidade, com outra profissão. em outro corpo. eu não busco mais, nem sou buscado. desisti, em dois momentos, de mudar de vida, de cidade e de país. talvez minhas chances esgotaram, e nunca fui bom em ter chances - ou eu de fato aos aproveitei quando as tive. chances não são renováveis. chances não são créditos que uma ou várias boas ações compram ou fazem acontecer. as minhas chances foram flores de ipê ou de jacarandá que floresceram apenas uma vez, e eu as contemplei com a cabeça apoiada em uma das mãos, sorrindo, até que caíssem intocáveis no chão. é uma tranquilidade triste de um permanente por-de-sol de um domingo frio.
de dezesseis de setembro a quatro de julho, pouco menos de dez meses de pura afonia escrita. houve de tudo, do céu ao inferno, da direita à esquerda, do sono à vigília. marcas tristes no decorrer de uma vida um pouco estreita de mais, brilhante de menos. entretanto, se eu voltar a escrever depois de dez meses é provável que eu não tenha mudado tanto os temas sobre os quais penso e escrevo. pois faço curvas e curvas, subo e desço, às vezes eu paro, mas alguma impregnação - como uma imantação - me mantém estreito e opaco. depois de onze anos, não é anacrônico e, quem sabe, moralmente reprovável manter um weblog no qual a única narrativa é a minha própria sobre o mundo? é o mundo e as pessoas a partir de mim? é desde esse perspectivismo que tudo se desdobra? há outra narrativa possível? sou chato, mas um chato calado, diferentemente do homem sentado agora ao meu lado em um café, num dia frio, que não para de falar nos estados unidos (sobre "como lá o atendimento em bares é melhor", sobre "como o transporte lá é melhor", sobre "agora foi comprovado nos estados unidos que o ovo faz mal", sobre "eu vou voltar pros estados unidos, só estou esperando o momento certo"). seu tema é irritante e seu sotaque arrastado de portoalegrense descolado contribui para o cultivo de um desprezo por aquilo que fala e como fala. o fato de ele não ouvir, absolutamente, a mulher com quem ele divide a mesa, só reforça o que seu monotematismo grita: o mundo se desdobra a partir dele próprio, e a sua narrativa é a única que importa. não quero ser ele, e seu eu for, prefiro ficar meses em pura afonia.
foi em mim diagnosticada uma doença incurável. meu intestino produz gases assim que qualquer pedaço de comida, sobretudo as sólidas, entra no meu estômago. os movimentos peristálticos se põem em marcha e a superfície das microvilosidades reage com os sucos gástricos. posso atenuar os sintomas tomando algum remédio em gel ou evitando ingerir alguns alimentos. mas nada existe no mundo que possa curar essa reação do meu corpo. isso significa que eu solto gases permanentemente, ou pelo menos enquanto eu comer. se fizer greve de fome será pior, pois o jejum prolongado provoca aerofagia, o que incrementa aritmeticamente os gases. por conta disso não saio mais de casa. recuso convites para boteco e para jantas. recuso ir a festas, a baladas e a orgias. é inconcebível praticar sexo anal sem me imaginar ejetando-me como um ônibus espacial em direção à lua. vou me separando do mundo e me subtraindo das relações, por pura vergonha.
foi diagnosticada em mim outra doença incurável. as ramificações lombares dos meus nervos que saem da coluna podem eventualmente ser atacadas pelas próprias células de defesa do meu corpo. isso produz fortes dores no abdome transverso e quase sempre acaba numa reação dérmica, cujas marcas acompanham o entorno do meu tórax, como se fossem feridas abertas por sobre as linhas onde os feixes de nervos se espalham. no mais das vezes só sinto dores lancinantes quando a água do banho (quente demais ou fria demais) passa por sobre um desses feixes de nervos - e eu tomo banho duas vezes por dia. as marcas mais severas são provocadas quando me encontro sob muita pressão psíquica, seja pela ansiedade ou pela depressão. às vezes as crises deixam cicatrizes. é como se eu tivesse sido punido com cem chibatadas. vou me separando do mundo e me subtraindo das relações, por pura vergonha.
olho para meu corpo cada dia mais, com mais curiosidade. as costas, todos os cantos do rosto, até a parte de trás dos joelhos. por debaixo da pele corre um líquido borbulhante. em torno da minha pele há uma aura estranha de vento revolto, uivante. a pele engrossa nos pés e torna-se flácida embaixo dos olhos. meu rosto cada vez mais cheio de vincos. será mesmo que já está tudo perdido? será mesmo que já perdi todos os anos, e que de agora em diante haverá um permanente velório pela minha vida que ainda não morreu? estarei eu em luto? desde quando? por que ainda não abandonei o preto da dor da perda? será que não há mais por que estar no mundo deste jeito, nesta forma, com este corpo? devo me responsabilizar estoicamente pelas tristes escolhas que fiz? devo tentar mudar algo em mim para mudar algo no mundo? devo mesmo insistir na vida, na criação de alguma vida que valha a pena; devo deixar de ser egoísta e reconhecer a benevolência do mundo ao me conceder, ou ao permitir que eu conseguisse, uma casa, roupas, comida? devo querer mais? é de mais vida que preciso? devo me fazer menos perguntas? que eu ande mais sob o sol, sob o vento, que eu me exponha mais aos olhares? que eu trabalhe mais? que eu sorria mais tentando parecer integrado, bem-posicionado, satisfeito com o percurso que me fez chegar até aqui? não posso olhar para trás e assumir que errei? posso querer despir-me do meu corpo? posso recusar esta vida sem ser censurado, sem ser criminoso, sem ser louco? posso ser apenas triste? ou tenho que dar razões da minha tristeza? elas seriam suficientes? vou me separando do mundo e me subtraindo das relações, por pura vergonha.
encontrei-te-nos-emos. pura carne sem o vinco irreparável daquilo que deve vir a ser. é uma camiseta a ser passada a ferro quente: prega de calça que, se muito insistirem, ficará marcada pra sempre. a hora qualquer, em todo o tempo possível, em que tu quiser desistir, eu sofrerei, mas entenderei e não subsidiarei com instrumentos ou estratégias. é a única ajuda que te nego desde agora. porém, se tu quiser fugir, com medo, eu te darei guarida. e se tu quiser insurgir, com raiva, eu te darei o álcool. e se tu quiser revolucionar, com força, eu me unirei a ti.
e se tu quiser mudar para outra casa, para outra cidade ou país, para recomeçar tal como eu te conheci - começando uma vida -, eu desde já apoio e peço que cuide bem dos detalhes. não vá para longe antes de ter certeza de que a latitude não remove o insatisfeito. aquilo que se deve fazer se impõe, aconteça o que acontecer, com cada vez mais força se negado. portanto, faça de primeira: vá embora, conteste, chore, grite, pergunte, acuse. do contrário, vão te deixar, vão se opor a ti, vão sofrer por ti, vão te questionar, vão te responsabilizar por crimes cujo responsável é o tempo. faça de primeira, senão o tempo te culpará pelos erros dos outros.
encontrei-te-nos-emos. que linda a tarde em que tu nasceu. não havia nuvem no céu, como se o infinito, para ti, estivesse circunscrito por uma membrana fina, longínqua, de cor azul radiante, que tu pudesse em qualquer momento, com trabalho árduo, perfurar. o sol tão imenso quanto o céu. e tua pequinês tão leve quanto uma semente. o peso da tua vida está na tua potência. o dia seguinte àquele em que tu veio ao mundo foi de pura chuva, raios e trovões, e coisas estranhas das mais múltiplas. inexplicáveis. por exemplo, pedras deslizantes e oblíquas nas quais precisei caminhar para te ver. drogas (tua mãe estava chapadíssima). acidentes de carro. por-de-sol amarelo no rio. calor e umidade atravancavam a tarde. o vento soprou forte e a temperatura amena deu lugar ao frio, anunciado pelas nuvens cinza-claro que se destacavam contra o céu escuro da noite. o mundo se revolvia pela tua chegada, te estranhando. as árvores dançaram. a água encrespou. o sino dobrou brabo. alguém estava entre nós para fazer algo diferente.
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entristeci na escrita e vou parar aqui, embora eu tivesse coisas mais bonitas para dizer sobre ele.
"Todo ser que viveu a aventura humana sou eu" (YOURCENAR, 2003, p. 267).

a da mais plástica solidão. da condição permanente de precariedade, estado de vulnerabilidade cujo volume ora aumenta, ora diminui. "todo" ser não é "todos" os seres. eu sou um ser inteiro a quem aconteceu o acidente de viver a aventura humana. nem tudo do meu ser a viveu. mas as partes minhas que viveram habitaram a humanidade esvaziada de companhia como um grito na noite chuvosa que não tem eco. a vida é um grito no vazio, sem eco. nem todo ser que vive sabe da aventura humana. há quem viva e não se aventure pelo humano. não se pode conferir qualquer precariedade humana a qualquer aventura que os seres eventualmente tenham em vida; há critérios. ser precário é condição de todo ser em vida, mas a precariedade é distribuída de maneira desigual entre aqueles que vivem. a aventura consiste em espreitar os gradientes mais intensos da precária condição de viver. a condição precária de viver sou eu. tornei-me a própria aventura, a própria e intensa precariedade. eu não sou todos os seres, mas somente aqueles que viveram a aventura humana: sou um só. como eu, outros podem tê-la vivido, mas suas condições precárias os impedem de conversar comigo. que outro tipo de aventura existe além da humana? o triste testemunho de quem só ouve a narrativa de sua própria vida por meio de rumores mal articulados pelas bocas dos outros. a flácida imagem de si mesmo que só emerge na superfície míope dos olhares dos outros. a decepcionante memória deslegitimada que não conta com nenhum companheiro para compartilhar a verdade aventureira que é ser humano. todo ser que viveu a aventura humana sou eu: sozinho.
o que esperar dos encontros, não é mesmo?, se não o choque que trepida a expectativa que temos um do outro e, dos estilhaços, fazemos um cadinho de ressentimento daquilo que esperávamos ter sido e ter tido, do quinhão que nos habilita ser humanos nem um décimo ter podido preencher, com as posturas secas e sorridentes que mandam as etiquetas para fotografias e redes sociais, a lacuna básica que nos faz seres (humanos) que sorriem para quem os despreza em busca de uma resposta, reconhecimento, se nenhuma das posturas-palavras-gestos-faces-garrafas-de-vinho-e-presentes serão suficientes para desfazer qualquer ferrugem, intoxicação ou miopia, sobre a relação mesma que está se pondo ao encontro porque precisa afirmar-se enquanto choque, estilhaço, vidro quebrado.
uma porta aberta do roupeiro, escancarada, me atira para dentro de redemoinho de bagunça, coloca em toda a superfície algo desorganizado, desigual e heterogêneo que treme a imagem que tenho do quarto. não me ocorre pensar em arrumar as camisetas, meias e casacos; quando o faço, extraio sangue da carne entre as unhas de tanto por em ordem. mortifico-me pela bola de pó que se acumula no canto do quarto, ou da sala, mas junto as pequenas bolas com as mãos sem cogitar varrer o chão, sem cogitar passar pano úmido; quando o faço, arranco partes do assoalho que se descolam do cimento graças ao excesso de desinfetante. um silêncio enganoso equilibra-se no ar frio do quarto: um cão latindo ao fundo, um carro acelerando várias quadras daqui, surpreendentemente a vizinha hoje não assiste tv no quarto ao lado; um engodo de silêncio que mais ou menos paira junto com o ar gelado. quais crueldades estão sendo maquinadas enquanto me aconchego no suposto silêncio do meu quarto? quais maldades nos aguardam para amanhã, "em mais um dia de tempo estável e temperatura amena"? ouço alguns passos andares acima, que cessam em seguida. uma porta bate. todos dormem, mas eu não. quero escavar os barulhos e quero atribuir histórias a eles. quero alocá-los no mundo, embutir sentidos nesses ruídos. quais maledicências estão sendo ditas sobre mim? qual mantra de incompetência me circunda e me eleva do chão, como névoa? o tecido da minha pele se esgarça aos poucos, instaurando vincos nas superfícies planas do meu rosto, esticando a pele grossa das mãos cuja textura se aproxima da dos papéis a4, os lábios craquelam e racham prendendo palavras que não podem sair, não agora. a boca sangra. uma desordem aparente no roupeiro, confusão de cores e tamanhos, com a porta toda aberta, escancarada. calças muito apertadas, mal costuradas, surradas do suor. camisas amarrotadas, desbotadas. não sei dizer quantos botões faltam nos suéter e nos pulôver - na verdade nem sei escrever essas palavras e ignoro a diferença entre as duas peças. ouço alguém tossindo no andar de cima: princípio de pneumonia, mulher solteira de quarenta anos, filha única de viúva, antibióticos não funcionam. sigo acordado tentando criar narrativas para aquilo que não tem ou que não merece história. crio-as mesmo assim, porque sem besuntar de memórias, de passados e de razões para existir qualquer coisa que seja eu não consigo viver neste mundo, um mundo que de mim confisca as memórias, os passados e as razões para eu existir. invisto a bola de pó de reivindicações políticas e o roupeiro esculhambado de crises existenciais. ponho significações no silêncio como etiquetas. vou desfigurando essa solidão dando nomes, profissão e signo astrológico para cada taco do piso de parquê da minha sala.
meu corpo tem estado diferente. as carnes estouram a pele. a pele tem sido rasgada e, no rasgo, tenho colocado tintas. estou bastante pintado. tenho pintas por dentro e por fora de mim. tenho rosas sangrando nos pulsos. meu corpo tem estado aguardando a morte de um jeito ansioso, e talvez alguma parte dessa tensão seja precisamente o que tem feito dele mais pujante, mais carnudo, mais polpudo. hoje, por exemplo, acreditei ser de outro a bela coxa peluda refletida no espelho, grossa e roliça. era a minha. é possível dizer, sem erro de engano grosseiro, que a precipitação em direção à morte incrementou-se. tanto mais próximo do sol, maior a claridade que incendeia o que dele se aproxima. talvez seja esse clarão, essa explosão de luz da qual meu corpo se serve agora. estou indo morrer em direção ao sol.
das razões pelas quais rastejantes reivindicações de glória fazem a pose e o viço de uma pulga à beira do ralo, precipício e abismo, despenhadeiro para um ser tão pequeno, das coisas que a pulga grita na beirada e cujos sons reverberam do fundo do desfiladeiro no qual ela inequivocamente cairá e que voltam, potentes, para o mundo todo saber que ela está prestes a cair, da palidez da pulga saltitante na beirada, borderline, esvaída de toda sua substância mas quicando como um ser cheio de vida, da mentira completa, fake news, que a pulga grita na beirada locupletando-se do eco falso que sobe de onde ela inescapavelmente descerá até o fim, já tudo sabido sobre a trapaça da pulga decidam-se afinal se a salvarão (sim, claro que o farão), se a manterão no topo do ralo (o mais baixo do banheiro), goela que engole o resquício da espuma que lava minha sujeira: pulga, tu serás salva por quem de ti precisa.
pequenos animaizinhos; não era um monstro grande, horrendo, que o atormentava. eram pequenos animaizinhos. três ou quatro vezes ao ano ele tinha certeza de que era habitado por vermes. compunham, esses animaizinhos, o reino de seus "companheiros". desde aqueles que habitavam os poros de seu nariz, causadores da acne severa, até os pequenos escorpiões, aranhas e cobras que ele supunha dormir consigo. supunha deitar-se na cama e eventualmente encontrar um desses entre os lençóis - razão pela qual sempre estendia os cobertores e batia os travesseiros na parede antes de dormir. acreditava que ao estender os cobertores e ao bater os travesseiros ele mataria os animaizinhos ou pelo menos os espantaria, faria com que fugissem. mas sabia (fantasiava...) que voltariam e que se aninhariam ali, num canto fofinho, escuro e quente. dormindo com pequenos animaizinhos peçonhentos, ele sonhava. e não sonhava com um monstro recorrente, aterrorizante. sonhava com pessoas. três a quatro vezes ao dia ele tinha certeza de que um dia teria um namorado. compunham, essas pessoas, o reino de seus "fantasmas". desde aqueles que habitavam esses sonhos diurnos, causadores de distrações no trânsito, até os pequenos amantes, maridos, amigos-coloridos que ele supunha dormir consigo. supunha deitar-se na cama e eventualmente encontrar um desses entre os lençóis - razão pela qual perfumava-se com colônia e hidratava a pele seca com creme antes de dormir. acreditava que ao perfumar-se e ao hidratar-se ele conquistaria as pessoas ou pelo menos as encantaria, faria com que voltassem. mas acordava (relembrava...) e sabia todos os cantos fofinhos, escuros e quentes da cama e de seu corpo completamente vazios, abandonados. sonhando com pessoas que o desejassem, ele acordava. pequenos escorpiões, aranhas e cobras espreitavam-no no quarto. pequenos animaizinhos;
não há garantias, não posso estar seguro nem afirmar como testemunho, mas não devo suportar até o fim. é provável que o fim chegue sutil, sem anúncio, inaudito e imprevisível, pouco antes da curva gloriosa do nascer do dia. hei de ter cansado de comer diariamente o mingau amargo da comiseração. ao que tudo indica, sofrerei de certa vertigem causada pela altura. terei dificuldades em transpor o parapeito e o farei como quando criança eu transpunha o cercado do berço. ainda não estou certo se estarei de frente, encarando o sol em meia-lua subindo a linha do horizonte, ou se estarei de costas, tocando as pontas da sombra da minha cabeça. é como um nado sem sinalização de chegada à borda da piscina. quando as palavras são duras, nenhum chão está à altura de impor-se ante a queda do corpo. cada um possui seu próprio e onipresente empuxo, sua intransferível força centrípeta, que apontam para seu não-herançável oco pesado. cada um tem sua queda, caída desde a beirada arrombada de um parapeito. não posso ter certeza.
"Além das quatro civilizações de vermes florescendo no intestino..." (HERINGER, 2016, p. 142)

a primeira civilização foi marcada pelo tribalismo, forma de vida baseada na transmissão de valores por meio da cultura oral. a primeira civilização era composta de algumas comunidades, membros que se reuniam em pequenos grupos, que compartilhavam não da mesma fala mas das mesmas crenças sobre a origem de sua existência, sobre vida após a morte e, sobretudo, sobre a natureza mágica que fornecia alimentos para todos. houve um deles que, entrevendo o comum entre o diverso das diferentes tribos, e expressando-se maleporcamente nas variadas línguas faladas dessas pequenas comunidades, uniu-as todas e pela primeira vez sob o signo de um conjunto de valores transcendentais (embora poliglotas): foi Ascaris Lumbricoides, da tribo dos nematódeos. entrou pra história como Áscaro, o Conciliador, por ter entretecido politicamente os fios da unificação que resultaram na primeira civilização. reinou por longas décadas, na qual a coexistência das diferentes culturais orais das tribos unificadas foi defendida por meio do exercício da mais fina diplomacia. o período de reinado de Áscaro é hoje conhecido como a pax lumbricaa.

a segunda civilização, diferente da primeira, foi marcada pela escravização das comunidades tribais unidas por Áscaro e pelo totalitarismo no governo dos seres. a crença de que uma raça, e somente uma, era a melhor para governar o mundo baseou-se na fé de que uma energia literalmente superior havia escolhido os cestóda como os merecedores para reinar. os cestóda eram monoteístas, ao passo que os nematódeos eram politeístas. um orador carismático e populista passou a empregar as antigas crenças ancestrais dos nematódeos para pregar palavras sobre um futuro glorioso, de uma civilização guerreira e temível, da qual seria o líder. trata-se de Taenia Saginata, ou Tênio, o Terrível (ou Tênio, o Rude). em sua ânsia por governar, Tênio dizimou as muitas tribos nematódeas que resistiram à sua pregação fanática. tinha porte pesado e tinha maneiras grosseiras, de um genuíno soldado. articulou uma brigada e marchou sobre a comunidade de Áscaro, cuja essência humilde e política obrigou-o a tentar dialogar com Tênio. as tentativas foram vãs, e Tênio assassinou Áscaro. dizendo-se emissário de uma força maior, Tênio submeteu as tribos nematódeas a um governo centralizado em seu ser, anexando territórios e escravizando a maior parte do povo. ele, Tênio, e apenas ele, decidia sobre o futuro deste que foi o primeiro império da civilização. constituiu um enorme exército do qual fez seu filho general. embora marcada pela violência, a civilização sob o reinado de Tênio aprofundou as trocas comerciais e a produção agrícola familiar. até onde guardam os registros, Tênio supostamente morreu de causas naturais depois de superar Áscaro  em tempo de duração como soberano. especula-se, entretanto, que tenha sido vítima de eutanásia realizada pelo próprio filho.

a terceira civilização aconteceu sob o reinado de Tênio Segundo, o Grande (ou Tênio, o Solitário para os solidários; ou Tênio, o Virgem para as máslínguas). Nome de batismo: Taenia Solium. não tinha o aspecto forte e rude do pai: era magro, alto, longilíneo, de aparência até frágil. porém, sua inteligência aguçada fazia com que suas astúcias fossem uma verdadeira armadilha para seus opositores. não era um líder, um populista, um carismático como o pai. Tênio Segundo era mais discreto, mais sutil, e infinitamente capaz de disfarçar suas opiniões com o objetivo de assegurar seu lugar de cabeça do império. abominava o exército construído pelo pai e odiava o longo período em que serviu as forças, mas justamente por ter passado a maior parte do tempo da sua vida na caserna podia (e sabia como ninguém) manejar os capitães de modo a transformar as tropas em seus emissários diretos junto ao povo. fez do exército um ministério público. fez do totalitarismo um status adorado. fez-se um imperador respeitado até pelos revolucionários insurgentes nematódeos. transformou alguns quartéis em bibliotecas. de meros comerciantes locais e produtores agrários familiares, Tênio, o Solitário extinguiu impostos e estimulou as trocas de riquezas entre as várias comunidades do império. e, pela primeira vez, mandou emissários para terras-além-mar, encarregados de enviar notícias a outras civilizações da existência de sua própria. entretanto, sua política de gestão interna passou a dar sinais de defasagem nos últimos anos de sua vida. apesar de combater o espírito de medo implantado pelo seu pai e de converter soldados em agentes públicos de cidadania, Tênio Segundo ainda encontrava problemas em lidar com a participação popular no seu reinado, bem como resistia a entender e deixar debater sobre regimes de governo diferentes do império. morreu velho e sem filhos nos braços de um antigo companheiro de serviço militar, que acompanhou a vida inteira do soberano atuando como seu secretário particular. esse amigo de longa data suicidou-se após os trabalhos fúnebres de Tênio Segundo e deixou apenas um bilhete: "enfim juntos novamente, agora para sempre".

a quarta e última civilização começou com um período de regência, no qual alguns generais revezaram-se no trono imperial até que se decidissem sobre que rumo a política deveria seguir. alguns defendiam a prospecção de um novo líder nematódeo, ancestral, que resgataria a pax lumbricaa; outros, mais ansiosos, apostavam em um perfil de soberano agressivo e inquisidor, crentes de que a confusão popular produzida pelo estado do governo acéfalo seria sanada com um líder forte e incisivo; outros apostavam na coroação de um dos sábios formados pela educação das bibliotecas, cuja inteligência apaziguaria o império. um dos generais a ocupar o trono durante a regência tentou dar um golpe nos demais. por três dias houve lutas, rebelião, mortes, com greves e incêndios, bloqueio de estradas. o tal general foi morto numa emboscada de radicais nematódeos. sem que a maior parte dos generais percebessem, a tribo dos enteróbios infiltrou-se em todos os escalões do exército, tornando-se maioria entre os agentes públicos de cidadania. por um longo período durante o reinado de Tênio Segundo, a tribo dos enteróbios planejou e executou o plano de imiscuir-se em todas as esferas do governo, começando pelas tropas e subindo para os altos postos, ocupando sobretudo cargos burocráticos que os cestódas não achavam digno ocupar. por décadas os enteróbios espalharam-se em todo o império, multiplicando-se discretamente e tornando-se indispensáveis para o funcionamento da gestão imperial. tal plano foi concebido pelo singelo Oxiurus Vermicularis - ou Oxioro, o Conquistador. pequeno a ponto de ser quase invisível se comparado aos solenes Tênio, o Terrível, e Tênio, o Grande, ele conseguiu orquestrar uma invasão tão silenciosa quanto eficaz em toda a máquina de gestão imperial. tornou os velhos equipamentos governamentais mais ágeis, eliminando boa parte da burocracia que sua tribo conhecia tão bem. arrojou as bibliotecas, ampliando-as. agilizou as trocas comerciais suspendendo impostos (mas aumentando juros dos empréstimos), implementou políticas de formação especializada para os agricultores. e treinou os exércitos para, em vez de matar, vasculhar e colonizar novas terras (algo que os emissários diplomáticos de Tênio Segundo não tinham e, ao que parece, nunca conseguiram, posto que jamais voltaram de suas missões em terras estrangeiras). o próprio Oxioro liderou uma missão de vasculhamento e colonização de terras além-do-império. poucos relatos temos hoje dos resultados de tal empresa. pois a civilização do império de Oxioro, o Conquistador, foi dizimada por meteoros que caíram do céu em bolas de fogo durante cinco dias ininterruptos. não há hoje documentos que provem que Oxioro tenha conseguido fixar-se em terras estrangeiras. sabe-se apenas que os remanescentes históricos dessas quatro civilizações memoráveis não são mais do que ruínas em desertos desolados, inabitáveis.
cheguei perto da janela e senti o cheiro da tinta usada para pintar as aberturas. o mesmo cheiro que senti na primeira vez que entrei pela porta do apartamento. cheiro de vida nova. lascas de realidades vindouras que vão grudando ora no nariz, ora nos olhos, ouvidos e boca. da primeira vez que entrei neste apartamento, senti minha vida toda vibrando nas paredes. quis abraçar as peças inteiras. meu quarto, por exemplo, pode ser desmembrado em dois: antessala e cama. na cama está meu íntimo, o mais íntimo. é onde eu sonho, mas somente quando eu lembro que sonho. tenho sonhado com escorpiões e seus rabos venenosos. o escritório é do tamanho de uma cozinha de um outro apartamento onde morei anos atrás. coincidentemente, ou não, aquela cozinha foi onde eu mais gostei de cozinhar e aqui é onde eu mais gosto de trabalhar. meu trabalho tem um aspecto culinário: preparações, sabores, degustações. houve uma vez alguém, não lembro quem [e, se lembro, não quero dizer quem é] me disse  que eu fazia alquimia com a escrita. não sei se cozinho as palavras. acho que não. minha escrita tem mais a ver com vômito mesmo, uma coisa irrefreável que é expulsa pelo meu corpo. não sem ressaca, não sem vergonha, não sem um gosto amargo e ácido na boca logo depois que sai, violenta. minha sala tem quatro ambientes: vestíbulo [onde guardo os tênis e sapatos, pois logo que entro no meu apartamento eu os tiro], sala de jantar [com uma mesa de dois lugares, sempre vazios e sem cadeiras], sala de estar [com uma tv imensa, potente, lisa, plana magnética] e uma sala de estar íntimo [a sacada, que é fechada, com duas poltronas sempre vazias e uma espécie de sofá oriental com algumas almofadas]. uma longa tripa bem iluminada pelo sol, de paredes brancas, vazia na maior parte do tempo. a cozinha é o tamanho da minha vontade e desejo de cozinhar: nem sempre, nem tão sincera, nem tão bonita, nem tão gostosa. mas eu gostaria de morar, mesmo mesmo, é na área de serviço: imensa, longilínea, tem até um banheiro separado, é fresquinha e é onde os primeiros raios de sol entram no apartamento; tem quatro janelas grandes que molham bastante quando chove; eu poderia deslocar uma cama de solteiro para dormir na área de serviço e a transformaria na minha suíte. e não seria isso, afinal: a crença de que sou mais adequado para a área de serviço do que para o quarto de casal? que feitiço eu me lancei, me pergunto, para que eu ficasse tão hipnotizado com a solidão? que feitiço eu lancei, me pergunto, na porta de entrada do apartamento que impede pessoas de atravessá-la? que feitiço lançaram, eu pergunto, no meu fígado para eu beber tanto tanto tanto tanto tanto e ainda assim ter uma saúde de ferro & zinco? mês passado eu tive o diagnóstico de "nódulo no fígado". vibrei! [como as paredes do meu apartamento.] morreria, enfim, de um câncer fulminante, morreria elegantemente, coroado pela sabedoria transcendental de quem tem hora para morrer. receberia as inimigas e inimigos numa maca de um hospital duro e seco, leito de morte no qual eu perdoaria suas traições e malfeitorias contra minha pessoa. daria minha bênção para continuarem suas vidas sempre lembrando da minha misericórdia e altivez. e me poria a escrever um último livro, talvez o único, no qual eu registraria meus últimos dias com marca autoral, chocante e arrasadora, que inauguraria uma nova fase na literatura nacional. chegaria a ser cogitado para o Nobel de Literatura póstumo. no dia da minha morte, sabendo que meu corpo já se entregava para a lama obscura, eu escreveria as últimas duas ou três sentenças [frases, períodos] do meu livro, com certa dificuldade devido à fraqueza e à desorientação causada pela medicação pesada, administrada para despistar a dor. \quis uma vida simples e sempre trabalhei para complicá-la/ \o corpo que odiei hoje finda sua vingança contra mim/ \hoje eu vibro pelo fim/ "oh, como foi digno até o fim!", diria até quem nunca me conheceu. o povo todo se arrependeria de não ter me conhecido. e meu funeral seria quase como um ato político da esquerda, no qual estariam presentes os nomes mais cotados para fazer frente à onda conservadora que cresce no Brasil. o caixão [simples, de madeira compensada, sem rococós e sem trabalhos de marchetaria, uma "caixa grande" literalmente, pois tanto maior é a comoção quanto menor é a pompa] seria carregado por uma multidão de anônimos, levado até uma praça ou descampado à beira do mar ou do rio, onde seria pousado sobre toras/galhos/galhetos/tocos/troncos de madeira seca. ali meu corpo seria cremado, convertido de carne em pó pelas altas labaredas coloridas de fogo. haveria palmas e lágrimas. haveria abraços e reverências. a multidão faria por mim um minuto de muito barulho, pois de silêncio minha vida já teria sido repleta. e as cinzas do meu corpo seriam recolhidas por garis em seus uniformes, pois eles sim são honrados o suficiente para lidar com meus restos da mesma forma como eu sempre os respeitei em vida, porque eles lidaram com meu lixo sem me abandonar e sem reclamar. e as cinzas do meu corpo seriam levadas para uma horta comunitária na qual seriam cultivadas hortaliças, legumes e frutas orgânicas. as cinzas do meu corpo seriam misturadas à terra. e lá seriam colocadas sementes, raízes, adubos. finalmente, numa aurora discreta, as primeiras folhas e flores alimentadas pelas cinzas do meu corpo despontariam, desabrochariam, estenderiam-se na linha do horizonte abrindo-se ao sol, ao novo sol, ao belo sol que se derramaria sobre elas. folhas e flores simples, de cor pastel, pequenas.

de volta para todo o espaço que habito, de volta da fantasia de morte e do egocentrismo, de volta da viagem egóica sobre a impossibilidade do esquecimento dos outros por quem eu sou: de volta para a concretude das paredes deste apartamento que vibram a vida que aqui levarei. o nódulo é só uma névoa no fígado, muito provavelmente algo que eu tenho desde que a primeira célula se desprendeu e fez outra de mim. nada estranho ou assustador: só uma parte de mim que desponta nos exames. o nódulo é eu coagulado. então é aquilo que eu já sabia: vida simples, de cor pastel, pequena.
voltei pra casa passeando de Uber. olhava pra ângulos e paisagens que eu nunca via quando eu dirigia meu próprio carro. a cidade abria-se inusitada, ampla. quis escrever sobre tudo o que eu via. teve histórias longas sobre moradores de rua e sobre árvores bem iluminadas: a narrativa das sementes que os puseram ali. me intriga o corpo e o tronco. e se eu parasse agora de fazer todas as coisas, e qualquer coisa, se eu parasse de agir e permanecesse imóvel na cama. e se. se houvesse um você Outro a me dar uma medida, um limite. e se. perceba que não há ponto de interrogação: pois é uma afirmação. a possibilidade de haver outras luzes, outros troncos e outros corpos não é uma pergunta que eu jogo pro além. é uma afirmação eu eu faço pra mim.
se ninguém me interromper eu vou vazando e deslizando pelo meio-fio da rua até ficar todo exposto a ti e ao teu olhar desprezante, ignóbil, pelo qual eu lambo os paralelepípedos e tomo a água da poça na esquina, em nome do teu olhar, eu como o lixo, eu durmo suspenso em desfiladeiros.
fui mesmo no instante que doía, em mim e nele. arrasei quartéis. mas me enlouquecia o chão brilhoso e as teias de aranha no teto: havia alguma esquizofrenia que impedia de entender o teto como sujo. o teto é sujo. há sujeira no teto. o chão pode ser limpo, mas o teto... buenas, continuei. ele reclamou porque botei a long neck de cerveja no sofá, escorada no braço. do sofá. maníaco por limpeza. eu quis um mundo, uma pintura em preto e branco, pode ser carvão, ou pode ser óleo, eu quero um mundo: já não faz muito que eu não reconheço a pele das minhas mãos e hoje ambas estão muito àsperas [me pergunto se estão indo embora de mim?], coisa corriqueira e sem valor no meu diaadia trouxa, que me faz ser eu mesmo trouxa e sem valor, desfazendo qualquer abismo vaidoso daqueles que querem e pensam que tÊm, mas eu que nada nem tenho meu próprio corpo que produz nódulos e manchas e pintas irregulares a seu bel prazer, meu corpo querendo ir embora, que acho estranho porque sempre foi forte e sempre pareceu querer ficar neste mundo de bosta e agora arranja um nódulo ou uma pinta, e cadê minha cerveja ah! achei, no sofá, e quisera eu morrer sabendo da morte com amigos e parentes (parentes não) e bonitinhos e adjacentes, portanto: no banheiro, certo? quando tu tira a roupa, certo? e entra, certo? a água vai caindo e te envolvendo e chicoteando, lambendo e coisando [não achei verbo adequado] a ponto de a gente escutar a água rolando na pele num som que hipnotiza e faz dormir ou faz sonhar; eu quis pisar em assoalhos neutros e descobri com dureza que não há ..... assoalhos. nada em que pisar. doem meu pés e minhas mãos. não tenho coragem em admitir que tenho artrose, embora essa doença me impedirá de escrever em algum momento. não deixe, você que está lendo, que eu pare de escrever por dor. eu permito a tortura somente neste caso: se for pra eu escrever. e escreverei toques lindos, sons e olhares, como eu sei de enquadramentos e de cheiros, e o corpo [não poderia faltar!] discreto e sem cheiro que me pousa a coroa do rei do cotidiano, nemfeionemlindo, uma palavra comprimida e sem hidratante que performa toda a secura e solidão [secura e solidão já foram juntadas antes; portanto: rever]. é a coisa mais feia do mundo esperar. pergunto-me por quê. será o sol que queima? o ar que enche? a luz que rasga? meu pai cheirava como eu cheiro hoje: pelos da perna escamando, nariz avolumando, cabelo grisalho. o cheiro da palma da minha mão é tão meu pai. e a embalagem do sabonete. e a casa: ele me acordava pra tomar água na tampa do pote do talco: um pompom vermelho dentro de uma esfera de plástico. aonde cheguei, clarice? me tira daqui. há uma [?] beleza...
Prezados [Prezadas?], boa noite [bom dia, boa tarde? mas que dia é hoje na escuridão?].

Quero manifestar meu desconforto em saber que a vida é diferente do que eu imaginava. Porque todo mundo disse, desde criança, que o mundo é imaginativo.

Eu imagino e nada acontece.

Quando acontece eu me endivido muito, porque o mundo que eu achava OK custa caro.

E também saio com dor no cu, porque o mundo real é bem dotado.

Não quero ser bonito, nem rico. Quero ser tranquilo [veja, nem feliz eu quero ser]. Por gentileza, apenas saibam que eu quero uma vida simples e leve.

Não quero tortura, nem ressentimento, nem mentira pra satisfazer o outro. Não tentem extrair dos outros uma verdade que é somente sua.

Oi, tá me lendo ainda? Desculpe, escrevo como quem caga. Haverá um momento em que escreverei palavras de amor.

Caguei,
Beijos,
Me tira daqui.
aos dezessete dias do mês de abril, numa noite de quase outono ainda verão, sequei o rosto em frente ao espelho ao sair do banho. é claro, eu já estava na segunda metade da vida. sequei o cabelo e olhei novamente para o espelho. é claro, décadas haviam se passado. aquilo que um dia fora o amanhã estava incrustado em mim, enrugando minha testa e empapuçando meus olhos. o amanhã estava chegando, pousando não como uma máscara, mas como minha própria face. aquilo que um dia fora o amanhã já me estava todo em manchas e barba branca aos dezessete dias de abril. e eis que o amanhã um dia vira ontem. o ontem estourava, derramava, acumulando-se como um obeso. é claro, a morte estava próxima. e que vida se havia passado por mim? o ontem gorducho se avolumava até os cantos da sala e da cozinha. mas não era saliente, esse ontem: sabia que haveria um dia de ser esquecido, de modo discreto, tal como chegara silenciosamente em mim meu amanhã aos dezessete dias do mês de abril. no amanhã de hoje as pessoas vão esquecer de contar histórias sobre mim, vão esquecer de lembrar de mim e do meu nome, do meu rosto. e aí meu próprio ontem, que engorda hoje minha vida, terá se evaporado como gota de água em panela quente de ferro. me diziam "um dia tu vai perceber que a vida passou..." "um dia as pequenas coisas serão mais relevantes que as grandiosas..." "um dia a gente cansa de tentar mudar os outros..." "um dia um ano passará rápido demais"; pois foi aos dezessete dias do mês de abril. me havia chegado num só dia todos os dias que outrora me avisaram que chegariam. e chegaram todos no meu rosto; cansado; torpe; caolho; flácido nas bochechas; inchado nas olheiras e no papo. de que rosto fez-se meu amanhã dos tempos de criança... ah, se eu criança soubesse... é claro, ainda era eu. no espelho ainda reconhecia no meu rosto alguns traços familiares, comuns, de cristalizada memória cotidiana, que me permitiam encontrar rastros do ontem do ontem do ontem ... do meu ontem. meu ontem tinha vários rostos. se eu seguisse cada filete do cristal da memória cotidiana eu veria meu rosto rejuvenescendo até a primeira divisão celular que me fez. hoje eu era o amanhã da minha primeira célula; torta; desproporcional; tumultuada; agitando-se no útero de minha mãe; inquieta com a recusa de minha mãe. aos dezessete dias do mês de abril finalmente lacrou-se em mim aquilo que um dia fora meu amanhã.
eu n [...]ão estou aqui por ti; estou por todos nós. estou para um tempo que precisa de mim, para um tempo que precisa de vocês mas que vocês perdem ou desinvestem. estou aqui todos os dias são dias de julgamento. dias de júri, de inspeção da narrativa que conto sobre meu passado e de investigação das suas relações com a verdade. estou aqui por todos nós, tu vê, por toda necessidade de responsabilização pelo passado. por toda a necessidade de retomá-lo, de re-invocá-lo, de lançá-lo novamente como projeção de um tempo que não é este mas que em breve será. e deverá ser. estou aqui para colocar em movimento por tudo o que corta e separa, tudo o que modifica e altera, tudo o que bifurca e cruza. todos os dias são dias de julgamento para mim, para ti, para todos nós. para quem cuida da espécie viva que 'circula a calma do nosso íntimo'. [é necessário colocar entre aspas nas apropriações das vozes de outros. não é possível simplesmente incorporar letras de música, trechos de livros como se fossem teus. não são, por mais que apareçam em uma enunciação que muda radicalmente o sentido daquilo que é citado. ainda assim, são vozes alheias ao texto e precisam ser creditadas, marcadas como exterioridades da narrativa.] estou aqui por todos nós, para garantir que nosso julgamento será justo. estou aqui para evitar ilusões e falsidades. estou aqui porque sou lúcido e porque vocês precisam de mim. estou aqui pelo hoje, pelo agora, pelo tempo presente, pela dádiva que será o amanhã. eu sou o arauto, o anunciador, a trombeta que grita [vale a pena antropomorfizar uma trombeta - que grita? não seria esteticamente mais forte humanizar o julgamento, descrever o cenário do julgamento, falar do juiz ou explicar o porquê de tu ser tão importante hoje, para mim e para todos nós?] a força de estar aq[...]
foi dado a ele um chinelo que massageia os pés. massagem bonita, coisa fina que faziam com as mãos. mas não era com as mãos: era um chinelo. quando tu pisava, massageava. permitiria mais autonomia, mais beleza. permitiria mais corpo na vida. mas o chinelo intrigou e incomodou. guerra eterna para uma punheta ou chupada. devo me culpar? devo. deve. devemos. ficaria hoje contemplando a lua num circle jerk. ela rasga o céu rápido. cospe. de uma lambida já fiz minha negação.
encontrou uma doçura no caminho de volta pra casa. tal qual coisa de açúcar, no seu corpo desagregou-se toda, irradiando-se. ainda encontrava algumas pedras pontiagudas e mal-cheiros em alguns de seus trajetos. eram impossíveis de desaparecer por completo. mas já era capaz de distinguir o gosto do doce. escapava aos poucos do destino de ser macabeia. mas não estava a salvo por completo. havia ainda a chance de morrer achando-se especial, num sopro único e último de esperança: na hora de brilhar. urdia aos poucos fios finos, sutis, de um véu quase transparente que talvez deixaria cair sobre o rosto. uma expressão de presença cautelosa, de presença que está ciente mas que se mantém em leve distância do momento intenso. para não ser macabeia, passava rente às incandescências do presenteísmo da vida, mesmo sabendo delas. pois sabia. já as via. agora, porém, passou a tropeçar nelas. mais recentemente, conseguiu sentir seus cheiros. hoje lambeu.
cruzando os domínios da rotina, o firme capuz da rotina, bagunçando um pouco o relógio biológico (como se o tempo estivesse inscrito na carne), transformando a madrugada num viveiro, num canteiro, numa horta escura e silenciosa onde cresce a dúvida: quem quer? da qual desdobram outras dúvidas: quem teria a coragem de querer? quem é esse que quer? posso supor que exista esse que quer? nada mais são além de variações da simples e direta dúvida "quem quer?". nem em um leilão público a pergunta é mais simples. no leilão, "quem dá mais?" é uma pergunta muito densa. supõe que alguém queira e que alguém tenha o que dar em troca com o objetivo de ter. a dúvida tipicamente noturna é outra. quer saber de algo mais elementar, mais conciso, quer saber da pequenina parte fundamental, da mínima partícula comum dos seres urbanos: querer.