Algo de errado

E de repente uma vontade incontrolável de ser eu mesmo, de escrever e gritar meu nome, de perguntar aos meus amigos se eles me conhecem, se eles lembram de mim, e o que lembram de mim. Uma vontade de olhar no espelho, de vestir minhas roupas e falar no meu tom de voz...


ai, credo! sai de mim, identidade!

Quinta-feira de cinzas

[...]erma na minha boca, e eu gosto disso, daqueles jatos e daquele gosto. Gosto do constrangimento leve e suave de olhar nos olhos e sentir que houve um prazer ali. Mas não houve naquela vez. Foi horrível, me senti péssimo. Foi embaraçoso ter que me levantar e lavar meu rosto, lavar o corpo, tomar banho junto dele. Queria fugir pra longe, mas estávamos na minha casa. Não sei se foi ali mesmo que a gente desconectou, acho que não. Acho que foi antes disso, uns minutos antes disso, nuns beijos um pouco atravessados que nos demos, numas frases um pouco truncadas que falamos. Ou foi antes ainda, quando as nossas roupas não combinaram, quando a cor dos nossos olhos não eram as mesmas, ou quando as texturas dos nossos cabelos estavam em disparate. Ou antes? Quando eu nasci e fui lavado com água benta, quando ele nasceu e teve a pele do pênis cortada? Sim para todas essas possibilidades. Não houve momento em que estivéssemos juntos. E fiquei pensando sobre esses desencontros por horas e horas, penteando com escova fina todos os fios do tempo que passamos, procurando os sinais e acenos de tudo que nos interrompeu. Procurei por desvios de olhares, procurei por palavras cuja pronúncia em Português ele havia esquecido, procurei por fotografias que não me diziam rigorosamente nada, procurei inclusive pelo tamanho do corpo dele que fazia a minha cama sobrar nos pés e na cabeça. Achei tudo, estava tudo lá. Mas nesse penteado eu também achei umas frases de promessas, ou de convites, que acabam por colonizar o futuro da relação: “quando fores assistir a esse filme, me chamas?”, “estou te devendo um café!”, “sobre isso te conto com o tempo...”. É nisso que a gente se escora, ou se agarra, pra justificar o devir-noivinha. O querer-ser-noivinha. Desejar-estar-noivinha. Como podemos nos deixar se acreditávamos que éramos, ou que estávamos, noivinhos? De um denso e promissor relacionamento de carnaval, colonizado precocemente, só sobrou de verdade o devir-viúva de uma quinta-feira de cinzas. O querer-ser-viúva. O desejar-estar-de-luto. O devir-viúva vê sinais do marido morto em todos os lugares: “isso aqui ele me deu naquela viagem...”, “nós passamos por aqui uma vez e ele me disse aquela palavra...”, “foi ele quem sentou nessa cadeira pela última vez, foi ele quem se secou nessa toalha pela última vez, foi ele quem gozou na minha cara pela última vez...”. Todos os sinais que remetem ao marido morto gritam, seja na tela da TV, no cinema, na música, na arquitetura, nos sonhos, no espelho. Em todo o lugar estão rastros do falecido. O devir-viúva é tão cruel quanto o devir-noivinha. E tudo é uma invenção nossa, uma criação momentânea pra gente ter do que se ocupar. Em menos de 24 horas já não há mais rastro, nem sinal, nem referência, nem luto, nem grinalda. Apagou-se. Nunca foi. Em menos de um dia depois, o volume de desejo caiu pelos dois terços e vagamente lembro do formato do nariz, do perfume do desodorante, da distribuição de pelos no corpo. Talvez um flash de memória de um dedo do pé que é torto, de um dente apinhado, de um beijo burocrático, mas logo que lembro disso em seguida me ocupo da receita que acompanho pela TV a cabo. Quando toca novamente o celular, uns quinze dias depois, eu olho e penso “que número é este? Não vou atender, deve ser de call Center pra vender cartão de crédito”. E desligo, e nem me dou conta que duas semanas antes eu morreria por aquela ligação. Esse talvez seja o meu devir-Alzheimer.

Sim, claro, disso eu não tenho dúvidas. Estávamos em contextos de vida bem diferentes, não havia como eu me interessar por ele, nem ele por mim. Ele vem daquele jeito intenso, furacão, tornado, ciclone do deserto de Gaza. E eu nesse meu passo lento, lago de superfície tranquila e água profunda. Ele foi tão desinteressante, tão estranho, tão inadequado. Será que o fato de eu não ter me comovido com ele é culpa da minha insensibilidade? Mas o risco é justamente esse, o de tentar alcançar algum estrato de intimidade para depois pôr pesadas compressas de silêncio nesse buraco que cavamos um no outro. O risco de tentar auscultar uma interioridade que é rasa, a ansiedade em arranhar uma peça que é folheada. Bater na porta de um apartamento desocupado. E essa vizinha horrorosa continua a falar no telefone na janela do quarto! Odeio isso, porque acompanho como ouvinte de rádio os dramas dessa vidinha ridí[...]

Cartas a uma jovem bicha - Cuidado com os redemoinhos

Eu não sei de quem é essa chamada não atendida, mas acho que o texto da tua mensagem é péssimo. Porque tudo isso já foi escrito, e tudo já foi escrito deste mesmo modo. Não há novidade. Há uma recorrência aqui, o ‘devir-noivinha’, não te parece? O que repete? Se te chega um redemoinho tu te escondes num casulo ou te jogas nele? Não, não há resposta errada para isso, mas também não há a certa: veja o que te sobrou do que aconteceu hoje pela manhã. Louças para lavar e uns restos de comida de gato para pôr no lixo. O que te sobrou de ontem à noite foi uma camisinha usada pela metade, nem muito pra dentro e nem muito pra fora, e mais alguns meses de um rubor ingênuo ao lembrar dessa situação. O que te sobrou de ontem à tarde foi dez reais e cinquenta centavos que vão te fazer muita falta no próximo mês, já que nem pra comida terás. Tu sabes disso tudo, mas mesmo assim a noivinha se esconde dos redemoinhos mais belos e rodopia junto com os mais perigosos. E foi assim sempre. Sobrou de tudo também um pouco da casa vazia – que não é ruim, mas é estranho depois de tanto vigor – que ontem mesmo estava cheia de estórias fantásticas de viagens pelo deserto, aventuras, paisagens, rostos e corpos. Deixaste ir na enxurrada de causos, na torrente de contos. A paisagem, a visage, é exatamente esta: de água, de sentimentos que vêm em explosões. Foste seduzido por experiências que nunca serão tuas, que nunca estiveram presentes, que nunca foram pensadas. Tu nunca pensaste em chegar na tua idade com tantas narrativas. Todo contador é um sedutor. E tu só escutas as estórias, as narrativas, só ouves os contos e os causos: isso que sentes agora é apenas a ressaca do “efeito Sherazade” que logo, logo passa. Penso ser importante, talvez, assinalar que gostei da tua ousadia em alguns momentos. Admito que não esperava tanta segurança em pouco tempo. Contudo, não te animes, porque ainda há muito o que fazer para deixar de ser tão prisioneiro das tuas espinhas e cravos. Quem sabe pare de ouvir e passe a contar mais das tuas coisas? É uma dica, que não precisa ser levada ao pé da letra, mas que pode te ajudar: pense menos e faça mais. Ah, não! Não ligue! Não mande mensagem! Respondendo à tua pergunta: não era a ligação que tu esperavas nessa chamada não atendida, e não conte com um telefonema de carinho pelo menos nos próximos cinco dias. Isso porque quando perto do redemoinho tu ficas pequeno e insosso, insípido. Tu estavas profundamente desinteressante ontem. Ele é de ar, tu é de terra, te falta água. Os olhares da saída que tu lançaste para ele e que ele te lançou no momento em que fechavas o portão e no momento em que ele atravessava a rua foram pra ti um rastro de interesse e para ele um selo de uma carta que foi escrita enquanto ele dormia do teu lado – e enquanto tu ficavas acordado, assustado com o peso de um corpo estranho na tua já solitária cama –, postada de última hora. Era uma carta de oi-tchau. Tudo isso para dizer que a tua noivinha deve se recolher. Não haverá ligações – nem recebidas, nem perdidas – não haverá interesse. É próprio dos redemoinhos o nomadismo. Pois deixe que ele passe por outros lados, outros lagos, pequenos lagos de vazio. Se te doi a garganta hoje é porque represaste muitas estórias em ti ontem. [Represado] estás há muito tempo. Por isso tens problemas com a fala (te dói a garganta, prendes as palavras), por isso tens problema com excreção (diarreia e prisão de ventre, prende e escorraça em ti os sentimentos), por isso tens problema com a bebida (pões muita água pra dentro da represa com o único intuito de fazê-la transbordar). A figura que te significa é esta: de uma imensa e profunda represa que de tempos em tempos abre suas comportas. Quando isso acontece, és soberbo frente aos patéticos redemoinhos.

guri/18cm/25a

Não houve resposta dos bonitos. Nenhuma. Mas houve quem se incomodasse com a pertinência do negócio, os bonitos ficaram brabos: "vou permanecer com minha índole firme e intacta; não vou sair trepando com todo mundo por ae".

pois eu vou, sabe? sair trepando! no parque, no cinema pornô, na internet. Vou me aprimorar nisso, cada vez mais, cada vez melhor. Cada vez mais profissional em abrir e vestir a camisinha, cada vez mais hábil em passar o gel. Perfurar orifícios, boca e ânus. Exercitar dedos. Não é necessário nenhum apelido ali: vale apenas chegar, e de preferência não falar nada. Bonitos? Não vale nada, ou muito pouco. O negócio é sair trepando.

isso é ruim pros bonitos porque não reproduz. não prossegue. não cria uma linha linear, consecutiva, pros bonitos: "o fulano é filho do fulano bonito com a fulana bonita, que são filhos de..." Isso rompe, interrompe, sectariza, rizomatiza. Porque posso adotar qualquer um como sendo meu. Posso escolher quem é 'meu', inclusive um feio. Posso escolher. Posso surpreender. Posso, inclusive, escolher que não quero, que não vou, que termina ali, que ali é o fim. Posso escolher meu fim - ou dos bonitos.

e daí aparece essas "minha índole, minha moral, minha consciência". Somos chamados a servir, e alguns servem...... (como já diria o velho francês).

As viagens pra fora e as viagens pra dentro

[...] para isso, e eu acho que a ida foi bem tranquila. Eu não bebi na noite anterior e eu acordei cedo, bem antes do que eu imaginava. Deu tempo e vontade de comer granola, a granola mais insossa e pastosa que já comi. Eu sempre tenho essa esperança tola, porém plausível, de comprar a poltrona 37 e viajar ao lado de um homem que esteja disposto a se entregar aos prazeres da viagem, se é que me lês com atenção. Tenho esse paradigma de viagem perfeita, de viagem que dá certo, de viagem que rende. Nunca aconteceu, é claro. E eu acho que nunca aconteceu porque eu não entendo o corpo como um fluxo. E corpo é fluxo. É uma coisa que vai crescendo de dentro pra fora, que vai escamando e se regenerando, que vai gastando, produzindo poeira de corpo, pó de carne. Corpo é como o ato de urinar, falando em termos sadeanos. É um fluxo contínuo, denso, colorido, que sai de algum lugar e vai parar em outro que não sabemos. Produz-se em condições insondáveis, não sabem o que estamos mijando. E sai, precisa sair, não fica contido por muito tempo. Não pode ficar contido por muito tempo. Corpo é isso, é uma coisa que não se contém. Que não fica sempre assim, que muda, que pressiona, que tensiona. Imagine aquela vez, daquele porre de cerveja, daquelas 6 latas de Polar que tu bebeste sem janta e sem ir ao banheiro: lembra do alívio em mijar? Aquilo é o alívio do corpo. O corpo é um alívio. Mas eu vou costurando fio por fio porque na verdade não quero me perder, não quero me desagalhar. Um agasalho feito com tricot de ponto frouxo e esparso é estético, mas não é útil: não esquenta. Meu problema com o corpo é exatamente este: pra mim o corpo é um ponto frouxo, só serve pra estética. Erro com isso. Não vejo o corpo como um fluxo – pra mim ele é frouxo –, não o vejo como algo que vem e muda, que explode e que se torna outro, que já não era o que eu pensava e imediatamente depois de eu achar que o sabia já não me pertencia mais. Não sei do meu corpo, não o vejo. Pessoas dizem “ta fortinho!”, ou “que pancinha!”, ou “muito magro”, ou “não curto magricelos”, ou “muito peludo”, ou “tu é circuncidado?”, ou “que sacão”, ou “fica melhor de cabelo raspado”, ou “que lindo teu cabelo cheio”, e nada disso compõe meu corpo. Nada disso é meu corpo, não traduz meu corpo de modo legível. Não há corpo traduzido. Tenho horror do meu cabelo ‘escabelado’, tu bem sabes. Pois ele ‘escabelou’ meu cabelo na hora do boquete. Pegou meu cabelo e esfregou, desarrumou, puxou forte, entrelaçou pelos dedos e ainda sobrou por entre as mãos, os fios escorregaram e foram pulsados junto com a cabeça. Meu cabelo e minha cabeça, minhas mãos e meus dedos, minha língua, todos engajados num boquete. Terminou gloriosamente, como (quase) sempre termina: num esguicho na minha bochecha. E o corpo? Cadê o corpo? Tava perdido na sala, mas não estava no boquete. O corpo, tal como urina, também é gota que escorre, que sobra do fluxo. Há corpo que é resquício do fluxo, que é reticência; há corpo que é reticente. É o silêncio constrangedor do gozo com estranhos, é a vergonha da gordura no primeiro dia de academia, é a vergonha da fraqueza, das linhas longilíneas e curvilíneas do corpo. Tudo muito burguês e classe média: academia? Gordura? Colesterol? Circuncisão? Corpo-fluxo? É tudo classe média, essa filha do capitalismo e afilhada da psicanálise, mãe do individualismo. Silicone nos peitos, métodos pra aumentar o pênis, depilação a laser, clareamento anal, (circuncisão, eu diria), lente de contato, pintar cabelo, cortar cabelo, fazer a barba, tudo isso é uma invenção da classe média. Somos um grupo prodigiosamente dotado de criatividade inútil. Meu corpo, por exemplo, é uma gota. Um resquício de corpo. E quando meu corpo está perto do dele, do corpo dele, com aqueles cabelos anelados e nariz gigantesco, de homem com dote, com voz rouca de cigarro e bebida (quem disse que cigarro e bebida fazem mal? São adornos da estética musical), com os erres arrastados, os olhos que se fecham, cílios que se tocam, olhos que se abrem com um sorriso e os dentes brancos – nem tão brancos, pela bebida e pelo álcool – que rasgam a cara, que rasgam os lábios, os versos cabem nos dentes amarelados e nos anéis dos cabelos, em curvas, palavras curvadas, sons amarelados. Um microfone, uma mão, uma boca e uma voz. Ou várias vozes. Uma voz canta e uma voz que me fala, uma que me diz ‘oi’, uma outra que te diz ‘oi’, uma que me conta dos resquícios deste corpo – que não é gota, não! Que é fluxo, que é urina, que é tensão! –, uma que cala e outra que canta bem baixinho, pra nenhum público, já de madrugada sobre o palco dos travesseiros, voz protagonista de um chamego e de um beijo – ou dois ou três [sou capaz de mais, mas será que é demais pro fluxo? Pra minha gota é sempre demais]. Esse é o mesmo desejo que me faz comprar sempre a passagem pra poltrona 37. O desejo ingênuo de que um olhar escorregue da poltrona 40 para a poltrona 37. E que o corpo da poltrona 40 entre no fluxo – na gota – do corpo da poltrona 37. Não houve nada durante a viagem, nem na de ida nem da volta. O que eu queria era férias, mas sempre programo o despertador do celular para às 8h do outro dia, isso porque o número 8 é meu número de sorte... [...]

Não há mais nada

[...] e eu disse bem alto ‘pois eu acho um absurdo a senhora ter um carro. Porque um carro polui muito mais do que esse saco que eu tou comprando! A senhora que vá vender seu carro, comprar uma bicicleta, e depois vem discutir comigo a poluição dos sacos pra lixo! Sua velha!’ E saí com meus sacos pra lixo, lindos, negros, de cem litros. Fiquei revoltado com a velha me censurando, me taxando de ‘anti-ecológico’. Cansei dessa gente que posa pra foto, que sorri pra estranhos, que acena pra crianças, que dá moedas e bolachas pra mendigos. Me entristeci lá pelas tantas, fui murchando e implodindo. É demais pra mim, eu faço muitas coisas e penso muitas coisas, vou fazendo e fazendo, repetindo. Em toda coisa repetida – tirar o lixo, limpar o vaso, escovar os dentes, passar desodorante, comer – tem o correspondente de uma coisa vazia – um olhar que atravessa a tela da TV, a tela do computador, uma frase que não faz sentido algum, um corpo que pesa sobre a cama, de ressaca. Não há mais nada nas coisas que faço. Secaram e dissolveram-se, evaporaram-se alguns dos sentidos que eu as dava. Não sobrou nada. A grande dúvida da noite não foi ‘fumo ou não fumo’, nem ‘bebo ou não bebo’, nem ‘saio ou não saio’. A questão que eu me coloquei, o que me fez vacilar, foi justamente ‘dou a cara ou não dou’. Pro tapa mesmo. ‘Ofereço a face ou não ofereço’. ‘Exponho ou não exponho’. Lá pelas tantas resolvi continuar sendo espectador da vida, desisti. E desisti muito fácil, o que me soou um tanto ‘velho’. Pessoas ‘velhas’ desistem fácil, já não estão mais dispostas a desafiar as crenças que as constituem. Pessoas ‘jovens’ estão sempre negociando, sempre provocando, perguntando o porquê. Pessoas ‘velhas’ dizem que já sabem, dizem que devem ser motivo de fé, dizem que ‘já passaram por isso, acredite em mim’. Pessoas ‘velhas’ compactuam com os grilhões e te querem prisioneiro junto com elas. Pessoas ‘jovens’ lutam para desamarrar-se, mas na primeira oportunidade que conseguem de se desvencilhar preferem soltar o outro a si próprias. Eu sei que eu tou seguindo todo o caminho pra ser velho. Nasci velho, gostando das coisas prontas e belas. Rejuvenesci em algum momento, mas me cansa ser ‘jovem’, porque ser ‘jovem’ demanda energia. É mais cômodo ser ‘velho’. Desci uma escada. E lá debaixo eu vejo o povo todo lá em cima, e o povo lá em cima me vê aqui debaixo. Uns toleram a diferença, outros me jogam papel mastigado. Uns me chamam lá pra cima, outros passeiam e nem me veem. Uns me fazem companhia. O fato é que vejo todos – os lá de cima com a cara pro lado de baixo, os aqui debaixo com a cara virada lá pra cima – como distantes e absurdos, profanos, dissimulados. Nunca, nesses anos todos, vi alguém subir e descer a escada. Todos ficam em seus lugares, como se fossem camarotes de castas, imóveis, porém risonhos. Não sinto falta de acordar com alguém, não sinto falta de um corpo na minha cama, de uma respiração na minha nuca, de pensar no meu par quando eu planejo a janta e o café da manhã. Sou egocêntrico. Sinto falta, isso sim, de quem me arranca, de quem me rodopia. Sinto falta de dançar e sinto falta do meu par no passo do salão, na pista. Por tudo isso, acho que esqueci de ser tenro, esqueci que é necessário perdoar as pessoas, que é uma boa alternativa ser gentil. Embruteci nesses últimos anos. Esqueci que eu já fui sensível. Sou feito de inúmeros pontos de esquecimento, muitos vácuos de memória, esqueci que fui bom filho, que chorei na frente dos meus pais, que pedi colo, que senti medo – e que chorei por isso – esqueci que acreditei nos amigos, nas amizades e no prazer do sexo. Esqueci. Hoje são só corpos que manipulo, marionetes. Coisas sem vida, talvez um pouco como eu, um pouco como tu. O que me deixa irritado, muito brabo mesmo, é o fato de eu pegar a estrada amanhã e saber que o ônibus vai por um caminho que eu detesto [...]

Revirando os cantos

[...] e não tive grande problema em acordar e abrir a porta pros caras. Eram três, um mais lindo que o outro, um mais trabalhador-braçal que o outro. Uma manhã bem atípica: há meses não acordo com três belos homens na minha casa - independente do que estão fazendo aqui. Não ficaram muito tempo - nenhum belo homem fica aqui por muito tempo - só fizeram seu trabalho e foram alegrar outra casa, de outro homem solitário, de uma viúva, não sei. Daí eu voltei e olhei bem na frente da minha porta de entrada aquelas revistas empilhadas. E abri uma gaveta, só uma, pra ver se achava um texto... não, não era um texto, era a letra de uma música, de uma ária, na verdade, em francês. Ópera do século XIX. Encenada mais de 1.478 vezes no La Scala. De uma mulher que morre no final. E não é que achei?!? Cruzes, achei! Rasguei na hora! E fui rasgando, rasgando. A Bíblia Sagrada, rasguei todinha. Uma delícia de rasgar aquele papel-seda, ver aquelas letrinhas pela metade, empilhadinhas pra ir pro lixo. E rasguei também umas fotos, umas cartas e uns cartões "de amor". É, pessoas já me mandaram algumas cartas de amor. Fui rasgando essas coisas todas que já passaram, que de certa forma contribuíram pra eu estar aqui hoje, mas que não fazem mais nada agora do que ocupar os cantos das minhas gavetas. E eu preciso dos cantos das gavetas pra guardar essas lembranças pequenas: uma frase, um perfume, um acorde. A cena de um clipe. Rasguei tudo: agendas de quando eu tinha quatorze anos. Aquilo já não é mais eu, entende? Na minha agenda mais antiga, uma moradora: uma traça imensa de gorda! Bom, todo o drama que eu insistia em escrever naquelas páginas fizeram bem a alguém. A não ser a traça, mas nada de vivo por ali, nem nas fotografias, nem nos textos, nas ideias dos textos, na caneta grudada junta à agenda não havia mais tinta. As únicas partes que fiz questão de rasgar em miúdos foram os "dados pessoais" das agendas - com número de conta bancária, passaporte, endereço, tipo sanguineo - e as cartas de amor. Ah, e a Bíblia, que para alguns não deixa de ser também uma carta de amor. Cansei o dedo de rasgar. Recuperei muitos cantos em várias gavetas, muitos ângulos retos onde posso acomodar mais sussuros ditos à beira da praia, se houver. Vou ganhar um sofá novo. Pensando bem, acho que até da minha coleção de rolhas eu vou me desfazer, pois rolhas não afundam. Elas nunca afundam, ficam boiando, não morrem afogadas. É o símbolo de algo que resiste. Não sei se quero tanta resistência, às vezes vale mais a pena se deixar ir no fluxo, no movimento. Mas com essa história toda eu vou ter que comprar mais saco pra lixo porque usei o último, imagina [...]

Coisas à toa

[...] e daí a gente vai guardando um rancor aqui, sufocando uma palavra ali. E vai deixando tudo se amontoar, empilhando cenas ranzinzas. Acho que foi um pouco isso que senti quando eu li as revistas. Imagina, havia sete edições que eu sequer tirei do plástico, numa pilha bem na frente da porta de entrada do meu apartamento. Daí resolvi passar os olhos por elas, uma por uma em ordem cronológica. Não entendi muito bem porque eu comecei a ficar nervoso folheando as páginas, porque eu estava ansioso, desconfortável. Quando eu terminei, eu tinha lido não mais que três reportagens, uma dúzia de linhas ao acaso. Tinha visto dezenas de fotografias, todas muito bonitas. Mas o desconforto e a ansiedade eu só descobri depois. Acho que eu guardei essas revistas por muito tempo, e quando eu as tirei do plástico e as folheei pela primeira vez – imagina, tinha uma edição de agosto do ano passado que estava sendo manuseada pela primeira vez – eu fui me dando conta que eu estava amontoado por sobre um sofá todo sujo e velho. Eu fui me amontoando e me empilhando... e me separando, me dividindo. Uma coisa eu tenho que admitir: só me dei conta disto porque a TV a cabo estragou. Porque senão eu continuaria pulando de um canal pra outro sem precisar pensar na minha rabugice. Acho que minhas chances vão escasseando a cada dia, menos possibilidades por hora que passa. Mais e mais sozinho no próximo final de semana que no anterior; progressão geométrica. Mas é assim mesmo, uns que conheço se unem e se aliam, uns são chamados a servir e servem. Uns passeiam. Outros se dividem, se apartam, se separam. Divorciam-se daquele lugar de onde vieram, tornam-se outros no exílio. E nós vamos nos espalhando por aí. E também é verdade que sinto vontade de dizer, de escrever o que não pude lá no começo, naquela hora exata. O problema é que, como eu disse, as chances e as possibilidades vão diminuindo; progressão aritmética. Eu já me sinto bastante constrangido. Acho que lá pelas tantas de mim, eu não tenho mais muita esperança. Parece que simplesmente não dá: NÃO DÁ. A pouca disposição da minha parte faz uma perigosa combinação com a pouca oportunidade do lado de fora – ambas intimamente relacionadas, eu diria. E daí eu vou amontoando esse rancor um pouquinho em cada canto, empilhando mais rabugices pra pegar pó e pra atrapalhar a luz que entra, ou que devia entrar. Uns que conheço vão indo pra fora, extravasando, cada vez mais do avesso. Outros vão fechando. O problema todo é que sábado eu vou ter que acordar às oito da manhã... [...]

Cartas a uma jovem bicha - Por que odiar a chuva?

Tu me escreve dizendo “fez tempo ruim as férias inteiras” e termina a argumentação das razões do tempo ruim afirmando que “a chuva me obrigou a ficar trancado no apartamento, no máximo ir até um shopping”. “Não deu praia”, tu ainda comenta, “voltei com a pele tão branca quanto a que eu tinha quando saí”.

Eu não entendo bem como se consolidou essa nossa ideia – minha, tua, de todos nós – que ‘tempo ruim’ é sinônimo de chuva. Mas não vou dizer aqui que tempo ruim, pra mim, é tempo quente com sol bombando câncer de pele – na minha, na tua, na de todos nós – porque isso é óbvio, tu já devia saber. O que me irrita é outra coisa: é a culpa que tu põe na chuva por tu ter sido obrigado a te trancafiar a sós com tua interioridade. Não é isso que tu vive me dizendo que tem? Uma interioridade? (se ainda fossem várias, mas nem... aff!) Não é pra isso que tu pratica yoga, que tu te submete à terapia? “Pra trabalhar e fortalecer minha interioridade”, tu me diz, como se ela, a interioridade, fosse algo que já estava lá dentro desde sempre, toda dada de antemão, apenas enfraquecida por um pé na bunda domingueiro ou flácida por uma tentativa de conquista mal sucedida. “Equilibrar meu eu interior” é o mantra. Ou pior: “encontrar meu eu interior”. Pois certamente ele, o teu eu interior, saiu correndo quando te ouviu dizer que odeia gente gorda, descompensou-se quando tu sentiu vergonha em ser pobre.

Tudo bem, vá lá, tenha uma interioridade se é isso que tu tanto quer. Pra quais lados ela aponta? Ela pesa pra dentro, tensiona pro interior como uma dobra? Sim, mas somente com uma condição: esse teu eu interior vai tão mais dentro quanto puder se projetar e se visibilizar pra fora. Não é pra isso que tu pratica yoga? Pra deixar o corpo rijo, duro, saudável, com uma carne feliz e natural, super geração saúde. Trabalhar, fortalecer, equilibrar e encontrar a interioridade, sim, mas só e exclusivamente se ela puder ser jogada pra fora, projetada na pele. Agora começo a entender os motivos pelos quais tu não admite perder uma sessão de musculação, sob pena de terríveis ressacas morais, mas falta à sessão de terapia com uma displicência que não te incomoda tanto. A terapia não tem efeitos diretos, visíveis e comprováveis pelos sentidos tão irrefutavelmente quanto a prática do yoga e da musculação. “Correr é um jeito de fazer terapia, faço terapia comigo mesmo”, tu retruca. Concordo em parte justamente por entender tua lógica: correr é terapia pra quem acredita que a gordura é uma neurose, e só faz ‘terapia consigo mesmo’ quem acredita que lá dentro de si há um eu interior para o diálogo. Parabéns, a esquizofrenia agora tem uma utilidade.

Então ficou trancado no apartamento por causa da chuva. Junto com teu eu interior? Qual o problema, não entendo. Teu eu interior não está sarado o bastante? Ou está gordo – ahh, deve estar gordo. E já que tu detesta gente gorda, ele fugiu de ti. E vai ver é por isso que tu pratica yoga, pra encontrá-lo. Mas, na falta do instrutor, compreendo bem teu ímpeto de ir ao shopping. Talvez tua interioridade estivesse fazendo umas compras, gastando o limite de cartão de crédito de papai? Não. Porque tua interioridade talvez seja pobre – além de gorda. Segundo motivo pelo qual ela precisa ser fortalecida.

E tu ainda queria ir à praia. Queria, mesmo mesmo, desfilar de sunga? Não entendo o porquê. Pobre e gordo, teu eu interior voltaria de férias aos frangalhos, pois muito provavelmente encontraria os eus interiores dos outros – como tu – que não o perdoariam por ser pobre e gordo, só pra citar duas características que te incomodam. Debaixo do sol, mais nus do que o necessário, ou pelo menos mais nus do que no resto do ano, os eus interiores dos outros são mais cruéis. Quanto menos roupa, mais perversos. É muita interioridade pra pouco ‘dentro’, sabes.

Eu reescreveria isso que tu me mandaste. Diria que fez um tempo ótimo nas tuas férias, que a chuva foi linda e fértil. Que tu fez uma viagem dentro de si que te rendeu vários insights, fincando tua interioridade – com raízes, tronco grosso e copa frondosa – lá no fundo do teu ser. E me daria por muito satisfeito ao argumentar, simplesmente, que tu voltou com a pele mais branca do que quando saiu porque usou filtro solar fator 50, o que te deu uns 2 anos a mais sem rugas quando tu chegar lá pelos 35. Acredite: esse teu eu interior vai suplicar por mais 2 anos sem rugas quando tu – quando vocês dois, tu e teu eu interior – chegar lá.

Cartas a uma jovem bicha - Desobedeça

Escolhi um evento ao acaso do dia de hoje. Uma imagem que se fixou na minha memória e a partir dela voltei a percorrer os caminhos que me fizeram lembrar. Não me interessei tanto por essa genealogia quanto me fascinou a função da memória – daquilo que lembramos e daquilo que somos lembrados, o tempo todo, desde todos os aspectos – para que a gente possa dizer “eu sou eu” a qualquer momento que sejamos questionados nesse sentido.

Por que eu sou eu, ou como alguém se torna (e continua sendo) o que é são perguntas que grandes filósofos já se fizeram, inclusive já sugeriram respostas ou pelo menos indicaram bons indícios para pensarmos sobre elas. Não tenho a pretensão de tentar responder essas perguntas novamente, tampouco fico envaidecido de suscitá-las. O que me interessa nelas, o que me interessou na imagem que se fixou na minha memória, é que lembrar de nós ontem é um exercício tão fundamental para nós vivermos quanto respirar. Respirar nos mantêm vivos, mas lembrarmos de nós ontem nos mantêm vivos ainda enquanto aquilo que somos. Pois, ora, posso estar vivo mesmo não sendo mais quem eu era - doce delícia de quem pode esquecer de si mesmo.

O problema é que esquecemos, por angústia ou falta de atenção, muitas imagens, sons, sentimentos, cheios e sensações. Perdemos muita coisa, há memórias que vão ficando no caminho. E não é que há vezes em que somos – eu pelo menos sou – surpreendidos por essas memórias que ficaram lá atrás e que, não obstante, ainda dizem que nós somos quem somos hoje? E foi essa imagem que me tomou. Num assombro, num assalto, num arroubo de lucidez de algo que aconteceu há... quatorze anos. Senti muita vergonha desta minha lembrança, vergonha de ter feito, de ter dito. Eu peguei o telefone, liguei e disse um monte de bobagens, mas não liguei pra falar, liguei pra ser ouvido. Porque o que eu mais queria naquele momento era ser notado, ser visto. E fui, de fato, mas com um reticente desprezo. São esses três sentimentos que hoje ainda restam em mim, lá na minha camada mais sedimentada, me compondo de algum modo: a vergonha, o desprezo e a vaidade.

Corri vinte minutos na esteira hoje, ao cabo de uma hora e meia na academia. Por isso fui elogiado. Minha relação com o meu corpo – com este meu corpo, não com os outros mais que tive – é tal que condensa a vergonha, o desprezo e a vaidade. Talvez seja por este motivo que me interesse tanto em estudá-lo, em analisá-lo: quero sugerir pra mim mesmo saídas deste tríplice labirinto. Não é exatamente terapêutico o estudo que faço, não quero simplesmente analisar a mim mesmo, como numa relação narcisicamente insularizada. Como a vergonha, o desprezo e a vaidade se inseriram tão fortemente, cromadas, àquilo que sou? Como elas se acomodaram no meu corpo?

Pra escapar desse círculo, me proponho uma espiral. O centro do círculo ou o ponto de equilíbrio da espiral seria aquilo que nós somos, o que pensamos que somos, o que nos tornamos. Através do ato de escrever eu acho que me desobedeço, me desautorizo, me torno ilegal perante as leis que eu criei. Acabo me tornando um criminoso porque nessa desobediência espiralada de escrever, nesse exercício de ir lá pra minhas bordas, acabo pulando pra uma outra dimensão da trajetória que me fez chegar onde estou. É isso que é a espiral: não é fazer o mesmo caminho, nas exatas coordenadas de antes (isso é o círculo), mas é fazer e refazer o caminho em outra dimensão, num outro fluxo, desde referências outras, diferentes das de antes. Não apenas subindo ou descendo, mas subindo e descendo e pra direita e pra esquerda e pra frente e pra trás e em curva e em ziguezague. O pulo de uma dimensão para outra do círculo, constituindo, então, uma espiral, talvez possa acontecer exatamente quando nos vêm à memória essas lembranças que não são lembradas por muito tempo, que estrategicamente estão postas de lado, fora do caminho do círculo, que nos provocam vergonha (ou medo, ou exasperação, ou dúvida). Elas desobedecem e violam o caminho do círculo porque o redimensionam. Considerá-las pertinentes e aceitá-las (ou seja, refletir sobre sua vergonha, sobre seu desprezo, sobre sua vaidade no meu caso) é uma relação ética consigo porque podem – ou não – espiralar o angustiante círculo ensimesmado no qual frequentemente nos colocamos.

Cabelos

Meus cabelos de Bozo foram a melhor parte daquela noite. Nem a quebra do jejum de álcool foi tão maravilhosa quanto a horizontalidade dos pelos da minha cabeça. Eu dancei, suei, bebi, gargalhei, os fios ficaram úmidos e incharam pros lados. Cabelo de Bozo.

Eu achava que não fosse conseguir, mas eu consegui. Se há dez anos alguém me dissesse que eu estaria onde estou hoje, eu não acreditaria. Ou melhor, acreditaria sim, e ficaria orgulhoso de mim. Hoje, entretanto, não me orgulho tanto quanto eu supostamente me orgulharia há dez anos. E continuo não acreditando. Chego do trabalho sempre por volta das cinco e meia da tarde, dá tempo de ir ao supermercado pra comprar algo pra janta sem me deter no congestionamento de carrinhos e de cestinhas. Um horário civilizado. Chegando cedo do trabalho em casa, em tempos de horário de verão, dá até pra fazer um chimarrão e ir sentar na grama do parque pra pegar os últimos e menos quentes raios de sol. Dá pra voltar pra casa, jantar, estudar, ouvir música, e nos dias marcados na minha agenda eu consigo inclusive assistir aos meus seriados favoritos na TV. Isso porque eu tenho uma grade de canais bem completa, em que são exibidos muitos filmes de razoável qualidade. Se mesmo assim eu não ficar satisfeito, posso escolher algum filme entre os cinquenta e três DVD’s que eu comprei e posso tomar banho ouvindo Debussy ou Madonna. Hoje eu posso me deitar lá pelas onze da noite e ler um livro, de literatura ou filosofia, porque comprei vários livros ao longo dos anos. Mas a melhor parte disso é que além de poder comprá-los, eu posso também lê-los e entendê-los. Eu posso compreendê-los. E posso dormir numa cama king size com quatro travesseiros, acordar relativamente tarde na manhã seguinte e ir pra academia. Afinal, estou matriculado na academia que eu desejei frequentar por anos e anos, mas nunca tinha dinheiro pra isso. Minha vida é boa, mas apenas boa.

E tenho vários amigos, inúmeros, que se encaixam nas mais variadas programações. Posso agendar muitos e diferentes eventos com eles. Meus pais estão vivos. Eu moro sozinho, minha saúde vai bastante bem. E mesmo assim eu tenho cabelo de Bozo.

Não me orgulho, não acho que isso é o bastante. Pode ser ambição demais ou ingratidão com minha trajetória. Eu às vezes bloqueio o medo e consigo me movimentar melhor. Às vezes eu não consigo. Às vezes eu sequer respiro, nem me olho no espelho. Outras vezes passo horas procurando cravos na minha pele, machucando-a. Quase toda a noite eu acordo, ainda um pouco sonhando, e sinto que há alguém no meu quarto ali sentado na minha escrivaninha me observando. Sinto um certo pavor, puxo o lençol e me cubro. Nas noites de verão isso se traduz num verdadeiro inferno porque sinto muito calor, mas o pavor de haver alguém me observando enquanto durmo é maior. E puxo o lençol. Nas noites de inverno não sofro tanto. Mas nas noites de verão eu sinto medo de acordar e me saber observado. E puxo o lençol. Como se um lençol fosse me proteger de qualquer ameaça.

E quando acordo pela manhã, antes de ir à academia, tenho que molhar meu cabelo. Porque ele é muito ondulado, como se o torvelinho de ideias que guardo na minha cabeça fosse o responsável por encrespar meu mar capilar. Meu mar capilar revolto. Acho que meu cabelo de Bozo é assim porque tenho muitas ideias na cabeça. Talvez se eu tivesse cabelo liso eu desejaria ser mais criativo.

Gestos reticentes e olhares curvos

Ou sobre como relacionar-se com o desprezo alheio. Não foi algo que eu já não esperasse, que eu não contasse, que já não estivesse numa borda de possíveis e previsíveis. Desejei-o, é bem verdade, desejei-o para mim como desejo um beijo e uma sexta-feira. Gestos reticentes porque vazios, mas não totalmente vazios. Essa sua reticência é perversa exatamente porque carrega em si tanto o peso mais sincero quanto a nada, o absoluto nada. Gestos reticentes porque vazios, mas ainda com resquícios. Talvez fosse o caso de falar em gestos de resquícios. Tencionei me agarrar nos resquícios, nas reticências, os longos braços e pernas de pele alvíssima. Da sacada do meu apartamento eu podia ver as veias por debaixo da tez. Translúcido. Mas não insípido. Os olhos azuis. Ou seriam verdes? Vê? Já não lembro sequer da cor do teu desprezo.

E por falar neles, ah! Olhar com curvas. Nem pelo espelho eu te supus linear. Acho que errei, desculpe. Se errei, não há desprezo. Só há engano: enganei-me sobre teus gestos e teus olhares. Pois aí está! Olhar curvo, dissimulado. Não me guarde mal, sou apenas um espírito jovem e casmurro, mesmo não tendo avançada idade.
é só o mesmo fluxo de humanidade, gente, não se preocupem. Brincadeira de criança!
(ai, esse povo quer capa pra tudo!!!)


o teu O.B. é o mesmo que ponho no meu hipotálamo.

Deixe que as estações comecem

Meu primeiro nome é Luiz. Com ‘z’. Sou feito de coisas tolas, coisas poucas que foram se justapondo durante vinte e cinco anos, coisas tolas e poucas que foram acumulando como pó e aqui ficaram, a pesar para baixo, formando uma gota. Como, por exemplo, a letra ‘z’ do meu primeiro nome, que é uma tolice. A letra ‘z’ ou a letra ‘s’, a priori, não fariam nenhuma diferença para que eu me apresentasse, mas de qualquer modo todo um processo administrativo foi levado a efeito junto ao cartório em que fui registrado para que se trocasse a letra ‘s’ do primeiro registro do meu nome – o escrivão tinha uma personalidade forte e não deixara que eu fosse Lui’z’ – para transformar-se na letra ‘z’. Te convido para analisar a forma destas duas letras: ‘s’ é suave e curvilíneo, é uma dança no papel e nos dedos de quem escreve, é um caminho sinuoso. ‘S’inuoso. A letra ‘z’ radicaliza as dobras do ‘s’ e cria ângulos onde antes havia curvas. Radicali’z’a. Como disse Deleuze: “Z é uma letra formidável que nos faz voltar ao A”. Ele explica que ‘z’ é o movimento brusco, angular, que deveria preceder ou substituir o Big Bang. “Você gosta de ter um Z no seu nome?”, pergunta a entrevistadora. “Adoro!”, responde o velho com longas unhas.

Eu também adoro ser Lui’z’. Mas não me incomodaria em ser Lui’s’. Me pergunto, e acho que isso é importante para ti, que não me conhece, se eu seria fundamentalmente diferente se eu fosse curvilíneo. Se eu chegasse numa noite toda negra, em que corpos interagissem e se lambessem publicamente, ou se eu me insinuasse pelos bosques, pelas matas, pelos matos e pelos parques noturnamente, individualmente (eu e os outros corpos, individuais), se eu bebesse e se eu me deleitasse, se eu gastasse o tempo e o dinheiro que tenho e que não tenho, se eu me vestisse e ainda assim me envergonhasse do meu corpo, se eu tentasse e sofresse, se eu tentasse e não conseguisse, se eu fosse o que não sou... Eu seria o quê?

Não sei, mas definitivamente eu não seria Lui’z’. Viste quantos ‘s’ constam no parágrafo acima? Demasiados ‘s’. E eu não sou ‘s’, sou ‘z’, sou Luiz com ‘z’. Eu vou seguindo por um caminho que muda bruscamente, para outro lado. Não me curvo, não 's'uavizo. É o choque que o ‘z’ causa na escrita do meu nome que me permite chegar a dizer “eu sou”.

Mas, como eu dizia, sou feito de coisas tolas e poucas. De todo modo, coisas que foram criando tensão sobre a superfície do meu corpo e, então, chegaram ao ponto de dizer “tu és lui’z’”. Não sou eu quem diz, e sim as coisas que me fazem ser quem sou. Tu te interessas por isso? Não sei bem em que momento comecei a te admirar, a te erotizar ou a te desejar. Acho que o verbo é exatamente esse: desejar. De’s’ejar, porque o que sinto vem em curvas, em intensidades de onda, em movimentos curvilíneos por ti. Não sei se é teu nariz em ‘z’, ou teus olhos negros profundos – de cigano? Oblíquo? Dissimulado? – ou se sou eu que me engano. Aposto no meu engano e gosto de acreditar na beleza dos ângulos do teu nariz, de noventa graus, cento e oitenta, nariz de triângulo, de Báskara. Eu ouço uma música que me faz lembrar muito do teu nariz, mas também dos teus olhos e sobretudo das tuas mãos. Oh!, tuas mãos me apaixonaram por primeiro. Quando elevaste teus braços à altura dos ombros, eles em arco na frente de teu rosto, as mãos em frente aos teus olhos – negros, buraco-negro – e os dedos indicadores (direito e esquerdo) encontraram os polegares com uma suavidade que os impediam de se tocar, me apaixonei. Posição de balé clássico. E uns dedos longos, uns dedos alvos, umas unhas bem cortadas, opacas. Dois olhos de buraco-negro entre um nariz triangular e protuberante. E sorriste.

Teu corpo dançou em ziguezague. A letra ‘z’ em teu corpo e a letra ‘z’ no meu nome. E é impossível que não tenhamos nada a viver um com o outro. Talvez tu com o meu corpo, e eu com teu nome.

as verdes noites do fundo dos olhos em que tu dormes

Eu sei que não era bom que eu tentasse, que eu insistisse, mas eu pensei “por que eu deveria ficar angustiado por não ter chegado lá na borda, lá no limite?”. E eu vim. Mas agora me arrasto como pano de chão, rasgo como um caco de vidro. Estes foram os melhores e piores dias da minha vida, sem mágoas. Dos melhores e piores não sei se o que restou de mim é o que tenho de mais forte, de mais bonito, de mais duro ou de mais inútil. Isso que sobrou de mim depois dessa patrola, isso não sou eu... sou? Aqui no limite não mora muita gente, mas eu. Alguém mora na borda? Ou a borda foi feita para que seja experimentada sempre do seu lado avesso, sempre como estrangeiro, como forasteiro... E aqui mais uma borda e mais uma tentativa, mais uma insistência. E eu penso “por que eu deveria ficar angustiado por não ter virado estrangeiro e forasteiro?”. Vou lá revirar a borda, pôr do avesso o limite (as minhas, os meus [e de arrasto levo dos outros] que eram tão curtos e próximos e hoje se alargam). Mas esse estrangeiro que me tornei, esse exilado – é bem verdade – ele é a parte dura de alguém que já foi mais agradável, porém bem menos aventureiro. Gosto desse exílio, desse estrangeiro, mas o viajante no qual me tornei já não guarda mais nenhuma similitude – aparência, similaridade, eqüidade, correspondência – com o genuíno e autêntico EU. Só sobrou a parte dura, a casca-do-fora, o bagaço. O sumo se foi. Depois da patrola, o exílio, e só resta a casca-do-fora. "Nunca houve o genuíno", me diz o forasteiro; "não há autenticidade, nenhuma nacionalidade do eu, nenhum eu-pátria", me diz o estrangeiro. O nômade acredita ter raízes na terra apenas enquanto a madeira queima na fogueira, em torno das barracas recém levantadas, depois vai-se embora com as cinzas.


Eu olhei apenas de relance, não quis me deter. Mas são tão verdes as tuas noites quanto são azuis as minhas? São tão desgrenhados os teus travesseiros quanto são encaracolados cor-de-mel os meus? Não nos demos conta naquele momento, mas éramos forasteiros um do outro. E como nômades que somos, passamos por mim e por ti quase sem debruçarmo-nos mais extensivamente na terra a ponto de fazer fogueira. Não há cinzas de nós. Só verdes noites pra ti, travesseiros platinados pra mim.

Cartas a uma jovem bicha - conversações

Preciso de tua ajuda. Gostaria muito que tu reapresentasse teu trabalho. Por várias razões, primeiro porque nos falta estudos sobre gênero e sexualidade, segundo porque teu trabalho é politicamente engajado (portanto, peço que mostre imagens que realmente tire o sexo desse pedestal do que não se comenta).

Bem, aceito o convite, claro.
Será um prazer!

Ai, que bom, que bom mesmo que aceitaste o convite. Mas não é pra observar os cânones... Enfim, é algo explicito mesmo.

É pra ser algo explicíto? Afffff, vai ser babado!

Desculpa a demora em te agradecer, mas muito obrigado pela coragem, pela desenvoltura. tava muito feliz com tudo, com o frizzon que teu certo "anti-academicismo" causava; porém, quando cheguei em casa e lembrei que na avaliação deles terá (bom, essa parte logicamente é confidencial) um trecho do Triângulo das Àguas do Caio Fernando Abreu onde um dos personagens narra que relação entre homens é cu e cu é merda - puxando o a referência da Mary Douglas em Pureza e Perigo -, fiquei um pouco receoso porque acabamos desde a fala da G MAGAZINE ( com a referência a iconografica S&M) depois a tua apresentação com um certo olhar ainda exotizante sobre o homoerotismo...O que quero dizer... será, pensando na máxima antropológica, que realmente FAMILIARIZAMOS O ÉXOTICO?

O que é exótico? É exótico pra quem? em quais circunstâncias? Enfim, discordo da "máxima antropológica" de familiarizar o exótico, isso porque o familiar nunca será sempre familiar e nem o exótico será sempre o exótico, não importa o estudo e as abordagens que façamos. Estudar homens gays bebendo urina na internet vai ser familiar ou exótico para as pessoas, assim como fazer etnografia entre índios também será familiar ou exótico. 'Familiar' e 'exótico' como categorias analíticas não têm muita funcionalidade, do meu ponto de vista. Me incomoda um pouco esse imperativo, mas concordo que cada área do conhecimento tem seus cânones e suas prerrogativas. Mais: esses usos dos corpos que apresentei, essas representações disponíveis sobre homens gays, por exemplo (que estão na G Magazine, em 'homem é cu, cu é merda' do Caio F.), elas são objetos de estudo acadêmico exatamente para mostrar que essa categoria a que damos o nome de 'exótico' é totalmente arbitrária. Eu deveria, então, ter começado pelo final, isso porque eu iria falar que aquele jeito de ser homem gay - 'exótico', demasiado "macho mijador" - é uma performance de fachada, "pros outros verem", é uma representação possível e disponível de masculinidade gay que, nem de longe, é alcançada a mantida por todos a todo tempo. Também questiono essa exotização - o processo de tornar-exótico, tornar-diferente - ou ainda o tornar-abjeto, o tornar-repulsivo, o tornar-impensável (que um homem beba a urina de outro em uma latrina.... e que publique na internet!!). A partir de que parâmetros tornamos um corpo, uma sexualidade exótica? em relação a que ou em relação a quem? em quais condições? De todo modo, tu me perguntas, então: de fato conseguimos (ou vocês conseguiram, ou tu conseguiste) familiarizar o exótico? Em resposta, como bom deleuziano que sou, faço uma pergunta ao avesso: se nós conseguimos (vocês conseguiram, tu conseguiste) fazer com que, por exemplo, algum daqueles alunos EXOTIZASSEM seus próprios corpos, seus próprios gêneros e suas próprias sexualidades? Se sim, as próprias categorias de EXÓTICO e de FAMILIAR estarão profundamente desestabilizadas nesses alunos, e isso vai refletir no modo com que eles fazem pesquisa - e no modo com que eles lêem Weber, Giddens, Marx, Rabinow. Do meu ponto de vista, pra que a "máxima antropológica" de familiarização do exótico seja levada a efeito, ela sempre (SEMPRE) tem de vir com a recíproca de exotização do familiar. Se não, corremos o risco de colocar tudo no registro do familiar, daquilo que compreendo racionalmente, daquilo que não estranho, daquilo que me é comum e, no limite, acabamos por ser indiferentes em relação àquilo que familiarizamos. Pense: se algum daqueles guris da aula sentiu-se exotizado em sua masculinidade ao ver aquele vídeo, não estaria a própria categoria de exótico, associada à sexualidade homossexual, implicada numa familiarização? Mostrar as múltiplas maneiras de viver o prazer com o corpo, de representar esse prazer e esse desejo - algo que eu acho que vocês fizeram - múltiplas formas de ser homem e de ser mulher desestabiliza aquilo que tomamos por exótico: se há tanta coisa exótica, será que eu mesmo não sou, no limite? É quase como o conto "O Alienista". Considere ou desconsidere minhas palavras. Sou uma outra coisa - qualquer coisa, inominável -, não um antropólogo. Posso estar dizendo coisas fúteis e superficiais para quem pertence a essa área do conhecimento, eu lançando questões risíveis. E se eu estiver, te autorizo a rir de mim, hehehehe!

Ai.... Como começar? Bom, primeiro é dizer eu que não me fiz claro como deveria, tampouco, fiz jus ao legado antropológico. A máxima do meu campo é sim, essa inevitável via de mão-dupla, "estranhar o familiar e familiarizar o estranho (ou exótico)". E tal reflexão se encontra desde os nossos, por assim, primeiros "manuais" de formação e é repetido insistentemente (a título de exemplo pode-se falar do Roberto DAMATTA em Relativizando: uma introdução à Antropologia Social ou mais claramente ao Gilberto VELHO em Observando o familiar). Portanto, não estamos meeeesmo em direções contrárias na produção do conhecimento. Só fiquei um pouco preocupado, é que pedagogicamente (não sei se o termo é bom) instauramos todo um bombardeamento de assuntos que tangem o homoerotismo que sempre culminavam em práticas ainda mais liminares. Então, numa dupla-negativa podemos ajudar a fortalecer a estereotipização de sexualidades não-heteronormativas como, por exemplo, necessariamente vinculadas no limite a sadomasoquismo ou correlatos.Tua apresentação isoladamente, portanto, nos leva a estranharmo-nos/ familiarizarmo-nos de maneira muito salutar; entretanto, quando penso na trajetória acumulada dessas representações na disciplina suspeito de possíveis efeitos colaterais. É claro que ao suspeitar acabo por pensar essa turma alheia ao que referi acima como práticas limares... E como disseste, liminar para quem? Em que situação? Será mesmo que todos ali são alheios ao mundo que narravas? Ou seja, meu esforço aqui é para dar conta do que nos é exigido ao construir representações para uma audiência especifica (ou falar dentro de uma comunidade de sentidos especifica, que nem é a comunidade antropológica, mas seu embrião). Na real, é um esforço para que o discurso sobre o político que há no fazer acadêmico vá além. Enfim, obrigadão, me ajudou muito.

oi!
tava lendo uma matéria no le monde sobre o aniversário do Lévi-Strauss e lembrei de te responder, hehehe
foste ontem no DaMatta? Eu queria ter ido, mas não rolou.
sobre o caráter exótico das práticas homoeróticas, que pode ser um "efeito colateral" das discussões feitas ao longo da disciplina... bom.... isso é tão difícil de agarrar, de controlar. Como avaliar isso? De fato, é algo que eu tb me pergunto quando vou aplicar prova pros meus alunos. É doido isso, mas eu acho que o importante é colocar a questão pra ser discutida, e não simplesmente não falar nela. Enfim, meu "anti-academicismo" passa muito por ae. É claro que a gente tem que se questionar sobre como, por exemplo, as discussões sobre sexualidade são feitas na academia. Mas eu acho importante que as discussões sejam feitas. Pouco tempo atrás isso era impensável. Sobre os efeitos. O binômio ensino-aprendizagem é tãããão insondável... Sabe-se lá o que a turma acumulou ao longo das discussões. Mas o que acho salutar - o que me orgulhou muito, me lisonjeou, me envaideceu - foi o fato de a minha pesquisa, bastante pouco etnográfica, pôde ser apresentada na antropologia. E eu acho que esse contato com diferentes maneiras de produzir conhecimento, tanto da minha parte quanto da parte dos alunos, é sempre bom. É claro que algumas críticas e desprezos são sempre lançados, de uma direção para outra mutuamente, mas pensemos que isso seria impensável há um tempo. Como tu mesmo sabes, há professores aí na antropologia que não concordam muito com essa interdisciplinaridade; há vários aí que são "essencialmente puristas". O intercâmbio, por si só, foi ótimo!!!

Peço pro tempo correr.

Essas mal tecladas linhas... só pra dizer que eu desejo muito honestamente que essa semana passe, e que chegue a outra, e o próximo mês, e o próximo ano, com suas respostas, portas fechadas, novas e velhas alternativas. Mas, por favor, com o direito à paz, direito a chegar à noite sem a tensão do dia seguinte, sem a obrigação de mais um página escrita e mais um texto lido, sem a obrigação de mais uma aula dada, de mais uma palestra, mais um seminário, mais uma oficina, mais uma reunião. Sem a obrigação de tomar decisões. Deitar no sofá e só apertar no botão do volume. Sentar em frente ao computador e só clicar em conectar. Sexo: aqui, acolá, com ele, com eles, com eles e elas, mas sem a obrigação de atuar como ator pornô. Sem a obrigação de ser super, de ser relevante, de dizer ou escrever coisas inteligentes. Porque não digo, nem escrevo: me esforço, me concentro para dizer e escrever é por isso que me consome tanto essa obrigação. E quase nunca consigo. Só o próximo final de semana, mais uma semana, mais um mês, mais um ano: sem obrigações.

Ingênuo

Eu só queria que desse certo.
Perdão, errei.
Mas tu também não foste o que eu esperava.
Vá, então, nem penso em querer novamente.
E se eu pensasse, seria tão bom quanto nós queríamos?
Pois vá, nem quero. Nem queremos. Nem quiséramos.
Era isso né?
A gente se fala.

Depois de tanto tempo

Só não escrevo aqui porque me falta tempo e iniciativa.
Escrever é sempre um exercício de resolver, elaborar e criar problemas; é o que menos quero agora. Tenho me sentido feliz em limpar meu apartamento com muito desinfetante e álcool (apesar de o álcool não limpar nada, o importante é a sensação de limpeza que ele me dá, obrigado!). Aliás, álcool não só pra limpar, mas também pra desprender, esquecer, fingir que não viu e que não escutou, fantasiar: em suma, acreditar que desinfeto-me por dentro. É incrível, mas na mesma medida em que me sinto intoxicado (pelo álcool, pela gordura, pelo pessimismo e pela derrota [sim, o gosto do pessimismo é tão insuportável quanto o da vodka de garrafa de plástico]), eu desinfeto. Dá pra comer no chão da minha cozinha, tomar um drink no meu vaso sanitário. Queres?
Escerver é sempre isso, essa dor de traduzir. É necessário escrever sobre tudo, o tempo inteiro?
É melhor parar aqui, pois se eu continuar haverá mais problemas resolvidos, elaborados e criados. É o que menos quero agora; estou feliz com os minhas correntes de sempre.

O último

O suspiro que solto no ar quando te vejo é tão degradante!

Cartas a uma jovem bicha – eu sou assim

E se eu choro é porque sou ator, e se eu desejo é porque sou ator também. Eu não posso assim, do jeito que tu quer eu não posso, eu não consigo. O sorriso descarrilhado e os olhos afiletados eu só descobri depois. Mas depois pra mim não é longe, não é inalcançável: eu sei o que fiz, eu sei que eu não quis, e eu não me arrependo. Eu me arrependo, talvez, dessa minha impetuosidade, dessa minha vontade de ser trator. Minhas mãos longínquas, com dedos superlativos, te escrevem isso porque estão desocupados. Porque se tivessem outros corpos pra digitar (que não fossem esses tão solícitos quanto são o laptop [nem tão ardentes quanto fossem meus dedos]) elas estariam calmas e dançantes talvez folheando um livro de Proust ou um livro de ti, mas de qualquer forma estariam aqui e não aí onde tu lês isso que escrevo. E o que fazes aí? Por que motivo não vais ler, ou estudar, ou dialogar consigo? Por que lês isso? Não há nada aqui: só há imitação e deboche, recalque, repressão, mas tudo com um pouco de doçura. Porque sempre lembro de ti e por onde tu andas e por onde tu estás e por onde tu respiras me diga que eu quero saber porque tu me faz falta e teu corpo se encaixa no meu... morreste? Eu pensava que sim. Eu levo comigo um pouco da tua morte? Eu ainda penso em ti, ainda te quero e ainda te procuro nesses outros corpos: cadê teu corpo? Procuro tuas letras iniciais, teus recuos de parágrafos, mas me diz: onde estás? Se soubesses o quanto minhas mãos aracnídeas batem e rebatem nesse teclado negro à tua procura. E isso acontece não porque sou bêbado (também porque sou bêbado, mas acima de tudo porque sou uma lâmina, um filete, uma fatia bem fina [uma coisa delgada através da qual passa tudo aquilo que mais desejo], um sopro e um riso, uma cédula ou moeda que cai do bolso, um esquecimento), elas acontecem porque não há nada. Nada. Nunca houve. Cadê você em mim? Não há! Saia já daqui: não há motivo nenhum para eu me enrolar nos lençóis verdes com perfume amadeirado. As veias que cobrem minhas mãos mantêm a aranha que desliza pela teia das minhas confusões. Te amo mesmo assim. E aí tu estás, não é?!?! Insinuando-se pelas minhas superfícies e se querendo pelas minhas aderências!!!! Te denuncio!!!! Onde vais querer ficar (fica comigo [fica na minha mão, na minha boca] fica no meu quarto), onde vais querer dormir? Sempre dormes comigo de algum modo, mas nunca de um jeito tão traduzido, tão ligeiro, tão simpático. Saia daqui: não há nada pior que um corpo simpático, por favor, saia agora para sempre.

E cabe mais outra pergunta

O que é "ser quem nós somos"?
Qual é nossa identidade? Como ousamos ser - e dizer que somos - alguma coisa?





Me poupem, né?

Álcool

Bebo pra sentir o torpor, pra perder de vista, pra perder o horizonte. Não bebo pelo gosto da cevada, nem pelo gosto do milho fermentado, ou da uva com gás. Bebo porque quero sair de mim, porque quero não ser eu. Há algum problema nisso? Por que haveria um problema - qualquer que fosse - em querer não ser quem é? Há vezes em que não quero ser quem eu sou, e coincidentemente é uma vez por semana, e daí eu bebo. E só bebo. Poderia fazer outras coisas, consumir outras substâncias que - ok! - também dão o mesmo barato. Mas eu, eu mesmo, eu prefiro beber. Pôr pra dentro líquidos. E não sólidos, nem pó, nem fumaça. E daí? Tem gente que deixa de ser quem é atravessando a rua. Outras deixam de ser quem são na internet, usando apelidos. Tem gente que deixa de ser quem é cantando, ou escrevendo... Por que motivo eu sou visto com maus olhos porque tento deixar de ser quem sou ao beber? Cabe a pergunta: "por que deixar de ser quem és?" E retribuo: "que saco ser eu o tempo inteiro!".

Beleza

INTERLOCUTOR diz:
bonita boca que tu tem
jsb diz:
é só uma boca, mais nada
INTERLOCUTOR diz:
é sim
INTERLOCUTOR diz:
mas é bonita
jsb diz:
tenho outras partes mais bonitas
INTERLOCUTOR diz:
por exemplo?
INTERLOCUTOR diz:
adoro partes
jsb diz:
mãos e antebraços.
INTERLOCUTOR diz:
maos...
jsb diz:
adoro minhas mãos.
INTERLOCUTOR diz:
sou louco por maos e pés
jsb diz:
meus pés acho feios, mas mãos acho bonitas.
INTERLOCUTOR diz:
ng é de todo bonito, afinal
jsb diz:
não!! pelo contrário!! somos todos bonitos integralmente. Só há alguns que não reconhecem nossa beleza

Andanças

Alguéééééémmmmmmmm???

Alguééééémmm aí foooooraaaa?

Tá me ouvindooo?

Socoooooorrroooooooo!

......... acho que vou ter que seguir até o próximo vilarejo ....................

(Que parte de mim realmente importa: a voz pra gritar, as pernas pra andar, a saudade pra voltar, o medo de seguir? Do que eu preciso, de que parte de mim eu preciso? Qual delas eu vou ter de arrancar fora? Se eu não tivesse chegado tão longe em tão pouco tempo, acho que me cansaria disso, acho que não seguiria para o próximo vilarejo. Cansei de gritar perdido na estrada e nunca obter respostas. E também cansei de encontrá-las quando eu me satisfazia com minhas dúvidas cretinas, quando eu estava feliz em ser burro. Se eu não tivesse chegado aqui, eu pararia. De que servem minhas unhas bem cortadas e bem limpas em noite de andança de um vilarejo pra outro?)

Drooooga! Quebrei o salto, porra.

Diálogo com cães ferozes II

... não, pessoa feia! Tu pra mim não passa de um amontoado de carne com um belo par de olhos. E o que esse par de olhos claros vê? Nada muito além da autocomiseração aliada a um egocentrismo doente – é claro, achar-se o máximo sempre vem de mãos dadas ao achar-se uma merda. Prefiro ficar com a segunda opção. Ao contrário da maioria, que se seduz pelo sorriso fácil, pelos cabelos que balançam, enfim, pelo belo par de olhos, eu procuro enxergar e ouvir mais coisas a teu respeito. E há tantas, né? Uma pessoa que carrega muitas certezas sobre si mesmo só pode ser pesada e absoluta como tu. Alguém que crê demais nas suas próprias qualidades passa por cima dos próprios defeitos, inclusive acreditando que seus defeitos possam ser apenas deslizes momentâneos, mas nunca erros recorrentes. Tu consegues empregos confortáveis, ajudas gordas, afagos macios por quê? Porque és autêntico? Não. Consegues tudo isso porque te vendes, porque vendes teu belo par de olhos - e outros servicinhos sujos que não vou nomear aqui. E se um dia acordares com uma venda sobre esses olhinhos? E se um dia o botijão de gás explodir no teu rosto? E se um dia alguém rasgar tua boca com uma tesoura enferrujada? Tu és muito mais que o belo par de olhos: e tudo além disso é feio, muito feio. Pessoa feia!

Diálogo com cães ferozes

... não, queridinho! Meu corpo não é fantoche daqueles quem desejo, nem daqueles que me desejam. Meu corpo é só meu corpo, uma extensão de mim, uma coisa de mim, um algo qualquer de mim, mas não é eu. Eu sou outra coisa e outras coisas, eu não mereço – nem tu, queridinho, mas tu és velho pra dar-se por conta – ser escravizado por um, por dois ou por três que me desejam. E tu és um deles. Eu não vou me subsumir àquilo que tu desejas de mim, não vou me transformar naquilo – aquilo, aquela coisa, aquela máquina – que tu tanto quer provar. Tu não desejas aquele que sou, tu desejas aquilo que tu pensas que eu possa vir a me tornar. Vai te tratar! Eu não quero ser aquilo que tu queres que eu seja, eu quero ser exatamente aquele sou e aquele que eu me torno no instante seguinte, no dia seguinte, no ano seguinte! Eu me adoro um ano depois, dez anos depois, bem ao contrário de ti que fica mais e mais triste a cada minuto que passa. Triste e sozinho. Eu não sou uma pessoa sozinha, eu não sou único: sou tudo aquilo que os outros pensam que eu sou – até mesmo esse insatisfeito que tu pensas – e sou muito mais: sou o que penso que eu sou, sou o que eu quero ser já de antemão, sou o que eu não gostaria de ter sido, mas fui um dia. Não, queridinho! Não me sugue pro teu buraco negro porque lá só tem lugar pra ti!

Foi bom

Adorei ter estado lá pela enésima vez mesmo quando lá estive pela primeira vez.
Tem um saudosismo, uma lembrança querida, mas também tem uma mesa branca que baixa os espíritos que tu nunca mais quer ver! Tem uma delícia de pisar no mesmo chão, mas também uma repulsa por tudo aquilo que te fez beber o resto da cerveja nos copos abandonados!
Nada te abandona a esta altura: tu só colecionas ou preferes fingir que não viu, que não escutou...

No blógui com a Madonna - parte III

Cena III – A bicha-mirim junta 6 meses de mesada para conseguir comprar um compact disc. Em 1993, ter um cd player era a coisa mais ultra-mega-pós-moderna de que se tinha notícia. E o primeiro que ela compra é Erotica, nada mais nada menos que Erotica. Detalhe: em sua casa, ela ainda não tinha cd player. A bicha-mirim, persuasiva, consegue fazer com que seu pai prometa que dentro de no máximo quatro semanas tenha uma máquina dessas em casa... Mas nossa heróica bicha não sabia que tinha pela frente uma nota 4,6 em uma prova de matemática da quarta série primária. A professora manda que os pais assinem a prova, pra depois ser entregue novamente na escola. A assinatura nunca retornou. Quando descobre, o pai suspende a aquisição do aparelho. A bicha-mirim entra em colapso nervoso.

Com que prazer, meu deus, aquele cd chegou às minhas mãos. E com que ansiedade eu fiquei à espera do cd player para poder ouvir as músicas que estavam ali. Passando um dia pelo quiosque da Praça da República, vi uma revista ‘Showbizz’ edição especial Madonna no Brasil. Ali estavam fotografias do show de estréia em Londres, ainda em setembro de 1993, e todo o set list da apresentação. Dei-me por conta de que boa parte das músicas estava em Erotica, e que algumas músicas estavam também em Like a prayer. De True Blue, apenas La isla bonita. O desespero foi tal que em menos de 2 meses eu dei um jeito de conseguir todos – T-O-D-O-S – os álbuns anteriores a Erotica para poder compor, pra mim mesmo, o set list do show. Isso, é claro, me obrigou a fazer negociatas pouco honrosas com meu pai, e também vendas de gibis duvidosos para meus colegas de aula. Tudo era pretexto para juntar dinheiro e comprar os álbuns, em cd, que naquela época custavam muito caro (talvez não tão mais caro que hoje, mas enfim, pelo menos hoje temos a internet e a pirataria, salve salve!). E ainda havia outra batalha a ser travada: conseguir permissão dos meus pais para ir até o Rio de Janeiro, no dia 6 de novembro de 1993, no estádio do Maracanã, para vê-la ao vivo. Resultado: até o início de novembro daquele ano, todos os cd’s estavam em meu poder, e eu permanecia trancafiado no escaldante interior gaúcho. Obviamente não obtive permissão para ver Madonna, sob a legação – mais que justa – de que o Rio era uma cidade muito perigosa para uma criança de 10 anos, tendo em vista que recém havia acontecido o primeiro arrastão na praia de Copacabana. Alguns soluços e lágrimas desperdiçados nessa tentativa infrutífera não me impediram de transformar quaisquer arames, bolas de golfe e até mesmo cabides, nos icônicos microfones de cabeça, que saíam da parte superior das orelhas e se insularizavam até alcançar a boca da cantora. Sim: já que eu não poderia vê-la, eu passei a imitá-la, a fazer meu próprio Girlie Show doméstico, exercitando coreografias imaginárias que eu pensava estarem de acordo com os acordes das músicas que eu ouvia, mas sem saber se eram, de fato, as que Madonna desempenhava no palco. Era um exercício de imaginação: ouvir Express Yourself e dali extrair um movimento corporal, uma contração muscular, um passo que coordenasse braços com pernas como se eu estivesse num palco. A mais difícil, a mais custosa, a mais árida música era Justify my Love. Totalmente subjetivado por aquilo que a revista Veja chamava de “o furacão Madonna”, se eu não poderia vê-la ao vivo eu criava sua imagem em movimento em mim mesmo, no meu próprio corpo, na minha sala. Nenhum hermafroditismo: apenas imaginação e heterotopia nas experimentações de mim.