Por alguns pedaços de carne
Não suportava suas vontades. Para lidar com elas, somente três atividades lhe aliviavam: lavar, limpar e organizar. Tomou o corte do pedaço de filé como se fosse tudo isso. Como se fosse um jeito de lavar seu sangue, de limpar a gordura de sua própria carne, como se organizasse em pequenas tiras suas próprias ansiedades.
Vontade de apagamento. De apagar o passado, o seu próprio e o do outro, de modo que tudo começasse ontem. Ou anteontem, ou semana passada, mas desde que tivesse o direito de começar sempre, indiscutivelmente sempre, amanhã ou mês que vem se fosse o caso e se fosse de seu desejo. A vontade de apagamento era um dos sentimentos mais perversos que estavam por detrás do nobre objetivo de “começar de novo”. A face mais cruel de todas é que sentia vontade de apagar o passado do outro e o seu próprio do modo com que lhe conviesse, da maneira que melhor se encaixasse nos seus anseios por pureza. Em suma, vontade de apagar, mas de apagar do seu jeito, na sua hora, e apagar as coisas que ele quisesse. E ia separando a gordura do filé, feliz em pô-la toda no lixo e logo depois fechar a tampa. Amarrava o saco plástico com força, cheio de resquícios que seriam jogados fora, escondia o lixo atrás dos armários da cozinha ou embaixo do tanque da área de serviço.
Vontade de transparência. Bate punheta? Por quem? Em quem? Quando e sob que circunstância? Quantas vezes e em que intensidade? Vontade de cortar em fatias finas o desejo e as fantasias do outro, vontade de escutar e ver tudo daquela mente. Vontade de atravessar o corpo do outro e descobrir-lhe o lugar da paixão, do sexo, da saudade, da dúvida. Vontade de luz nas sombras do outro, de velas nos seus breus, vontade de desvelo, vontade de panoptismo. Curiosamente, ele próprio era alguém que não punha fé em nenhuma verdade, em nenhuma certeza; entretanto o que lhe nutria as vísceras em querer saber de tudo que emergisse na consciência do outro era a sensação de controle em intuir e conhecer a essência do outro. O que será isso a que damos nome de “essência” senão a mais cristalina e absoluta verdade sobre qualquer coisa? Cortava as iscas de filé e não achava nenhuma verdade, nem nas superfícies e nem nas entranhas da carne (verdade sobre o novilho morto? Verdade sobre o pasto usado para alimentá-lo? Verdade sobre seu criador?).
“Se eu cortar o corpo do outro, vou saciar minha vontade de transparência? Posso apagar seu passado se eu separar sua jugular de seu pescoço? O sangue é transparente ou, em últimos casos, pode servir de borracha ou corretivo?”
Na dúvida, resolver tentar.
Gotas, goles e garrafas II
Gotas, goles e garrafas
Gotas de felicidade: os pés quentes sobrepostos ao fim das pernas entrelaçadas coextensivas aos corpos abraçados de lado, testa de um na nuca do outro. Manhã fria de outono dentro e fora do quarto. Primavera no interior e na superfície dos corpos. Surpresas de fim de dia – uma flor, um vinho chileno, um beijo cinematográfico. Uma esporrada na cara, é presente? Frases que colonizam o futuro – “quer casar comigo quando tu voltar?” – planos que colonizam o futuro – “eu não vou embora, eu volto, e quando eu voltar a gente pode viajar”. Um relógio anda mais rápido que outro, um é mais urgente que o outro. Um seca a louça que o outro lava, e eventualmente quebra uma taça; risadas soltas de um sobre o jeito desastrado do outro.
Goles de desgosto: que coisa estranha essa vontade de apagamento, vontade de assepsia que um tem do passado do outro. Desejo de fazer o passado deletar, fazer as histórias e as cenas passadas desaparecerem e, ao mesmo tempo, desejo de raspar o verniz do corpo do outro para transformá-lo em superfície lisa e virgem de inscrição somente – e tão somente – do presente que estamos vivendo. Ciúmes, flecha negra, raiva e desrazão. Se um é neurótico e se contamina com as realidades que ele próprio cria para justificar sua obsessão desmedida pela traição, o outro silencia sob a égide da suspeita constante de estar sendo vigiado pela catástrofe que um dia acometeu toda sua vontade de estabilidade. O monstro de um come o rabo do monstro do outro, e se preservam. Se um come o cu do outro, isso também não é vontade de ferir, de rasgar o corpo do outro?
Garrafas
(CONTINUA...)
Cartas a uma jovem bicha - impeachment
Um mundo sobre rodas.
Uma arqueologia é isso: é eleger ou de repente ver o que nunca antes pôde ser eleito ou visto, escavar o que lhe sobrepõe, achar outras coisinhas em volta, relacionar essas coisinhas àquilo que foi eleito, verificar as conexões que podem ser estabelecidas entre elas, produzir sentido ao que se vê ou ao que foi escolhido. Não há ponto de origem, marco inicial, monumento de referência; nada sinaliza o local exato onde tudo começa. Já escrevi sobre isso antes, outros já escreveram de uma maneira melhor que essa minha. Não vou me deter explicando isoladamente a teoria na qual eu vivo minha vida – sim, toda vida tem uma teoria, uma filosofia, um pano de fundo conceitual.
Um dia um bom amigo me ensinou que não há sede sem água, nem fome sem pão. Nesse dia eu entendi que nada acontece a sós, mas sempre implicando outra coisa num outro nível, numa outra dimensão. Nada de sobrenatural, de extra humano. O que vivemos e sentimos é desse mundo mesmo, ao qual pertencemos, da nossa história de aqui e agora. Não vou cair na breguice de dizer que eu só sou eu porque há tu, tampouco vou afirmar que agora minha sede está saciada da tua água e tua fome, do meu pão. É possível dizê-lo, mas isso seria não escavar, não explorar, não cortar em lâminas a superfície disso que eu elegi ou disso que eu de repente vi: tu.
Tu: um mundo sobre rodas. Isso já dá um livro de contos, horas navegando no Google, semanas de análise lacaniana, anos de interpretação junguiana, já é o suficiente para meu deleite. Pensar num mundo sobre rodas não é só pensar num mundo em movimento, ou num mundo dinâmico, mutável, leviano. Teu mundo não é leviano. Um mundo sobre rodas também não é um mundo à deriva, sem rumo, nem um mundo que escapa ou que foge. Tu não és um fugitivo. Um mundo sobre rodas não é rápido nem veloz. Portanto, um mundo sobre rodas – o teu mundo sobre rodas, tu – não significa velocidade, leveza, nem covardia.
Meu mundo era cor de rosas. Isso já deu semanas de análise lacaniana, anos de interpretação junguiana. Meu mundo era cor de rosas, mas nunca foi sempre feliz – digamos que os momentos de felicidade estavam salpicados, como gotas, nas pétalas. Também não foi sempre cheiroso, perfumado; meu mundo cor de rosas não foi sempre macio e aveludado. Meu mundo cor de rosas nem sempre foi rosa: foi, em sua maioria, da cor de um amanhecer de inverno. Meu mundo cor de rosas soube aproveitar bem seus espinhos.
Eis que houve o dia, o momento, em que o chuveiro e o vapor, em que as toalhas e o suor serviram de pretexto para pôr lado a lado, totalmente nus, teu mundo sobre rodas e meu mundo cor de rosas. Não tomemos este como sendo nosso monumento: não levamos nossos corpos até lá calculadamente, mas sim fomos levados e arrastados para lá por forças sobre as quais em geral não pensamos. Havia um desejo lá no teu mundo e também um desejo aqui no meu; havia um pouquito de tristeza lá nas tuas rodas e um tanto de solidão nas minhas rosas; havia histórias de outros tempos que nos conduziram até lá (no teu mundo, histórias de lentidão, de pesar e de coragem, histórias de monotonia, de mentiras) [no meu mundo, histórias de morte e luto, de cegueira monocromática, histórias de asperezas e friezas, de fedores]. Não acho que foram nossos olhos, por primeiro, que se tocaram. Foram os joelhos: nos ajoelhamos. Se não há ponto de origem para nós dois (poderíamos ser nós três; na verdade éramos nós cinco lá no chuveiro e no vapor, e desses cinco subtraíram-se dois [nós dois], e desses dois multiplicaram-se tudo o que fizemos até agora), se não há esse ponto inicial, há pelo menos um ponto de engate, de enlace, de intersecção: os joelhos. “Como vocês se conheceram?”, nos perguntam. Respondamos: “Foi pelos joelhos”. E dos joelhos achamos outras coisinhas em volta, outras coisinhas no seu entorno, coisinhas que se avizinham dos joelhos, e fomos escavando essas relações todas entre nossos joelhos, achando rosas sobre rodas e rodas rosáceas, e quadrados, ângulos, verdes e laranjas e morangos, risadas, dias, entardeceres e noites. Coisinhas em volta, conexões entre nossos joelhos. Estamos construindo algo, é bem verdade, montando um rosto para este terceiro mundo, uma face a que se reconhecer e da qual se alegrar. Mas também estamos escavando um ao outro, como se ao fazer nossa arqueologia também estivéssemos fazendo o que queremos do nosso presente.
Sem chances, sem saídas e amando muito tudo isso
"Pós-tu"
Sinto saudades. Em Português temos um substantivo, “saudade”, para isso que sinto. Em outras línguas há verbos. Eu gostaria que fosse verbo e não substantivo, porque verbo se move e substantivo fica. Verbos podem ser pretéritos e futuros do pretérito; substantivos imóveis no tempo. Não quero que a saudade fique, quero que ela vá embora, quero esquecer. Quero saudade pretérita.
Vestígios? Rastros? Ficaram pedaços de quem na história de quem? Me pergunto qual delas será a primeira a ser apagada e reescrita, qual delas perderá por primeiro seu sentido. Porque eu agora sou um “pós-tu”, algo que veio depois de ti. Não sei se sinto saudade de ti, propriamente, ou se sinto saudade de mim antes de ti, do “pré-eu”. Meu pontilhado se rasgou. Me pergunto quem vai reconhecer o outro na rua anos depois, quem vai sorrir ao lembrar. Qual de nós vai contar a história do outro, qual de nós vai lamentar as linhas que nos separaram. Qual de nós vai ter saudade, no substantivo, e qual de nós vai sentir saudade, na sua dimensão verbal?
Não sei dos meus acordes
E há aqueles que vão embora. Eu já fui embora, muitas vezes, e nunca é dolorido. Teve uma vez, inclusive, que me deu prazer! E mais prazer me deu depois de vê-lo com um par de óculos ridículos: é minha crueldade achá-lo péssimo (e eu o acho). Eu sei que é dolorido pra quem fica, e eu já fiquei várias vezes, mas dessa vez eu não queria ir, eu queria ficar. Ficar na tua vida como mais uma história inesquecível, como mais um sorriso incontido, como mais um brilho... Posso?
Imaginas tu contando minha história! Com teu sorriso e com teu brilho! Eu pegaria emprestado qualquer adorno, qualquer adereço ou qualquer adjetivo, porque pra mim não há – é claro que há, mas é tão mais lindo quando tu me dizes que achas minha vida linda. Pois venha e desfrute, e olhe para mim, e sinta meu hálito pelo amanhecer, e me beije, e rasgue meus cabelos, puxe, morda minha barriga, sorria com minhas cócegas... O que há em mim que tu gostas? Seja o que for, faça disso âncora, faça disso farol, faça disso latitude e longitude de onde tu deves sempre ficar. Porque, sim, eu sei, tu vais embora, tu vais pra longe e não és daqui. Nunca foste daqui. Mas fique mesmo assim um pouco cá comigo, deixe algo de ti, nem que seja um ‘x’ no mapa. Faça de mim um ponto no teu mapa. Não vá sem deixar algo, um rastro de saliva ou piscar de olhos, resquícios de olhos, telefonema burocrático, email árido. Não vá sem deixar marcas de sentimento; seria péssimo imaginar que passaste por mim e não levaste nada do que eu sinto por ti.
Eu grito, é verdade. Não acho graça nisso. Sinto sono e me rendo rápido, desanimo. Grito, mas não tão alto. Quem ouve, vai embora. Quem não ouve, acha graça. Quem acredita, sabe: só quem me marca tem direito a algumas palavras.
O tempo não para
Eclipse
Comecei agora o apagamento progressivo daquilo que está na história, daquilo que se conta, daquilo que se narra, tudo será escondido e sombreado. Não vou mais jogar luz sobre tudo isso, e haverá o momento em que jamais terá existido porque ninguém mais vai lembrar.
Meus e maus lençóis
Eles são verdes, os lençóis. Mas deixarão de ser. Porque estou com uma compulsão por limpeza, quero desinfetá-los, estou obcecado pela sua assepsia. Pois vou deixá-los de molho na água sanitária, e vou aprovitar pra limpar o banheiro jogando água sanitária por todo ele. Obsessão pela assepsia de todos os espaços onde podem haver células mortas do corpo - e não falo do meu. Esfregar meu peito com esponja, lavar minha cara com água sanitária, tomá-la. Apagar qualquer resquício, desinfetar, limpar, deletar. Vou começar pelos lençóis.
Algo de errado
ai, credo! sai de mim, identidade!
Quinta-feira de cinzas
Sim, claro, disso eu não tenho dúvidas. Estávamos em contextos de vida bem diferentes, não havia como eu me interessar por ele, nem ele por mim. Ele vem daquele jeito intenso, furacão, tornado, ciclone do deserto de Gaza. E eu nesse meu passo lento, lago de superfície tranquila e água profunda. Ele foi tão desinteressante, tão estranho, tão inadequado. Será que o fato de eu não ter me comovido com ele é culpa da minha insensibilidade? Mas o risco é justamente esse, o de tentar alcançar algum estrato de intimidade para depois pôr pesadas compressas de silêncio nesse buraco que cavamos um no outro. O risco de tentar auscultar uma interioridade que é rasa, a ansiedade em arranhar uma peça que é folheada. Bater na porta de um apartamento desocupado. E essa vizinha horrorosa continua a falar no telefone na janela do quarto! Odeio isso, porque acompanho como ouvinte de rádio os dramas dessa vidinha ridí[...]
Cartas a uma jovem bicha - Cuidado com os redemoinhos
guri/18cm/25a
pois eu vou, sabe? sair trepando! no parque, no cinema pornô, na internet. Vou me aprimorar nisso, cada vez mais, cada vez melhor. Cada vez mais profissional em abrir e vestir a camisinha, cada vez mais hábil em passar o gel. Perfurar orifícios, boca e ânus. Exercitar dedos. Não é necessário nenhum apelido ali: vale apenas chegar, e de preferência não falar nada. Bonitos? Não vale nada, ou muito pouco. O negócio é sair trepando.
isso é ruim pros bonitos porque não reproduz. não prossegue. não cria uma linha linear, consecutiva, pros bonitos: "o fulano é filho do fulano bonito com a fulana bonita, que são filhos de..." Isso rompe, interrompe, sectariza, rizomatiza. Porque posso adotar qualquer um como sendo meu. Posso escolher quem é 'meu', inclusive um feio. Posso escolher. Posso surpreender. Posso, inclusive, escolher que não quero, que não vou, que termina ali, que ali é o fim. Posso escolher meu fim - ou dos bonitos.
e daí aparece essas "minha índole, minha moral, minha consciência". Somos chamados a servir, e alguns servem...... (como já diria o velho francês).
As viagens pra fora e as viagens pra dentro
Não há mais nada
Revirando os cantos
Coisas à toa
Cartas a uma jovem bicha - Por que odiar a chuva?
Eu não entendo bem como se consolidou essa nossa ideia – minha, tua, de todos nós – que ‘tempo ruim’ é sinônimo de chuva. Mas não vou dizer aqui que tempo ruim, pra mim, é tempo quente com sol bombando câncer de pele – na minha, na tua, na de todos nós – porque isso é óbvio, tu já devia saber. O que me irrita é outra coisa: é a culpa que tu põe na chuva por tu ter sido obrigado a te trancafiar a sós com tua interioridade. Não é isso que tu vive me dizendo que tem? Uma interioridade? (se ainda fossem várias, mas nem... aff!) Não é pra isso que tu pratica yoga, que tu te submete à terapia? “Pra trabalhar e fortalecer minha interioridade”, tu me diz, como se ela, a interioridade, fosse algo que já estava lá dentro desde sempre, toda dada de antemão, apenas enfraquecida por um pé na bunda domingueiro ou flácida por uma tentativa de conquista mal sucedida. “Equilibrar meu eu interior” é o mantra. Ou pior: “encontrar meu eu interior”. Pois certamente ele, o teu eu interior, saiu correndo quando te ouviu dizer que odeia gente gorda, descompensou-se quando tu sentiu vergonha em ser pobre.
Tudo bem, vá lá, tenha uma interioridade se é isso que tu tanto quer. Pra quais lados ela aponta? Ela pesa pra dentro, tensiona pro interior como uma dobra? Sim, mas somente com uma condição: esse teu eu interior vai tão mais dentro quanto puder se projetar e se visibilizar pra fora. Não é pra isso que tu pratica yoga? Pra deixar o corpo rijo, duro, saudável, com uma carne feliz e natural, super geração saúde. Trabalhar, fortalecer, equilibrar e encontrar a interioridade, sim, mas só e exclusivamente se ela puder ser jogada pra fora, projetada na pele. Agora começo a entender os motivos pelos quais tu não admite perder uma sessão de musculação, sob pena de terríveis ressacas morais, mas falta à sessão de terapia com uma displicência que não te incomoda tanto. A terapia não tem efeitos diretos, visíveis e comprováveis pelos sentidos tão irrefutavelmente quanto a prática do yoga e da musculação. “Correr é um jeito de fazer terapia, faço terapia comigo mesmo”, tu retruca. Concordo em parte justamente por entender tua lógica: correr é terapia pra quem acredita que a gordura é uma neurose, e só faz ‘terapia consigo mesmo’ quem acredita que lá dentro de si há um eu interior para o diálogo. Parabéns, a esquizofrenia agora tem uma utilidade.
Então ficou trancado no apartamento por causa da chuva. Junto com teu eu interior? Qual o problema, não entendo. Teu eu interior não está sarado o bastante? Ou está gordo – ahh, deve estar gordo. E já que tu detesta gente gorda, ele fugiu de ti. E vai ver é por isso que tu pratica yoga, pra encontrá-lo. Mas, na falta do instrutor, compreendo bem teu ímpeto de ir ao shopping. Talvez tua interioridade estivesse fazendo umas compras, gastando o limite de cartão de crédito de papai? Não. Porque tua interioridade talvez seja pobre – além de gorda. Segundo motivo pelo qual ela precisa ser fortalecida.
E tu ainda queria ir à praia. Queria, mesmo mesmo, desfilar de sunga? Não entendo o porquê. Pobre e gordo, teu eu interior voltaria de férias aos frangalhos, pois muito provavelmente encontraria os eus interiores dos outros – como tu – que não o perdoariam por ser pobre e gordo, só pra citar duas características que te incomodam. Debaixo do sol, mais nus do que o necessário, ou pelo menos mais nus do que no resto do ano, os eus interiores dos outros são mais cruéis. Quanto menos roupa, mais perversos. É muita interioridade pra pouco ‘dentro’, sabes.
Eu reescreveria isso que tu me mandaste. Diria que fez um tempo ótimo nas tuas férias, que a chuva foi linda e fértil. Que tu fez uma viagem dentro de si que te rendeu vários insights, fincando tua interioridade – com raízes, tronco grosso e copa frondosa – lá no fundo do teu ser. E me daria por muito satisfeito ao argumentar, simplesmente, que tu voltou com a pele mais branca do que quando saiu porque usou filtro solar fator 50, o que te deu uns 2 anos a mais sem rugas quando tu chegar lá pelos 35. Acredite: esse teu eu interior vai suplicar por mais 2 anos sem rugas quando tu – quando vocês dois, tu e teu eu interior – chegar lá.
Cartas a uma jovem bicha - Desobedeça
Por que eu sou eu, ou como alguém se torna (e continua sendo) o que é são perguntas que grandes filósofos já se fizeram, inclusive já sugeriram respostas ou pelo menos indicaram bons indícios para pensarmos sobre elas. Não tenho a pretensão de tentar responder essas perguntas novamente, tampouco fico envaidecido de suscitá-las. O que me interessa nelas, o que me interessou na imagem que se fixou na minha memória, é que lembrar de nós ontem é um exercício tão fundamental para nós vivermos quanto respirar. Respirar nos mantêm vivos, mas lembrarmos de nós ontem nos mantêm vivos ainda enquanto aquilo que somos. Pois, ora, posso estar vivo mesmo não sendo mais quem eu era - doce delícia de quem pode esquecer de si mesmo.
O problema é que esquecemos, por angústia ou falta de atenção, muitas imagens, sons, sentimentos, cheios e sensações. Perdemos muita coisa, há memórias que vão ficando no caminho. E não é que há vezes em que somos – eu pelo menos sou – surpreendidos por essas memórias que ficaram lá atrás e que, não obstante, ainda dizem que nós somos quem somos hoje? E foi essa imagem que me tomou. Num assombro, num assalto, num arroubo de lucidez de algo que aconteceu há... quatorze anos. Senti muita vergonha desta minha lembrança, vergonha de ter feito, de ter dito. Eu peguei o telefone, liguei e disse um monte de bobagens, mas não liguei pra falar, liguei pra ser ouvido. Porque o que eu mais queria naquele momento era ser notado, ser visto. E fui, de fato, mas com um reticente desprezo. São esses três sentimentos que hoje ainda restam em mim, lá na minha camada mais sedimentada, me compondo de algum modo: a vergonha, o desprezo e a vaidade.
Corri vinte minutos na esteira hoje, ao cabo de uma hora e meia na academia. Por isso fui elogiado. Minha relação com o meu corpo – com este meu corpo, não com os outros mais que tive – é tal que condensa a vergonha, o desprezo e a vaidade. Talvez seja por este motivo que me interesse tanto em estudá-lo, em analisá-lo: quero sugerir pra mim mesmo saídas deste tríplice labirinto. Não é exatamente terapêutico o estudo que faço, não quero simplesmente analisar a mim mesmo, como numa relação narcisicamente insularizada. Como a vergonha, o desprezo e a vaidade se inseriram tão fortemente, cromadas, àquilo que sou? Como elas se acomodaram no meu corpo?
Pra escapar desse círculo, me proponho uma espiral. O centro do círculo ou o ponto de equilíbrio da espiral seria aquilo que nós somos, o que pensamos que somos, o que nos tornamos. Através do ato de escrever eu acho que me desobedeço, me desautorizo, me torno ilegal perante as leis que eu criei. Acabo me tornando um criminoso porque nessa desobediência espiralada de escrever, nesse exercício de ir lá pra minhas bordas, acabo pulando pra uma outra dimensão da trajetória que me fez chegar onde estou. É isso que é a espiral: não é fazer o mesmo caminho, nas exatas coordenadas de antes (isso é o círculo), mas é fazer e refazer o caminho em outra dimensão, num outro fluxo, desde referências outras, diferentes das de antes. Não apenas subindo ou descendo, mas subindo e descendo e pra direita e pra esquerda e pra frente e pra trás e em curva e em ziguezague. O pulo de uma dimensão para outra do círculo, constituindo, então, uma espiral, talvez possa acontecer exatamente quando nos vêm à memória essas lembranças que não são lembradas por muito tempo, que estrategicamente estão postas de lado, fora do caminho do círculo, que nos provocam vergonha (ou medo, ou exasperação, ou dúvida). Elas desobedecem e violam o caminho do círculo porque o redimensionam. Considerá-las pertinentes e aceitá-las (ou seja, refletir sobre sua vergonha, sobre seu desprezo, sobre sua vaidade no meu caso) é uma relação ética consigo porque podem – ou não – espiralar o angustiante círculo ensimesmado no qual frequentemente nos colocamos.
Cabelos
Eu achava que não fosse conseguir, mas eu consegui. Se há dez anos alguém me dissesse que eu estaria onde estou hoje, eu não acreditaria. Ou melhor, acreditaria sim, e ficaria orgulhoso de mim. Hoje, entretanto, não me orgulho tanto quanto eu supostamente me orgulharia há dez anos. E continuo não acreditando. Chego do trabalho sempre por volta das cinco e meia da tarde, dá tempo de ir ao supermercado pra comprar algo pra janta sem me deter no congestionamento de carrinhos e de cestinhas. Um horário civilizado. Chegando cedo do trabalho em casa, em tempos de horário de verão, dá até pra fazer um chimarrão e ir sentar na grama do parque pra pegar os últimos e menos quentes raios de sol. Dá pra voltar pra casa, jantar, estudar, ouvir música, e nos dias marcados na minha agenda eu consigo inclusive assistir aos meus seriados favoritos na TV. Isso porque eu tenho uma grade de canais bem completa, em que são exibidos muitos filmes de razoável qualidade. Se mesmo assim eu não ficar satisfeito, posso escolher algum filme entre os cinquenta e três DVD’s que eu comprei e posso tomar banho ouvindo Debussy ou Madonna. Hoje eu posso me deitar lá pelas onze da noite e ler um livro, de literatura ou filosofia, porque comprei vários livros ao longo dos anos. Mas a melhor parte disso é que além de poder comprá-los, eu posso também lê-los e entendê-los. Eu posso compreendê-los. E posso dormir numa cama king size com quatro travesseiros, acordar relativamente tarde na manhã seguinte e ir pra academia. Afinal, estou matriculado na academia que eu desejei frequentar por anos e anos, mas nunca tinha dinheiro pra isso. Minha vida é boa, mas apenas boa.
E tenho vários amigos, inúmeros, que se encaixam nas mais variadas programações. Posso agendar muitos e diferentes eventos com eles. Meus pais estão vivos. Eu moro sozinho, minha saúde vai bastante bem. E mesmo assim eu tenho cabelo de Bozo.
Não me orgulho, não acho que isso é o bastante. Pode ser ambição demais ou ingratidão com minha trajetória. Eu às vezes bloqueio o medo e consigo me movimentar melhor. Às vezes eu não consigo. Às vezes eu sequer respiro, nem me olho no espelho. Outras vezes passo horas procurando cravos na minha pele, machucando-a. Quase toda a noite eu acordo, ainda um pouco sonhando, e sinto que há alguém no meu quarto ali sentado na minha escrivaninha me observando. Sinto um certo pavor, puxo o lençol e me cubro. Nas noites de verão isso se traduz num verdadeiro inferno porque sinto muito calor, mas o pavor de haver alguém me observando enquanto durmo é maior. E puxo o lençol. Nas noites de inverno não sofro tanto. Mas nas noites de verão eu sinto medo de acordar e me saber observado. E puxo o lençol. Como se um lençol fosse me proteger de qualquer ameaça.
E quando acordo pela manhã, antes de ir à academia, tenho que molhar meu cabelo. Porque ele é muito ondulado, como se o torvelinho de ideias que guardo na minha cabeça fosse o responsável por encrespar meu mar capilar. Meu mar capilar revolto. Acho que meu cabelo de Bozo é assim porque tenho muitas ideias na cabeça. Talvez se eu tivesse cabelo liso eu desejaria ser mais criativo.
Gestos reticentes e olhares curvos
E por falar neles, ah! Olhar com curvas. Nem pelo espelho eu te supus linear. Acho que errei, desculpe. Se errei, não há desprezo. Só há engano: enganei-me sobre teus gestos e teus olhares. Pois aí está! Olhar curvo, dissimulado. Não me guarde mal, sou apenas um espírito jovem e casmurro, mesmo não tendo avançada idade.