Depois de tanto tempo

Só não escrevo aqui porque me falta tempo e iniciativa.
Escrever é sempre um exercício de resolver, elaborar e criar problemas; é o que menos quero agora. Tenho me sentido feliz em limpar meu apartamento com muito desinfetante e álcool (apesar de o álcool não limpar nada, o importante é a sensação de limpeza que ele me dá, obrigado!). Aliás, álcool não só pra limpar, mas também pra desprender, esquecer, fingir que não viu e que não escutou, fantasiar: em suma, acreditar que desinfeto-me por dentro. É incrível, mas na mesma medida em que me sinto intoxicado (pelo álcool, pela gordura, pelo pessimismo e pela derrota [sim, o gosto do pessimismo é tão insuportável quanto o da vodka de garrafa de plástico]), eu desinfeto. Dá pra comer no chão da minha cozinha, tomar um drink no meu vaso sanitário. Queres?
Escerver é sempre isso, essa dor de traduzir. É necessário escrever sobre tudo, o tempo inteiro?
É melhor parar aqui, pois se eu continuar haverá mais problemas resolvidos, elaborados e criados. É o que menos quero agora; estou feliz com os minhas correntes de sempre.

O último

O suspiro que solto no ar quando te vejo é tão degradante!

Cartas a uma jovem bicha – eu sou assim

E se eu choro é porque sou ator, e se eu desejo é porque sou ator também. Eu não posso assim, do jeito que tu quer eu não posso, eu não consigo. O sorriso descarrilhado e os olhos afiletados eu só descobri depois. Mas depois pra mim não é longe, não é inalcançável: eu sei o que fiz, eu sei que eu não quis, e eu não me arrependo. Eu me arrependo, talvez, dessa minha impetuosidade, dessa minha vontade de ser trator. Minhas mãos longínquas, com dedos superlativos, te escrevem isso porque estão desocupados. Porque se tivessem outros corpos pra digitar (que não fossem esses tão solícitos quanto são o laptop [nem tão ardentes quanto fossem meus dedos]) elas estariam calmas e dançantes talvez folheando um livro de Proust ou um livro de ti, mas de qualquer forma estariam aqui e não aí onde tu lês isso que escrevo. E o que fazes aí? Por que motivo não vais ler, ou estudar, ou dialogar consigo? Por que lês isso? Não há nada aqui: só há imitação e deboche, recalque, repressão, mas tudo com um pouco de doçura. Porque sempre lembro de ti e por onde tu andas e por onde tu estás e por onde tu respiras me diga que eu quero saber porque tu me faz falta e teu corpo se encaixa no meu... morreste? Eu pensava que sim. Eu levo comigo um pouco da tua morte? Eu ainda penso em ti, ainda te quero e ainda te procuro nesses outros corpos: cadê teu corpo? Procuro tuas letras iniciais, teus recuos de parágrafos, mas me diz: onde estás? Se soubesses o quanto minhas mãos aracnídeas batem e rebatem nesse teclado negro à tua procura. E isso acontece não porque sou bêbado (também porque sou bêbado, mas acima de tudo porque sou uma lâmina, um filete, uma fatia bem fina [uma coisa delgada através da qual passa tudo aquilo que mais desejo], um sopro e um riso, uma cédula ou moeda que cai do bolso, um esquecimento), elas acontecem porque não há nada. Nada. Nunca houve. Cadê você em mim? Não há! Saia já daqui: não há motivo nenhum para eu me enrolar nos lençóis verdes com perfume amadeirado. As veias que cobrem minhas mãos mantêm a aranha que desliza pela teia das minhas confusões. Te amo mesmo assim. E aí tu estás, não é?!?! Insinuando-se pelas minhas superfícies e se querendo pelas minhas aderências!!!! Te denuncio!!!! Onde vais querer ficar (fica comigo [fica na minha mão, na minha boca] fica no meu quarto), onde vais querer dormir? Sempre dormes comigo de algum modo, mas nunca de um jeito tão traduzido, tão ligeiro, tão simpático. Saia daqui: não há nada pior que um corpo simpático, por favor, saia agora para sempre.

E cabe mais outra pergunta

O que é "ser quem nós somos"?
Qual é nossa identidade? Como ousamos ser - e dizer que somos - alguma coisa?





Me poupem, né?

Álcool

Bebo pra sentir o torpor, pra perder de vista, pra perder o horizonte. Não bebo pelo gosto da cevada, nem pelo gosto do milho fermentado, ou da uva com gás. Bebo porque quero sair de mim, porque quero não ser eu. Há algum problema nisso? Por que haveria um problema - qualquer que fosse - em querer não ser quem é? Há vezes em que não quero ser quem eu sou, e coincidentemente é uma vez por semana, e daí eu bebo. E só bebo. Poderia fazer outras coisas, consumir outras substâncias que - ok! - também dão o mesmo barato. Mas eu, eu mesmo, eu prefiro beber. Pôr pra dentro líquidos. E não sólidos, nem pó, nem fumaça. E daí? Tem gente que deixa de ser quem é atravessando a rua. Outras deixam de ser quem são na internet, usando apelidos. Tem gente que deixa de ser quem é cantando, ou escrevendo... Por que motivo eu sou visto com maus olhos porque tento deixar de ser quem sou ao beber? Cabe a pergunta: "por que deixar de ser quem és?" E retribuo: "que saco ser eu o tempo inteiro!".

Beleza

INTERLOCUTOR diz:
bonita boca que tu tem
jsb diz:
é só uma boca, mais nada
INTERLOCUTOR diz:
é sim
INTERLOCUTOR diz:
mas é bonita
jsb diz:
tenho outras partes mais bonitas
INTERLOCUTOR diz:
por exemplo?
INTERLOCUTOR diz:
adoro partes
jsb diz:
mãos e antebraços.
INTERLOCUTOR diz:
maos...
jsb diz:
adoro minhas mãos.
INTERLOCUTOR diz:
sou louco por maos e pés
jsb diz:
meus pés acho feios, mas mãos acho bonitas.
INTERLOCUTOR diz:
ng é de todo bonito, afinal
jsb diz:
não!! pelo contrário!! somos todos bonitos integralmente. Só há alguns que não reconhecem nossa beleza

Andanças

Alguéééééémmmmmmmm???

Alguééééémmm aí foooooraaaa?

Tá me ouvindooo?

Socoooooorrroooooooo!

......... acho que vou ter que seguir até o próximo vilarejo ....................

(Que parte de mim realmente importa: a voz pra gritar, as pernas pra andar, a saudade pra voltar, o medo de seguir? Do que eu preciso, de que parte de mim eu preciso? Qual delas eu vou ter de arrancar fora? Se eu não tivesse chegado tão longe em tão pouco tempo, acho que me cansaria disso, acho que não seguiria para o próximo vilarejo. Cansei de gritar perdido na estrada e nunca obter respostas. E também cansei de encontrá-las quando eu me satisfazia com minhas dúvidas cretinas, quando eu estava feliz em ser burro. Se eu não tivesse chegado aqui, eu pararia. De que servem minhas unhas bem cortadas e bem limpas em noite de andança de um vilarejo pra outro?)

Drooooga! Quebrei o salto, porra.

Diálogo com cães ferozes II

... não, pessoa feia! Tu pra mim não passa de um amontoado de carne com um belo par de olhos. E o que esse par de olhos claros vê? Nada muito além da autocomiseração aliada a um egocentrismo doente – é claro, achar-se o máximo sempre vem de mãos dadas ao achar-se uma merda. Prefiro ficar com a segunda opção. Ao contrário da maioria, que se seduz pelo sorriso fácil, pelos cabelos que balançam, enfim, pelo belo par de olhos, eu procuro enxergar e ouvir mais coisas a teu respeito. E há tantas, né? Uma pessoa que carrega muitas certezas sobre si mesmo só pode ser pesada e absoluta como tu. Alguém que crê demais nas suas próprias qualidades passa por cima dos próprios defeitos, inclusive acreditando que seus defeitos possam ser apenas deslizes momentâneos, mas nunca erros recorrentes. Tu consegues empregos confortáveis, ajudas gordas, afagos macios por quê? Porque és autêntico? Não. Consegues tudo isso porque te vendes, porque vendes teu belo par de olhos - e outros servicinhos sujos que não vou nomear aqui. E se um dia acordares com uma venda sobre esses olhinhos? E se um dia o botijão de gás explodir no teu rosto? E se um dia alguém rasgar tua boca com uma tesoura enferrujada? Tu és muito mais que o belo par de olhos: e tudo além disso é feio, muito feio. Pessoa feia!

Diálogo com cães ferozes

... não, queridinho! Meu corpo não é fantoche daqueles quem desejo, nem daqueles que me desejam. Meu corpo é só meu corpo, uma extensão de mim, uma coisa de mim, um algo qualquer de mim, mas não é eu. Eu sou outra coisa e outras coisas, eu não mereço – nem tu, queridinho, mas tu és velho pra dar-se por conta – ser escravizado por um, por dois ou por três que me desejam. E tu és um deles. Eu não vou me subsumir àquilo que tu desejas de mim, não vou me transformar naquilo – aquilo, aquela coisa, aquela máquina – que tu tanto quer provar. Tu não desejas aquele que sou, tu desejas aquilo que tu pensas que eu possa vir a me tornar. Vai te tratar! Eu não quero ser aquilo que tu queres que eu seja, eu quero ser exatamente aquele sou e aquele que eu me torno no instante seguinte, no dia seguinte, no ano seguinte! Eu me adoro um ano depois, dez anos depois, bem ao contrário de ti que fica mais e mais triste a cada minuto que passa. Triste e sozinho. Eu não sou uma pessoa sozinha, eu não sou único: sou tudo aquilo que os outros pensam que eu sou – até mesmo esse insatisfeito que tu pensas – e sou muito mais: sou o que penso que eu sou, sou o que eu quero ser já de antemão, sou o que eu não gostaria de ter sido, mas fui um dia. Não, queridinho! Não me sugue pro teu buraco negro porque lá só tem lugar pra ti!

Foi bom

Adorei ter estado lá pela enésima vez mesmo quando lá estive pela primeira vez.
Tem um saudosismo, uma lembrança querida, mas também tem uma mesa branca que baixa os espíritos que tu nunca mais quer ver! Tem uma delícia de pisar no mesmo chão, mas também uma repulsa por tudo aquilo que te fez beber o resto da cerveja nos copos abandonados!
Nada te abandona a esta altura: tu só colecionas ou preferes fingir que não viu, que não escutou...

No blógui com a Madonna - parte III

Cena III – A bicha-mirim junta 6 meses de mesada para conseguir comprar um compact disc. Em 1993, ter um cd player era a coisa mais ultra-mega-pós-moderna de que se tinha notícia. E o primeiro que ela compra é Erotica, nada mais nada menos que Erotica. Detalhe: em sua casa, ela ainda não tinha cd player. A bicha-mirim, persuasiva, consegue fazer com que seu pai prometa que dentro de no máximo quatro semanas tenha uma máquina dessas em casa... Mas nossa heróica bicha não sabia que tinha pela frente uma nota 4,6 em uma prova de matemática da quarta série primária. A professora manda que os pais assinem a prova, pra depois ser entregue novamente na escola. A assinatura nunca retornou. Quando descobre, o pai suspende a aquisição do aparelho. A bicha-mirim entra em colapso nervoso.

Com que prazer, meu deus, aquele cd chegou às minhas mãos. E com que ansiedade eu fiquei à espera do cd player para poder ouvir as músicas que estavam ali. Passando um dia pelo quiosque da Praça da República, vi uma revista ‘Showbizz’ edição especial Madonna no Brasil. Ali estavam fotografias do show de estréia em Londres, ainda em setembro de 1993, e todo o set list da apresentação. Dei-me por conta de que boa parte das músicas estava em Erotica, e que algumas músicas estavam também em Like a prayer. De True Blue, apenas La isla bonita. O desespero foi tal que em menos de 2 meses eu dei um jeito de conseguir todos – T-O-D-O-S – os álbuns anteriores a Erotica para poder compor, pra mim mesmo, o set list do show. Isso, é claro, me obrigou a fazer negociatas pouco honrosas com meu pai, e também vendas de gibis duvidosos para meus colegas de aula. Tudo era pretexto para juntar dinheiro e comprar os álbuns, em cd, que naquela época custavam muito caro (talvez não tão mais caro que hoje, mas enfim, pelo menos hoje temos a internet e a pirataria, salve salve!). E ainda havia outra batalha a ser travada: conseguir permissão dos meus pais para ir até o Rio de Janeiro, no dia 6 de novembro de 1993, no estádio do Maracanã, para vê-la ao vivo. Resultado: até o início de novembro daquele ano, todos os cd’s estavam em meu poder, e eu permanecia trancafiado no escaldante interior gaúcho. Obviamente não obtive permissão para ver Madonna, sob a legação – mais que justa – de que o Rio era uma cidade muito perigosa para uma criança de 10 anos, tendo em vista que recém havia acontecido o primeiro arrastão na praia de Copacabana. Alguns soluços e lágrimas desperdiçados nessa tentativa infrutífera não me impediram de transformar quaisquer arames, bolas de golfe e até mesmo cabides, nos icônicos microfones de cabeça, que saíam da parte superior das orelhas e se insularizavam até alcançar a boca da cantora. Sim: já que eu não poderia vê-la, eu passei a imitá-la, a fazer meu próprio Girlie Show doméstico, exercitando coreografias imaginárias que eu pensava estarem de acordo com os acordes das músicas que eu ouvia, mas sem saber se eram, de fato, as que Madonna desempenhava no palco. Era um exercício de imaginação: ouvir Express Yourself e dali extrair um movimento corporal, uma contração muscular, um passo que coordenasse braços com pernas como se eu estivesse num palco. A mais difícil, a mais custosa, a mais árida música era Justify my Love. Totalmente subjetivado por aquilo que a revista Veja chamava de “o furacão Madonna”, se eu não poderia vê-la ao vivo eu criava sua imagem em movimento em mim mesmo, no meu próprio corpo, na minha sala. Nenhum hermafroditismo: apenas imaginação e heterotopia nas experimentações de mim.

No blógui com a Madonna - parte II

Cena 2 – Estou no ‘recreio’ da aula de quarta série primária de um colégio evangélico do interior do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Comento com uma amiga: “Tu viu que a Madonna vem pro Brasil no fim do ano?”. Ela responde, “Sim!! Minha mãe tem um disco dela!”. Eu comento venenosamente: “Sério? Eu não tenho dinheiro pra comprar um...” e faço uma cara de ‘estou desolado com minha condição’. Minha amiga me responde: “Ah, eu te empresto! Ninguém escuta lá em casa”. Sai a bicha-mirim saltitante pelo pátio do colégio.

Depois de ter passado pela Xuxa e por alguns long play de histórias infantis, o álbum Like a prayer foi o primeiro que tive em minhas mãos de uma artista internacional. Antes dele, apenas compilações de trilha sonora internacionais de novelas brasileiras, cujo pretexto para fazer meus pais comprá-las era porque eu precisava ‘treinar a prática da língua inglesa’, não nesses termos, of course, mas caía como uma luva para meus propósitos. Antes de Like a prayer eu só havia tido contato com ‘O canto da cidade’, de Daniela Mercury. Muito axé pra bicha-mirim. Decidi enveredar para as produções da terra do tio Sam, sempre lembrando com pueril satisfação do videoclipe que eu tinha assistido em 1986, de True Blue.
Like a Prayer foi um Fiat Lux na minha vida. Coitado de mim, com 9 anos de idade, preso a um corpo que não era nem de homem, sequer de mulher, eu escutava aquelas palavras – e não as entendia, é claro – envoltas em melodias tão sedutoras, dançantes, mas dançantes de um jeito diferente do axé de Daniela, dançantes de um modo provocativo, desafiador, e por isso mesmo: múltiplo. Na mesma medida que os jornais – ah, desculpe, no Brasil ainda não havia internet naquela época – publicavam cada vez mais notícias sobre a vinda da Madonna ao Brasil, mais o disco tocava no três-em-um lá de casa. Era luxo total.
O próprio nome “Madonna” começou a fazer sentido, começou a ser algo forte o suficiente para que eu o identificasse num texto jornalístico sem que eu precisasse lê-lo. O ‘m’ maiúsculo e os ‘n’ duplicados saltavam aos meus olhos que, já treinados, aprendiam a caçar por qualquer referência àquela mulher que vinha trazer a diferença, o modo diverso de agir e de pensar, modo diverso e controverso de fazer música, vinha trazer cruzes pegando fogo, um cristo negro em quem ela dava um beijo. Essa era a Madonna que eu caçava nos textos e que eu caçava nos sons do long play, alguém que era capaz de me fazer ruborizar.
Era inverno de 1993, e eu tremia ao ver na TV: “Antártica, uma paixão nacional, traz Madonna, uma paixão mundial”. Lembram?

No blógui com a Madonna - parte I

Cena 1 – Manhã de quase-verão no escaldante interior gaúcho, Brasil. É 1986. A então apresentadora da extinta Rede Manchete de televisão, Angélica, tem em sua mão uma fita VHS e diz: “Galerinha, estou aqui com uma música super legal, que vocês vão amar, toda colorida! É a nova música da Madonna! Sentem no sofá e fiquem pra assistir! Roda VT! (ela pega o VHS e “insere” num videocassete imaginário, dando a impressão para os telespectadores de que a fita vai rodar)”. Começo a assistir ao primeiro videoclipe da minha vida, da canção True Blue. Ao término da música, me tranco no closet dos meus pais, visto um belo scarpin branco, ato um lenço de mamãe em volta do pescoço e passo a imitar freneticamente a cantora estadunidense. Sem ainda ter completado quatro anos de idade, me entrego ao bate-cabelo ao melhor estilo anos 80.

Como, então, alguém que ouve e assiste a Madonna há 22 anos pode não ir a nenhum dos cinco shows que ela fará no Brasil depois de 15 anos de promessas falsas? É o que vou tentar explicar aqui.

They tried to make go to see Madonna, and I Said: NO, NO, NO!!

Mais e mais a cada dia

Ainda sigo tentando cooptar os homens que por mim passam na rua:
Quando percebo que eles vêm, fixo meus olhos por toda sua superfície. Sou alguém bastante visual, me espalho pelos seus olhos-nariz-boca, puxo seus cabelos, mordo suas mãos e roço de leve minha barba pelas suas pernas. Absorvo toda sua raiva ou seu deleite, todo seu desprezo ou sua ingenuidade de saberem ser observados, e os converto em delícias a serem relembradas logo em seguida.
Quando nossas camisetas se cruzam, aproveito todos os milésimos de segundo do seu toque e da insinuação de uma sobre a outra. Guardo as faíscas da fricção para serem usadas comigo mesmo logo em seguida.
E quando finalmente eles passam, fecho os olhos - deixo de ser alguém bastante visual - e procuro sentir seu cheiro, procuro me enroscar nele, saber de que parte do corpo ele vem, mastigo o cheiro e o engulo inteiro. Há vezes em que não são tão bons, há outras em que não duram tanto, mas o sabor de cada um que por mim passa eu jamais deixo de provar... Em nenhuma circunstância.
Hoje pela manhã, enquanto eu escovava os dentes, fiquei feliz quando percebi que ainda me dou ao direito de me iludir. Ainda encaro algumas situações com esperança, e a partir delas fico na expectativa de outras que poderiam se desdobrar.
É bonito isso; iludir-se e esperar, com ansiedade de criança, qualquer coisa que jamais viria.

O chão debaixo dos meus pés


Senti prazer em pisar na calçada cheia de sulcos, nas pedras desorganizadas, nas lajotas em desnível. Até mesmo quando minha cara bateu forte contra o chão, até mesmo aí eu gostei. Tropecei, caí. Mas era o chão, dali eu não passei. Machuquei um pouco o rosto, esfolei de leve minha testa. Levantei e procurei com desespero alguém familiar, alguém pra me dizer que ‘tudo vai dar certo’. E achei, me senti seguro por saber que eu tinha com quem contar. Continuei andando pelo chão cheio de buracos, e uns olhos que de mim se desviaram, umas palavras que saíram pela minha tangente, uns corpos que se insinuaram para longe, tudo me fez sentir triste. E como somos tristes! Fingimentos bem posados podem ser elegantes, mas não são inofensivos. O chão debaixo dos meus pés não era o limite. Há horas em que nem o chão segura, em que não é dele que decolamos, e nessas horas tudo é um colete salva-vidas em potencial para a gente não se afogar no fluxo do medo: uma senhora que me pede dinheiro para poder voltar pra casa, uma outra que lê “Os amores de Sabrina” do meu lado. Um rapaz que se exibe no banheiro público. Um taxista gaúcho morando em Florianópolis. O ônibus que viaja numa velocidade muito alta, o chão da estrada, um noite de pesadelo que não terminou nunca. A minha casa, ahh, eu queria estar de volta na minha casa. Queria trancar a porta e fingir que nada daquilo aconteceu: um fingimento bem posado e bem cruel.

Rostos


B assumiu-se como um corpo dócil, mas não se preocupou em deliciar-se com a dor toda de ser o segundo – depois do A. B assumiu-se naquele momento como corpo dócil, como corpo disciplinarizado e como corpo controlado. Ele não sente dor, ou dúvida, ou debilidade; ele sente apenas confortabilidade, que é de terceira ordem. Imediatamente assumiu-se como um ‘escolhido’, isso porque sua vida quase lhe foi roubada num desentendimento de cores entre o verde e o vermelho. Bacia quebrada, hemorragia arterial, coma, experiência de quase-morte, retorno, re-habilitação, re-inserção, re-humanização. Ouro? Nem tanto. Algumas vezes prata, em outras nem isso. Todo o esforço que fizera em ser aceito e ser admirado era acometido por momentos em que se emperrava na insegurança de um colega ou no excessivo egocentrismo de outro. De toda forma, ali estava com um quarto de século de corpo esguio, com quase dois metros de altura, vários pêlos pelas pernas, alguns na altura do umbigo e peito. Barba cerrada. Um quarto de século de dois por cento de gordura. Um quarto de século de corpo de sucesso? Nem tanto. Articulações comprometidas, comprimento que não cabia em nenhuma cama, calças que não cobriam suas pernas, tênis que lhe apertavam os dedos... a dor e a delícia de pertencer a este mundo depois de ter perdido qualquer referência daqueles que o puseram nele. Morreram numa explosão triste, fogo consumindo o metal, metal se confundindo com a carne, carne irreconhecível entre mais de cem corpos carbonizados num churrasco macabro. Mais uma vez o corpo! O corpo que lhe fugira quando rolou pelo asfalto; que lhe faltou quando vagou pelos corredores da UTI; que era seu instrumento de trabalho para saltar, chutar, parar, gritar; que lhe guardava prazeres inomináveis, porém belíssimos, com um outro colega B que insistia em afundar um círculo de ouro vazado no corpo – não o outro círculo de ouro recheado que ambos perseguiam. E mais uma vez o corpo. O corpo que tinha, que quase morreu, que quase se matou, que quase foi belo, que quase foi ouro, esse corpo que perdeu de onde veio, que não tinha mais pra onde voltar, esse corpo se cansou. A prata foi metal nobre que dialogou com ele – eu trago o mais (des)graçado dos brilhos, com menos graça, porque sou feita do brilho dos teus olhos quando ele te deixa sozinho para adular o círculo de ouro vazado que leva incrustado em seu corpo – e ali se deu por conta que precisava sair do coma mais uma vez. O coma no qual deitara era um imenso rosto, um imenso buraco negro que o capturara. Precisava reinserir-se em outro rosto, sulco de aprisionamento mais raso, em que minimamente pudesse chorar a perda dos seus, chorar a perda do ouro e desejar de forma frenética aquele corpo que carregava um ouro circular. Que rosto, meu deus, poderia conferir-lhe tanta liberdade? Sabia que não havia, sabia que não tinha chance, sabia que o máximo de proveito ele já tinha tirado. A pele lisa, com pêlos nas pernas e logo abaixo do umbigo, a barba, a boca que lhe sugava, as mãos que lhe pressionavam, os olhos que lhe capturavam com rosto! Denunciou para si mesmo a dor de ser e de estar ali naquele momento, trabalhando com seu corpo com afinco e dedicação sem receber o que merecia: nem o metal dourado de forma circular recheado, nem o metal dourado de forma circular vazado. Nem um, nem outro, se pendurou sobre seu corpo. E ele tentou por oito longos anos. Não seria o caso de tentar o coma novamente? Ou de tentar o luto? Nem tanto. Porque nesses dois está guardado o metal negro em forma de cruz. Escolheu ficar vivo, mas com o rosto da derrota: deixou-se capturar pelo buraco negro da prata, encheu a cara de vodka com coca-cola zero, e deu-se por muito feliz. Com um quarto de século de vida, tendo escapado do coma, tendo escapado do luto, tendo escapado do amor, nestas condições o metal dourado de forma circular recheada pesando sobre seu corpo seria um rosto. E o que ele menos queria naquela hora era um rosto para mostrar e um rosto para assumir.

E a melhor ever:

"É ou não é ou não é? É!"

A seguir, as 5 melhores dos últimos anos

"Nasci em 83, mas em 86 eu já usava scarpin branco e ombreiras pra imitar a Madonna"

"Seu eu fosse mais jovem, eu pegaria meu pai"

"Não sou sarado porque eu não quero virar estatística"

"Eu era hetero, mas a Cher me salvou"

"Por que eu aceitaria meio pau se não tenho meio cu?"

"- Se o beijo for bom, tu me dá um desconto?
- (...) Se o beijo for bom tu me dá uma gorjeta?
- (..........................................................................)"

Escolho me deitar

Tens razão, às vezes fica bem difícil.
Hoje eu me dei conta disto enquanto assistia à aula. O rapaz sentado ao meu lado não era o mais bonito, mas eu quis extrair beleza dele. E fiquei quase três horas insinuando meu olhar pelas suas pernas, pelos seus cabelos, tentando fazer brotar dali um sinal – um índice, um aceno – de que não havia nada ali que eu não pudesse encontrar em um outro lugar, até em mim mesmo. Nessa minha pose contemplativa fiquei uma boa parte do tempo, e quando nossos olhares cruzaram, por quatro vezes se cruzaram, eu contei riscando palitinhos na folha em branco até formar um quadrado, eu invariavelmente pulava de sua cabeça à outra, de suas pernas ao chão, de suas mãos à cadeira, de seus cabelos ao ventilador, mas percebia que ele me encarava. Até que num momento ele pôs a mão por dentro do moleton azul-marinho para coçar o peito, e o moleton subiu, e eu me estiquei o máximo que pude para colher o máximo de que eu tinha direito de um mínimo possível de sua barriga. Me deitei naquela barriga, rocei minha barba nos seus pêlos que descem do umbigo, lambi seu umbigo, e imediatamente voltei a mim como se nada – ou tudo – tivesse acontecido. E esse foi o momento glorioso da manhã, quiçá do dia. Eu diria da semana: escolhi me deitar na barriga de um aluno!
E ontem foi um dia desses, bem como tu estás me narrando. Difícil, magoado. Ruidoso e pegajoso, em parte por causa do tempo, em parte por causa do meu tempo. Perceber que escolhas antigas talvez não tenham sido as mais corretas... Ou, pior ainda, perceber que as escolhas antigas foram as mais corretas porque, exatamente, o outro é que tinha razão: eu ainda não estou preparado para aquilo. Voltei pra casa com uma vontade de tirar a roupa, o blusão, a camisa, a calça, os tênis, as meias, as cuecas e seguir tirando tudo: a pele, o fígado, o estômago, os músculos das pernas, como naquele videoclipe do Robbie Williams. Mas, na minha pressa em despir meu corpo e em despir-me do meu corpo, imaginei que quando só me restassem ossos, ou apenas um osso para arrancar fora de mim, ainda assim haveria uma coisa qualquer que deveria estar desde já arrancada e que ainda não está. Tem um mofo, um bolor que não consigo limpar. É um lugar que não pega sol – e não é esse que tu estás pensando, porque esse vê a luz mais que outros. É um lugar sobre o qual eu não consigo lançar luz, que eu não consigo iluminar, que eu não consigo ver. Mas que está ali de todo modo, faz sua moradia nômade nas sombras que se formam no jogo de luz e escuridão.
Eu cheguei do trabalho e tinha que ir pra academia. Mas decidi que não iria, que ficaria e tomaria uma xícara de café bem gelado e bem doce. Decidi transformar o mofo em meu aliado, me juntei a ele: escolhi me deitar pra ficar mofando neste dia úmido. Talvez depois eu me levante e vá cortar o cabelo, que está péssimo. Por agora eu quero me deitar e mofar um pouco, só um pouco, para eu sentir a delícia de estar na sombra, invisível.

Te mando um beijo

O sino da igreja mais próxima badalou: dezessete horas e trinta minutos de domingo. Eu poderia te mandar um beijo de onde eu estou, poderia ir ao teu encontro, mas eu não quero. Eu sinto muito ódio muito freqüentemente, raiva mesmo, vontade de me demitir dos meus projetos. Vontade de mandar um beijo para quem eu desprezo. Sinto raiva, uma raiva ruim e pegajosa, vontade de abandonar esse caminho e essa trilha na mata fechada que abri a facão.

Tem vezes que leio deitado na cama, só com a luz da cabeceira acesa, me dá uma tranqüilidade ao ver o apartamento todo escuro e só uma luz fraca iluminando meu quarto... E quando eu termino de ler eu me cubro e olho pras paredes do meu quarto, pras minhas roupas na estante e para o computador desligado, fico ali observando esse espaço que habito, que faço meu e que se faz eu mesmo: eu também sou minha própria casa. Aí eu espero o sono vir, e quando eu penso que ele quase chega desligo a luz. Mas tenho estado assustado com um barulho estranho que entra pela janela, sempre logo depois de eu desligar a luz de cabeceira, um som de balanço de praça que vai-e-vem como se houvesse alguém se balançando nele, o som é um ruído de correntes que vão-e-vêm. Será que tem uma criança, alguém sei lá quem, que se balança aqui perto de casa? Só eu escuto o ruído? Essa pessoa se balança até a hora de eu dormir, sempre à noite.

Há também outros sons, e uns cheiros, que escuto e que sinto. Sinto cheiros pelo corredor, um cheiro que não é nem ruim e nem bom, mas é um cheiro que sinto até eu entrar na porta de casa. Hoje quando eu entrei aqui no prédio senti um cheiro forte e horroroso, não se de onde vinha e não sei se ainda está lá, e lembrei de mim mesmo! O cheiro me fez lembrar de mim mesmo, não porque eu cheiro daquele jeito, mas porque... de alguma forma associei a impressão desagradável de senti-lo com uma imagem minha caminhando na rua com o cenho franzido.

Há cheiros que nos lembram e que nos constroem imagens. Senti raiva ontem, muita raiva, por causa dos cheiros e das imagens que senti e que vi. Odeio tanto isso tudo, me sentei numa mesa e bebi tão-somente uma garrafa de Original para não dizer que estava totalmente desacompanhado. Estou com os comprovantes de pagamento à vista no débito aqui na minha frente: chegada à 00:24, saída à 1:32. O cheiro de cigarro envelhecido e fumado às pressas, misturado às solas de adidas, nike e all star molhadas se cruzam e produzem náuseas em quem não adere com força ao pó, aos líquidos e aos comprimidos. Sentei à mesa e observei um rapaz acender o cigarro que ele fumou em menos de três minutos, o guri foi bonito quando a chama do isqueiro iluminou seu rosto enquanto ele inspirava o primeiro vento de nicotina e alcatrão ao fazer da mão esquerda uma concha sobre a ponta do cigarro. Bela luz do fogo do isqueiro que o fazia tão carente e tão disponível.

Mas odiei mesmo assim aquela fumaça e aquela imagem. A paisagem na qual estavam todos emoldurados cheirava mal. O que mais me incomoda é o fato de eu não saber onde pôr as mãos ou o que fazer com elas, e minhas mãos são grandes com dedos longos: se eu as deixo à mostra elas chamam muito a atenção e se eu as escondo elas também chamam a atenção porque me faltam, porque pareço amputado delas, porque meu corpo não é o integral. Mas nunca um corpo é um corpo integral, não é mesmo? Sempre escondemos alguma parte nossa que não nos permitem mostrar ou que não queremos entregar. Camisetas, cuecas, meias deixaram, entretanto, de ser peças que escondem os corpos para ser peças que promovem os corpos: camisetas osklen, cuecas CK, meias importadas (há grife para meias?). Mandei um beijo para quem odeio, sempre mando. Ele, desaforado, se deitou no meu colo, só de sunga e botas, e eu deslizei firmemente minha mão pelo seu corpo que quase esmagava minhas pernas de tão pesado de carnes e pêlos. O cheiro dele que se impregnou em mim, esse eu não odeio, mas mesmo assim beijei e mordi seu mamilo direito. Acho que o odeio de alguma forma. Na porta de saída ele já estava vestido decentemente e nos tratamos como desconhecidos, afinal de contas eu apalpei o personagem que ele encena no palco e não o homem remelento e com mau hálito que provavelmente ele acorda todo o dia. Deixei que ele fosse embora e guardei comigo só a sensação de pegar em suas pernas peludas, só o peso sobre meu colo, só o cheiro de suor. Nem seu sorriso, nem uma palavra de afeto me faria mudar de idéia.

Emails para uma jovem bicha - a bicha geneticamente modificada

Eu só me dei conta do que eu estava fazendo quando o avião sobrevoava o Paraná. E eu ia fazer o quê lá de cima, me diz? Dizer pra ficar na próxima parada pra eu voltar? Dizer pro piloto abrir a porta porque eu queria descer? Separar um pára-quedas pra eu voltar voando pra Porto Alegre? “Agora chupa que é de uva”, eu pensei.

São Paulo nunca foi uma cidade tranqüila pra mim. Sempre há um drama, ou eu querendo me jogar do quarto do hotel, como aconteceu da penúltima vez, ou eu querendo me prostituir, como foi dessa. Aquela energia competitiva, os desafios que as pessoas se impõem, a peleia pra conseguir um lugar no ônibus, um lugar no metrô e um lugar ao sol me incomodam. Mondo cane é brinquedo de criança perto da opulência com a qual todos tentam te patrolar. Desci no aeroporto e tive de pegar um ônibus, três metrôs e encarar, a pé e com mala, mais uns quinhentos metros de calçada até chegar no “hotel” – muitas aspas nesse “hotel”. No trajeto entre o aeroporto e a estação de metrô, feita num transporte urbano intermunicipal, eu repetia pra dentro de mim mesmo, tal qual mantra, “Jesus me ama, Jesus me ama”, fazendo criar um católico cheio de fé que não existe em nenhuma parte de mim pra me proteger dos perigos. Passei por um, dois presídios. Mais a marginal do Tietê. E entravam pessoas geneticamente modificadas a cada parada, amontoando-se entre as cadeiras e o corredor. As portas mal fechavam, e quando finalmente abriram, fomos todos cuspidos pra fora do ônibus e caímos dentro da selvageria de concreto da terra da garoa.

Aí me joguei na corrente humana daquele mar de gente que se digladia nos metrôs das cidades com mais de quinze milhões de habitantes. Mas eu queria poder parar pra ler as sinalizações, parar pra entender, pra assimilar aquelas informações escritas nas placas acima da minha cabeça que suspendiam setas e palavras indígenas como “Tabaquara”, “Tatuapé”, e eu não conseguia parar porque aquelas pessoas geneticamente modificadas vinham contra mim e a meu favor se chocando contra minha mala e rasgando minha camiseta! Rapidamente me coloquei ao lado de um segurança – eu não sou palhaço – e perguntei como eu fazia pra chegar na avenida Paulista. O olhar de escárnio e de desprezo, de estranhamento e de pilhéria que aquele homem me lançou jamais vai se descolar das minhas lembranças destes tristes e intensos seis dias de suburbano exilado na maior metrópole da América do Sul. Comprado o bilhete, ainda protagonizei uma última cena de comédia para as centenas de indivíduos que por mim passavam: eu tentava fazer com que o bilhete fosse lido pelo sensor magnético da catraca, como se fosse um cartão, ao invés de inseri-lo civilizadamente na reentrância pela qual ele seria ‘comido’ pela máquina. Ali fiquei nessa atividade inútil por uns breves quinze segundos até entender onde de fato eu tinha de colocar o bilhete, tempo suficiente para arrancar risos dos transeuntes – e de mim mesmo, é claro.

Chegando no “hotel”, marchei com quinhentos reais de cara. Pensei, então, que eu poderia economizar na alimentação, uma vez que todos hotéis que conheço – esses sem aspas – têm frigobar nos quartos. Mas esse não tinha. Eu estava na oitava cidade mais cara do mundo, no bairro mais exclusivo do Brasil, sem a menor opção de baratear os custos de uma viagem absurdamente planejada. Pois então: eu peguei um vôo na companhia aérea mais barata do país, pra descer vinte e cinco quilômetros do local da minha hospedagem, peguei ônibus e metrô, andei centenas de metros com minha mala e minha mochila pra chegar num “hotel” que se diz “hotel”, sem dinheiro, sem rímel e sem batom: compreendi que eu era pobre. Eu era uma retirante.

Nos dias seguintes, fui peruar pelos entornos da avenida Paulista. As bichas de lá só existem pelo corpo e para o corpo; tudo o que adorna o corpo, tudo que estiliza o corpo, tudo que se joga sobre o corpo é índice de diferenciação e de hierarquização entre elas. Ciborgues de nosso tempo, iPhones, iPods e notebooks Apple turbinam o corpo porque são suas extensões chiques e caras. Marcas de roupa nacionais são lojões de quinta categoria: D&G é pano de prato pra elas. Não que de fato elas tenham dinheiro, porque sei bem como funciona esse circuito. Elas comem um pé de alface ao longo da semana, elas roubam água dos bebedouros dos shoppings, quando estão a ponto de desmaiar dão uma lambida no sabonete líquido dos banheiros públicos – se houver sabonete – mas compram calças de luxo, tênis da moda e aparelhos eletrônicos importados. Tudo isso num esforço de ser, ser aquilo que se deseja, ser aquilo que se admira, ser aquilo que racional e matematicamente não era possível ser. Não acho que é uma fachada, não acho que elas aparentam ser o que não são. Penso que elas são. Não há mentira nessas estratégias, não há ocultação ou falsidade. Elas são sinceras, são honestas, porque elas são aquilo que elas podem ser. Eu, e somente eu, era a bicha geneticamente modificada ali.
CONTINUA........

Emails para uma jovem bicha - um email offline

Oi, querid@!
Estou offline por uns tempos, ok?
Meu computador está no Pronto Socorro. Não há muitas chances de ele voltar a ver a Luz: corre sério risco de morte. Infectou-se com um vírus.
É incrível, mas quando eu digo para as pessoas que meu computador estragou por causa de um vírus, e que eu perdi todos meus arquivos com essa tragédia, o culpado sou sempre eu. É como se eu tivesse contraído aids. "Mas como?! Justamente tu, uma pessoa com informação, tão inteligente, tu sabe melhor que muita gente que tens que investir em prevenção?! Tens que fazer back up de todos os arquivos, tens que ter cópia de tudo, e agora? O que vais fazer? Viste, bem feito por ter sido irresponsável!". É ou não é o mesmo discurso moralista?
Minhas férias foram uma viagem ao centro do inferno de mim mesmo, sem escalas. Versão sem cortes, estendida, do diretor. Te conto depois que meu Windows Vista voltar a viver.
BeijoOffline!

Emails para uma jovem bicha- Férias

Tou saindo de férias, tá? Tou offline por uns dias.
Acho que vai ser bom, está sendo bom desde já.
Pra mim é necessário deletar rostos e corpos, cheiros e beijos de tempos em tempos. Não dá pra agüentar alguns deles por um período contínuo. E eu mesmo me faço insuportável, acho que mais do que eu tirar férias dos outros, são os outros que precisam de férias de mim.
Ônibus? Nem pensar. Minha mãe me esinou desde cedo que apenas viagens locais, intermunicipais, são feitas de carro ou ônibus. O resto, meu bem, todo o resto é feito pelos ares. Adoro peruar nos aeroportos, fazer pegação no Salgado Filho, Afonso Penna, Galeão ou Pampulha. No meu caso, vai ser Guarulhos mesmo, o mais movimentado da América do Sul. Coragiii, né?!
Furacão gaúcho na terra da garoa. Vou com a Godiva de Niterói como minha guia.
A Consolação - e o Parque Trianon - nunca serão os mesmos!
BeijoMeEsquecePorUns10dias!

Emails para uma jovem bicha - Esquinas da minha vida

(De "cartas a uma jovem bicha" troco para "emails para uma jovem bicha". Adoro cartas, acho cult. Mas acontece que deixei de escrever cartas, não porque eu ache demorado ou porque doa minha mão. Mas simplesmente porque aqueles pra quem eu escrevia já não me fazem mais sentido).
Sempre mande as fotos que tirares aí, adoro ver como as pessoas estão 'enxergando' as cidades e as pessoas que conhecem. Gosto de bisbilhotar os olhares, os cantos e os ângulos, aquilo que não era pra entrar no enquandramento, mas que por sorte ou azar apareceu ali registrado, adoro intuir onde estava o sol e admirar o céu de um outro lugar que não seja esse meu que ocupo há tanto tempo.
Aqui tudo tranqüilo. Há 15 dias eu tou sem beber e havia anos, repito, ANOS que eu não passava tanto tempo sem ao menos uma latinha de Boemia, uma dosezinha de tequila, uma garrafinha de vinho, hmmmm, as bolhas de champagne (parece discurso de AA, mas te garanto que tou limpo!). Minha pele melhorou, minha barba reluz no sol, comecei a perder minhas gordurinhas localizadas, meu cabelo está macio, sedoso e leve, tenho comido frutas, verduras e queijo minas (arrghhh!), granola com iogurte ao acordar, mas sempre - SEMPRE! - sem uva passa porque uva passa é um ultraje à civilização judaico-cristã ocidental... E elas têm vindo cada vez em maior número, num tamanho quase imperceptível, sempre se entranhando nos alimentos de modo que fique quase impossível retirá-las. Mas eu as retiro, claro, e perco bons minutos nessa tarefa quando na verdade eu poderia estar dormindo ou lendo Foucault. De que adianta colesterol zero se também é zero o número de beijos na minha boca? Cozinho em casa todo dia, tenho aprimorado minhas técnicas, meu temperos e o tempo de cozimento do frango assado. Descobri que massa ao alho e óleo é mais barato do que eu imaginava, mas nunca supus - NUNCA! - que dava tanta flatulência. Sou uma bomba de gases atualmente. Ganhei 1,5 cm de braço e 2 cm de perna graças ao meu treino na academia. Obviamente, nada disso me assegura assovios na rua, nem parabenizações, porque simplesmente a beleza não desabrochou de dentro de mim como coisa que sempre existiu ali. A beleza, assim como tudo e todos nessa vida, é algo que se constrói. Essa minha caretice com o álcool não sei aé quando dura, mas certamente não tou sentindo tanta falta quanto pensei que fosse sentir. Meu fígado agradece, os michês detestam. Dentre as muitas viradas da minha vida, a esquina mais feliz está pra ser dobrada em breve, quando eu for viajar nesta sexta. Até lá, estou feliz como Amélia dentro de casa, lavando louça, lavando o chão e o vaso sanitário, escrevendo o primeiro capítulo da minha dissertação de forma compulsiva, tomando uma xícara de chá de boldo sempre antes de ir dormir. Só que não sou anjo, como tu bem sabes: faço uso de duas drogas pesadas diariamente, sem falhar: internet e televisão. Cada dia acredito menos e menos em 'liberdade', acredito menos e menos em 'verdade'. Acredito nas amizades que construí até hoje e que quase nunca me faltam, também acredito na solidariedade que eu devoto aos meus amigos e que me faz trabalhar com isso que trabalho, do jeito que trabalho; que me faz estudar isso que estudo e do jeito que estudo.
Mande sempre notícias! Adoro escrever emails. Mas se eu tivesse tempo e pessoas dignas, escreveria e mandaria cartas.

Hora de Saturno

Paciência, meu eremita. Prudência. Se insistires em tensionar as bordas que te seguram, o grande legislador vai te impor as regras do kharma. Passeio pelas delícias das grandes possibilidades, das grandes tentativas, das grandes viagens. Novos territórios a conquistar, eu, O Conquistador. Mas nessas terras recém descobertas e recém experimentadas, ainda virgens de mais profundas explorações, é necessário fazer leis e obedecê-las. O tempo te traz essa sabedoria, portanto, espere! Eu voltei caminhando, cheirando a cigarro barato, sozinho. Para quem legisla o sinal vermelho em noite de rua deserta? Atravessei, e só meus passos ecoavam de largo a largo na avenida. Era para mim que a sinaleira brilhava. Tentei desesperadamente, numa fúria bastante justificável, rasgar a pele macia para comprovar os músculos rijos... A dureza da carne daquele(s) corpo(s) é tão ultrajante. Penso ser impossível construir para si uma materialidade tão dura, tão espessa, daquelas em que as mordidas não fazem marcas de dentes. Senti na palma das mãos e na ponta dos dedos os tocos dos pêlos recém depilados, o cheiro do perfume amadeirado, o umbigo raso, os peitos salientes, o saco suado. Bebi um pouco, de pouco a muito, de muito a exageradamente. E segui bebendo e tentando, bebendo e tentando, no ritmo da música, do piscar do estrobo, do giro do globo, e nunca chegava, aquilo nunca chegava. Fui me cansando, mas continuava bebendo e tentando, bebendo e tentando. Até que as lembranças mais escurecidas, não pela baixeza moral ou pela vileza estética mas pela simples falta de luz da qual esses lugares freqüentemente se usam, essas lembranças me vieram e me ocuparam, me perturbaram. E no desespero – outro desespero, já o segundo em poucas horas – eu mexi com os braços e com as mãos, balancei o quadril, movi as pernas, um pé tocava o chão enquanto outro se suspendia, encolhi a barriga e sorri. Fechei os olhos. Na minha mente ainda persistiam os tecidos enegrecidos, as luzes opacas e os rostos esfumaçados. Labirintos, salas exíguas iluminadas apenas pela televisão ligada e fora do ar. Cadeiras vazias. Botas, sungas, ereções. Salto-agulha, bico-fino, silicone. Toda doença tem sua delícia, todo crime tem seu deleite. E no retorno, as ruas desertas! Dei-me por conta de que a desolação me acompanhou desde o momento em que me acordei, ou antes, desde o momento em que me deitei ainda na noite anterior. Anexei a desolação a mim como mais um dedo no pé – seis dedos, corpo monstruoso? Anexei o álcool a mim como mais duas medidas na circunferência – setenta centímetros, corpo abjeto? Tive meus momentos de Amy Winehouse, mas é claro que foram sem o glamour do lápis de olho. O chá de boldo que esquenta minha xícara, o microondas que esquenta minha água, o Plasil que impede o meu vômito, a corrida que impede minha gordura, a cama que me traz o sono, a manipulação auto-induzida que me sacia a vontade, o gozo que me proíbe a lágrima: legislações que tutelam os limites de até onde ir e dizem das fronteiras a serem ultrapassadas. Na hora de Saturno, tudo é aprendizado para ser comedido mesmo nas abundâncias.

Hora de Júpiter

Mediante pagamento, fui feliz. Foi o passaporte para uma liberdade controlada, cujos limites acompanham o volume das cédulas do meu bolso. Foi o visto de entrada numa zona, quarta-escura, luz-vermelha. Mediante pagamento não há toda sorte de censuras, a não ser aquelas que o custo impõe. Expandem-se os zíper e os botões, os corpos cavernosos e esponjosos: ‘expansão’ é a palavra. As eternas negociações cínicas dos corpos zero-por-cento-de-gordura-trans simplesmente ficam suspensas e perdem grande parte do seu sentido. Ou se não perdem, pelo menos são ressignificadas! Não há abdome que valha por si só, nem bíceps que dê conta sozinho de uma declaração de amor. Não há feiúra que se preserve com uma nota de cem reais. Nem beleza o suficiente que prescinda o débito de trinta pilas. O Segundo Sol brilha na noite, nas quartas-escuras, quartos-crescentes, Segundo Sol em noite de Júpiter, em casa de 8. A facilidade do toque, e aí não se enganem, quer dizer menos a quebra total das fronteiras bem limpas entre afetos e muito mais a justaposição dos perceptos. Tocar é mais importante que sentir. E aí não se entenda que não há sentimentos: sempre há sentimentos, mas há formas de sentir, variadas maneiras de extrair afeto. Mediante pagamento há um outro território, não exatamente aquele livre das quaisquer proibições, não exatamente aquele da libertinagem sem fim, não exatamente aquele da eterna perversidade. Esse outro, esse alter, esse hetero é um lugar em que são repensadas as referências para as relações. Nessa revisão, não se perde ética: reconstrói-se uma. Estou com eles porque quero, e não porque preciso. Estou com eles porque gosto, e não porque não consigo. Estou com eles porque pago, e vocês – todos vocês – também estão uns com os outros porque, em primeiro ou em último lugar e em algum momento, também pagaram.

Hora do cometa

Eu, Macabeu, fantasio com você-vocês. Não me orgulho disso, não me satisfaço. Procuro satisfação em outras zonas, territórios menos combativos e mais urgentes. Profiláticos. Mas, sim, existe uma delícia ao me deitar na cama e manuseá-los nos dedos, tê-los comigo nas produções minhas. Existe um sabor denso em manipulá-los, em fazê-los dizer o que quero, em movê-los para cá e para mais cá. Não é ridículo, é só um jeito entre tantos este de colocá-los numa roda giratória dos profanos. Saberão você-vocês que andarão pelos meus pensamentos? A mim retorno sempre que posso, e sempre é necessário voltar. Para cultivar e manter aqui e ali essa vontade, essa energia que me faz buscá-los na rua e trazê-los para casa. Para dobrar novamente minhas roupas usadas e deixar apenas as cuecas penduradas, estendidas sobre a escrivaninha, deitar sobre elas e cheirá-las – porque é doce seu cheiro. Para me esfregar nas paredes e descer até o chão em forma de concha. Para lambê-los e odiá-los gozando, para insistir nele-neles, para ouvi-los gemer. Se não tiro o pó dos meus móveis é porque quero que o pó seja minha testemunha: sou feliz na hora do cometa. Trago todos ele-eles comigo porque quero, porque me são preciosos, e não porque me são precisos. O cheiro de cerveja, da dose dupla de vodka. O bafo quente do cigarro recém apagado. Os cabelos desgrenhados do sexo selvagem de logo antes. Nenhum dele-deles bebe, nem fuma, nem tem cabelos. Nenhum deles faz sexo. Sou eu quem faz com ele-eles. Não é triste nem sofrido, é só mais um dos jeitos que achamos para continuar desejando, e ao desejar sempre mais e mais e mais trancar a porta para que não se vá o desejo, para segurá-lo, girar a chave, segurar as janelas, fechar as torneiras. Então tomar banho ainda vestido e secar-se! Olhar-se no espelho e continuar desejando, ai, será difícil? Tocar-se. Deitar na cama e apagar a luz, e afundar a cabeça nos travesseiros. Sentir a dor nas costas. Voltar a fantasiar com ele-eles.

Cartas a uma jovem bicha – dos chutes, dos socos, dos espancamentos

Essa melodia não acaba
Quando eu resolver parar
De cantar


Pois se gritam contigo, se te chamam de bichinha, de boiola, de viado, vire todo o corpo para o agressor e, num movimento como de onda, empine a bunda, encolha a barriga, estufe o peito, levante a cabeça e jorre na sua cara: “bichinha, não. BICHONA!”.

E se te derem um tapa, tire uma das 12 navalhas que aprendeste a guardar embaixo da tua língua e dispare-as, sempre com essa tua maestria em fazê-las voar sem a ninguém machucar, mas a todos assustar.

E se te derem um soco, arranque teu cinto feito de correntes com um cadeado na ponta, gire-o no ar produzindo aquele som de terror do ferro cortando o ar, gire-o até a tontura e enrosque-o em torno do pescoço do seu agressor. Aperte-o até fazer quase desaparecer sua voz, até quase tirar-lhe a arma que dispara violências, mas não até o fim. Deixe ainda um fiapo de voz para que ele diga: “desculpe-me, sinceramente”.

E se te espancarem, se te chutarem o saco e o estômago, se pularem sobre teu crânio, se te quebrarem os braços e arrancarem os dentes, se te costurarem o cu, se te jogarem óleo fervendo, recupere-se. Cuide-se, trate-se, mas recupere-se. Não morra antes de voltar e provar que o corpo pode ser torturado, que o corpo pode ser produzido na dor, que o corpo pode transformar-se na dor. Recupere-se, volte. Recupere-se do espancamento com carinho pelo seu corpo, pela sua matéria, e volte vestido de lantejoulas, miçangas e canutilhos bordados numa segunda pele.

E se te matarem, não pense que foi aí que tudo se acabou. Porque nós todos vamos continuar a andar por aí, com calças justas e enfiadas na bunda, vamos continuar e ir e vir, beijar e dançar, músicas com brilhos e luzes. E se nos endereçarem palavras de censura ou reprovação, cuspiremos, escarraremos na cara desses. Para provar que não é com a morte que vão te fazer ficar em silêncio. Não é só teu corpo que fala; é tua história, é tua trajetória, são as memórias que tu construíste entre nós que vão se espalhar como vírus (como aquele nosso vírus amigo) e que vão dar consistência para a revanche. O teu rastro ficará conosco, nos servirá de norte.

?

Haverá algo - será? - sobre o qual eu deva me perguntar, me questionar, procurar produzir uma resposta e que eu não esteja conseguindo fazer?