Cartas a uma jovem bicha - impeachment

“[...]dopio como vodu, e eu fui pego de surpresa. Eu estava mentindo, estava sendo enganado. Tu me acusas, como se acusação fosse, de eu estar completamente apaixonado. Pois estou. Siga em frente no processo de impeachment do meu posto de amargo, de frio, de solene e de seco. No momento mesmo em que apontas o dedo em riste para mim sob essas alegações, eu já estou num outro ponto da espiral. E dessa espiral tu nunca vais fazer parte. Na minha espiral eu beijo, beijo muito, beijo quem eu quero e quem me quer. O “eu” conjuga seu verbo no plural “nós”: eu estou com ele porque queremos. Sinto vontade de tê-lo em mim, para mim e comigo, vontade de antropofagia. Pois não é isso o beijo, isso que tu nunca aproveitaste? Não é isso o beijo, senão um ensaio de devoração? Então de agora em diante me deponha do cargo, casse meu direito de legislar em favor da causa dos solitários e deprimidos porque este posto só pode ser teu [...]”

Um mundo sobre rodas.

Uma arqueologia é isso: é eleger ou de repente ver o que nunca antes pôde ser eleito ou visto, escavar o que lhe sobrepõe, achar outras coisinhas em volta, relacionar essas coisinhas àquilo que foi eleito, verificar as conexões que podem ser estabelecidas entre elas, produzir sentido ao que se vê ou ao que foi escolhido. Não há ponto de origem, marco inicial, monumento de referência; nada sinaliza o local exato onde tudo começa. Já escrevi sobre isso antes, outros já escreveram de uma maneira melhor que essa minha. Não vou me deter explicando isoladamente a teoria na qual eu vivo minha vida – sim, toda vida tem uma teoria, uma filosofia, um pano de fundo conceitual.

Um dia um bom amigo me ensinou que não há sede sem água, nem fome sem pão. Nesse dia eu entendi que nada acontece a sós, mas sempre implicando outra coisa num outro nível, numa outra dimensão. Nada de sobrenatural, de extra humano. O que vivemos e sentimos é desse mundo mesmo, ao qual pertencemos, da nossa história de aqui e agora. Não vou cair na breguice de dizer que eu só sou eu porque há tu, tampouco vou afirmar que agora minha sede está saciada da tua água e tua fome, do meu pão. É possível dizê-lo, mas isso seria não escavar, não explorar, não cortar em lâminas a superfície disso que eu elegi ou disso que eu de repente vi: tu.

Tu: um mundo sobre rodas. Isso já dá um livro de contos, horas navegando no Google, semanas de análise lacaniana, anos de interpretação junguiana, já é o suficiente para meu deleite. Pensar num mundo sobre rodas não é só pensar num mundo em movimento, ou num mundo dinâmico, mutável, leviano. Teu mundo não é leviano. Um mundo sobre rodas também não é um mundo à deriva, sem rumo, nem um mundo que escapa ou que foge. Tu não és um fugitivo. Um mundo sobre rodas não é rápido nem veloz. Portanto, um mundo sobre rodas – o teu mundo sobre rodas, tu – não significa velocidade, leveza, nem covardia.

Meu mundo era cor de rosas. Isso já deu semanas de análise lacaniana, anos de interpretação junguiana. Meu mundo era cor de rosas, mas nunca foi sempre feliz – digamos que os momentos de felicidade estavam salpicados, como gotas, nas pétalas. Também não foi sempre cheiroso, perfumado; meu mundo cor de rosas não foi sempre macio e aveludado. Meu mundo cor de rosas nem sempre foi rosa: foi, em sua maioria, da cor de um amanhecer de inverno. Meu mundo cor de rosas soube aproveitar bem seus espinhos.

Eis que houve o dia, o momento, em que o chuveiro e o vapor, em que as toalhas e o suor serviram de pretexto para pôr lado a lado, totalmente nus, teu mundo sobre rodas e meu mundo cor de rosas. Não tomemos este como sendo nosso monumento: não levamos nossos corpos até lá calculadamente, mas sim fomos levados e arrastados para lá por forças sobre as quais em geral não pensamos. Havia um desejo lá no teu mundo e também um desejo aqui no meu; havia um pouquito de tristeza lá nas tuas rodas e um tanto de solidão nas minhas rosas; havia histórias de outros tempos que nos conduziram até lá (no teu mundo, histórias de lentidão, de pesar e de coragem, histórias de monotonia, de mentiras) [no meu mundo, histórias de morte e luto, de cegueira monocromática, histórias de asperezas e friezas, de fedores]. Não acho que foram nossos olhos, por primeiro, que se tocaram. Foram os joelhos: nos ajoelhamos. Se não há ponto de origem para nós dois (poderíamos ser nós três; na verdade éramos nós cinco lá no chuveiro e no vapor, e desses cinco subtraíram-se dois [nós dois], e desses dois multiplicaram-se tudo o que fizemos até agora), se não há esse ponto inicial, há pelo menos um ponto de engate, de enlace, de intersecção: os joelhos. “Como vocês se conheceram?”, nos perguntam. Respondamos: “Foi pelos joelhos”. E dos joelhos achamos outras coisinhas em volta, outras coisinhas no seu entorno, coisinhas que se avizinham dos joelhos, e fomos escavando essas relações todas entre nossos joelhos, achando rosas sobre rodas e rodas rosáceas, e quadrados, ângulos, verdes e laranjas e morangos, risadas, dias, entardeceres e noites. Coisinhas em volta, conexões entre nossos joelhos. Estamos construindo algo, é bem verdade, montando um rosto para este terceiro mundo, uma face a que se reconhecer e da qual se alegrar. Mas também estamos escavando um ao outro, como se ao fazer nossa arqueologia também estivéssemos fazendo o que queremos do nosso presente.

Sem chances, sem saídas e amando muito tudo isso

Fui encurralado. Lá num cantinho difícil de sair, também difícil de chegar, de fazer construir. Eram muitos meus cantos, meus ângulos. Fiquei preso num deles exatamente quando pensava estar destruindo essas linhas retas que o formavam. Linhas retas que me formavam. Fiquei ali um tempo me debatendo, fazendo um drama – drama Queen – fazendo uma ceninha básica. Deu certo por um tempo, por um certo tempo, mas é hora de mudar de estratégia: é hora de prescindir de qualquer estratégia. Não tenho mais chances, entre as muitas que tive. Ou deixo ir, laissez faire – laissez passer, let it be, que se foda; ou volto no tempo, insisto num certo erro [pessoa confusa essa que insiste num certo erro]. E meu canto – meu ângulo – virou meu canto – minha música. Canto em qualquer canto, já cantou o Ney. A menor distância entre dois pontos jamais foi uma linha reta. A menor distância entre mim e ele não comporta linhas retas, e a maior distância espero nunca mais haver. Nossa menor distância é medida em palavras, palavras que comportam silêncios, palavras ditas pela metade, palavras sussurradas, palavras incompreensíveis, gemidos. Nossa menor distância é também medida pelo toque, toque de um joelho no outro quando os corpos já se tinham descobertos – só mesmo dois românticos para se excitarem com o toque de um no joelho de outro quando os corpos já assinalavam a falta de qualquer coberta, cobertura, véu. Nossa menor distância é medida pelo toque que desliza na superfície, toque que corre, toque que aperta, toque que afaga, toque que puxa os cabelos, toque que beija: o beijo é um toque. Nossa maior distância, já disse, espero que nunca mais exista; e se existir, que para ela não haja medida.
Não tenho escrito muito por aqui, para ti, porque ando escrevendo de outras formas e para outros leitores. Às vezes nem escrevo mesmo, só durmo ou lavo roupas. Há coisas assim, poucas e pequenas, miúdas, que precisam ser feitas: aspirar o carpete, cortar o cabelo. Tenho perdido muito cabelo, mas de fato meus fios cresceram muito nos últimos meses. Tenho feito outras coisas, para outras pessoas. Tenho perdido o contato com alguns amigos, fabricando defeitos neles, me magoando e me consolando “todos tem seus poréns”, e de fato me chateio com o descaso alheio. Decidi adotar a lei de talião em relação a alguns, pedagogia do choque. Com outros, preferi aplicar a lei surda, pedagogia do silêncio. Não nego que sinto prazer em fazer alguns sofrer, me vingo e gosto de me vingar, mas gostaria de não ter que fazer isso. Tenho recobrado o contato com alguns que há muito não via. Rigorosamente iguais: mesmas piadas, mesmas expressões colocadas na mesma ordem em todas as frases que versam do modo exato sobre os mesmos assuntos há quase uma década. Dinheiro, mesada, sexo, aula, festinhas, shows, beijos e internet. Não quero dizer que assuntos de “adultos” falem de outras temáticas, às vezes sim, mas pelo menos são assuntos tratados de outros modos. Dinheiro não significa sempre mesada, apesar de continuar sendo importante; sexo e festinhas não subentendem sempre aulas e internet, apesar de eventualmente estarem correlacionados. Cortar em lâminas as superfícies disso que vivemos, ou não. E assim a gente vai bifurcando os caminhos, desencontrando de uns e misturando-se a outros.

"Pós-tu"

Existe esse pontilhado e essa membrana. Eles separam, mas não dividem; localizam zonas, mas não determinam territórios. São menos muros e mais linhas. Regiões fronteiriças, alfândegas, aduanas, espaços de trânsito.

Sinto saudades. Em Português temos um substantivo, “saudade”, para isso que sinto. Em outras línguas há verbos. Eu gostaria que fosse verbo e não substantivo, porque verbo se move e substantivo fica. Verbos podem ser pretéritos e futuros do pretérito; substantivos imóveis no tempo. Não quero que a saudade fique, quero que ela vá embora, quero esquecer. Quero saudade pretérita.

Vestígios? Rastros? Ficaram pedaços de quem na história de quem? Me pergunto qual delas será a primeira a ser apagada e reescrita, qual delas perderá por primeiro seu sentido. Porque eu agora sou um “pós-tu”, algo que veio depois de ti. Não sei se sinto saudade de ti, propriamente, ou se sinto saudade de mim antes de ti, do “pré-eu”. Meu pontilhado se rasgou. Me pergunto quem vai reconhecer o outro na rua anos depois, quem vai sorrir ao lembrar. Qual de nós vai contar a história do outro, qual de nós vai lamentar as linhas que nos separaram. Qual de nós vai ter saudade, no substantivo, e qual de nós vai sentir saudade, na sua dimensão verbal?

Não sei dos meus acordes

Tem gente que grita. Ou que gesticula, que vomita. Eu prefiro ficar quieto e esperar algum sinal, mas não porque eu esteja esperando muito, ou porque aquilo seja muito importante para mim, ou porque cultivo aquelas palavras com adubo em mim, ou porque já as escrevi na história imaginária da minha vida. Eu fico quieto porque sempre pode haver alguma coisa que, por mais que eu espere, me surpreende; e sempre tem. Sempre tem um silêncio que eu aprendi a não segurar porque ele guarda coisas maravilhosas.
E há aqueles que vão embora. Eu já fui embora, muitas vezes, e nunca é dolorido. Teve uma vez, inclusive, que me deu prazer! E mais prazer me deu depois de vê-lo com um par de óculos ridículos: é minha crueldade achá-lo péssimo (e eu o acho). Eu sei que é dolorido pra quem fica, e eu já fiquei várias vezes, mas dessa vez eu não queria ir, eu queria ficar. Ficar na tua vida como mais uma história inesquecível, como mais um sorriso incontido, como mais um brilho... Posso?
Imaginas tu contando minha história! Com teu sorriso e com teu brilho! Eu pegaria emprestado qualquer adorno, qualquer adereço ou qualquer adjetivo, porque pra mim não há – é claro que há, mas é tão mais lindo quando tu me dizes que achas minha vida linda. Pois venha e desfrute, e olhe para mim, e sinta meu hálito pelo amanhecer, e me beije, e rasgue meus cabelos, puxe, morda minha barriga, sorria com minhas cócegas... O que há em mim que tu gostas? Seja o que for, faça disso âncora, faça disso farol, faça disso latitude e longitude de onde tu deves sempre ficar. Porque, sim, eu sei, tu vais embora, tu vais pra longe e não és daqui. Nunca foste daqui. Mas fique mesmo assim um pouco cá comigo, deixe algo de ti, nem que seja um ‘x’ no mapa. Faça de mim um ponto no teu mapa. Não vá sem deixar algo, um rastro de saliva ou piscar de olhos, resquícios de olhos, telefonema burocrático, email árido. Não vá sem deixar marcas de sentimento; seria péssimo imaginar que passaste por mim e não levaste nada do que eu sinto por ti.
Eu grito, é verdade. Não acho graça nisso. Sinto sono e me rendo rápido, desanimo. Grito, mas não tão alto. Quem ouve, vai embora. Quem não ouve, acha graça. Quem acredita, sabe: só quem me marca tem direito a algumas palavras.

O tempo não para

[...]veja bem gelada, afinal de contas era domingo à noite e no dia seguinte eu não trabalharia, nem teria aula, então me dei de presente esse momento a sós com minha embriaguez, um pouco para comemorar simplesmente o fato de eu estar só, um pouco também pra eu ficar bêbado e achar respostas plausíveis pra’quela situação super inusitada que eu nunca tinha vivido antes. É, eu nunca havia estado assim, nunca nessa encruzilhada, nunca nesse tipo de atravessamento, nunca nesses caminhos paralelos em que um pé está cá e outro acolá. Quando bêbado eu penso menos, mas penso mais leve. Quando bêbado eu penso pior, mas penso menos confuso. Bebi metade da primeira lata quando tocou meu celular. Não reconheci o número, e depois achei que fosse um amigo ligando da casa de outros amigos cujo telefone não constava na minha agenda e por isso eu atendi. O tempo não parou, nunca, e me jogou de volta, com força, nesse outro caminho que eu supunha abandonado. Foi boa a noite, delicioso ter reencontrado aquele timbre de voz. Aquelas histórias e aquelas estórias, aquelas aventuras. Tantos projetos, tantas tentativas e recomeços. A gente fica velho quando tem medo dos recomeços, quando fica difícil tentar novamente, quando é um cansaço criar um novo projeto, quando é custoso inventar um novo jeito de lavar a louça ou de dispor os móveis em casa ou de largar tudo em casa e ir lá pra outra cidade, do outro lado do mundo, com outra língua e outro clima, pra ver se dá pra recomeçar e não só partindo do zero – nunca se parte do zero – mas se dá pra recomeçar por um outro caminho, com uma nova passada, pisando mais firme ou mais leve, mais rápido, em zigue-zague ou dançando. Um deles é velho, e sente medo dos recomeços. Põe a culpa na certidão de nascimento. O outro é jovem – até demais pra mim, que sou um espírito senil – e só tem medo daquilo que já viveu. Um quer me sugar pro seu buraco negro de tranquilidade, estabilidade e linhas retas com promessas de apaixonar-se; o outro nem me faz constar nas suas estórias delirantes de colores e dolores, me tangencia e me circunda, nunca sei onde está. Admito que a vida fez me curvar: nunca pensei, estou falando sério, nunca pensei que havia ainda o que esperar, o que falar e o que beijar. Nem de um, nem de outro. Pois está dando certo essa minha estratégia de sair da plateia e ir pro palco. Enquanto que com um eu rodopio, no outro eu o faço rodopiar. E, é claro, um tem minha paixão – aquele que me rodopia como boneco de pano – e outro tem meu tenro carinho – aquele que eu rodopio como vudu. O segredo da paixão seria rodopiar? O tempo não para quando eu rodopio. Acho que eu ainda prefiro apaixonar-me a fazer apaixonar. De um jeito ou de outro eu vou trocar os toques do meu celular porque eles são ridí[...]

Eclipse

Fiz a higiene da minha pele, a higiene do meu rosto. Fiz a higiene da minha boca e dos meus cabelos. Lavei, de fato, os lençóis e aspirei o colchão. Recortei, separei, extirpei; separei-me das células mortas do corpo - não do meu.
Comecei agora o apagamento progressivo daquilo que está na história, daquilo que se conta, daquilo que se narra, tudo será escondido e sombreado. Não vou mais jogar luz sobre tudo isso, e haverá o momento em que jamais terá existido porque ninguém mais vai lembrar.

Meus e maus lençóis

Eu decidi que amanhã eu vou trocar os lençóis da minha cama e tudo mais que vem junto deles. Enquanto arrumava minha cama fiquei pensando nas células mortas do corpo que semana passada deitava ali – e não falo do meu –, o que me causou profunda aversão. Não do corpo que ali pesou, mas das células mortas que ali jazem. Vou pôr tudo pra lavar. Mas antes sou capaz de rasgar os lençóis e chamá-los que covardes, de medrosos, de burros e de insípidos. Gritar com os lençóis, filhos de uma cadela vadia cheia de doenças, filhos de um porco nojento mentiroso, cretinos, ordinários, cuzão, imbecis. Até ejacular sobre eles eu sou posso. E no fim da convulsão posso olhar pra eles e dizer, tomem agora e sintam o que perderam.
Eles são verdes, os lençóis. Mas deixarão de ser. Porque estou com uma compulsão por limpeza, quero desinfetá-los, estou obcecado pela sua assepsia. Pois vou deixá-los de molho na água sanitária, e vou aprovitar pra limpar o banheiro jogando água sanitária por todo ele. Obsessão pela assepsia de todos os espaços onde podem haver células mortas do corpo - e não falo do meu. Esfregar meu peito com esponja, lavar minha cara com água sanitária, tomá-la. Apagar qualquer resquício, desinfetar, limpar, deletar. Vou começar pelos lençóis.

Algo de errado

E de repente uma vontade incontrolável de ser eu mesmo, de escrever e gritar meu nome, de perguntar aos meus amigos se eles me conhecem, se eles lembram de mim, e o que lembram de mim. Uma vontade de olhar no espelho, de vestir minhas roupas e falar no meu tom de voz...


ai, credo! sai de mim, identidade!

Quinta-feira de cinzas

[...]erma na minha boca, e eu gosto disso, daqueles jatos e daquele gosto. Gosto do constrangimento leve e suave de olhar nos olhos e sentir que houve um prazer ali. Mas não houve naquela vez. Foi horrível, me senti péssimo. Foi embaraçoso ter que me levantar e lavar meu rosto, lavar o corpo, tomar banho junto dele. Queria fugir pra longe, mas estávamos na minha casa. Não sei se foi ali mesmo que a gente desconectou, acho que não. Acho que foi antes disso, uns minutos antes disso, nuns beijos um pouco atravessados que nos demos, numas frases um pouco truncadas que falamos. Ou foi antes ainda, quando as nossas roupas não combinaram, quando a cor dos nossos olhos não eram as mesmas, ou quando as texturas dos nossos cabelos estavam em disparate. Ou antes? Quando eu nasci e fui lavado com água benta, quando ele nasceu e teve a pele do pênis cortada? Sim para todas essas possibilidades. Não houve momento em que estivéssemos juntos. E fiquei pensando sobre esses desencontros por horas e horas, penteando com escova fina todos os fios do tempo que passamos, procurando os sinais e acenos de tudo que nos interrompeu. Procurei por desvios de olhares, procurei por palavras cuja pronúncia em Português ele havia esquecido, procurei por fotografias que não me diziam rigorosamente nada, procurei inclusive pelo tamanho do corpo dele que fazia a minha cama sobrar nos pés e na cabeça. Achei tudo, estava tudo lá. Mas nesse penteado eu também achei umas frases de promessas, ou de convites, que acabam por colonizar o futuro da relação: “quando fores assistir a esse filme, me chamas?”, “estou te devendo um café!”, “sobre isso te conto com o tempo...”. É nisso que a gente se escora, ou se agarra, pra justificar o devir-noivinha. O querer-ser-noivinha. Desejar-estar-noivinha. Como podemos nos deixar se acreditávamos que éramos, ou que estávamos, noivinhos? De um denso e promissor relacionamento de carnaval, colonizado precocemente, só sobrou de verdade o devir-viúva de uma quinta-feira de cinzas. O querer-ser-viúva. O desejar-estar-de-luto. O devir-viúva vê sinais do marido morto em todos os lugares: “isso aqui ele me deu naquela viagem...”, “nós passamos por aqui uma vez e ele me disse aquela palavra...”, “foi ele quem sentou nessa cadeira pela última vez, foi ele quem se secou nessa toalha pela última vez, foi ele quem gozou na minha cara pela última vez...”. Todos os sinais que remetem ao marido morto gritam, seja na tela da TV, no cinema, na música, na arquitetura, nos sonhos, no espelho. Em todo o lugar estão rastros do falecido. O devir-viúva é tão cruel quanto o devir-noivinha. E tudo é uma invenção nossa, uma criação momentânea pra gente ter do que se ocupar. Em menos de 24 horas já não há mais rastro, nem sinal, nem referência, nem luto, nem grinalda. Apagou-se. Nunca foi. Em menos de um dia depois, o volume de desejo caiu pelos dois terços e vagamente lembro do formato do nariz, do perfume do desodorante, da distribuição de pelos no corpo. Talvez um flash de memória de um dedo do pé que é torto, de um dente apinhado, de um beijo burocrático, mas logo que lembro disso em seguida me ocupo da receita que acompanho pela TV a cabo. Quando toca novamente o celular, uns quinze dias depois, eu olho e penso “que número é este? Não vou atender, deve ser de call Center pra vender cartão de crédito”. E desligo, e nem me dou conta que duas semanas antes eu morreria por aquela ligação. Esse talvez seja o meu devir-Alzheimer.

Sim, claro, disso eu não tenho dúvidas. Estávamos em contextos de vida bem diferentes, não havia como eu me interessar por ele, nem ele por mim. Ele vem daquele jeito intenso, furacão, tornado, ciclone do deserto de Gaza. E eu nesse meu passo lento, lago de superfície tranquila e água profunda. Ele foi tão desinteressante, tão estranho, tão inadequado. Será que o fato de eu não ter me comovido com ele é culpa da minha insensibilidade? Mas o risco é justamente esse, o de tentar alcançar algum estrato de intimidade para depois pôr pesadas compressas de silêncio nesse buraco que cavamos um no outro. O risco de tentar auscultar uma interioridade que é rasa, a ansiedade em arranhar uma peça que é folheada. Bater na porta de um apartamento desocupado. E essa vizinha horrorosa continua a falar no telefone na janela do quarto! Odeio isso, porque acompanho como ouvinte de rádio os dramas dessa vidinha ridí[...]

Cartas a uma jovem bicha - Cuidado com os redemoinhos

Eu não sei de quem é essa chamada não atendida, mas acho que o texto da tua mensagem é péssimo. Porque tudo isso já foi escrito, e tudo já foi escrito deste mesmo modo. Não há novidade. Há uma recorrência aqui, o ‘devir-noivinha’, não te parece? O que repete? Se te chega um redemoinho tu te escondes num casulo ou te jogas nele? Não, não há resposta errada para isso, mas também não há a certa: veja o que te sobrou do que aconteceu hoje pela manhã. Louças para lavar e uns restos de comida de gato para pôr no lixo. O que te sobrou de ontem à noite foi uma camisinha usada pela metade, nem muito pra dentro e nem muito pra fora, e mais alguns meses de um rubor ingênuo ao lembrar dessa situação. O que te sobrou de ontem à tarde foi dez reais e cinquenta centavos que vão te fazer muita falta no próximo mês, já que nem pra comida terás. Tu sabes disso tudo, mas mesmo assim a noivinha se esconde dos redemoinhos mais belos e rodopia junto com os mais perigosos. E foi assim sempre. Sobrou de tudo também um pouco da casa vazia – que não é ruim, mas é estranho depois de tanto vigor – que ontem mesmo estava cheia de estórias fantásticas de viagens pelo deserto, aventuras, paisagens, rostos e corpos. Deixaste ir na enxurrada de causos, na torrente de contos. A paisagem, a visage, é exatamente esta: de água, de sentimentos que vêm em explosões. Foste seduzido por experiências que nunca serão tuas, que nunca estiveram presentes, que nunca foram pensadas. Tu nunca pensaste em chegar na tua idade com tantas narrativas. Todo contador é um sedutor. E tu só escutas as estórias, as narrativas, só ouves os contos e os causos: isso que sentes agora é apenas a ressaca do “efeito Sherazade” que logo, logo passa. Penso ser importante, talvez, assinalar que gostei da tua ousadia em alguns momentos. Admito que não esperava tanta segurança em pouco tempo. Contudo, não te animes, porque ainda há muito o que fazer para deixar de ser tão prisioneiro das tuas espinhas e cravos. Quem sabe pare de ouvir e passe a contar mais das tuas coisas? É uma dica, que não precisa ser levada ao pé da letra, mas que pode te ajudar: pense menos e faça mais. Ah, não! Não ligue! Não mande mensagem! Respondendo à tua pergunta: não era a ligação que tu esperavas nessa chamada não atendida, e não conte com um telefonema de carinho pelo menos nos próximos cinco dias. Isso porque quando perto do redemoinho tu ficas pequeno e insosso, insípido. Tu estavas profundamente desinteressante ontem. Ele é de ar, tu é de terra, te falta água. Os olhares da saída que tu lançaste para ele e que ele te lançou no momento em que fechavas o portão e no momento em que ele atravessava a rua foram pra ti um rastro de interesse e para ele um selo de uma carta que foi escrita enquanto ele dormia do teu lado – e enquanto tu ficavas acordado, assustado com o peso de um corpo estranho na tua já solitária cama –, postada de última hora. Era uma carta de oi-tchau. Tudo isso para dizer que a tua noivinha deve se recolher. Não haverá ligações – nem recebidas, nem perdidas – não haverá interesse. É próprio dos redemoinhos o nomadismo. Pois deixe que ele passe por outros lados, outros lagos, pequenos lagos de vazio. Se te doi a garganta hoje é porque represaste muitas estórias em ti ontem. [Represado] estás há muito tempo. Por isso tens problemas com a fala (te dói a garganta, prendes as palavras), por isso tens problema com excreção (diarreia e prisão de ventre, prende e escorraça em ti os sentimentos), por isso tens problema com a bebida (pões muita água pra dentro da represa com o único intuito de fazê-la transbordar). A figura que te significa é esta: de uma imensa e profunda represa que de tempos em tempos abre suas comportas. Quando isso acontece, és soberbo frente aos patéticos redemoinhos.

guri/18cm/25a

Não houve resposta dos bonitos. Nenhuma. Mas houve quem se incomodasse com a pertinência do negócio, os bonitos ficaram brabos: "vou permanecer com minha índole firme e intacta; não vou sair trepando com todo mundo por ae".

pois eu vou, sabe? sair trepando! no parque, no cinema pornô, na internet. Vou me aprimorar nisso, cada vez mais, cada vez melhor. Cada vez mais profissional em abrir e vestir a camisinha, cada vez mais hábil em passar o gel. Perfurar orifícios, boca e ânus. Exercitar dedos. Não é necessário nenhum apelido ali: vale apenas chegar, e de preferência não falar nada. Bonitos? Não vale nada, ou muito pouco. O negócio é sair trepando.

isso é ruim pros bonitos porque não reproduz. não prossegue. não cria uma linha linear, consecutiva, pros bonitos: "o fulano é filho do fulano bonito com a fulana bonita, que são filhos de..." Isso rompe, interrompe, sectariza, rizomatiza. Porque posso adotar qualquer um como sendo meu. Posso escolher quem é 'meu', inclusive um feio. Posso escolher. Posso surpreender. Posso, inclusive, escolher que não quero, que não vou, que termina ali, que ali é o fim. Posso escolher meu fim - ou dos bonitos.

e daí aparece essas "minha índole, minha moral, minha consciência". Somos chamados a servir, e alguns servem...... (como já diria o velho francês).

As viagens pra fora e as viagens pra dentro

[...] para isso, e eu acho que a ida foi bem tranquila. Eu não bebi na noite anterior e eu acordei cedo, bem antes do que eu imaginava. Deu tempo e vontade de comer granola, a granola mais insossa e pastosa que já comi. Eu sempre tenho essa esperança tola, porém plausível, de comprar a poltrona 37 e viajar ao lado de um homem que esteja disposto a se entregar aos prazeres da viagem, se é que me lês com atenção. Tenho esse paradigma de viagem perfeita, de viagem que dá certo, de viagem que rende. Nunca aconteceu, é claro. E eu acho que nunca aconteceu porque eu não entendo o corpo como um fluxo. E corpo é fluxo. É uma coisa que vai crescendo de dentro pra fora, que vai escamando e se regenerando, que vai gastando, produzindo poeira de corpo, pó de carne. Corpo é como o ato de urinar, falando em termos sadeanos. É um fluxo contínuo, denso, colorido, que sai de algum lugar e vai parar em outro que não sabemos. Produz-se em condições insondáveis, não sabem o que estamos mijando. E sai, precisa sair, não fica contido por muito tempo. Não pode ficar contido por muito tempo. Corpo é isso, é uma coisa que não se contém. Que não fica sempre assim, que muda, que pressiona, que tensiona. Imagine aquela vez, daquele porre de cerveja, daquelas 6 latas de Polar que tu bebeste sem janta e sem ir ao banheiro: lembra do alívio em mijar? Aquilo é o alívio do corpo. O corpo é um alívio. Mas eu vou costurando fio por fio porque na verdade não quero me perder, não quero me desagalhar. Um agasalho feito com tricot de ponto frouxo e esparso é estético, mas não é útil: não esquenta. Meu problema com o corpo é exatamente este: pra mim o corpo é um ponto frouxo, só serve pra estética. Erro com isso. Não vejo o corpo como um fluxo – pra mim ele é frouxo –, não o vejo como algo que vem e muda, que explode e que se torna outro, que já não era o que eu pensava e imediatamente depois de eu achar que o sabia já não me pertencia mais. Não sei do meu corpo, não o vejo. Pessoas dizem “ta fortinho!”, ou “que pancinha!”, ou “muito magro”, ou “não curto magricelos”, ou “muito peludo”, ou “tu é circuncidado?”, ou “que sacão”, ou “fica melhor de cabelo raspado”, ou “que lindo teu cabelo cheio”, e nada disso compõe meu corpo. Nada disso é meu corpo, não traduz meu corpo de modo legível. Não há corpo traduzido. Tenho horror do meu cabelo ‘escabelado’, tu bem sabes. Pois ele ‘escabelou’ meu cabelo na hora do boquete. Pegou meu cabelo e esfregou, desarrumou, puxou forte, entrelaçou pelos dedos e ainda sobrou por entre as mãos, os fios escorregaram e foram pulsados junto com a cabeça. Meu cabelo e minha cabeça, minhas mãos e meus dedos, minha língua, todos engajados num boquete. Terminou gloriosamente, como (quase) sempre termina: num esguicho na minha bochecha. E o corpo? Cadê o corpo? Tava perdido na sala, mas não estava no boquete. O corpo, tal como urina, também é gota que escorre, que sobra do fluxo. Há corpo que é resquício do fluxo, que é reticência; há corpo que é reticente. É o silêncio constrangedor do gozo com estranhos, é a vergonha da gordura no primeiro dia de academia, é a vergonha da fraqueza, das linhas longilíneas e curvilíneas do corpo. Tudo muito burguês e classe média: academia? Gordura? Colesterol? Circuncisão? Corpo-fluxo? É tudo classe média, essa filha do capitalismo e afilhada da psicanálise, mãe do individualismo. Silicone nos peitos, métodos pra aumentar o pênis, depilação a laser, clareamento anal, (circuncisão, eu diria), lente de contato, pintar cabelo, cortar cabelo, fazer a barba, tudo isso é uma invenção da classe média. Somos um grupo prodigiosamente dotado de criatividade inútil. Meu corpo, por exemplo, é uma gota. Um resquício de corpo. E quando meu corpo está perto do dele, do corpo dele, com aqueles cabelos anelados e nariz gigantesco, de homem com dote, com voz rouca de cigarro e bebida (quem disse que cigarro e bebida fazem mal? São adornos da estética musical), com os erres arrastados, os olhos que se fecham, cílios que se tocam, olhos que se abrem com um sorriso e os dentes brancos – nem tão brancos, pela bebida e pelo álcool – que rasgam a cara, que rasgam os lábios, os versos cabem nos dentes amarelados e nos anéis dos cabelos, em curvas, palavras curvadas, sons amarelados. Um microfone, uma mão, uma boca e uma voz. Ou várias vozes. Uma voz canta e uma voz que me fala, uma que me diz ‘oi’, uma outra que te diz ‘oi’, uma que me conta dos resquícios deste corpo – que não é gota, não! Que é fluxo, que é urina, que é tensão! –, uma que cala e outra que canta bem baixinho, pra nenhum público, já de madrugada sobre o palco dos travesseiros, voz protagonista de um chamego e de um beijo – ou dois ou três [sou capaz de mais, mas será que é demais pro fluxo? Pra minha gota é sempre demais]. Esse é o mesmo desejo que me faz comprar sempre a passagem pra poltrona 37. O desejo ingênuo de que um olhar escorregue da poltrona 40 para a poltrona 37. E que o corpo da poltrona 40 entre no fluxo – na gota – do corpo da poltrona 37. Não houve nada durante a viagem, nem na de ida nem da volta. O que eu queria era férias, mas sempre programo o despertador do celular para às 8h do outro dia, isso porque o número 8 é meu número de sorte... [...]

Não há mais nada

[...] e eu disse bem alto ‘pois eu acho um absurdo a senhora ter um carro. Porque um carro polui muito mais do que esse saco que eu tou comprando! A senhora que vá vender seu carro, comprar uma bicicleta, e depois vem discutir comigo a poluição dos sacos pra lixo! Sua velha!’ E saí com meus sacos pra lixo, lindos, negros, de cem litros. Fiquei revoltado com a velha me censurando, me taxando de ‘anti-ecológico’. Cansei dessa gente que posa pra foto, que sorri pra estranhos, que acena pra crianças, que dá moedas e bolachas pra mendigos. Me entristeci lá pelas tantas, fui murchando e implodindo. É demais pra mim, eu faço muitas coisas e penso muitas coisas, vou fazendo e fazendo, repetindo. Em toda coisa repetida – tirar o lixo, limpar o vaso, escovar os dentes, passar desodorante, comer – tem o correspondente de uma coisa vazia – um olhar que atravessa a tela da TV, a tela do computador, uma frase que não faz sentido algum, um corpo que pesa sobre a cama, de ressaca. Não há mais nada nas coisas que faço. Secaram e dissolveram-se, evaporaram-se alguns dos sentidos que eu as dava. Não sobrou nada. A grande dúvida da noite não foi ‘fumo ou não fumo’, nem ‘bebo ou não bebo’, nem ‘saio ou não saio’. A questão que eu me coloquei, o que me fez vacilar, foi justamente ‘dou a cara ou não dou’. Pro tapa mesmo. ‘Ofereço a face ou não ofereço’. ‘Exponho ou não exponho’. Lá pelas tantas resolvi continuar sendo espectador da vida, desisti. E desisti muito fácil, o que me soou um tanto ‘velho’. Pessoas ‘velhas’ desistem fácil, já não estão mais dispostas a desafiar as crenças que as constituem. Pessoas ‘jovens’ estão sempre negociando, sempre provocando, perguntando o porquê. Pessoas ‘velhas’ dizem que já sabem, dizem que devem ser motivo de fé, dizem que ‘já passaram por isso, acredite em mim’. Pessoas ‘velhas’ compactuam com os grilhões e te querem prisioneiro junto com elas. Pessoas ‘jovens’ lutam para desamarrar-se, mas na primeira oportunidade que conseguem de se desvencilhar preferem soltar o outro a si próprias. Eu sei que eu tou seguindo todo o caminho pra ser velho. Nasci velho, gostando das coisas prontas e belas. Rejuvenesci em algum momento, mas me cansa ser ‘jovem’, porque ser ‘jovem’ demanda energia. É mais cômodo ser ‘velho’. Desci uma escada. E lá debaixo eu vejo o povo todo lá em cima, e o povo lá em cima me vê aqui debaixo. Uns toleram a diferença, outros me jogam papel mastigado. Uns me chamam lá pra cima, outros passeiam e nem me veem. Uns me fazem companhia. O fato é que vejo todos – os lá de cima com a cara pro lado de baixo, os aqui debaixo com a cara virada lá pra cima – como distantes e absurdos, profanos, dissimulados. Nunca, nesses anos todos, vi alguém subir e descer a escada. Todos ficam em seus lugares, como se fossem camarotes de castas, imóveis, porém risonhos. Não sinto falta de acordar com alguém, não sinto falta de um corpo na minha cama, de uma respiração na minha nuca, de pensar no meu par quando eu planejo a janta e o café da manhã. Sou egocêntrico. Sinto falta, isso sim, de quem me arranca, de quem me rodopia. Sinto falta de dançar e sinto falta do meu par no passo do salão, na pista. Por tudo isso, acho que esqueci de ser tenro, esqueci que é necessário perdoar as pessoas, que é uma boa alternativa ser gentil. Embruteci nesses últimos anos. Esqueci que eu já fui sensível. Sou feito de inúmeros pontos de esquecimento, muitos vácuos de memória, esqueci que fui bom filho, que chorei na frente dos meus pais, que pedi colo, que senti medo – e que chorei por isso – esqueci que acreditei nos amigos, nas amizades e no prazer do sexo. Esqueci. Hoje são só corpos que manipulo, marionetes. Coisas sem vida, talvez um pouco como eu, um pouco como tu. O que me deixa irritado, muito brabo mesmo, é o fato de eu pegar a estrada amanhã e saber que o ônibus vai por um caminho que eu detesto [...]

Revirando os cantos

[...] e não tive grande problema em acordar e abrir a porta pros caras. Eram três, um mais lindo que o outro, um mais trabalhador-braçal que o outro. Uma manhã bem atípica: há meses não acordo com três belos homens na minha casa - independente do que estão fazendo aqui. Não ficaram muito tempo - nenhum belo homem fica aqui por muito tempo - só fizeram seu trabalho e foram alegrar outra casa, de outro homem solitário, de uma viúva, não sei. Daí eu voltei e olhei bem na frente da minha porta de entrada aquelas revistas empilhadas. E abri uma gaveta, só uma, pra ver se achava um texto... não, não era um texto, era a letra de uma música, de uma ária, na verdade, em francês. Ópera do século XIX. Encenada mais de 1.478 vezes no La Scala. De uma mulher que morre no final. E não é que achei?!? Cruzes, achei! Rasguei na hora! E fui rasgando, rasgando. A Bíblia Sagrada, rasguei todinha. Uma delícia de rasgar aquele papel-seda, ver aquelas letrinhas pela metade, empilhadinhas pra ir pro lixo. E rasguei também umas fotos, umas cartas e uns cartões "de amor". É, pessoas já me mandaram algumas cartas de amor. Fui rasgando essas coisas todas que já passaram, que de certa forma contribuíram pra eu estar aqui hoje, mas que não fazem mais nada agora do que ocupar os cantos das minhas gavetas. E eu preciso dos cantos das gavetas pra guardar essas lembranças pequenas: uma frase, um perfume, um acorde. A cena de um clipe. Rasguei tudo: agendas de quando eu tinha quatorze anos. Aquilo já não é mais eu, entende? Na minha agenda mais antiga, uma moradora: uma traça imensa de gorda! Bom, todo o drama que eu insistia em escrever naquelas páginas fizeram bem a alguém. A não ser a traça, mas nada de vivo por ali, nem nas fotografias, nem nos textos, nas ideias dos textos, na caneta grudada junta à agenda não havia mais tinta. As únicas partes que fiz questão de rasgar em miúdos foram os "dados pessoais" das agendas - com número de conta bancária, passaporte, endereço, tipo sanguineo - e as cartas de amor. Ah, e a Bíblia, que para alguns não deixa de ser também uma carta de amor. Cansei o dedo de rasgar. Recuperei muitos cantos em várias gavetas, muitos ângulos retos onde posso acomodar mais sussuros ditos à beira da praia, se houver. Vou ganhar um sofá novo. Pensando bem, acho que até da minha coleção de rolhas eu vou me desfazer, pois rolhas não afundam. Elas nunca afundam, ficam boiando, não morrem afogadas. É o símbolo de algo que resiste. Não sei se quero tanta resistência, às vezes vale mais a pena se deixar ir no fluxo, no movimento. Mas com essa história toda eu vou ter que comprar mais saco pra lixo porque usei o último, imagina [...]

Coisas à toa

[...] e daí a gente vai guardando um rancor aqui, sufocando uma palavra ali. E vai deixando tudo se amontoar, empilhando cenas ranzinzas. Acho que foi um pouco isso que senti quando eu li as revistas. Imagina, havia sete edições que eu sequer tirei do plástico, numa pilha bem na frente da porta de entrada do meu apartamento. Daí resolvi passar os olhos por elas, uma por uma em ordem cronológica. Não entendi muito bem porque eu comecei a ficar nervoso folheando as páginas, porque eu estava ansioso, desconfortável. Quando eu terminei, eu tinha lido não mais que três reportagens, uma dúzia de linhas ao acaso. Tinha visto dezenas de fotografias, todas muito bonitas. Mas o desconforto e a ansiedade eu só descobri depois. Acho que eu guardei essas revistas por muito tempo, e quando eu as tirei do plástico e as folheei pela primeira vez – imagina, tinha uma edição de agosto do ano passado que estava sendo manuseada pela primeira vez – eu fui me dando conta que eu estava amontoado por sobre um sofá todo sujo e velho. Eu fui me amontoando e me empilhando... e me separando, me dividindo. Uma coisa eu tenho que admitir: só me dei conta disto porque a TV a cabo estragou. Porque senão eu continuaria pulando de um canal pra outro sem precisar pensar na minha rabugice. Acho que minhas chances vão escasseando a cada dia, menos possibilidades por hora que passa. Mais e mais sozinho no próximo final de semana que no anterior; progressão geométrica. Mas é assim mesmo, uns que conheço se unem e se aliam, uns são chamados a servir e servem. Uns passeiam. Outros se dividem, se apartam, se separam. Divorciam-se daquele lugar de onde vieram, tornam-se outros no exílio. E nós vamos nos espalhando por aí. E também é verdade que sinto vontade de dizer, de escrever o que não pude lá no começo, naquela hora exata. O problema é que, como eu disse, as chances e as possibilidades vão diminuindo; progressão aritmética. Eu já me sinto bastante constrangido. Acho que lá pelas tantas de mim, eu não tenho mais muita esperança. Parece que simplesmente não dá: NÃO DÁ. A pouca disposição da minha parte faz uma perigosa combinação com a pouca oportunidade do lado de fora – ambas intimamente relacionadas, eu diria. E daí eu vou amontoando esse rancor um pouquinho em cada canto, empilhando mais rabugices pra pegar pó e pra atrapalhar a luz que entra, ou que devia entrar. Uns que conheço vão indo pra fora, extravasando, cada vez mais do avesso. Outros vão fechando. O problema todo é que sábado eu vou ter que acordar às oito da manhã... [...]

Cartas a uma jovem bicha - Por que odiar a chuva?

Tu me escreve dizendo “fez tempo ruim as férias inteiras” e termina a argumentação das razões do tempo ruim afirmando que “a chuva me obrigou a ficar trancado no apartamento, no máximo ir até um shopping”. “Não deu praia”, tu ainda comenta, “voltei com a pele tão branca quanto a que eu tinha quando saí”.

Eu não entendo bem como se consolidou essa nossa ideia – minha, tua, de todos nós – que ‘tempo ruim’ é sinônimo de chuva. Mas não vou dizer aqui que tempo ruim, pra mim, é tempo quente com sol bombando câncer de pele – na minha, na tua, na de todos nós – porque isso é óbvio, tu já devia saber. O que me irrita é outra coisa: é a culpa que tu põe na chuva por tu ter sido obrigado a te trancafiar a sós com tua interioridade. Não é isso que tu vive me dizendo que tem? Uma interioridade? (se ainda fossem várias, mas nem... aff!) Não é pra isso que tu pratica yoga, que tu te submete à terapia? “Pra trabalhar e fortalecer minha interioridade”, tu me diz, como se ela, a interioridade, fosse algo que já estava lá dentro desde sempre, toda dada de antemão, apenas enfraquecida por um pé na bunda domingueiro ou flácida por uma tentativa de conquista mal sucedida. “Equilibrar meu eu interior” é o mantra. Ou pior: “encontrar meu eu interior”. Pois certamente ele, o teu eu interior, saiu correndo quando te ouviu dizer que odeia gente gorda, descompensou-se quando tu sentiu vergonha em ser pobre.

Tudo bem, vá lá, tenha uma interioridade se é isso que tu tanto quer. Pra quais lados ela aponta? Ela pesa pra dentro, tensiona pro interior como uma dobra? Sim, mas somente com uma condição: esse teu eu interior vai tão mais dentro quanto puder se projetar e se visibilizar pra fora. Não é pra isso que tu pratica yoga? Pra deixar o corpo rijo, duro, saudável, com uma carne feliz e natural, super geração saúde. Trabalhar, fortalecer, equilibrar e encontrar a interioridade, sim, mas só e exclusivamente se ela puder ser jogada pra fora, projetada na pele. Agora começo a entender os motivos pelos quais tu não admite perder uma sessão de musculação, sob pena de terríveis ressacas morais, mas falta à sessão de terapia com uma displicência que não te incomoda tanto. A terapia não tem efeitos diretos, visíveis e comprováveis pelos sentidos tão irrefutavelmente quanto a prática do yoga e da musculação. “Correr é um jeito de fazer terapia, faço terapia comigo mesmo”, tu retruca. Concordo em parte justamente por entender tua lógica: correr é terapia pra quem acredita que a gordura é uma neurose, e só faz ‘terapia consigo mesmo’ quem acredita que lá dentro de si há um eu interior para o diálogo. Parabéns, a esquizofrenia agora tem uma utilidade.

Então ficou trancado no apartamento por causa da chuva. Junto com teu eu interior? Qual o problema, não entendo. Teu eu interior não está sarado o bastante? Ou está gordo – ahh, deve estar gordo. E já que tu detesta gente gorda, ele fugiu de ti. E vai ver é por isso que tu pratica yoga, pra encontrá-lo. Mas, na falta do instrutor, compreendo bem teu ímpeto de ir ao shopping. Talvez tua interioridade estivesse fazendo umas compras, gastando o limite de cartão de crédito de papai? Não. Porque tua interioridade talvez seja pobre – além de gorda. Segundo motivo pelo qual ela precisa ser fortalecida.

E tu ainda queria ir à praia. Queria, mesmo mesmo, desfilar de sunga? Não entendo o porquê. Pobre e gordo, teu eu interior voltaria de férias aos frangalhos, pois muito provavelmente encontraria os eus interiores dos outros – como tu – que não o perdoariam por ser pobre e gordo, só pra citar duas características que te incomodam. Debaixo do sol, mais nus do que o necessário, ou pelo menos mais nus do que no resto do ano, os eus interiores dos outros são mais cruéis. Quanto menos roupa, mais perversos. É muita interioridade pra pouco ‘dentro’, sabes.

Eu reescreveria isso que tu me mandaste. Diria que fez um tempo ótimo nas tuas férias, que a chuva foi linda e fértil. Que tu fez uma viagem dentro de si que te rendeu vários insights, fincando tua interioridade – com raízes, tronco grosso e copa frondosa – lá no fundo do teu ser. E me daria por muito satisfeito ao argumentar, simplesmente, que tu voltou com a pele mais branca do que quando saiu porque usou filtro solar fator 50, o que te deu uns 2 anos a mais sem rugas quando tu chegar lá pelos 35. Acredite: esse teu eu interior vai suplicar por mais 2 anos sem rugas quando tu – quando vocês dois, tu e teu eu interior – chegar lá.

Cartas a uma jovem bicha - Desobedeça

Escolhi um evento ao acaso do dia de hoje. Uma imagem que se fixou na minha memória e a partir dela voltei a percorrer os caminhos que me fizeram lembrar. Não me interessei tanto por essa genealogia quanto me fascinou a função da memória – daquilo que lembramos e daquilo que somos lembrados, o tempo todo, desde todos os aspectos – para que a gente possa dizer “eu sou eu” a qualquer momento que sejamos questionados nesse sentido.

Por que eu sou eu, ou como alguém se torna (e continua sendo) o que é são perguntas que grandes filósofos já se fizeram, inclusive já sugeriram respostas ou pelo menos indicaram bons indícios para pensarmos sobre elas. Não tenho a pretensão de tentar responder essas perguntas novamente, tampouco fico envaidecido de suscitá-las. O que me interessa nelas, o que me interessou na imagem que se fixou na minha memória, é que lembrar de nós ontem é um exercício tão fundamental para nós vivermos quanto respirar. Respirar nos mantêm vivos, mas lembrarmos de nós ontem nos mantêm vivos ainda enquanto aquilo que somos. Pois, ora, posso estar vivo mesmo não sendo mais quem eu era - doce delícia de quem pode esquecer de si mesmo.

O problema é que esquecemos, por angústia ou falta de atenção, muitas imagens, sons, sentimentos, cheios e sensações. Perdemos muita coisa, há memórias que vão ficando no caminho. E não é que há vezes em que somos – eu pelo menos sou – surpreendidos por essas memórias que ficaram lá atrás e que, não obstante, ainda dizem que nós somos quem somos hoje? E foi essa imagem que me tomou. Num assombro, num assalto, num arroubo de lucidez de algo que aconteceu há... quatorze anos. Senti muita vergonha desta minha lembrança, vergonha de ter feito, de ter dito. Eu peguei o telefone, liguei e disse um monte de bobagens, mas não liguei pra falar, liguei pra ser ouvido. Porque o que eu mais queria naquele momento era ser notado, ser visto. E fui, de fato, mas com um reticente desprezo. São esses três sentimentos que hoje ainda restam em mim, lá na minha camada mais sedimentada, me compondo de algum modo: a vergonha, o desprezo e a vaidade.

Corri vinte minutos na esteira hoje, ao cabo de uma hora e meia na academia. Por isso fui elogiado. Minha relação com o meu corpo – com este meu corpo, não com os outros mais que tive – é tal que condensa a vergonha, o desprezo e a vaidade. Talvez seja por este motivo que me interesse tanto em estudá-lo, em analisá-lo: quero sugerir pra mim mesmo saídas deste tríplice labirinto. Não é exatamente terapêutico o estudo que faço, não quero simplesmente analisar a mim mesmo, como numa relação narcisicamente insularizada. Como a vergonha, o desprezo e a vaidade se inseriram tão fortemente, cromadas, àquilo que sou? Como elas se acomodaram no meu corpo?

Pra escapar desse círculo, me proponho uma espiral. O centro do círculo ou o ponto de equilíbrio da espiral seria aquilo que nós somos, o que pensamos que somos, o que nos tornamos. Através do ato de escrever eu acho que me desobedeço, me desautorizo, me torno ilegal perante as leis que eu criei. Acabo me tornando um criminoso porque nessa desobediência espiralada de escrever, nesse exercício de ir lá pra minhas bordas, acabo pulando pra uma outra dimensão da trajetória que me fez chegar onde estou. É isso que é a espiral: não é fazer o mesmo caminho, nas exatas coordenadas de antes (isso é o círculo), mas é fazer e refazer o caminho em outra dimensão, num outro fluxo, desde referências outras, diferentes das de antes. Não apenas subindo ou descendo, mas subindo e descendo e pra direita e pra esquerda e pra frente e pra trás e em curva e em ziguezague. O pulo de uma dimensão para outra do círculo, constituindo, então, uma espiral, talvez possa acontecer exatamente quando nos vêm à memória essas lembranças que não são lembradas por muito tempo, que estrategicamente estão postas de lado, fora do caminho do círculo, que nos provocam vergonha (ou medo, ou exasperação, ou dúvida). Elas desobedecem e violam o caminho do círculo porque o redimensionam. Considerá-las pertinentes e aceitá-las (ou seja, refletir sobre sua vergonha, sobre seu desprezo, sobre sua vaidade no meu caso) é uma relação ética consigo porque podem – ou não – espiralar o angustiante círculo ensimesmado no qual frequentemente nos colocamos.

Cabelos

Meus cabelos de Bozo foram a melhor parte daquela noite. Nem a quebra do jejum de álcool foi tão maravilhosa quanto a horizontalidade dos pelos da minha cabeça. Eu dancei, suei, bebi, gargalhei, os fios ficaram úmidos e incharam pros lados. Cabelo de Bozo.

Eu achava que não fosse conseguir, mas eu consegui. Se há dez anos alguém me dissesse que eu estaria onde estou hoje, eu não acreditaria. Ou melhor, acreditaria sim, e ficaria orgulhoso de mim. Hoje, entretanto, não me orgulho tanto quanto eu supostamente me orgulharia há dez anos. E continuo não acreditando. Chego do trabalho sempre por volta das cinco e meia da tarde, dá tempo de ir ao supermercado pra comprar algo pra janta sem me deter no congestionamento de carrinhos e de cestinhas. Um horário civilizado. Chegando cedo do trabalho em casa, em tempos de horário de verão, dá até pra fazer um chimarrão e ir sentar na grama do parque pra pegar os últimos e menos quentes raios de sol. Dá pra voltar pra casa, jantar, estudar, ouvir música, e nos dias marcados na minha agenda eu consigo inclusive assistir aos meus seriados favoritos na TV. Isso porque eu tenho uma grade de canais bem completa, em que são exibidos muitos filmes de razoável qualidade. Se mesmo assim eu não ficar satisfeito, posso escolher algum filme entre os cinquenta e três DVD’s que eu comprei e posso tomar banho ouvindo Debussy ou Madonna. Hoje eu posso me deitar lá pelas onze da noite e ler um livro, de literatura ou filosofia, porque comprei vários livros ao longo dos anos. Mas a melhor parte disso é que além de poder comprá-los, eu posso também lê-los e entendê-los. Eu posso compreendê-los. E posso dormir numa cama king size com quatro travesseiros, acordar relativamente tarde na manhã seguinte e ir pra academia. Afinal, estou matriculado na academia que eu desejei frequentar por anos e anos, mas nunca tinha dinheiro pra isso. Minha vida é boa, mas apenas boa.

E tenho vários amigos, inúmeros, que se encaixam nas mais variadas programações. Posso agendar muitos e diferentes eventos com eles. Meus pais estão vivos. Eu moro sozinho, minha saúde vai bastante bem. E mesmo assim eu tenho cabelo de Bozo.

Não me orgulho, não acho que isso é o bastante. Pode ser ambição demais ou ingratidão com minha trajetória. Eu às vezes bloqueio o medo e consigo me movimentar melhor. Às vezes eu não consigo. Às vezes eu sequer respiro, nem me olho no espelho. Outras vezes passo horas procurando cravos na minha pele, machucando-a. Quase toda a noite eu acordo, ainda um pouco sonhando, e sinto que há alguém no meu quarto ali sentado na minha escrivaninha me observando. Sinto um certo pavor, puxo o lençol e me cubro. Nas noites de verão isso se traduz num verdadeiro inferno porque sinto muito calor, mas o pavor de haver alguém me observando enquanto durmo é maior. E puxo o lençol. Nas noites de inverno não sofro tanto. Mas nas noites de verão eu sinto medo de acordar e me saber observado. E puxo o lençol. Como se um lençol fosse me proteger de qualquer ameaça.

E quando acordo pela manhã, antes de ir à academia, tenho que molhar meu cabelo. Porque ele é muito ondulado, como se o torvelinho de ideias que guardo na minha cabeça fosse o responsável por encrespar meu mar capilar. Meu mar capilar revolto. Acho que meu cabelo de Bozo é assim porque tenho muitas ideias na cabeça. Talvez se eu tivesse cabelo liso eu desejaria ser mais criativo.

Gestos reticentes e olhares curvos

Ou sobre como relacionar-se com o desprezo alheio. Não foi algo que eu já não esperasse, que eu não contasse, que já não estivesse numa borda de possíveis e previsíveis. Desejei-o, é bem verdade, desejei-o para mim como desejo um beijo e uma sexta-feira. Gestos reticentes porque vazios, mas não totalmente vazios. Essa sua reticência é perversa exatamente porque carrega em si tanto o peso mais sincero quanto a nada, o absoluto nada. Gestos reticentes porque vazios, mas ainda com resquícios. Talvez fosse o caso de falar em gestos de resquícios. Tencionei me agarrar nos resquícios, nas reticências, os longos braços e pernas de pele alvíssima. Da sacada do meu apartamento eu podia ver as veias por debaixo da tez. Translúcido. Mas não insípido. Os olhos azuis. Ou seriam verdes? Vê? Já não lembro sequer da cor do teu desprezo.

E por falar neles, ah! Olhar com curvas. Nem pelo espelho eu te supus linear. Acho que errei, desculpe. Se errei, não há desprezo. Só há engano: enganei-me sobre teus gestos e teus olhares. Pois aí está! Olhar curvo, dissimulado. Não me guarde mal, sou apenas um espírito jovem e casmurro, mesmo não tendo avançada idade.
é só o mesmo fluxo de humanidade, gente, não se preocupem. Brincadeira de criança!
(ai, esse povo quer capa pra tudo!!!)


o teu O.B. é o mesmo que ponho no meu hipotálamo.

Deixe que as estações comecem

Meu primeiro nome é Luiz. Com ‘z’. Sou feito de coisas tolas, coisas poucas que foram se justapondo durante vinte e cinco anos, coisas tolas e poucas que foram acumulando como pó e aqui ficaram, a pesar para baixo, formando uma gota. Como, por exemplo, a letra ‘z’ do meu primeiro nome, que é uma tolice. A letra ‘z’ ou a letra ‘s’, a priori, não fariam nenhuma diferença para que eu me apresentasse, mas de qualquer modo todo um processo administrativo foi levado a efeito junto ao cartório em que fui registrado para que se trocasse a letra ‘s’ do primeiro registro do meu nome – o escrivão tinha uma personalidade forte e não deixara que eu fosse Lui’z’ – para transformar-se na letra ‘z’. Te convido para analisar a forma destas duas letras: ‘s’ é suave e curvilíneo, é uma dança no papel e nos dedos de quem escreve, é um caminho sinuoso. ‘S’inuoso. A letra ‘z’ radicaliza as dobras do ‘s’ e cria ângulos onde antes havia curvas. Radicali’z’a. Como disse Deleuze: “Z é uma letra formidável que nos faz voltar ao A”. Ele explica que ‘z’ é o movimento brusco, angular, que deveria preceder ou substituir o Big Bang. “Você gosta de ter um Z no seu nome?”, pergunta a entrevistadora. “Adoro!”, responde o velho com longas unhas.

Eu também adoro ser Lui’z’. Mas não me incomodaria em ser Lui’s’. Me pergunto, e acho que isso é importante para ti, que não me conhece, se eu seria fundamentalmente diferente se eu fosse curvilíneo. Se eu chegasse numa noite toda negra, em que corpos interagissem e se lambessem publicamente, ou se eu me insinuasse pelos bosques, pelas matas, pelos matos e pelos parques noturnamente, individualmente (eu e os outros corpos, individuais), se eu bebesse e se eu me deleitasse, se eu gastasse o tempo e o dinheiro que tenho e que não tenho, se eu me vestisse e ainda assim me envergonhasse do meu corpo, se eu tentasse e sofresse, se eu tentasse e não conseguisse, se eu fosse o que não sou... Eu seria o quê?

Não sei, mas definitivamente eu não seria Lui’z’. Viste quantos ‘s’ constam no parágrafo acima? Demasiados ‘s’. E eu não sou ‘s’, sou ‘z’, sou Luiz com ‘z’. Eu vou seguindo por um caminho que muda bruscamente, para outro lado. Não me curvo, não 's'uavizo. É o choque que o ‘z’ causa na escrita do meu nome que me permite chegar a dizer “eu sou”.

Mas, como eu dizia, sou feito de coisas tolas e poucas. De todo modo, coisas que foram criando tensão sobre a superfície do meu corpo e, então, chegaram ao ponto de dizer “tu és lui’z’”. Não sou eu quem diz, e sim as coisas que me fazem ser quem sou. Tu te interessas por isso? Não sei bem em que momento comecei a te admirar, a te erotizar ou a te desejar. Acho que o verbo é exatamente esse: desejar. De’s’ejar, porque o que sinto vem em curvas, em intensidades de onda, em movimentos curvilíneos por ti. Não sei se é teu nariz em ‘z’, ou teus olhos negros profundos – de cigano? Oblíquo? Dissimulado? – ou se sou eu que me engano. Aposto no meu engano e gosto de acreditar na beleza dos ângulos do teu nariz, de noventa graus, cento e oitenta, nariz de triângulo, de Báskara. Eu ouço uma música que me faz lembrar muito do teu nariz, mas também dos teus olhos e sobretudo das tuas mãos. Oh!, tuas mãos me apaixonaram por primeiro. Quando elevaste teus braços à altura dos ombros, eles em arco na frente de teu rosto, as mãos em frente aos teus olhos – negros, buraco-negro – e os dedos indicadores (direito e esquerdo) encontraram os polegares com uma suavidade que os impediam de se tocar, me apaixonei. Posição de balé clássico. E uns dedos longos, uns dedos alvos, umas unhas bem cortadas, opacas. Dois olhos de buraco-negro entre um nariz triangular e protuberante. E sorriste.

Teu corpo dançou em ziguezague. A letra ‘z’ em teu corpo e a letra ‘z’ no meu nome. E é impossível que não tenhamos nada a viver um com o outro. Talvez tu com o meu corpo, e eu com teu nome.

as verdes noites do fundo dos olhos em que tu dormes

Eu sei que não era bom que eu tentasse, que eu insistisse, mas eu pensei “por que eu deveria ficar angustiado por não ter chegado lá na borda, lá no limite?”. E eu vim. Mas agora me arrasto como pano de chão, rasgo como um caco de vidro. Estes foram os melhores e piores dias da minha vida, sem mágoas. Dos melhores e piores não sei se o que restou de mim é o que tenho de mais forte, de mais bonito, de mais duro ou de mais inútil. Isso que sobrou de mim depois dessa patrola, isso não sou eu... sou? Aqui no limite não mora muita gente, mas eu. Alguém mora na borda? Ou a borda foi feita para que seja experimentada sempre do seu lado avesso, sempre como estrangeiro, como forasteiro... E aqui mais uma borda e mais uma tentativa, mais uma insistência. E eu penso “por que eu deveria ficar angustiado por não ter virado estrangeiro e forasteiro?”. Vou lá revirar a borda, pôr do avesso o limite (as minhas, os meus [e de arrasto levo dos outros] que eram tão curtos e próximos e hoje se alargam). Mas esse estrangeiro que me tornei, esse exilado – é bem verdade – ele é a parte dura de alguém que já foi mais agradável, porém bem menos aventureiro. Gosto desse exílio, desse estrangeiro, mas o viajante no qual me tornei já não guarda mais nenhuma similitude – aparência, similaridade, eqüidade, correspondência – com o genuíno e autêntico EU. Só sobrou a parte dura, a casca-do-fora, o bagaço. O sumo se foi. Depois da patrola, o exílio, e só resta a casca-do-fora. "Nunca houve o genuíno", me diz o forasteiro; "não há autenticidade, nenhuma nacionalidade do eu, nenhum eu-pátria", me diz o estrangeiro. O nômade acredita ter raízes na terra apenas enquanto a madeira queima na fogueira, em torno das barracas recém levantadas, depois vai-se embora com as cinzas.


Eu olhei apenas de relance, não quis me deter. Mas são tão verdes as tuas noites quanto são azuis as minhas? São tão desgrenhados os teus travesseiros quanto são encaracolados cor-de-mel os meus? Não nos demos conta naquele momento, mas éramos forasteiros um do outro. E como nômades que somos, passamos por mim e por ti quase sem debruçarmo-nos mais extensivamente na terra a ponto de fazer fogueira. Não há cinzas de nós. Só verdes noites pra ti, travesseiros platinados pra mim.