Assim, de repente, uma lucidez
[...]asa e tinha aquelas ligações. E pra mim ficou tão claro o abismo, o penhasco do qual me joguei. Queda livre. Voltei pra casa sozinho naquela noite, fiquei no bar levantando o copo de plástico cheio de cerveja. Não dancei, não circulei, não compactuei com aquilo. Eu estava incluído naquele espaço para ser dele excluído: para servir de exemplo daquilo que não poderia ser possível ali dentro. Exemplo daquilo que seria rechaçado ali dentro. Eu era um limite: meu corpo era uma fronteira. Um monstro. De mim ninguém poderia passar. Não! Claro que não! Não dói nem cheira mal. É só um lugar estreito, não dá pra se mexer muito. Tem que controlar a respiração pra não colocar muito ar pra dentro dos pulmões, senão quebro os ossos da costela. Nem posso piscar muito, senão meus cílios roçam nas paredes e caem. Não dói nem cheira mal: só tenho que ficar quiet[...]
Interstícios
[...]ei no quarto e senti um cheiro forte de cigarro. Pode ser da noite anterior? Não sei. Eu não fumei, mas os outros fumaram bastante. Eu só bebi bastante, como se isso fosse “apenas” algo, “tão-somente” beber. Beber já é muito. Fiquei pensando: voltei sozinho. Era de manhã cedo já. Dobrei a esquina e nem tinha mais luzes acesas na rua. Só aquela luz natural radiante do início do dia. Lembro de trechos da noite passada, pequenos e curtos trechos, pessoas aleatórias. É isso que quero? Lembrar de recortes das pessoas? Talvez sim, porque lembrar de tudo sempre, viver sóbrio, isso é muito chato. Ainda sinto o cigarro. E sinto também aquele peso de saber que a próxima semana é dura, cheia de trabalho, cheia de leões pra matar, e mato. Matar um leão já é muito, mas mato vários. Tem que escrever, pensar, falar, comandar, açoitar, dizer “sim”. Não sei se concordo com a Clarice quando ela escreve que “tudo no mundo começou com um ‘sim’”. Um “sim” bem dito também fecha portas – as minhas estão a sete chaves, eu vivo a dizer “sim”. Dia desses eu disse um “não” bem sonoro, e a partir dele todo um mundo novo se abriu. Encontrei teus olhos ontem andando pela rua. Acho que eles não me reconheceram. Concordo com a Clarice quando ela escreve que “desistir é uma grande responsabilidade” – e bebo, bebo muito. Já bebi menos, mas eu fumava. Desisti de fumar e ainda não desisti de beber – porque ficar sóbrio o tempo todo é muita responsabilidade. Meu ponto ótimo pro álcool é quando começo a esquecer. E esqueço. Esqueço porque desisto. Quanta responsabilidade, né? Ele só balançava a cabeça concordando com tudo, quanta superficialidade, ali ninguém se afoga, ele é muito raso. E foram nesses pequenos vacúolos, lagunas vazias, que desisti e quis recomeçar. Quanta responsabilidade essa, a de recomeçar. Éramos tão bonitos juntos. Mas fui muito além, lá onde o ar é rarefeito, e ele não pôde me acompanhar. E haverá alguém pra ir até lá comigo? Eu vou andando e não levo as pessoas pela mão junto comigo. Acontece de elas se perderem. Não, eu não me perco das pessoas, eu nunca as encontrei de verdade, com sinceridade, com vontade de estar com elas. Nunca quis estar com as pessoas, portanto eu nunca desisti delas. Vivo nadando nessas lagunas vazias, nesses interstícios vazios. Talvez seja por isso que bebo tanto: porque são lagunas demasiadamente vazias. E foi-se embora tudo que de novo havia em mim: mais uma ressaca, mais uma dor de cabeça, mais um domingo vestindo pantufas e moleton velho, Bach com suas suítes para cello, silêncios entre as cordas: minhas lagunas vazias. Tudo o que há de melhor em mim está escondido, submerso nas lagunas. Nas lagunas vazias e nas ilhas desertas. Longe dos grandes continentes. Era só jogar um beijo, escrever uma carta, dar um sorriso: me escorar na parede, ou na porta recém fechada, e ir escorregando até o chão, me deitar em posição fetal, pedir pra nascer de novo. Não há iceberg que consiga existir nas lagunas vazias. O horário da minha morte será 20:43 – sempre olho no relógio e vejo esses números. Se eu puder programar minha morte, planejá-la, desejá-la, eu queria que ela me chegasse às 20:43. A morte não é o total assujeitamento ao poder, mas sua mais radical resistência: uma desistência radical, um partir, um abrir ou fechar de portas, pequenas mortes com a cabeça escorada no teu peito e tu me dizendo “vai ficar tudo bem”. Eu poderia morrer ali mesmo, encostando na tua camiseta branca de ontem à noite. A palma da minha mão na tua barba cerrada, e eu te dizendo “isso vai ser ruim pra minha autoestima”. Só precisa de autoestima quem não tem uma. Se eu for dormir às 22:00, acordo amanhã às 06:00; se eu for dormir contigo, te prometo um sono tranquilo e sonhos de conforto. Não precisaremos acordar nunca mais. Eu queria um beijo, um teu e outro dele, e dos dois, tão grandes e tão altos, tão bonitos, e eu ali entre os dois um pouco envergonhado por ser o mais baixo e o mais magro, por ser o mais represado. Tão altos e tão bonitos. E se a gente fosse caminhando até ali, ó, onde tem uma curva e um escurinho, ali num canto da casa, será que ali vocês não me dariam um beijo onde ninguém mais vai ver, além de nós? Vocês esqueceram que quiseram me beijar? É um direito que vocês têm. Eu vou procurar cultivar e preservar pra sempre a proximidade da minha cabeça ao teu peito, a proximidade do meu antebraço ao dele. E os pelos se roçando, as barbas se eletrizando. Toda a vez que clico em “entrar” aparece a frase “não há mensagens novas”: não há nada de novo, nenhum corpo, nenhum beijo, nenhum peito onde eu escorar minha testa. Às vezes o toque me satisfaz mais que uma jura de amor ou um presente caro. Vem dormir comigo? Se eu te chamar tu vem? Talvez só nascendo de novo, né, talvez só morrendo com hora marcada e renascendo. Porque eu nunca vou ser assim. Talvez só ocupando esses espaços todos, preenchendo os interstícios vazios, afirmando e encarnando o corpo; talvez só dizendo “sim” a tudo aquilo que sou e que nego, que escondo, do qual me esquivo; talvez só assim pra eu chegar a um ponto próximo da altura de vocês. Talvez só odiando o corpo, torturando o corpo, mutilando o corpo. Ninguém visita, ninguém comenta, ninguém curte. Talvez só fumando, ou bebendo mais[...]
As razões porque sou mais feliz sem ti
[...]é sobre os porquês de eu ser tão mais feliz sem ti. Hoje eu estava no ônibus e vinha pensando nisso: sobre como eu sou tão mais feliz sem ti. Tu foi só o pó que eu espanei de cima de mim.
Não precisar discutir assuntos circulares que acabam retornando sempre para o mesmo ponto inicial, sem alterações de rota. Colocar sempre os mesmos questionamentos, e escutar de volta sempre os mesmos argumentos. Tudo vindo de ti é sempre a mesma coisa, tudo vem sempre da mesma forma. Tudo emana de um mesmo centro desequilibrado e instável, nervoso e ansioso, perturbado com as coisas do passado. Não ter que debater sobre as possíveis traições que tu vê em mim, mas que na verdade são as tuas próprias que tu cospe e cola em mim como sendo minhas por excelência. Não ter que me satisfazer com frases que encerram uma discussão com um ponto final que tem peso de bigorna, peso de verdade, e uma verdade que é tão tola quanto tu: “nós somos muito diferentes”.
Não ter que achar justificativas discrepantes para explicar o que não precisa ser explicado, mas que tu exige que seja unicamente porque tu é um poço de insegurança e infantilidade. Porque tudo e todos te ameaçam, inclusive eu e minha roupa, eu e meu perfume, eu e meus olhares, eu e meu rosto, eu e o tom da minha voz, eu e meu sorriso. É preciso justificar sempre a razão pela qual tu acha que eu estou bonito, e daí é preciso sempre esconder ou dissimular essa suposta beleza para que ela não chame a atenção dos outros. Pois, do contrário, sou eu que estou me oferecendo, e isso é insuportável pra ti. Minha simples existência já é uma ameaça para todo esse mundinho pobre no qual tu vives, e eu não vou me desculpar por ter chegado até aqui da maneira com que cheguei. E te lanço um desafio: vou muito mais além ao ponto de tu me perderes no horizonte magro da tua vida.
Não ter que achar engraçadas tuas piadas, simpáticos os teus amigos, amáveis os teus familiares. Porque eventualmente o são, mas também às vezes não. E porque toda a realidade na qual o teu corpo vem envelopado não é feia nem bela, nem pior nem melhor que a minha: é outra e de uma outridade tão radical que eu sequer entendo o que faz possível eu escrever isso tudo – como se eu pudesse entender a tua realidade, como se eu pudesse analisá-la para apontar aqui e ali e isto e aquilo como sendo as nossas discrepâncias. E não posso. Não tenho acesso à tua realidade, e pra mim a tua realidade não é nem material. A tua realidade não importa e não importa porque meus parâmetros para aferir algo como sendo “realidade” simplesmente não se encaixam nisso que tu chama de “teu mundo”. O “teu mundo”, isso que pra ti é a realidade concreta na qual tu vive, é pra mim o mesmo que um pé de alface, o mesmo que um avião cruzando o céu num dia aberto de sol, é uma nota musical ou o sentimento de desolação por passar cotidianamente pelo morador de rua que dorme ao relento. Isso que tu chamas de “teu mundo” não é mundo pra mim. É outra coisa.
Não ter de elogiar teu corpo repetidas vezes como fazemos com um bebê que recém aprende a falar, ou como fazemos com um cão que está sendo adestrado. Porque no teu caso não é uma pedagogia da recompensa, mas uma pedagogia da alienação voluntária. O teu corpo, assim como o meu, já está em processo de degradação – e vê-se pelas rugas, o tempo está sendo implacável contigo – e não há o que fazer contra isso. A tua obsessão em obstaculizar a passagem do tempo só te dá um aspecto mais anacrônico do que tu já tem. Cansei de dizer ao pé do teu ouvido, na cama, com a luz já apagada, que eu te achava lindo e que era feliz ao teu lado. Sim, eu menti. E menti porque queria que desse certo. A gente mente quando quer que algo dê certo, e eu não vou cometer mais esse mesmo erro. Só não menti quando eu disse que não era pra sempre, que eu não queria passar o resto da minha vida contigo. Porque o resto da minha vida é demais pra te dar. O resto da minha vida é só meu e é muito precioso, não quero dividi-lo com alguém que precisa de fraldas psicológicas diárias, de drágeas de elogios para poder se medicar contra o horror do tempo que toma conta da carne e que faz envelhecer.
Não ser obrigado a fazer fechar horários de agenda com as ligações ao meio-dia. Não ser obrigado a encontrar teu corpo toda a noite. Não ser obrigado a sorrir quando tu achar que eu devo sorrir. Não ser obrigado a conviver com pessoas que pra ti são importantes e que pra mim são apenas mais corpos no mundo que me roubam espaços, oxigênio, água e comida – veja, pra mim eles não são nem “alguém”, são apenas “corpos”. Não ser obrigado a beber de forma comedida, a falar como homem, nem a recusar viagens. Não ser obrigado a fazer escolhas em nome de um “nós” que se resume às tuas vontades e que jamais me contempla. Não ser obrigado a acreditar e a promover um “nós”. Não ser obrigado a abrir mão do “eu” - que por mais dócil e governado que seja, ainda sim é isso que sou e é a única "coisa" que vai ficar comigo até o fim morno da morte.
Pensar que não estou mais contigo e sentir um alívio feliz e reconfortante por não estar mais contigo: já vale a pena ter dito “chega”[...]
Não precisar discutir assuntos circulares que acabam retornando sempre para o mesmo ponto inicial, sem alterações de rota. Colocar sempre os mesmos questionamentos, e escutar de volta sempre os mesmos argumentos. Tudo vindo de ti é sempre a mesma coisa, tudo vem sempre da mesma forma. Tudo emana de um mesmo centro desequilibrado e instável, nervoso e ansioso, perturbado com as coisas do passado. Não ter que debater sobre as possíveis traições que tu vê em mim, mas que na verdade são as tuas próprias que tu cospe e cola em mim como sendo minhas por excelência. Não ter que me satisfazer com frases que encerram uma discussão com um ponto final que tem peso de bigorna, peso de verdade, e uma verdade que é tão tola quanto tu: “nós somos muito diferentes”.
Não ter que achar justificativas discrepantes para explicar o que não precisa ser explicado, mas que tu exige que seja unicamente porque tu é um poço de insegurança e infantilidade. Porque tudo e todos te ameaçam, inclusive eu e minha roupa, eu e meu perfume, eu e meus olhares, eu e meu rosto, eu e o tom da minha voz, eu e meu sorriso. É preciso justificar sempre a razão pela qual tu acha que eu estou bonito, e daí é preciso sempre esconder ou dissimular essa suposta beleza para que ela não chame a atenção dos outros. Pois, do contrário, sou eu que estou me oferecendo, e isso é insuportável pra ti. Minha simples existência já é uma ameaça para todo esse mundinho pobre no qual tu vives, e eu não vou me desculpar por ter chegado até aqui da maneira com que cheguei. E te lanço um desafio: vou muito mais além ao ponto de tu me perderes no horizonte magro da tua vida.
Não ter que achar engraçadas tuas piadas, simpáticos os teus amigos, amáveis os teus familiares. Porque eventualmente o são, mas também às vezes não. E porque toda a realidade na qual o teu corpo vem envelopado não é feia nem bela, nem pior nem melhor que a minha: é outra e de uma outridade tão radical que eu sequer entendo o que faz possível eu escrever isso tudo – como se eu pudesse entender a tua realidade, como se eu pudesse analisá-la para apontar aqui e ali e isto e aquilo como sendo as nossas discrepâncias. E não posso. Não tenho acesso à tua realidade, e pra mim a tua realidade não é nem material. A tua realidade não importa e não importa porque meus parâmetros para aferir algo como sendo “realidade” simplesmente não se encaixam nisso que tu chama de “teu mundo”. O “teu mundo”, isso que pra ti é a realidade concreta na qual tu vive, é pra mim o mesmo que um pé de alface, o mesmo que um avião cruzando o céu num dia aberto de sol, é uma nota musical ou o sentimento de desolação por passar cotidianamente pelo morador de rua que dorme ao relento. Isso que tu chamas de “teu mundo” não é mundo pra mim. É outra coisa.
Não ter de elogiar teu corpo repetidas vezes como fazemos com um bebê que recém aprende a falar, ou como fazemos com um cão que está sendo adestrado. Porque no teu caso não é uma pedagogia da recompensa, mas uma pedagogia da alienação voluntária. O teu corpo, assim como o meu, já está em processo de degradação – e vê-se pelas rugas, o tempo está sendo implacável contigo – e não há o que fazer contra isso. A tua obsessão em obstaculizar a passagem do tempo só te dá um aspecto mais anacrônico do que tu já tem. Cansei de dizer ao pé do teu ouvido, na cama, com a luz já apagada, que eu te achava lindo e que era feliz ao teu lado. Sim, eu menti. E menti porque queria que desse certo. A gente mente quando quer que algo dê certo, e eu não vou cometer mais esse mesmo erro. Só não menti quando eu disse que não era pra sempre, que eu não queria passar o resto da minha vida contigo. Porque o resto da minha vida é demais pra te dar. O resto da minha vida é só meu e é muito precioso, não quero dividi-lo com alguém que precisa de fraldas psicológicas diárias, de drágeas de elogios para poder se medicar contra o horror do tempo que toma conta da carne e que faz envelhecer.
Não ser obrigado a fazer fechar horários de agenda com as ligações ao meio-dia. Não ser obrigado a encontrar teu corpo toda a noite. Não ser obrigado a sorrir quando tu achar que eu devo sorrir. Não ser obrigado a conviver com pessoas que pra ti são importantes e que pra mim são apenas mais corpos no mundo que me roubam espaços, oxigênio, água e comida – veja, pra mim eles não são nem “alguém”, são apenas “corpos”. Não ser obrigado a beber de forma comedida, a falar como homem, nem a recusar viagens. Não ser obrigado a fazer escolhas em nome de um “nós” que se resume às tuas vontades e que jamais me contempla. Não ser obrigado a acreditar e a promover um “nós”. Não ser obrigado a abrir mão do “eu” - que por mais dócil e governado que seja, ainda sim é isso que sou e é a única "coisa" que vai ficar comigo até o fim morno da morte.
Pensar que não estou mais contigo e sentir um alívio feliz e reconfortante por não estar mais contigo: já vale a pena ter dito “chega”[...]
Frio e cruel
[...]edo, medo frio e cruel. Psss! Não posso falar alto, eles vão me escutar. Eu tô com medo, e é frio e cruel. Eu ouço estampidos surdos, assim, POC, de rolhas desprendendo de garrafas de champagne. Escuto a noite toda – será que eles brindam o meu medo? São frios e cruéis! Não, não chama ninguém! Não chama, e fala baixo: eles podem escutar. Mas não é isso que me dá mais medo: o que me assusta é o som do balanço, balanço de ferro de parque de diversões, indo e vindo indo e vindo indo e vindo. Sempre, como se tivesse alguém ali se balançando. É. E há gotas, em algum lugar aqui tem uma goteira, uma torneira que não tá bem fechada. Que pinga. PLIC, PLIC, PLIC. Não, todos se foram, todos já foram pegos, só sobrou eu aqui. Ninguém voltou. Fala baixo porque eles podem estar aí também. Eles são frios e cruéis, esses sonhos que tenho, esses meus mundos, meus personagens: frios e cruéis. Psss! Eles falam alto! Sorriem, e os olhos deles viram apenas riscos nos rostos quando sorriem. Eu tenho medo deles, acho que eles me trancaram aqui. Eles me dão medo, um medo frio e cruel. Como é que pode terem saído de mim? Escuta, escuta! É uma chave em alguma fechadura! São eles, eu sei que são, estão vindo pra me pegar! Não chama ninguém, não. Eu vou tentar me fingir de mor[...]
Um epílogo
[...]orpo um epílogo? dá? tentarei.... mas não será a morte... será? Não! Porque ele se deleita no que o dinheiro traz. E traz. Mas eu trago outras coisas, e ele traz também outras coisas, e ela, e eles, e elas, e aquilo lá, e aquilo não sou mais eu, e está aí no corpo dele. Uma coisa que não sou mais eu - que corpo lindo, a postura, os pés no chão, o modo com que marcha, os dedos dos pés que pisam o chão [não propriamente os pés, mas os dedos dos pés]. Lindo. Só descobrirei depois - mas já te denuncio. Belo! Um corpo que grit[...]
Um capítulo
[...]riar um! Crio agora mesmo... a feição do rosto, o modo com que agarra os travesseiros e chora, pedindo pra não ser isso que é. Vou mais além ainda: crio o movimento dos dedos dos pés, e os próprios pés, lindos, alvos, vejo suas veias, dedos longos, unhas bem cortadas. E ele pede pra que isso não seja verdade! E chora! Mas é verdade. Ele um dia vai me ter, justo eu, que não penso em tê-lo hoje. Sou o Deus do meu destino porque desenho o que eu mesmo não desejo: já o prevejo. Cabelos ruivos, barba ruiva, olhos orientais. Eu não sei que os quero: mas eles já me querem. Eu sei, mas esse eu ainda não o sabe. E eu serei tão feliz... E derrubas um vinho na minha camis[...]
Minhas histórias
[...]édio. De levantar e ter que levar adiante sempre as mesmas discussões. E ver que as pessoas – inclusive eu mesmo – emperram sempre nas mesmas reentrâncias. E que se perdem por lá, meu deus, como pode? Tédio, tédio, tenho sido a pessoa mais tediosa que conheço. Mas meus momentos de prazer, ai que medo deles! Não são de luxúria ou de orgia, quer dizer, até o são, mas também são de um platonismo e de uma distância astronômica entre o meu corpo e os dos outros. Pode haver orgias em distâncias tão galácticas? É que vou me entediando das pessoas e de seus corpos, sempre perdidas nas suas reentrâncias, e corpos sempre rodopiando em suas próprias curvas... E eu vejo filmes, e eu ouço músicas, e construo aí meus mundos, minhas histórias que se conectam muito vacilantemente com este mundo material do qual sinto tédio, um fio fraco liga aquilo que sou nas minhas histórias àquilo que sou na minha matéria.
*
Desde muito pequeno eu aprendi a falar sozinho, mas não porque eu tivesse muito o que dizer e poucos pra quem falar; mas porque eu não podia falar, em nenhuma instância. Pra não morrer de tédio, naquele silêncio tedioso e preocupante que circunda crianças muito ingênuas, eu inventei meus companheiros e minhas situações, minhas escolhas, inventei até corpos e tempos diferentes, e falava falava falava. Eu falo muito mais sozinho. Mas daí que veio essa tradição, essa prática de inventar histórias pra mim. São fugas, sim, são escapismos, digressões. Só recorro às minhas histórias quando aqui na matéria está difícil de levar as coisas como elas se apresentam.
*
Eu invento tudo, desde as justificativas até as genealogias, os desencontros, os trejeitos, os tons de voz, os olhares retos e os dissimulados, as roupas, as razões, os porquês dos medos. Tudo é de minha autoria. É um mini-mundo, um outro-mundo, um recorte do mundo onde me alojo para dormir. Normalmente reservo a meia hora antes de eu dormir para consubstanciar as minhas histórias. Não conto carneirinhos; conto histórias para mim, sobre como eu poderia ser diferente, sobre como eu poderia ter nascido em outras épocas, em outras dimensões, em outros corpos, sobre como eu poderia ter outras habilidades e outras dores, outras penitências, outros obstáculos, mas também outras delícias e outros prazeres, outros sorrisos. Há noites em que demoro horas arquitetando meus mundos, porque leva muito tempo e exige muito esforço. Há outras noites em que vinte minutos me bastam pra eu cair no sono – e fico torcendo para que nos meus sonhos eu continue nessas minhas viagens lindas por outros-eu. O problema é que raramente eu lembro dos meus sonhos, será isso um sinal?
*
Nas minhas histórias não há nenhum tipo de tédio. São emocionantes como os filmes e as músicas que as inspiram. Os romances dos meus mundos são belos e forçosos, construídos a marteladas mediante crises e conquistados depois de muito embate. No fim, os corpos sempre vencem. Não há término para o número de histórias que contei sobre os diferentes eus que criei, e nem quero que haja. Quero majorá-las, incrementá-las ainda mais. Somente agora, com quase trinta anos, eu vejo que minhas histórias acabaram por se converter num modo que tenho de levar a vida. Não há como prescindir delas à esta altura – e como a idade vai pesando: já começo a me conformar com aquilo que sou, que tédio!
*
Hoje mesmo experimentei uma delícia, que foi acordar antes do despertador tocar e permanecer na cama dando continuidade à história que eu criara na noite anterior. A cama quente e macia, os travesseiros bem colocados debaixo da minha cabeça e eu deitado de bruços: é o retrato do máximo conforto que já experimentei! Ali nessa posição eu fechei os olhos e criei criei criei minhas histórias, fantásticas e cheias de luz, cheias de mágica, cheias de sedução, e eu já não precisava mais me preocupar com o horário que eu deveria acordar, pois eu já estava acordado. E eu sou tão bonito nas minhas histórias, sou tão íntegro e justo, sábio, tranquilo, cheio de qualidades e virtudes: sou tão não-eu. Me agarro nos travesseiros e crio crio crio. Aí o despertador tocou. E me deu um tédio de ter que levantar da cama e ir encontrar as mesmas pessoas com seus mesmos ranços, suas mesmas dificuldades, perdidas nas mesmas reentrâncias – inclusive eu.
*
Não é que as pessoas sejam más, nem eu sou mau (não de todo mau, pelo menos), mas somos repetitivos demais! É por isso que gastei e vou continuar gastando o dinheiro que ainda não tenho pra comprar roupas novas: porque quero outra casca, ao menos uma nova casca. Novos perfumes (comprei três vidros), novos tênis (pra pisar em diferentes chãos). Para cada nova história, um novo corpo. Não, as pessoas não são más, e várias até me surpreendem, me tomam por onde e quando eu não esperava, e isso me dá uma alegria louca. Eu gosto das pessoas, não vá achando que sou um ermitão autista psicótico que cria fantasias para fugir de uma realidade que lhe parece áspera. Talvez um pouco de cada (de ermitão, de autista e de psicótico), mas são esses meus temperos, meus sabores. Eu gosto das pessoas, e talvez seja por isso que elas habitam tão densamente essas minhas histórias: eu nunca estou sozinho nelas. Mas é verdade que nesses dias difíceis eu conto as horas para tomar um banho quente à noite e me deitar na cama, apagar a luz, agarrar meus travesseiros e criar mais um capítulo, com novos personagens, para um outro-eu: tediosamente sempre a mesma coisa, à noite e agora também pela manhã, pequenas doses de escapismo onde eu posso me recarregar de encantamento e voltar para a matéria. Um tédio alegre, um tédio voluntário, um tédio desejado, embora ainda sim um t[...]
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Desde muito pequeno eu aprendi a falar sozinho, mas não porque eu tivesse muito o que dizer e poucos pra quem falar; mas porque eu não podia falar, em nenhuma instância. Pra não morrer de tédio, naquele silêncio tedioso e preocupante que circunda crianças muito ingênuas, eu inventei meus companheiros e minhas situações, minhas escolhas, inventei até corpos e tempos diferentes, e falava falava falava. Eu falo muito mais sozinho. Mas daí que veio essa tradição, essa prática de inventar histórias pra mim. São fugas, sim, são escapismos, digressões. Só recorro às minhas histórias quando aqui na matéria está difícil de levar as coisas como elas se apresentam.
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Eu invento tudo, desde as justificativas até as genealogias, os desencontros, os trejeitos, os tons de voz, os olhares retos e os dissimulados, as roupas, as razões, os porquês dos medos. Tudo é de minha autoria. É um mini-mundo, um outro-mundo, um recorte do mundo onde me alojo para dormir. Normalmente reservo a meia hora antes de eu dormir para consubstanciar as minhas histórias. Não conto carneirinhos; conto histórias para mim, sobre como eu poderia ser diferente, sobre como eu poderia ter nascido em outras épocas, em outras dimensões, em outros corpos, sobre como eu poderia ter outras habilidades e outras dores, outras penitências, outros obstáculos, mas também outras delícias e outros prazeres, outros sorrisos. Há noites em que demoro horas arquitetando meus mundos, porque leva muito tempo e exige muito esforço. Há outras noites em que vinte minutos me bastam pra eu cair no sono – e fico torcendo para que nos meus sonhos eu continue nessas minhas viagens lindas por outros-eu. O problema é que raramente eu lembro dos meus sonhos, será isso um sinal?
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Nas minhas histórias não há nenhum tipo de tédio. São emocionantes como os filmes e as músicas que as inspiram. Os romances dos meus mundos são belos e forçosos, construídos a marteladas mediante crises e conquistados depois de muito embate. No fim, os corpos sempre vencem. Não há término para o número de histórias que contei sobre os diferentes eus que criei, e nem quero que haja. Quero majorá-las, incrementá-las ainda mais. Somente agora, com quase trinta anos, eu vejo que minhas histórias acabaram por se converter num modo que tenho de levar a vida. Não há como prescindir delas à esta altura – e como a idade vai pesando: já começo a me conformar com aquilo que sou, que tédio!
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Hoje mesmo experimentei uma delícia, que foi acordar antes do despertador tocar e permanecer na cama dando continuidade à história que eu criara na noite anterior. A cama quente e macia, os travesseiros bem colocados debaixo da minha cabeça e eu deitado de bruços: é o retrato do máximo conforto que já experimentei! Ali nessa posição eu fechei os olhos e criei criei criei minhas histórias, fantásticas e cheias de luz, cheias de mágica, cheias de sedução, e eu já não precisava mais me preocupar com o horário que eu deveria acordar, pois eu já estava acordado. E eu sou tão bonito nas minhas histórias, sou tão íntegro e justo, sábio, tranquilo, cheio de qualidades e virtudes: sou tão não-eu. Me agarro nos travesseiros e crio crio crio. Aí o despertador tocou. E me deu um tédio de ter que levantar da cama e ir encontrar as mesmas pessoas com seus mesmos ranços, suas mesmas dificuldades, perdidas nas mesmas reentrâncias – inclusive eu.
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Não é que as pessoas sejam más, nem eu sou mau (não de todo mau, pelo menos), mas somos repetitivos demais! É por isso que gastei e vou continuar gastando o dinheiro que ainda não tenho pra comprar roupas novas: porque quero outra casca, ao menos uma nova casca. Novos perfumes (comprei três vidros), novos tênis (pra pisar em diferentes chãos). Para cada nova história, um novo corpo. Não, as pessoas não são más, e várias até me surpreendem, me tomam por onde e quando eu não esperava, e isso me dá uma alegria louca. Eu gosto das pessoas, não vá achando que sou um ermitão autista psicótico que cria fantasias para fugir de uma realidade que lhe parece áspera. Talvez um pouco de cada (de ermitão, de autista e de psicótico), mas são esses meus temperos, meus sabores. Eu gosto das pessoas, e talvez seja por isso que elas habitam tão densamente essas minhas histórias: eu nunca estou sozinho nelas. Mas é verdade que nesses dias difíceis eu conto as horas para tomar um banho quente à noite e me deitar na cama, apagar a luz, agarrar meus travesseiros e criar mais um capítulo, com novos personagens, para um outro-eu: tediosamente sempre a mesma coisa, à noite e agora também pela manhã, pequenas doses de escapismo onde eu posso me recarregar de encantamento e voltar para a matéria. Um tédio alegre, um tédio voluntário, um tédio desejado, embora ainda sim um t[...]
Por que me perguntas?
[...]ifica não ter medo de dizer, de falar, nem mesmo de pensar. Só estar lá parado, pensando aquilo, despindo o corpo dele, já é um ato de profunda revolta, de transgressão. Só eu sei o quanto isso me custou, o quanto de suor eu precisei exalar pra me permitir imaginar aquela imagem. E vem essa gente dizer que isso não é nada? Vem essa gente dizer que a vida dela, de tantas outras, não era lugar pra isso? Vem essa gente dizer que ela não poderia ter escrito isso que ela escreveu porque ela “não viveu na pele”? “Como perguntar não ofende, qual era mesmo a orientação sexual dela”? É muito pobre, é muito triste, é muito mesquinho. E pra você que escuta e concorda: é também pra você que eu reservo o meu “vá se foder”[...]
Morreu de tanto viver... [in memoriam Márcia Arán]
Detesto reticências – odeio. Mas as coloquei no título porque trazem aquele silêncio que antecipa uma lágrima esquerda, depois uma outra, à direita, sobre os cílios inferiores. Porque os três pontos podem ser também três lágrimas, ou muitas mais, e então é meu título que chora. Meu título chora.
Hoje morreu de tanto viver, de tanto viver, uma pessoa que eu jamais imaginei sofrer de uma doença terminal. Hoje morreu uma pessoa que eu jamais quereria saber morta. Hoje morreu uma pessoa que me ensinou, que me fez aprender, e aprender a pensar, que me devolveu o encantamento pelo estudo, que me foi gentil no momento em que eu precisava de aspereza e de disciplina [não, não acredito que seu pulso ficaria cerrado para um murro e que sua voz se elevaria para uma discussão], que não odiou o meu corpo nem minha voz nem meus cabelos, que aliás não odiou nenhum corpo, e que escreveu lindamente sobre o corpo de outras pessoas que vivem sem ter um corpo previsível. Ela fez poesia sobre os corpos imprevisíveis e imprevistos. Hoje morreu um corpo, mas toda a beleza daquela pessoa nos tocou de alguma forma, e ela ainda vive em nós, apesar da morte do seu corpo. Sua morte dói, e até causa um redemoinho momentâneo de revolta por ir-se justamente aquela que não precisava (que não deveria!) ir-se de nós; revolta por saber que ela se vai e que ficam aqui entre nós muitos outros corpos mesquinhos, vis, muitos outros corpos cujos egos não lhes cabem de tão grandiosos [pobres corpos que carregam, como camelos, os egos de quem se leva muito a sério]; redemoinho de saudade por não termos podido levantar a mão em sala de aula para fazer uma última pergunta sobre aquele último texto, sobre aquele último conceito, uma última pergunta sobre aquele corpo. Porque se soubéssemos que hoje morreria esta pessoa, não teríamos chegado atrasados na sala, nem teríamos deixado de ler sobre os corpos. Ou teríamos lido mais, muito mais, e teríamos pedido pra que esse corpo que morreu hoje ficasse um pouco mais, tirasse mais uma dúvida, esclarecesse sobre mais outros corpos dos quais gostava tanto de escrever. Ou, talvez, tenhamos aproveitado tudo na medida certa, a medida certa que essa pessoa viveu até hoje.
Se é verdade que o mundo ficou mais pobre, e que talvez eu, assim como muitas outras pessoas, tenha morrido um pouco junto com este corpo que morreu hoje, também é verdade que o toque de vida que ela nos deu quando viva impulsionou e potencializou muito do que fizemos e muito do que somos hoje. Se morremos um pouco junto com ela, também afirmamos nossas vidas junto com a dela, e através dela: ela me ensinou a não ter ódio do corpo, do meu corpo, de nenhum corpo, e me ensinou a estudar o corpo para celebrá-lo. Ela uma vez me disse que eu era um ótimo aluno: a ela sou grato por ter visto em mim um corpo e uma pessoa que eu jamais supus existirem.
Esta homenagem póstuma deita com carinho as memórias que tenho dos dias que compartilhei da presença viva, fulgurante, desta pessoa que, sem modéstia, mudou minha vida. Este corpo que amanhã será velado é só uma reticência do que ela foi em vida, nas nossas vidas – é nas nossas vidas onde ela ainda vive, já sem seu corpo.
Hoje morreu de tanto viver, de tanto viver, uma pessoa que eu jamais imaginei sofrer de uma doença terminal. Hoje morreu uma pessoa que eu jamais quereria saber morta. Hoje morreu uma pessoa que me ensinou, que me fez aprender, e aprender a pensar, que me devolveu o encantamento pelo estudo, que me foi gentil no momento em que eu precisava de aspereza e de disciplina [não, não acredito que seu pulso ficaria cerrado para um murro e que sua voz se elevaria para uma discussão], que não odiou o meu corpo nem minha voz nem meus cabelos, que aliás não odiou nenhum corpo, e que escreveu lindamente sobre o corpo de outras pessoas que vivem sem ter um corpo previsível. Ela fez poesia sobre os corpos imprevisíveis e imprevistos. Hoje morreu um corpo, mas toda a beleza daquela pessoa nos tocou de alguma forma, e ela ainda vive em nós, apesar da morte do seu corpo. Sua morte dói, e até causa um redemoinho momentâneo de revolta por ir-se justamente aquela que não precisava (que não deveria!) ir-se de nós; revolta por saber que ela se vai e que ficam aqui entre nós muitos outros corpos mesquinhos, vis, muitos outros corpos cujos egos não lhes cabem de tão grandiosos [pobres corpos que carregam, como camelos, os egos de quem se leva muito a sério]; redemoinho de saudade por não termos podido levantar a mão em sala de aula para fazer uma última pergunta sobre aquele último texto, sobre aquele último conceito, uma última pergunta sobre aquele corpo. Porque se soubéssemos que hoje morreria esta pessoa, não teríamos chegado atrasados na sala, nem teríamos deixado de ler sobre os corpos. Ou teríamos lido mais, muito mais, e teríamos pedido pra que esse corpo que morreu hoje ficasse um pouco mais, tirasse mais uma dúvida, esclarecesse sobre mais outros corpos dos quais gostava tanto de escrever. Ou, talvez, tenhamos aproveitado tudo na medida certa, a medida certa que essa pessoa viveu até hoje.
Se é verdade que o mundo ficou mais pobre, e que talvez eu, assim como muitas outras pessoas, tenha morrido um pouco junto com este corpo que morreu hoje, também é verdade que o toque de vida que ela nos deu quando viva impulsionou e potencializou muito do que fizemos e muito do que somos hoje. Se morremos um pouco junto com ela, também afirmamos nossas vidas junto com a dela, e através dela: ela me ensinou a não ter ódio do corpo, do meu corpo, de nenhum corpo, e me ensinou a estudar o corpo para celebrá-lo. Ela uma vez me disse que eu era um ótimo aluno: a ela sou grato por ter visto em mim um corpo e uma pessoa que eu jamais supus existirem.
Esta homenagem póstuma deita com carinho as memórias que tenho dos dias que compartilhei da presença viva, fulgurante, desta pessoa que, sem modéstia, mudou minha vida. Este corpo que amanhã será velado é só uma reticência do que ela foi em vida, nas nossas vidas – é nas nossas vidas onde ela ainda vive, já sem seu corpo.
O coelho vai dar um pulo
Sempre começo comendo coelhinhos de chocolate pelas orelhas: eles não gritam de dor. Quanto a mim, reajo a qualquer dor do corpo como uma potencial doença – talvez porque me ache desde sempre doente, doente de uma síndrome que me atravessa os olhos, a espinha, a barriga. Tenho medo desse ódio que sinto do corpo, do meu corpo, e temo que ele se transforme mais adiante em coisas bem materiais e palpáveis, como um câncer, ou que ele se eleve a um grau insuportável de autonomia e me conduza ao suicídio. Quero passar a gostar do meu corpo, o que fatalmente me possibilitaria cuidar dele melhor. Se o detesto, é claro que o saboto. Sinto que é preciso reiniciar, interrompendo um ciclo que vem de tempos, promovendo uma mudança que busque aquela claridade ofuscante de fechar os olhos. Sinto que mudo de uma ilha deserta para outra: é preciso um novo emprego, uma nova atitude em relação a mim, um novo homem no mundo. Um renascer que não é sinônimo de “começar do zero”, mas um recomeço que leve em conta de modo muito sério tudo o que me trouxe até aqui – inclusive com este corpo, neste estado, com estas dificuldades e com estas belezas. Seria preciso comer meu corpo pelas orelhas. Sinto que algo de profundamente novo está porvir em mim. Sinto que vou renunciar, romper e interromper; sinto que vou largar tudo e me virar. Sinto que vou parar e que vou olhar pra trás, com o vento batendo nos cabelos e com o cenho franzido, e que vou dar de costas para manifestar meu apreço e meu desprezo por tudo, por todos que me passaram, e sinto que vou caminhar adiante. Sinto que vou virar as costas. Cansei de me censurar por dormir demais, de ter pesadelos sobre acordar às onze e meia da manhã. Se o faço, é por pura insatisfação, é um jeito de fugir de ti e deles todos. Mas se eu fugir de vocês, jamais vou me permitir ser surpreendido, ser encantado; jamais vou me deixar ficar apaixonado por ti, justamente por ti, que vem com essa juventude de olhos penetrantes que... me apaixona. Eu decidi que vou fazer as pessoas se apaixonarem por mim e comprei dois perfumes: um para o peito e outro para as orelhas: porque quero que comecem a me comer pelas orelhas.
Check-list
Prezado colega;
Solicito a remoção das unhas e lixamento das digitais dos dedos das mãos.
Em seguida, depilação com cera quente na cabeça, inclusive da barba.
Os olhos deverão ser removidos num átimo, sem vacilação. Antes disso, fure-os para que todo o líquido escorra e para que seja mais fácil pinçá-los.
É necessário que a língua seja amarrada satisfatoriamente ao para-choque de um carro, e que o carro arranque com aceleração máxima.
Se houver desmaios, proceda com medicação intravenosa que preserve a vida até os últimos momentos.
Não mate; apenas faça doer.
Completadas duas horas, certifique-se de que a medicação o manterá vivo. Verifique o pulso e os demais sinais vitais.
Fim de expediente: sua mulher e suas duas filhas o aguardam para o jantar.
Solicito a remoção das unhas e lixamento das digitais dos dedos das mãos.
Em seguida, depilação com cera quente na cabeça, inclusive da barba.
Os olhos deverão ser removidos num átimo, sem vacilação. Antes disso, fure-os para que todo o líquido escorra e para que seja mais fácil pinçá-los.
É necessário que a língua seja amarrada satisfatoriamente ao para-choque de um carro, e que o carro arranque com aceleração máxima.
Se houver desmaios, proceda com medicação intravenosa que preserve a vida até os últimos momentos.
Não mate; apenas faça doer.
Completadas duas horas, certifique-se de que a medicação o manterá vivo. Verifique o pulso e os demais sinais vitais.
Fim de expediente: sua mulher e suas duas filhas o aguardam para o jantar.
Cadáveres
[...]eixa eu tentar te explicar, não sei se consigo: tem um cadáver na minha casa. Bem ali, ó: na passagem do corredor que une o quarto, o banheiro à sala. Tem um cadáver estirado ali há dias. Há pelo menos três dias. Eu passo por ele e olho, desvio dele, passo por cima. Sempre que passo por ele eu lanço um olhar. Não consigo movê-lo dali. Acordo pela manhã e vou dormir à noite: ali ele jaz em velório. No meu velório. O corpo estirado no quase chão da minha quase sala é o de uma mosca que entrou pela janela da minha cozinha há pelo menos seis dias. Por três noites e três dias ela voou aqui dentro. Ao fim do terceiro dia ela morreu e ali ficou. Não quis tirá-la do seu leito. Do meu leito. Eu fico inclusive lisonjeado, de certa forma feliz, que ela tenha vindo até mim nos seus últimos momentos. Fico recontando sua trajetória, de que lugar ela veio, por que casas passou antes daqui, que ventos ou que luzes a trouxeram até minha pequena e bela ilha deserta para morrer comigo. Que mosca será essa que veio morrer comigo? Entende? Nenhum dos seus veio reclamar o corpo. E se fui eu quem morreu e ninguém deu-se por conta? Me pego às vezes pensando nisso, em morrer e não me dar conta, ou em morrer e ninguém se dar conta. Ninguém dar por minha falta. Não que isso seja um problema, mas coitados dos vizinhos, né? Acho que já posso enterrar a mosca[...]
Depois do silêncio
[...] (silêncio). Um cansaço, sabe? Só de pensar, de imaginar, só de vislumbrar aquelas pessoas todas que retornam, suas roupas e o tom das suas vozes. Um cansaço, uma contrariedade. E quando fui me dando conta do incômodo, eu fui me calando e ficando quieto, cada vez jogando mais longe meu olhar naquele horizonte de dois azuis bem distintos, perfeitamente reto, do encontro do mar com o céu. “Vem, vamos, há muito ainda o que fazer, há muito ainda que trabalhar, há pessoas que precisam de ti”. E eu não quero ir, vou arrastado com as mãos atadas, puxado pelo nó que as imobiliza. Foi de uma revolta e de um deboche sem iguais: “E o Troféu Piroca Verão 2011 vai para... o Mineiro! O Mineiro ali de sunga preta com detalhe vermelho! Parabéns! Aqui está o Troféu, um falo feito de gesso banhado a ouro 18 quilates, glande cravejada de rubis bem vermelhos, veias desenhadas com pedras lápis-lazuli, saco delicadamente trabalhado em duas pérolas gigantes e espirrando sêmen em cascatas de brilhantes! Agora larga essa mocreia loira que não dá nem pra fazer faxina lá em casa e vai ganhar o mundo!”. Silêncio, isso sim. Eu fui obrigado a apenas construir esse e outros textos mentalmente, sem mexer sequer os lábios. E construí, ei-lo aí. Talvez minha dor no estômago se deva ao fato de eu ter que engolir minhas palavras que, prestes a tomar voz, eram deglutidas a força. Meu silêncio não era um nada, uma letargia neutra. Eu não sou neutro. Meu silêncio era minha úlcera fervendo no estômago cheia de ironias e sarcasmos, histórias fantásticas de humor sexualizado. O próximo passo é o vômito. (silêncio) [...]
Um breve partir
[...]bora. Mas é um partir breve, não vou demorar. Vê se não fica até muito tarde em frente ao computador: ‘saia pro mundo, caia do blog, na batida da vida se jogue’. Leia bastante, daqueles livros lindos que tu recitas de olho fechado parágrafos inteiros. Acho tão bonito quando teus cílios se encontram e tua boca mexe, quase sorrindo, falando aquelas palavras. Eu sei inclusive que tu lembra da disposição dos parágrafos nas páginas, e dos números das páginas, do volume das edições que tu recita. Resista às calças jeans. Elas te escondem, te engessam e te imobilizam. Tu é bonito assim, com os tornozelos à vista e com os calcanhares ousados. Não te preocupes comigo: derramei umas gotas de mirra na água e vi desenhos lindos. Será uma estada tranquila. Não consultei os astros, nem as cartas, pois tenho tido dificuldades em lê-los de maneira acurada e sensível. Eu os tenho interpretado às avessas. Regue as plantas, sobretudo essas do teu peito. Não dome o furor das tuas ideias; quando eu voltar, quero ser engolfado pelo redemoinho que elas provocam. Eu vou, sim. Talvez os dias se multipliquem e se dilatem enquanto eu estiver fora e talvez seja difícil manter intacto o teu rosto na memória. Ele já me aparece aos borrões contigo aqui na minha frente. Também não sei se vou conseguir manter acesa a chama da tua lembrança – já tentei fazer promessas desse tipo antes e nunca consegui cumpri-las. E não quero que tu te responsabilize por mim nas tuas memórias, que são tantas: vai procurar beleza lá onde ela de fato existe. Eu gosto de ti assim, me achando feio. Se eu parto, não é porque estou fugindo. Eu parto porque não suporto, porque não dá mais pra mim, e preciso de uns dias de leituras, escrituras e olhares perdidos no horizonte do Atlântico. Aqui as coisas pesam demais, e eu estou com os ombros doídos. Talvez seja o caso de me apartar do que me pesa, mas a questão é que sem o peso – e sem esse namoro, esse casamento e eventual divórcio do peso –, sem ele não consigo dar sentido algum ao que faço. Tem que ser pesado pra eu poder lidar com isso e fazê-lo leve. E o gosto da tua pele... O cheiro. Preserve-os o máximo que tu puder porque são preciosos. É provável que teu rosto embace, mas o teu gosto não sairá nunca da minha boca. Ou, pelo menos, daquilo que eu acredito ser o teu gosto. Daqueles que eu acredito que foram as nossas mordidas, quando eu quis muito tirar partes da tua carne. Daquilo que eu penso que foi nosso desejo: de silenciosamente dar colo um ao outro, num romantismo e numa tranquilidade nunca antes vistos em mim, mas que tu proporcionou, que tu avalizou com um piscar de olhos e um carinho sutil na minha barba. ‘Ela é macia’, tu disse, ou assim eu queria que tu tivesse dito se tudo isso realmente fosse como eu venho descrevendo. Esse é um breve partir porque, em verdade, não há muito do que se despedir. Nunca houve nada disso, tu sabes. Mas mesmo assim já sinto saudades. Tou indo, tá? Até br[...]
as cartas às vezes mentem
[...]otei umas cartas, só pra ver o que poderia estar logo adiante no meu futuro. E elas mentiram pra mim. Elas quiseram me enganar. Porque elas me disseram que a toalha ficaria no varal pra sempre, intacta. Dura e sebosa. Mas não ficou. Ele esteve aqui ontem, foi embora há poucos minutos. E devolvi a toalha pro varal, bem lá onde ela passou as últimas duas semanas. E assim será enquanto eu e ele suportarmos essa migração pendulária entre a minha casa e a casa dele. As cartas mentiram; ou fui eu que menti ao lê-las[...]
e a toalha
[...]lha voltou? voltou!!! finalmente ela saiu do varal e se enrolou num corpo de verdade![...]
Burkas
[..]bia o que fazer com as mãos, com o olhar, com as pernas e com o cabelo. Acho até que eu tremia de leve. Se eu pudesse ir vestido com um sobretudo gigante, ou uma burka, eu iria. Ou então iria nu logo de uma vez, só de chinelos, com o pinto balangando no meio das pernas. Perderam-se a bússola, os relógios, as senhas dos cartões de crédito. Criou-se um outro lugar dentro dali mesmo, um outro espaço que flutuava sobre o chão. Habitávamos este, e não o que nos ofereciam. Eu pulava de rua em rua, de paralelepípedo em paralelepípedo, recusava o espelho cada vez que ia ao banheiro. Mas estávamos felizes, cada um de nós a seu modo. Havia costuras? Havia espinhas dorsais? Havia pontos de contato? Quiséramos. Talvez não. Pra ser feliz só dá quando estou me vendo no espelho do outro? Não sei, acho que não. E é possível que seja esta a razão de eu recusar o espelho quando eu estava no banheiro. Eu não queria, e não quero, me ver nele. Ele: um corpo silencioso. Corpos silenciosos não são sempre calmos. Ou melhor; ele: um corpo sinuoso. Corpos sinuosos são são sempre moles. Meus dedos estavam duros. Eu não sabia o que fazer com as mãos; logo, eu não sou um corpo calmo. Mas eu sou um corpo mole. E se eu arrancasse a burka? Não havia suspeita, mas eu estava completamente nu. Não havia bermuda nem camiseta que escondesse minha nudez – pelo menos não de mim mesmo. Havia pontos de contato? Não sei, não sei. Não sei se quero saber. Mas que me deu vontade de arrancar a camiseta, ahhh, iss[...]
Escapando pela tangente
[...]ês viram? Foi horrível. Simplesmente foi queimada viva por um grupo de rapazes na cidade do Porto. Eu não sabia disto, foi quando, sabem? Fiquei impactado. Essas humanidades extremas me atingem, me afetam: essas humanidades demasiadamente humanas, do tipo queimar alguém vivo, bater até matar, torturar, abrir com bisturi, costurar a pele, mexer lá dentro. Muita humanidade, coisa humana que me assusta. É por isso que me pergunto se às vezes isso tudo que está aí, que vivemos quando acordamos; me pergunto se isso tudo não é um sonho ruim. É por isso que às vezes não quero pessoas por perto. Se é um sonho, é o meu sonho, e no meu sonho só entram as pessoas que eu quiser. Quando eu desmaio, se vou tirar sangue ou se me corto, se me machuco, eu sinto que sou sugado por um túnel longo em espiral de várias imagens de memórias, imagens de lembranças da minha história, espiral que leva meu corpo no turbilhão até lá uma ponta, um vórtice onde não há mais memória nem lembrança: e lá eu acordo. Lá eu estou plenamente acordado. Quando eu volto a sonhar, eu sou como que jogado de volta, lá de cima: jogado de volta ao sonho, cheio das ficções das lembranças da minha vida que passou - que já não é mais vida, é uma outra coisa que nem minha é. Penso ‘que merda, queria ficar lá no topo da espiral, no olho do vórtice’. Porque lá era onde eu estava acordado. Pra justamente ter que ficar longe dessas humanidades, coisas humanas que apavoram. O corpo é muito humano pra mim, talvez por isso eu desmaie com tanta facilidade, por isso eu implico tanto com o corpo e com as coisas dele. To sempre saindo, escapando pela tangente das coisas do corpo: sexo, comida, álcool, doença. Mas bem quando eu to conseguindo sair de mansinho, o corpo vai lá e me pega de volta! Fui ver uma exposição de um artista plástico que pinta personagens recorrentes: os mascarados; atletas mascarados. Achei belíssima. E o mais interessante é que ele só atribui máscaras aos seus homens, homens atletas. Porque suas mulheres quase sempre estão seminuas. Me fez pensar, essa distribuição peculiar de disfarces... E a nudez pode também ser um disfarce? Eu conheço gente que se disfarça tirando a roupa, confiando ao corpo a habilidade de encaminhar os olhares e as expectativas pro centro do vórtice do nosso sonho. Já eu, eu sou um dos mascarados – nem sempre sou atleta. Mas não é por ser um mascarado que eu sou um mentiroso: eu não uso disfarces. Adiar dizer quem se é não pode ser considerada uma atitude mascarada; é que eu realmente não sei ainda. E é provável que justamente por não ser atleta que sinto os olhares escapando pela minha tangente: eles querem o sonho, e eu quero acordá-los. Assim como eu sou puxado por um vórtice quando desmaio ao tirar sangue, e me julgo acordar do sonho, às vezes sinto os olhares escorregando e desistindo de despertar. Todo mundo quer viver no sonho, na matrix? Eu também quero, mas às vezes sinto necessidade de acordar. Daí advém minha facilidade pra desmaiar, pra resetar o corpo como fazemos com os computadores quando eles travam. [curto silêncio] To sentindo nos olhos de vocês que estão me escapando pela tangente![...]
O que há de novo sob o sol desse carnaval?
[...]orpos. Muitos. Não dava nem pra saber onde começava um e terminava o outro. De todas as cores, de todos os volumes, pesos e medidas; de todos os sexos, de todas as idades. E se beijavam, se acariciavam, se lambiam. Tremiam. Mas foi só um sonho, e não foi um sonho erótico, apesar do apelo. É que fui dormir na noite seguinte pensando sobre o desejo de morder, de arrancar partes, de engolir o corpo do outro. Não dá essa vontade? Quando rola a “química” [que na verdade deveria ser “física”], a gente beija fundo com vontade de deglutir o outro. Eu beijo fundo. Coloquei uma música bem baixa, desliguei algumas luzes – mas não todas, porque gosto de olhar nos olhos quando faço sexo. A gente foi dos carinhos até às práticas mais pervertidas, passando pela malandragem, pelos tapas e pelos xingamentos. Acontece que um kit completo da sacanagem, como esse, assusta: e o susto já dura sete dias. Ontem, ao fechar o sétimo dia de silêncio [já dava pra ter criado um outro mundo!], me revoltei: como faz pra fazer sentido? Como faz pra ligar no outro dia? Sim: pega o número e liga, burra! [Risos!]. Acontece que não é só isso. Tudo está envolvido nesse jogo: é a roupa que a gente escolhe, é o tom da voz, é a bebida que a gente bebe, o bairro onde a gente mora, a profissão que a gente desempenha. Me dei de presente 15 dias de folga da academia e fui viver outras coisas: bebi com muitos amigos, conheci gente nova, falei sobre assuntos dos quais eu não sabia, enfrentei minha fobia de estúdios de TV. E gostei de mim fazendo tudo isso. Me senti bonito como foi o dia de hoje: céu bem azul, sol brilhando sem calor e um vento agradável, quase frio pra um carnaval de março. Carnaval em março é surpreendente! Vento frio em março é surpreendente. Porto Alegre é “demais” com vento frio e com a maioria dos portoalegrenses fora dela. Uma paz, uma tranquilidade, um desejo de me jogar nessa lava incandescente e devagar que vem descendo pelo chão[...]
A tua toalha
[...]em me ligou, nem mandou mensagem, nada. Mas eu esperava por isso, por esse silêncio, esse distanciamento. Ao mesmo tempo em que ele olha bem profundamente, ele sabe se afastar, se dividir daqueles que o querem bem. Mas mesmo assim eu deixei a toalha dele pendurada no varal, tal e qual ele deixou da primeira e última vez que ele esteve aqui. Não! Claro que não! Não esperava que ele voltasse. Na verdade, eu nem queria. Mas deixei a toalha ali, bem penduradinha, na medida em que ele próprio deixou, mais pra me servir como troféu já que todo o resto que ele me fez sentir já foi esquecido. E como a gente é acostumado a esquecer rápido, não? Temos memórias velozes. Mas esse prêmio da toalha no varal é o mesmo que eu faço com os lençóis. Às vezes, quando alguém comovente dorme comigo, eu deixo os lençóis em que aquele corpo dormiu por dias na minha cama! Só pra eu saber que foi ali que o corpo se deitou, que adormeceu. É a minha forma de manter as pessoas perto de mim, é a minha forma de preservar as lembranças. Eu poderia ter outras, concordo, mas o que eu quero mesmo é ter partes dos corpos deles comigo, mesmo que sejam níveis epiteliais que vão escamando. Não: nunca serei um assassino psicopata. Sou apenas alguém que gosta de guardar pedaços de corpos que me cativam. A toalha já está dura no varal, os vizinhos estão comen[...]
Amanheceu
[...]ia de sol, quando pensava que choveria. Amanheceu, e eu era uma outra pessoa: um sopro de vida nos pulmões, um sorriso que vinha dos intestinos – selvagem e honesto. Aqueles últimos dias tinham sido intensos. Mas te escrevo agora pra pedir um favor: publique todas as cartas e e-mails que já te mandei. Dou autorização pra tu procurares alguma editora que avalie a viabilidade disto. Se nenhuma quiser, procure uma gráfica simples. Não quero muitos exemplares, nem muito coloridos. Se nem a gráfica quiser imprimir tudo o que te escrevi, compre umas tintas pra impressora e imprima umas três cópias de todo o material. Depois encaderne. Não precisa vender. Deixe uma cópia na zona sul, outra no centro e uma última na zona norte: sugiro paradas de ônibus. Espalhe o que eu já escrevi pela cidade, talvez aquilo tudo possa ajudar alguém. De minha parte, a partir de agora passo a precisar de outras palavras para falar de mim: “amanheceu um dia de sol”, “surgiu quando não esperava”, “jamais supôs que seria tão bom quanto foi, “a vida tomou-lhe o corpo”... Dobrei uma das minhas esquinas e já sigo lá adiante. Imprima tudo e espalhe[...]
Suicídio, eutanásia, aborto, pena de morte: cadê a vida?
[...]urdo, um total absurdo. Porque não é a vida de qualquer um que pode ser tirada, nem a vida de qualquer bebê que será salva. Quem morre pela pena de morte já foi condenado muito antes de ter cometido o crime: toda a situação de vulnerabilidade dos “delinquentes” já os coloca no banco dos réus. Pelo menos aqui no Brasil isso é evidente. A gravidez que os igrejeiros querem preservar proibindo o aborto é a vida dos bebês de classe média pra cima. Porque a vida dos bebês de classe média pra baixo já vem sendo excluída da possibilidade de ser considerada “vida” há muito tempo, e o corpo das mulheres da classe média pra baixo já vem sendo abusado violentamente desde que elas nascem – isso se elas chegam a nascer, se a gravidez que as porá no mundo lograr sucesso, tendo em vista a qualidade do serviço público de saúde. É, não adianta franzir as sobrancelhas assim: já falaste com alguma mulher que fez aborto? Não é simplesmente uma questão de “não quero ter o filho”. É muito além e muito aquém disso. Já falaste com alguém que está condenado à morte por algum crime? Não é simplesmente “quis matar e matei com requinte de crueldade” – não adianta citar exemplos de filmes norte-americanos porque isso não vale! Mas por outro lado tem o suicídio, que só virou um tema de relevância sociológica, um “problema de gestão pública da população” quando a vida – a minha vida, a tua, a deles, supostamente todas as vidas – foi efetivamente tomada como “algo”, como um “bem” a ser gerido. Ou tu pensa que a minha vida, ou a tua, é muito mais que um objeto? Pra nós talvez seja mais, sim. Quando estamos na iminência da morte encontramos esse “algo mais”, essa preciosidade que diferencia nossa vidaobjeto da nossa vidapotência. Quanta coisa a gente pode fazer quando estamos vivos! E só o que fazemos e solapar essas potencialidades todas, trabalhando como uns camelos, nos enfiando em relacionamentos infrutíferos, discutindo com todo mundo por razões risíveis, malhando horas na academia pra ter barriga tanquinho. A gente pode mais, sempre mais e sempre melhor. Mas também no momento em que nossa vida perde as potências, as possibilidades de criar mais e mais vida pra nós mesmos e pros outros que nos rodeiam... Que mal há no suicídio sem drama? Que mal há na eutanásia “esclarecida”? Eu não quero vegetar, eu não quero dar trabalho e despesa, eu não quero andar de fraldas, com uma sonda enfiada no meu pinto e no meu intestino, eu não quero. Eu não quero acabar com Alzheimer e longe da minha casa, das minhas coisas, do lugar que eu construí pra mim. Eu não quero ser mais um corpo cuja “vida” precisa ser preservada a todo custo, seja em nome de alguma religião que trabalhe com as noções de céu-inferno-umbral, seja por causa da pensão, da aposentadoria, ou o diabo. Até lá eu vou ter acumulado um patrimônio razoável, vou ter um seguro de vida – se é que isso vai existir quando eu estiver próximo da morte. E eu vou dividir isso tudo pr’aquelas pessoas que forem importantes pra mim e, sobretudo, pr’aquelas que tiverem muita potência de vida! E se eu não tiver nada pra deixar como legado, seja dinheiro, bens ou afetos, então será mais fácil morrer (será?). E eu vou providenciar na minha morte. Na primeira suspeita que eu tiver da impossibilidade de viver produzindo e sendo útil social e politicamente, eu providencio a minha morte. Só espero ter a lucidez de saber o momento certo. Se bem que... Essa minha noção de vida, vidaútil, vidaqueproduz, vidarrelevante: essa noção não deixa de ser vidaproduto, vidaobjeto. Talvez eu precise superar essa ideia e pensar numa outra concepção de vida que dê conta de tudo aquilo que excede a “produção”, a “utilidade”, a “docilidade” da vida. É só vidaútil que vale? Quais são as vidasúteis? A minha certamente é uma: muito trabalho, pouca recompensa, nenhum prazer, nenhum gozo... e os desejos que sinto são todos colonizados pelo dinheiro e pelo poder. Cadê a vida...? Tá aí no teu bolso? [risos] Será? Acho que não... talvez, não sei. Só me recuso a pensar que vou morrer sozinho. Acho que é o pior medo que tenho: morrer sozinho. Só, sem ninguém por perto. Posso morrer torturado, mas que tenha alguém por perto. Não precisa pegar na minha mão, nem dizer “vai em paz”. Mas eu não quero estar só. De resto, tudo tá valendo. [...]
[...]dade! É mesmo! Não dê risada: é isso. Porque às vezes sou um verdadeiro humanista, às vezes eu creio que as pessoas têm potencial e que é bom me imiscuir das suas presenças. Mas outras vezes eu as recuso, não quero saber delas, elas me cansam com facilidade. Às vezes vou embora, assim, num ímpeto, do meio da pista da boate. Como quem diz, ‘cansei desse showzinho coletivo de wannabes’. Mas em outros momentos eu to lá junto de todo mundo, adorando dançar Macarena às quatro da manhã. Não é algo de ruim. Eu só tenho horas em que sou mais ou menos parecido com as pessoas, e às vezes eu sou outra coisa separada, mais distante, mais estranha. Há quem não entenda, e isso me preocupa constantemente. Perco oportunidades e pareço ridículo por causa dessa minha inclinação sazonal para os seres em geral. Teve uma vez que alg[...]
Uma nova estação
[...]cisar ter aquela inundação de álcool nas minhas veias. Não era necessário. E fui me deitar, cheio de desodorante e um livro de muitas páginas, bem pesado, para ler. Aos poucos, aquela realidade de ressacas torrenciais, de batalhas hepáticas; aos poucos a dor de cabeça, a dor de estômago, a náusea terrível que colocava pra fora apenas suco gástrico, esses dias de ressaca vão ficando distantes. A única coisa que detestei da noite de ontem pro dia de hoje foi o fim do horário de verão. Fiz um minuto de silêncio pelo horário de verão antes de atrasar em uma hora meus relógios: uma parte do meu bom humor ficará também atrasado em uma hora. A partir de agora os dias vão se arrastar, e o sol vai mudar seu eixo, e vai se por mais cedo. Verdade, detesto calor, detesto aqueles dias em que a luz chega a doer nos olhos e a sensação é de que o sol será eterno sobre as nossas cabeças. Enfim, é preciso se preparar para as delícias do outono e, em seguida, as agruras e aconchegos do inverno. Da cerveja migro pro vinho; a água do banho vai progressivamente ficando mais quente; um cobertor a mais sobre a cama; um casaco a mais sobre o corpo. Este será um inverno rigoroso: não tanto pelas baixas temperaturas, mas pelas tarefas que terei de arcar, pelas discórdias que terei de desfazer – e não somente entre mim e os outros, mas, sobretudo, entre mim e mim mesmo. Novas estações pedem por isso, e o inverno, tu sabes, é aquela estação em que nos trancamos em casa e ficamos ali sozinhos nas nossas pequenas e belas ilhas desertas. Sim... É... No verão eu já faço isso, sobretudo depois que comprei o ar condicionado. Mas no por do sol, que no verão é sempre atrasado, passa uma eletricidade no corpo, e vem um desejo de sentar na rua, no burburinho, pedir uma cerveja gelada. No inverno eu prefiro vinho tinto e grandes silêncios interrompidos apenas pela voz da Billie. Então, é preciso preparar-se para uma nova estação. E vou começar a pensar no meu guarda roupas porque meus casac[...]
Sujar e lavar louças
[...]inha de dentro, de algum lugar bem aqui dentro, não sei se do meio da cabeça ou do meio do peito. Ele me perguntou de novo: 'não dói aí dentro quando tu vê uma coisa dessas? não é daí que vem o que tu escreve?'. Fiquei confuso por uns instantes. Respondi que não, que não vinha dali. Respondi que faço na hora, sinto na hora, de improviso. Respondi que não havia nada aqui dentro, nada pronto de antemão. Não tem nada aqui dentro: o que tem é só uma pele que, quem vê de fora, chama de corpo. Respondi que aquilo tudo tomava existência enquanto eu fazia, enquanto eu escrevia. É como lavar a louça: lavar é um processo, assim como suj[...]
Belo e estranho domingo pra se ter alegria
[...]rdei bem, super bem. Havia meses que eu não acordava tão bem num domingo. Nem saí de casa – e quando eu não saio de casa por um dia inteiro é sinal de que estou realmente bem. Porque daí gosto de estar comigo, sozinho no meu apartamento, com meus ácaros no carpete e baratinhas por entre os azulejos do banheiro, os mosquitos do meu quarto. Há muita vida aqui dentro. E também me dá uma alegria ver meus livros, minhas literaturas, essas centenas de páginas ainda por ler. É um pedido que faço a elas sempre que começo a ler um livro: me arranquem deste mundo onde tudo o que importa é o relevo do meu abdome, onde tudo o que resta são as rugas mais ou menos esticadas, onde é risível a honestidade. Hoje nem vi o sol, mas não me incomodo com isso. Já fui deportado para longe dessas pessoas óbvias, sem criatividade, “oxigenadas debaixo do sol”. Agora tomei um banho e troquei os lenç[...]



