Ninguém lê. E também não me explicarei sobre o porquê de não escrever. Mas há de se dizer que todas as noites eu me pergunto: por que não escrevi? De tudo, talvez a pior e a melhor parte é escrever. Porque dá pra fingir que escuta, fingir que olha, fingir que lê. Escrever não é fingimento, e se for é sinal de mau caratismo. Sonhei com um livro de três páginas nas quais cabiam todos os sonhos da minha mãe. Minha mãe sonha, eu é que raramente lembro dos meus sonhos. Que triste, um filho que não sonha. Dessa vez sonhei, e sonhei com os sonhos da minha mãe, que sonha sempre. Eu, que não sonho, sonhei o sonho transbordante de quem sonha. As rochas, as dunas, os lagos, as árvores. Uma mulher atropelada, estendida na maca, gritava e chorava e pedia pela ajuda de deus. Ninguém a ajudou. Ninguém a ajudou porque todos fingiram que não a escutavam, e eu acabei de sugerir que é muito fácil fingir que não escuta. Se a tivessem escrito, aquela mulher que gritava e chorava e pedia por deus, não teriam como ignorá-la. É como se eu não quisesse limpar a casa, as chaminés: eu não escrevo, e as coisas vão se acumulando nos meus cantos - que caem em degraus inalcançáveis para o sótão e para o porão. Fico eu em em desuso: ocupado pelos toques nas teclas, esperando o exercício de pensar sobre o que se vai escrever, as longas pausas entre uma frase e outra, ou entre as vírgulas ou entre as palavras, e a ansiedade de concluir logo a lauda ou o parágrafo. Para não limpar a casa de todo, para manter pedacinhos obscuros, desorganizados, desencadeados. Ontem meu corpo doía, e eu me vulnerabilizei. Vulnerabilizei a mim mesmo, no sentido de entregar-me a uma nudez fria e seca, surda. Ofereci-me ao acaso sabendo que o acaso era cruel. Ontem vi corpos mutilados e sofridos, ossos tortos e olhares de pessoas que sequer sabem que estão desoladas, perdidas, entregues à própria nudez. Elas ignoram seu próprio estado de fragilidade, de debilidade e de abandono. Elas não se sentem usadas. Talvez elas sonhem comigo. Minha vida toda em um livro de três páginas nos sonhos daquela gente desolada. Eu sou o sonho de gente nua. É por isso que não dá para fingir que escreve, porque não se pode fugir daquilo que escrevemos. É uma caça, as palavras te caçam. Ninguém realmente lê de cabo a rabo, ao fim e ao cabo. O final vem sempre antes, antes da terceira página, antes do atropelamento, antes da nudez. É sempre antes o desfecho de quem lê, e ninguém lê.
O rascunho de Douglas - parte VII
- Eu tenho medo de ficar sozinho. Vai que me acontece alguma coisa, e eu to sozinho em casa? Num presta, não...
Estávamos, eu e Douglas, contemplando já o céu do início da noite. (“Quem haveria de deixar este guri sozinho no mundo?”) Meu braço esquerdo encostava no seu braço direito; peguei a folha de um gerânio ainda vivo, não-seco, da floreira da janela da sala ampla. Cheirei. “Sente este cheiro. É o cheiro da minha infância lá no Sul.” Levei a folha até suas narinas com minha mão direita. (“Como quem passa um mate: sempre com a mão direita.”) “Dá pra sentir o cheiro do pão assado no forno de pedra da minha vó?”, eu perguntei. Ele sorriu, os olhos achinesarem-se. Meus dedos, que já estavam tão próximos de seu rosto, tocaram sua sobrancelha, deslizaram na pele de sua face e pararam no seu queixo. Os dois narizes se aproximaram. Os lábios se encostaram. Pressionei sua nuca em direção a mim. As línguas não se encontraram, pois as bocas não se abriram. Meus olhos estavam abertos e pude ver que os olhos de Douglas estavam fechados. Ele sentiu minha barba cerrada, de pelo grosso e longo. Recuou, assustado, e arregalou os olhos sorriu envergonhado.
Depois de um breve momento de silêncio, Douglas pediu para que eudeixasse o apartamento explicasse aquilo. Desculpou-se dizendo que não era preconceito, que tinha amigos gays, mas que ele próprio não o era Eu disse que ele brilhava, que tinha muita vida. Disse que era bom estar perto dele. Desculpou-se mais uma vez. Alegou que era preciso respeitar sua orientação. Aleguei que Brasília era seca demais, que minha vida era seca demais, que ele me mostrava coisas lindas. “Tu me seduziu, mineirim.” Sorrimos. Os olhos de Douglas achinesaram-se. Eu concordei, desculpei-me também. Brinquei: “O ar seco de Brasília está me enlouquecendo”. Douglas disse que nunca havia beijado um homem antes, que nunca tinha querido beijar um homem antes, que não era gay e que não queria que eu contasse para outras pessoas o que acabara de acontecer. Eu concordei, pedi desculpas pela impetuosidade, novamente responsabilizei minha carência e minha secura. Ele disse que não era preconceituoso, mas que aquilo não aconteceria novamente. Eu respondi que entendia e me desculpei mais uma vez. Houve um momento de silêncio. Tomei a atitude de dizer que voltaria a entrar em contato com ele por e-mail para dizer se tinha me interessado pelo apartamento. Ele concordou. Dirigi-me para a porta do apartamento, Douglas a abriu. Desculpei-me Desculpou-se uma terceira vez. Eu disse: “Desculpa eu”. Saí do apartamento com a sensação de que, talvez, eu não fosse tão seco quanto eu supunha ser.
Passei no supermercado antes de voltar para meu quarto de hotel impessoal. Tive que andar muito entre as quadras da Asa Sul do Plano Piloto, à noite, e vi poucas pessoas também caminhando. (“Esparsas. Distantes.”) Conhecer Douglas foi como experimentar um café raro, e decidi que levaria uma caixa de pó do grão Sul de Minas para ter comigo, em homenagem ao tricordiano. Talvez eu pudesse pedir que passassem o café na cozinha do hotel. Ou eu poderia guardá-lo comigo para cheirá-lo de vez em quando. Ou eu poderia tomá-lo diariamente no meu novo apartamento – quecertamente não seria talvez ainda fosse aquele amplo, de lajotas brancas, da quadra quatrocentos e onze Sul, já que Douglas não expressou nenhum veto imediato à minha presença ali. Será que depois Depois do acontecido Douglas não me quereria dividindo o banheiro (“e as cuecas?”) com ele.? Li na embalagem do café que comprei a definição: “Encorpado e com aromas doces de chocolate e caramelo, o espresso do grão Sul de Minas apresenta uma acidez desejada e finalização prolongada e limpa, sem amargor”. Eis o gosto de Douglas em mim: prolongado e limpo, sem amargor. Doce.
E assim foi porque assim será: λ.
Estávamos, eu e Douglas, contemplando já o céu do início da noite. (“Quem haveria de deixar este guri sozinho no mundo?”) Meu braço esquerdo encostava no seu braço direito; peguei a folha de um gerânio ainda vivo, não-seco, da floreira da janela da sala ampla. Cheirei. “Sente este cheiro. É o cheiro da minha infância lá no Sul.” Levei a folha até suas narinas com minha mão direita. (“Como quem passa um mate: sempre com a mão direita.”) “Dá pra sentir o cheiro do pão assado no forno de pedra da minha vó?”, eu perguntei. Ele sorriu, os olhos achinesarem-se. Meus dedos, que já estavam tão próximos de seu rosto, tocaram sua sobrancelha, deslizaram na pele de sua face e pararam no seu queixo. Os dois narizes se aproximaram. Os lábios se encostaram. Pressionei sua nuca em direção a mim. As línguas não se encontraram, pois as bocas não se abriram. Meus olhos estavam abertos e pude ver que os olhos de Douglas estavam fechados. Ele sentiu minha barba cerrada, de pelo grosso e longo. Recuou, assustado, e arregalou os olhos sorriu envergonhado.
Depois de um breve momento de silêncio, Douglas pediu para que eu
Passei no supermercado antes de voltar para meu quarto de hotel impessoal. Tive que andar muito entre as quadras da Asa Sul do Plano Piloto, à noite, e vi poucas pessoas também caminhando. (“Esparsas. Distantes.”) Conhecer Douglas foi como experimentar um café raro, e decidi que levaria uma caixa de pó do grão Sul de Minas para ter comigo, em homenagem ao tricordiano. Talvez eu pudesse pedir que passassem o café na cozinha do hotel. Ou eu poderia guardá-lo comigo para cheirá-lo de vez em quando. Ou eu poderia tomá-lo diariamente no meu novo apartamento – que
E assim foi porque assim será: λ.
História da urina
Quando eu era criança, menos de 5 anos, meu irmão mais velho
costumava me dar banho. Era uma aventura. Ele tampava o ralo do box até formar
reter água o suficiente ali dentro para eu chamar aquilo de uma piscina. Eu me
divertia na piscina de água retida. Lembro de querer planejar o
sequestro do meu irmão durante um daqueles banhos. Lembro de premeditar seu
sequestro. Daria-se da seguinte forma: depois do banho, eu levaria meu irmão
até nosso quarto (dividíamos o quarto) e o deitaria na nossa minha cama.
O colchão da nossa minha cama de solteiro viraria num eixo central de
modo que sua superfície virasse o teto de uma antessala, de um porão. Nesse porão, onde nós cairíamos, eu praticaria nele todo tipo de
experimentação corporal: sexo, tortura, inanição, contemplação, lambidas,
beijos, beliscões. Meu irmão era circuncisado. Não obstante, planejava levá-lo
para um corredor infinito cuja porta de entrada era o buraco da uretra de um
pênis gigante, não circuncisado. Nesse corredor, em ambos os lados, havia
homens com pênis eretos nos quais eu passava a mão ao avançar, levando meu
irmão pela mão. Meu pai uma vez disse: “tu tens que sentar cruzar as
pernas como teu irmão: de pernas cruzadas, mas teu tornozelo tem que apoiar-se
nos joelhos.” O olhar de irmão me reprovava, e não terei tempo de explicar aqui
a razão disso. Meu irmão se suicidou no dia dos pais, com um tiro no coração,
no porão de minha nossa casa.
[...]és bem hidratados com superfície pegajosa, camada de
verniz um pouco oleosa, unhas mal cortadas e uma delas, do dedão esquerdo,
encravada na beirada. Havia muy recentemente passado o creme branco e denso na
pele carcomida, ressequida, ressentida pelos anos e anos, e ânus, de pisadas em
falso que lhe torciam o tornozelo. Zelo nenhum, ou pouco, tinha ele pelas
coisas eletrônicas e biológicas. Sua lógica era a seguinte: deixar esvaziar
cada litro em cada linha, em cada cadafalso um pescoço, em cada bala um
coração, em cada modem uma ânsia pela biologia alheia que nunca vinha e que
nunca chegava, que nunca ultrapassava a média. Remediava, assim, um dia com o
próximo e um tempo por todos, por tudo o que houve no tempo sem olhar pra trás
nem pra frente, para que só o olhar existisse mirando o zênite de mau agouro.
Logradouro imundo era onde costuma frequentar, e muito, para compartilhar
momentos de prazer secreto, só dele, com muitos outros e sem que os muitos
outros soubessem que lhe era aprazível. Alguns sabiam. Bebiam, porém, de outra
água amarga que de seus joelhos tiravam, um ao lado do outro, em buracos cavados
nas paredes, cloacas bucais, canaletas. Era de muletas que olhava para o
zênite, e por isso o mau agouro: mão nenhuma poderia tapar o sol para o qual
olhava porque apoiavam-se nas muletas velhas feitas de madeira nobre, pernas de
pau, pés falsos, tocos e lascas de troncos ocos, serragem fina e o cheiro da
madeira raspada e envergada. Sentia que poderia escrever sobre tudo o que havia
em si, mas não. Não se pode escrever, sobretudo. As regras ou as leis do
romance, do conto, dos elementos narrativos: tudo precisa aqui existir e
coexistir em harmonia, em beleza e em inovação. Não poderia, jamais, escrever.
Hidratava os pés brilhantes de madeira que reluziam, oleosos, na raspagem da
luz por sobre a pele. Nem sobre isso poderia escrever, pois não dá romance, não
dá história, não há enredo. Pés de madeira não servem como personagens. Insistia
haver redações livres com belas marcas, letras cursivas e capítulos em números
arábicos – muito mais elegantes que os números romanos – lá, aguardando, capas
duras de cores sóbrias e elementares. Um título musical. Sonoro, queria dizer,
um título melódico. Pouquíssimos sabem ler neste mundo. Seria um bom contador
de histórias não fosse o pendor em colocar-se sempre como anti-herói. Perdia o
interesse em novelas maniqueístas tecnicamente perfeitas. Escrever era um ato
terapêutico, um ato hermenêutico, um instrumento de descoberta das coisas que
ele sabia saber mas que desconhecia. Não haveria, acreditava ele, lugar neste
mundo e nesta época para mais um escritor: reconhecidos talentos são rápidos.
Se não podia escrever, fechava os olhos e imaginava com força uma folha de
papel em branco, uma caneta de tinta infinita, uma mão e um antebraço para um
escritor canhoto. Em sua mente fantasiava escrever. Quando a vida lhe chegava
crua, fantasiava escrever. Fantasiava a mão esquerda deslizando, dançando por
sobre a folha de papel em branco, esvaziando em cada linha a crueza de uma vida
que não se via, nem se lia, nas palavras escritas. “Escritor”, ele murmurava,
com a cabeça enterrada nos travesseiros e com os beiços desencontrados. Quando
doze horas por noite não eram o bastante, nem por três noites consecutivas, e
quando abria os olhos pela manhã e mirava o zênite já desejando fechar os olhos
para dormir novamente, e quando o tempo que existia virava passado e desdobrava
em futuro, quando os pés carcomidos e ressentidos ressequiam-se e rachavam como
terra de deserto: aí, então, o pescoço quebrava no cadafalso e o coração era
furado por uma bala, os beiços desencontrados não murmuravam, e sim gemiam
“escritor”. Todos os cegos o adoravam, o veneravam, choravam com seus contos e
tinham seus romances como livros de cabeceira. Entre os cegos ele era Nobel de
literatura.
Quando o vento venta, o pelo sacode. Mas não todo pelo.
Somente o meu e o teu. Uma gota te satisfaz, mas não a mim. Um superfície, uma
nota de 2 reais, um chip que aprove a transação: mas que corpo obtém e detém?
Uma lata de cerveja, e tudo mais: não há nada como isso nos catálogos
internacionais. Estar no topo não te faz mais magra, mas mais vista: há de
observar bem essa sunga. Nada: na piscinada, muita piscina pra muito nada. Não
quis, mas queremos todos. Que loucura, ou psicose, desejar todos os corpos do
mundo, todas as bordas, todos os pingos que caem no teclado. Todos os hóspedes
que querem atenção. Todas as pessoas bonitas que não trepam. E que ninguém
admira. Todas as artimanhas de instagram pra disfarçar que somos infelizes. E
todos os filtros: o que sobra dos filtros? E o que queremos dos filtros? Porque
amo os filtros e sinto que têm o que acrescentar. Paramos com o saco de
cerveja. Mas devemos? Chove pingos, apenas pingos, e será apenas pingos que
essa doença do pé te pede? Psicótica e deusa: cousas que não prevemos. Cousas
que não queremos. Mas de mim, de mim mesmo: tudo me peça e tudo me tens. Porque
serei tudo o que quiseres, com as gotas e com os pingos, e com as lágrimas, e
tu serás aquele que me edita. E eu vou. Porque há um longo. Uma coisa longa.
Que verte. Verte na parede. E ponto. Eu poderia bem ser esse buraco por onde
tudo o que verte escorre. Eu engulo tudo. Mas o lugar de ralo é tão delicado:
uma pomba ou abelha, ou mosca: não valida. Um beijo e jamais seria isso, seria
outro. Mas esse outro, essa coisa: por mais belo, seria outro. Não há nada além
do corpo: essa coisa que mija, que fode, que caga, que desliza, linda, pela
minha pele e que é linda: não há nada além dessa lindeza. Nem a superfície da
água: há mais dentro. E fora: há tudo no cisto que acontece fora do corpo!
Entendo... às vezes sinto que sim. Outras, já não sei. Dar um passo para fora da pele, olhar-se ao revés. Concordo. Mas não é sempre que podemos. Há momentos em que simplesmente não temos como dar um passo. Não, não estou falando de deixar a vida nos levar. Estou falando de fazermos vida, de fazermos a nossa vida, de estar onde é preciso estar: precisamente onde estamos agora. Exato! Há aqui vida para ser feita? Sempre há, pois estamos aqui. Não apenas isso: mas também a manga solta da camiseta, o cós folgado da calça. Um corpo que se esvai, fino, pela bainha italiana de alfaiataria. Uma pele toda artificial. Uma paranoia dérmica: supondo sempre outra pele por debaixo desta, por vir. Isso, e mais aquilo tudo que falávamos antes: corpo, ética, todos os sorrisos do mundo voltados para ele. E novamente aquilo que falávamos recém: há aqui vida para ser feita, neste lugar onde todos os sorrisos do mundo secaram? Compreendo, mas discordo. Escuto, mas renego. Nenhuma serenata pós-coito me convencerá de que não há um lado B daquela história. Há uma versão pouco conhecida, não autorizada, de todos os fatos - como se fossem anti-fatos, des-fatos. Um silêncio grosso por entre aqueles pelos e do avesso da carne. É ali que preciso chegar, ali está a bagunça e a resposta para tudo que cai no vácuo. Revivo pelo por pelo o que já houve e estranho desde o início. Amanhã, a essas horas, estarei no céu. Afastarei-me, mas voltarei pra casa em seguida. Desde agora desejo não ir. Desde agora desejo que as asas derretam ao chegarem perto do sol. Quero rapidamente estar de volta em tudo aquilo que um dia não mais me pertencerá. Por quê? Por mais que argumentes, nunca houve escapatória: sempre estive por perto. Nunca te abandonei. Jamais te deixei e sempre procurei por ti. Repetindo ipsis literis todos os pelos e pênis. Na distância jamais existiu realmente uma separação. Eu poderia fazer um boneco, um pequeno fantoche dos restos retalhados dos corpos onde te busquei: serias tu, inteiramente tu, ninguém perceberia que jaz em outro lugar senão nesse corpo remendado com trechos de outros onde acreditei te achar. E fugias de mim. Pelas mangas soltas das camisetas, pelo cós folgado das calças. Eu compreendo, eu compreendo... Mas eu serei outro, invariavelmente. Essa pele na qual tocas, essa pele pelada, dela eu já pisei fora. Vejo-me pelo revés. Se tu te repetes nos corpos, eu estou fora do meu.
Cabem seis janelas dentro da minha própria, se olhadas de
dentro. De fora, a minha é só mais um buraco na parede do prédio alto. Só a
minha está aberta. Fantasio muitas vezes com as pessoas paradas por detrás dos
vidros das janelas de fora olhando para cá. Atrás das cortinas. Fantasio homens
de pé atrás dos vidros, atrás das cortinas, vigiando o que acontece nas janelas
de cá. Em algum momento seus olhares descolam da minha janela e deslizam para
outra. Desconectam da minha janela. Desconhecem as paisagens da minha janela.
Desinteressam-se pelas cores. Desimportam-se e escapam como gotas, bem
lentamente, para outros cenários. Despontam em outras linhas do retrato.
Fantasio que eu fico só, bem aqui, com a janela aberta. Nada passa por ela,
entretanto: nem olhares, nem vento, nem chuva. Uma janela hermética apesar de
aberta.
Todas as guerras cessaram por falta de munição, não por falta de ódio. E os exército esperaram, esperaram como estátuas em seus respectivos lugares, imóveis; os soldados loucos para lutar. Imóveis e inúteis, sem munição. Descomandados, acéfalos, os soldados pereceram. Foram se esvaindo pelas fardas, deixando despencar as baionetas. As trincheiras se encheram de lama, e depois de terra, e depois de areia, soterrando os arames farpados. Os tanques se retorceram, e as bombas, as bombas estouraram como gelatinas, como bolhas em gel, as bombas explodiram como um balão murcho. Cara a cara com o inimigo, na beirada da fronteira disputada, todas as guerras cessaram. Nenhum soldado bateu em retirada. Todos permaneceram no campo de batalha sentados sobre seus capacetes. As razões da luta permaneciam, mas os guerreiros estavam imóveis. Até os aviões foram retidos em pleno ar, e lá permaneceram com os motores ligados. Os navios encalharam na superfície mesmo do mar, enferrujando e afundando aos poucos. Nações inteiras aguardaram o desfecho das batalhas, o retorno de seus filhos e filhas à terra-mãe. Os filhos e as filhas da guerra, contudo, desconheceram o caminho de volta. Estado de guerra constante, em suspensão, sem nenhum tiro e nenhuma bomba, conservando apenas a sensação dolorida da perda, da marcha inútil, do sangue escorrido, do toque de recolher permanente. Só o desespero da guerra ainda ardia.
Convalescendo
Oi, pai; oi, mãe
Escrevo rápido hoje, com menos do que eu gostaria de dizer, porque estou me recuperando.
Estou parindo um livro. Às vezes eu gostaria de contar que já o tenho escrito, mas eu apenas digo: tenho um livro dentro de mim. Ou dois. Não importa. E vocês me disseram tantas vezes pra eu ser discreto... e como eu pude? Nunca fui. Duvidem do meu corpo quando ele escorrega, duvidem do meu olhar. Eu só finjo por vocês. Duvidem da minha alegria, da minha beleza. Não sou belo; nem o pai, nem a mãe são.
Estou fugindo. Nem de longe suspeitarias, mas lá me vou. Crês em Deus Pai? Já fui. Essa doença feia que herdei: ficar pedindo desculpas, sentir-se culpado. Estou grávido de um livro, te interessa?
Há tantas frases que eu gostaria de te dizer. Mas siga, vá, não te pares por mim: eu só vou te atrasar, te dizer chega, te censurar. Caminhe adiante.
Não há nada pior que o corpo que caminha adiante.
Escrevo rápido hoje, com menos do que eu gostaria de dizer, porque estou me recuperando.
Estou parindo um livro. Às vezes eu gostaria de contar que já o tenho escrito, mas eu apenas digo: tenho um livro dentro de mim. Ou dois. Não importa. E vocês me disseram tantas vezes pra eu ser discreto... e como eu pude? Nunca fui. Duvidem do meu corpo quando ele escorrega, duvidem do meu olhar. Eu só finjo por vocês. Duvidem da minha alegria, da minha beleza. Não sou belo; nem o pai, nem a mãe são.
Estou fugindo. Nem de longe suspeitarias, mas lá me vou. Crês em Deus Pai? Já fui. Essa doença feia que herdei: ficar pedindo desculpas, sentir-se culpado. Estou grávido de um livro, te interessa?
Há tantas frases que eu gostaria de te dizer. Mas siga, vá, não te pares por mim: eu só vou te atrasar, te dizer chega, te censurar. Caminhe adiante.
Não há nada pior que o corpo que caminha adiante.
Degenerescendo
Oi, mãe; oi, pai.
Não posso escrever muito, pelo menos não tudo o que tenho.
Se é verdade que nunca falei, que nunca disse nada com todas as letras em sequência inteligível, também é verdade que nunca escondi, que nunca dissimulei. Essa forma de lidar com o não dito mas visível lhes é estranha. Não os culpo: apenas os chamo à responsabilidade de entender outras maneiras de habitar o mundo que não as suas próprias, que não apenas as suas próprias.
Eu formulei frases ótimas para dizer-lhes, frases cheias de verbos. Eu as esqueci. Eu continuo pensando nelas, construindo argumentos. São textos de teatro. Não lido com improvisações. Decoro as falas. Eu as esqueço. Gaguejo em frente à plateia. Devolvo-lhes o dinheiro.
Por que razão eu deveria me arrepender da conduta que venho adotando até então? Muitas respostas: desde os rasgos da boca e do pulmão ao sêmen não derramado. Desde os silêncios, silêncios de reticência que sempre se encarnavam em olhos cabisbaixos que olhavam para o chão, até as sungas não usadas e as camisetas não tiradas, o corpo não descoberto, até as viagens abortadas e as rotas de fuga, os atalhos, as noites trancadas nos quartos de hotéis anônimos. Desde passaportes feitos e nunca usados em 10 anos. Desde histórias falsas sobre baleias voadoras e músicas de dormir como “Boi da Cara Preta”, desde amigos imaginários que nunca foram bem-vindos lá em casa. Até namorados que foram muito bem-vindos, até pratos imensos de comida, até as noites sem ar-condicionado no verão, até a primeira taça de vinho aos 15 anos de idade, até os 11 anos de aluguéis pagos, até as roupas que serviram para cobrir o corpo, até os telefonemas. Muitas são as razões: desde o celibato forçado até o celibato voluntário. Desde o assassinato da criança que eu era em nome do adulto prematuro. Desde a vergonha endereçada até a vitória inesperada, ao amor pela chuva e pela cama quente no inverno, ao amor pelo vinho e pelo banho quente no inverno. Até a chuva batendo na janela, que eu escuto sozinho, até a cama quente vazia, até a garrafa de vinho não compartilhada, até o banho anônimo e silencioso, quente, no inverno. Desde o amor por aviões até a reserva medrosa em relação às praias e às areias, às águas em geral. Ainda ouço gente dizer “esse guri é poeta, essa bicha é poetisa”, mas eu sei que vou morrer a sós com meu corpo, sem mediação nem consolo, e já não sinto mais medo disso.
É essa vida toda que eu tenho que mudar agora e é demais para eu fazer em tão pouco tempo. Eu sobrevoarei uma por uma de todas as minhas cisões e contracorrentes. De todas as minhas vergonhas eu vou procurar me esquivar, e são muitas, andarei em ziguezague. Eu vou pra fora, pro lado de fora, rarefeito. Não é longe, é aqui do lado, do lado de lá da minha pele.
Não posso escrever muito, pelo menos não tudo o que tenho.
Se é verdade que nunca falei, que nunca disse nada com todas as letras em sequência inteligível, também é verdade que nunca escondi, que nunca dissimulei. Essa forma de lidar com o não dito mas visível lhes é estranha. Não os culpo: apenas os chamo à responsabilidade de entender outras maneiras de habitar o mundo que não as suas próprias, que não apenas as suas próprias.
Eu formulei frases ótimas para dizer-lhes, frases cheias de verbos. Eu as esqueci. Eu continuo pensando nelas, construindo argumentos. São textos de teatro. Não lido com improvisações. Decoro as falas. Eu as esqueço. Gaguejo em frente à plateia. Devolvo-lhes o dinheiro.
Por que razão eu deveria me arrepender da conduta que venho adotando até então? Muitas respostas: desde os rasgos da boca e do pulmão ao sêmen não derramado. Desde os silêncios, silêncios de reticência que sempre se encarnavam em olhos cabisbaixos que olhavam para o chão, até as sungas não usadas e as camisetas não tiradas, o corpo não descoberto, até as viagens abortadas e as rotas de fuga, os atalhos, as noites trancadas nos quartos de hotéis anônimos. Desde passaportes feitos e nunca usados em 10 anos. Desde histórias falsas sobre baleias voadoras e músicas de dormir como “Boi da Cara Preta”, desde amigos imaginários que nunca foram bem-vindos lá em casa. Até namorados que foram muito bem-vindos, até pratos imensos de comida, até as noites sem ar-condicionado no verão, até a primeira taça de vinho aos 15 anos de idade, até os 11 anos de aluguéis pagos, até as roupas que serviram para cobrir o corpo, até os telefonemas. Muitas são as razões: desde o celibato forçado até o celibato voluntário. Desde o assassinato da criança que eu era em nome do adulto prematuro. Desde a vergonha endereçada até a vitória inesperada, ao amor pela chuva e pela cama quente no inverno, ao amor pelo vinho e pelo banho quente no inverno. Até a chuva batendo na janela, que eu escuto sozinho, até a cama quente vazia, até a garrafa de vinho não compartilhada, até o banho anônimo e silencioso, quente, no inverno. Desde o amor por aviões até a reserva medrosa em relação às praias e às areias, às águas em geral. Ainda ouço gente dizer “esse guri é poeta, essa bicha é poetisa”, mas eu sei que vou morrer a sós com meu corpo, sem mediação nem consolo, e já não sinto mais medo disso.
É essa vida toda que eu tenho que mudar agora e é demais para eu fazer em tão pouco tempo. Eu sobrevoarei uma por uma de todas as minhas cisões e contracorrentes. De todas as minhas vergonhas eu vou procurar me esquivar, e são muitas, andarei em ziguezague. Eu vou pra fora, pro lado de fora, rarefeito. Não é longe, é aqui do lado, do lado de lá da minha pele.
O lucro do luto
[...]visitar as sombras e por ali ficar, gastar um tempo com as sombras, deitar nelas. Nunca vi tanto lucro no meu luto: capaz de comprar uma vida inteira, reluzindo de tão nova. Deitar nas sombras e adormecer, e ao adormecer sonhar com aquilo que morreu ou com aquilo que matei. Acordar e regozijar com meu homicídio ou suicídio[...]
[...]as a vida grita mesmo assim. Eu fui até a janela, e nem a superfície da piscina estava calma. Não adianta represá-la, nem fazer barricadas: ela avança. Quando se está à espreita a vida acontece. E nisso há aqueles que se acanham, que se encolhem na sua pequenez de misericórdia, e ficam murmurando suas mágoas, seus restos de opiniões, juntando as migalhas de pão mofado para dar de comer às suas soberbas. Há aqueles que fogem, que se calam, que se misturam ao silêncio, que tentam passar incólumes, que preferem não ser vistos nem ouvidos e que trancam o que há pra sair. Há aqueles que choram e que rosnam, raivosos, aqueles que vociferam e ensaiam uma altivez cretina. Há aqueles que olham pro horizonte, estufam o peito e abrem os braços, caindo de olhos bem abertos no redemoinho que sabem que não podem evitar[...]
Um mês antes do Natal
[...]ada. Não tinha taça, nem vinho, nem roupa de cama, nem água. O beijo, por mais suculento, não tinha nada. E um mês antes do natal ele enfeitou a árvore: que linda árvore com bolas e folhas, e luzes, e galhos. Nada de mais sedutor que as palavras escritas com obscuro do verão do hemisfério sul. O braço, eu me pergunto sobre o braço: ele sente sono? Porque, não: eu não te amo. Mas nada me impede de cair por ti, de afeições e afagos, e nada te impede de aproveitares isso, um sorriso ou uma conversa, ou um abraço, ou uma coisa linda qualquer. Não me seduza com tua inteligência ou com teu frio, com tua frieza, tua terra é fria. Mas me conceda o passaporte, e o visto a tempo, me deixe entrar, me deixe carimbar essa lente louca que me olha e que me julga querendo ou não entrar na tua terra. Se teus olhos já passaram por aqui – de servidor público ou de desempregado, de solteiro ou de casado – tu é quem decide se deve ou não fechar a página ou continuar escutando nossas vozes agudas, de adolescentes, falando sobre essas coisas íntimas e bonitas do qual falamos. Não me responsabilize por tremer ao te ver, ou por comprar um café pra tomar contigo. Não me responsabilize por essa fome, ou solidão, ou vontade de beber toda a garrafa de champagne: eu vou bebê-la, o que não significa que eu não penso em ti, ó gordinho lindo, coisa mais bela da minha semana! Sem que se peneire quadro a quadro, nada haverá de sustentar qualquer toque ou gozo sobre minha pele. Retome isso. Decore. Nada haverá sobre minha pele. Um olhar me vale mais do que essa coisa branca que despejas em mim: um beijo? Uma mentira? Não me surpreende que tu estás nesse casamento. Porque casamento é isso mesmo: aquilo que te faz tirar a primeira gota de sangue do tórax. NADA. Uma praia branca vazia. Habite-se. [...]
Zelo
[...]mpre o mesmo banco, mas nunca os mesmos homens. Porque eu passo correndo por ali, literalmente correndo, e vejo aqueles homens sozinhos, insulares, sentados nos bancos e se articulando através de olhares que te escaneiam. Centopeias oculares, flexo e reflexo. Eu poderia passar por ali dois séculos depois de hoje e eu ainda acharia rastros desses olhares – sem dúvida não acharia os mesmos homens, tampouco o mesmo jogo de flexo e de reflexo, mas eu acharia algo todo novo e inusitado que, de certa forma, seria um quê herdeiro dessa disponibilidade, dessa disposição, dessa inquietude dos homens que se sentam naquele banco. Uma beleza tardia se despencou na minha frente: nunca a supus, e quanto tempo perdi procurando-a e produzindo-a sentado num banco que nunca mudava. Sem medos ou esperanças: o que se faz diante dos meus olhos? Aquilo que se arrisca no olhar, aquilo que fulgura; aquilo que impede Narciso de apaixonar-se à beira do rio. É uma água turva, movente, que bloqueia qualquer marasmo ou estado plácido de calmaria que transforma a superfície da água em espelho – nunca haveria de refletir rosto nenhum. E, quem diria?, uma parte toda lisa de mim te absorve e te reflete, te irradia. Flexo e reflexo. É mentira que as pessoas deixam o céu aberto porque não querem se molhar: é a chuva que chega e que se gruda nos corpos querendo ir embora das nuvens. Nunca percebeste? Então vem, te gruda em mim, corre no meu entorno, que eu te espero com zelo sentado naquele banc[...]
O PÓ SOBRE MIM
Num momento de desatino, eu até poderia ter feito algo do qual meu corpo se orgulharia mais tarde. Mas não fiz. Bebi, bebi muito, e beberia mais. Porque pouco me importa a saúde do meu fígado, ou o estado do meu estômago. Pouco me importa a segurança da minha cidadania quando eu sento nas raízes das árvores querendo sexo na madrugada. Pouco me importa a decência das minhas roupas. Eu apenas me perfumo para despistar minhas misérias. Houve um momento de desatino, de grito, de coisa estridente, de barulho. Um momento me perdendo nos olhos, e nos dedos, e na roupa, e na história. E não haveria algo de mais sublime que perder-se na história de alguém? Me conte toda ela, não seja tímido, me desvende tua vida com tua literatura – com aquelas histórias que tu narras e que tua achas que são verdadeiras, ou que sabes que são ficção: são lindas. Me conta do teu corpo, de como ele envelheceu e criou rugas, de como tu cortas a tua pele, de como nascem teus pelos, de como tu te deitas e de como tu comes. Tudo é algo novo sobre mim, espana meu pó pra longe. Eu já deveria ter limpado essa casa do avesso não sei quantas vezes, seus vidros, suas louças sujas, suas tolhas pra lavar. E eu faço: minha tristeza é não ter mais vidros, mais louças, mais roupas, mais pó. Eu não sei se há mais perguntas a serem feitas, mas também não te convido para entrar, pois há tantos outros que eu convidaria para entrar, há tantos outros com quem eu passaria uma noite, ou uma tarde, que já não sei se tu és tu nisso que eu quero. Não sei se tu é pó ou espanador. Nem mais a bebida eu aceitaria depois disso. Quando eu me viro pra luz eu vejo que meu corpo todo é recoberto por essa penugem ingênua de quem crê em tudo o que é puro e sincero. Acorde: a vida toda é feita de pequenas perversidades. Não me custaria nada rasgar tua cara, te sodomizar em frente a todos. Tua feiúra grita nessas brechas ocas de uma beleza que não tem nada a dizer, de uma beleza reticente, inabitada até por mosquitos. Um beijo meu te salvaria? É disso que tu precisas? Venha cá, te dou de bom grado tudo o que tu precisas para uma viagem migratória, um cruzeiro em alto mar, uma noite em paz. Te dou o que precisas, eu sei que posso. Jamais escreverei palavras de amor, mas os meus murmúrios e meu pó vão ecoar, como ondas, nesse teu labirinto opaco – que truque interessante, apagar tua luz: tudo em ti brilha pros meus olhos. Não tens como te esconder.
Jamais escreverei um romance
[...]alar o menos possível. Porque o que mais tem aí fora são pessoas falando e gritando, criança chorando, esposa querendo afeto de macho e macho querendo desejo de outro macho. Falar o menos possível, o silêncio: quanto exercício. Talvez eu deixe separada em uma das minhas gavetas uma carteira de cigarros, porque quando eu fumo eu penso – necessariamente. Eu sou capaz de ir lá no saguão do prédio pra fumar, não apenas pra isolar a casa do cheiro da nicotina e do alcatrão, mas também para ficar sozinho e separado de toda gente. Pra escrever textos com as cinzas. Pra não ser eu mesmo – e é tão clichê dizer isso depois de Clarice. Fumar um long cigarette com um vestido sereia, perolado, com uma piteira imensa, deitado em uma chaise negra. Cruzar a linha do possível e te arrancar do nada, te arrancar da inércia, te acomodar entre meus braços e te levar nessa onda tumultuosa que eu vivo. Aceitas? Escrever essas coisas depois de Clarice não é nada fácil. Te arrancar do nada e trazer pra essa flora profunda, de raízes radículas, que te engolfam e te calam a boca se eventualmente tu quiser me elogiar. Pra isso não pronuncie palavras: apenas emita sons guturais, emita gemidos, vibrações vocais. Não há nada no mundo que me irrite mais na hora da sedução que palavras. Gema. E revire os olhos. Fale o menos possível quando eu te arrancar da linha do possível. Encoste teu corpo todo no meu, desde os dedos dos pés, as pernas, os quadris, a barriga (eu gosto de barrigas), o peito, os braços, os ombros; encoste as costas e a bunda e a nuca. Vire-se do avesso. Fale o menos possível. Jogue um beijo no ar: ele vai se cravar no meu rosto. Eu não escrevo romances por isso (e por várias outras razões): porque começo escrevendo sobre uma coisa e me grudo em outras, sem seleção, e sigo seus rumos. Não haverá romance pra esse trânsito: primeiro porque um romance não pode ser infinito, porque ele precisa ter um ponto final, uma página de fim, um posfácio, um silêncio. E meus grudes nas coisas que seguem é intenso, é caótico. Não caberia nessa estreiteza física do romance. Segundo porque um romance precisa de um título, e um título é sempre um jeito que a gente acha de resumir, de condensar, de sintetizar a coisa toda. E não se trata disso: o objetivo é multiplicar, cortar, enxertar. Múltiplas experiências a partir dos textos, a partir de uma cena, de uma frase ou de uma palavra – ou de um som, de um gemido, de uma vibração gutural –, multiplicar os caminhos e expandir o texto. Rasgar as linhas. Jamais haverá título, nem subtítulo, para um romance meu. Porque é preciso falar o men[ ...]
Uma chuva bem fina
Eles me diziam que eu estava errado: ninguém chove, ninguém amanhece, ninguém tem crepúsculos. Eu argumentava que nem todos e que nem todas, de fato, poderiam amanhecer [é duro, é difícil, é cruel amanhecer em vida]. Eu argumentava que eu já vira muitos e muitas choverem, peneirando pingos de chuva e tomando-os, espalhando-os pela pele. Mas é possível, é absolutamente possível. Há restos em dois dos seis ralos da minha casa, e nesses dois ralos estão retidos restos, fragmentos orgânicos que represam a água. Ralos, restos retidos, represando. Há três toalhas para serem lavadas, peças de roupas em um monte. Há bolinhas de pó no pé da minha estante da sala que se encostam ali nos cantos, e a estante está quebrada, pendendo para o lado. Esta é uma casa insegura. Esta é uma casa que tem um crepúsculo, eu posso dizer que minha casa tem um crepúsculo. Mas ela tem, igualmente, uma aurora, uma manhã de festa, uma luz que é própria do alvorecer e que perpassa todas as suas paredes, que brilha das janelas para fora, que ilumina o chão: uma luz de dia que nasce – por mais que dias não nasçam, se eu assim escrever, todos e todas entenderão de que luz eu estou falando e acharão lindo (como eles dizem no primeiro dos mil platôs). Então por que razão, será, que eu mesmo não posso chover? Eu posso, é possível: eu chovo uma chuva bem fina, mais leve que o vento, e o vento rouba meus pingos e os faz tremer no ar. Uma chuva bem fina é essa que eu chovo, sem raios nem trovões, sem inundações ou granizos. Quase uma garoa, mas um pouco mais vigorosa que uma garoa, do tipo que molha sorrindo. Eu chovo a chuva que te faz dormir.
Beiradas
[...]or a mais, amor demais. Mentiras, trapaças e traições; é demais. Porque chego na beirada, na linha que precipita o corpo, no trampolim: e eu não me jogo, não me atiro, não pulo. Sigo andando pela beirada, como quem caminha sobre uma mureta ou meio-fio da calçada, colocando um pé depois do outro e mantendo o equilíbrio com a ajuda dos braços estendidos na linha dos ombros. De braços abertos eu me equilibro caminhando na beirada. Jamais caio, pois o jogo termina se eu cair. Se eu cair, serão eles que terão me vencido, serão eles que terão mudado meu percurso. Não caio; não, Caio. Mas não me tirem nada, nem os pelos das orelhas, nem uma lembrança que pesa meu rancor: qualquer subtração do meu amontoado desestabiliza meu caminhar, e aí sim eu caio. Nem a barba, nem a pança, nem os cisos: não me tirem nada. Eu desequilibro com subtrações. Só aceito agregar: um beijo teu, e eu inundo; um beijo teu, e eu surfo na beirada. É difícil de escrever isso; gaguejo ao redigir esse texto. Prefiro fechar toda a casa, ir embora. Vou com a chuva para longe. É horrível escrever esse texto. Falar em ti já não é mais tão f[...]
o riso da diaba cristã
[...], essa culpa sibilante que me persegue, cascavel, que se enrosca em mim e me sufoca, jiboia, que me persegue e me assusta e se levanta sobre mim, naja, que me mal-trata e me pisoteia e que me despreza, sucuri, tu que não liga nem bate na porta, mentiroso, que me prometeu mais uma vez e outra e quiçá mais uma, víbora, que me dá pó de vidro pra cheirar e eu fico viciado, essa culpa rastejante de seis patas, escamada, de língua bifurcada, ofídica, essa culpa pela inalação e pela inação, pela paralisia, essa culpa pelo desprezo, mas nada se encaixa melhor em ti do que o continente que se desprendeu de mim quando eu te tirei da minha vida, essa culpa monumental e venenosa de sentir prazer em ser feliz, essa arrogância linda de quem é feliz e o sabe, de quem é feliz e pode pegar no ar a inveja alheia, essa impáfia linda de quem ri da miséria de espírito daqueles que pensam ter um espírito: o riso da diaba cristã que há dentro de mim [...]
Um grande SIM feito de espinhas inflamadas
[...]belos na minha cama e gotas de líquidos corpóreos. Coisa doida. Consigo contar pelo menos cinco diferentes formas, cores, texturas e gostos para esses pelos e cabelos, para essas gotas e líquidos. Nenhum deles se repetiu. Só eu, mas isso já estava suposto, isso era necessário.
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Não, não, não me censure, não diga que é feio. Eu só preciso me acomodar numa linha de força, num trilho de trem, numa corrente de água do mar e então eu vou seguindo bem confortavelmente até quando eu sou ejetado, pulo fora, renuncio à coroa. Porque eu gosto mesmo é do cetro. Não pense isso de mim: eu mudei. Eu até consigo seduzir. Eu até consigo arrancar as roupas, não de uma nem de duas, mas de três ou mil pessoas quase ao mesmo tempo – porque eu mudei. Nem sobre as nuvens, nem sob o chão. Eu minto, não nego, deixo a verdade pra mais tarde. Mas nada me impede de gozar, e de gozar sozinho ou em grupo, e de me acomodar novamente em mais um trilho de trem e seguir soltando fumaça como uma locomotiva – porque agora sou um criminoso por soltar fumaça.
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Nem no chão, nem no ar: não explodo nem me esvazio. Porque não há mais um pontilhado ou uma membrana que me divide de tudo que está fora (tudo que está fora: eu, tu, eles, os corpos com pelos e cabelos e líquidos, minha cama, as nuvens e o chão, as praias, os medos, os planos, a água. Tudo). Não há mais pontilhado que me divide de tudo isso; logo, não há como dizer que estou vazio ou que estou explodindo. Porque se vazio, é porque nada me afeta, é porque não tenho superfície. É porque não tenho ondas, nem marolas, não posso emergir e não venho à tona. Porque se explodindo, é porque absorvo demais, estendo demasiado a pele, estico o rosto num sorriso muito largo que rasga a boca. Nem dentro, nem fora: entre mim e todo o resto, entre mim e todo o entremeio do resto.
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Não te assustes, nem te apaixones, se o ser pequenino que te habita não me parecer monstruoso. Teu corpo não me estranha. Não é castigo, nem punição. Não é descuido. Não é falta de amor próprio, nem falta de autonomia. Não é opressão, não é burrice. Esse pequenino ser que agora te habita manda beijos, te lambe, desliza pelas tuas artérias, e nada disso te faz um monstro. Agora tu vive com ele, convive com ele, forma um outro corpo com ele. Esse pequenino ser que agora te habita dança axé na tua superfície. Nem a imensidão azul ou verde, nem a distância cinza: um brinde amarelo com gosto de lúpulo pelo pequenino ser que agora te habita. Nem choro, nem vela, nem procissão, nem círio. Nada me faz chorar, nem o Grande Não que recebi daquelas Mãos Judiadas. Foi só quando eu sobrevoei o mar que me dei conta do perigo pelo qual eu passei – uma espécie de pequeno monstro me habitava –, e foi então eu que renunciei a tudo que eu havia colocado uns sobre os outros: a mentira, o desejo, os óculos, os tanques de guerra, o tesão, os gatos, o sêmen, os telefonemas e os pesadelos com a Faixa de Gaza. Somente o sobrevoo me permitiu essa renúncia, e eu, de bom grado, prescindi de tudo e fiquei nu. Então, veja: eu também posso ser um pequenino monstro. E sou. Eu minto. Eu planejo vinganças – e as executo. Eu debocho e eu ironizo o sofrimento alheio. Eu desprezo o amor ao próximo e a reverência aos mortos. Eu rio do erro dos outros – na verdade eu gargalho deles. Quantas e quantas vezes eu mesmo disse: “cuidado com teu olhar, cuidado com o que tu olha e com o jeito que tu olha”. Quantas vezes eu neguei que houvesse praias brancas e desabitadas nessa costa imensa de superfície: uma impossibilidade geral de ocupar o que me era de direito, já que desde sempre me sentei à beira da saída de emergência da minha vida, louco de medo de haver um acidente fatal e, ao mesmo tempo, me sentindo totalmente incapaz de abrir a porta em caso de despressurização. Se tu me pedisse pra eu te salvar, eu daria uma gargalhada e gritaria, enquanto o avião despencava: “ERA TUDO MENTIRAAAAA!!!”. Porque eu minto e eu nego, e eu omito fatos e frases, e eu crio diálogos. Impossibilidade geral de assumir que tenho asas, ou turbinas; impossibilidade geral de aceitar que tenho curiosidade de vida, que tenho uma inteirinha que eu criei só pra mim e que ninguém entende como pode ser possível.
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Eu peço outra e outra e outra e outra. Eu não sei ter limites, eu desconheço a hora de parar. Em um momento de desespero, à beira da saída de emergência, eu me escoraria na porta e, deslizando por ela, chorando, eu pediria desculpas ao meu corpo por essa resistência em tratá-lo bem. Porque, é patético, mas parece que eu o odeio – talvez tanto quanto tu odeias o teu corpo com seu pequenino monstro nas artérias, talvez tanto quanto ele odeia o corpo dele com sua tradição de cinco mil anos. Ódio profundo de toda materialidade orgânica, de todo carbono-hidrogênio-oxigênio: impossibilidade de ocupar essa carne vistosa e falível (corruptível, maculável, matável). Nuvens negras, raios e trovões nunca me assustaram exatamente por este motivo: eu sou um pouco deles também. Maremotos, terremotos, tsunamis, erupções: só peço que não me matem lentamente. Porque, como eu disse, já não há mais pontilhado que me separa deles, não há membrana, nem porosidade: eles são um pouco de mim. Mesmo que eu sobrevoasse toda a terra conhecida, e que todos os pelos/cabelos e todas as gotas de todos os líquidos se deitassem eu todas as minhas camas, meus olhos conheceriam nenhuma nuvem além daquelas que eu atravessei: não há maremoto pior que aquele quando eu choro, nem tsunami melhor que quando eu gozo, nem erupção mais cintilante que quando eu grito.
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Eu peço mais uma e mais uma e mais uma e mais uma. Porque eu desconheço limites, eu não habito minhas praias brancas, eu minto e eu omito: um verdadeiro pequenino monstro. E, mesmo sendo tudo isso, até amendoins me oferecem sem eu pedir. Que mundo é esse que recompensa pequenos monstros? Espinhas na cara, purulentas, vermelhas, inchadas: compõem o mapa de um grande SIM que eu disse à vida. Meu rosto diz SIM em toda sua extensão, com sorriso ou com lágrimas. Me surpreende que o rapaz de 14 anos mais ali adiante reconheça o SIM do meu rosto – porque, talvez, suas espinhas jovens ainda não saibam bem que caminho desenhar [porque são muitos os caminhos nessa idade]. As minhas espinhas, com trinta anos de existência, desenham um SIM gigante no meu rosto. Peles de bebê nunca me atraíram, tu vê, que curioso: sempre preferi peles manchadas, marcadas, grossas de barba, cicatrizadas; enfim, peles que tenham o que dizer e dizem. Peles que sentiram, peles que fazem sentir. Sempre detestei peles lisas: gosto da montanha russa das peles esburacadas. Meu grande SIM esburacado. Meu grande SIM à vida, estampado no meu rosto com espinhas inflamadas. Não há remédio que cure o meu SIM: ele é um mapa, um percurso. O pequenino monstro acha suas coorden[...]
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Não, não, não me censure, não diga que é feio. Eu só preciso me acomodar numa linha de força, num trilho de trem, numa corrente de água do mar e então eu vou seguindo bem confortavelmente até quando eu sou ejetado, pulo fora, renuncio à coroa. Porque eu gosto mesmo é do cetro. Não pense isso de mim: eu mudei. Eu até consigo seduzir. Eu até consigo arrancar as roupas, não de uma nem de duas, mas de três ou mil pessoas quase ao mesmo tempo – porque eu mudei. Nem sobre as nuvens, nem sob o chão. Eu minto, não nego, deixo a verdade pra mais tarde. Mas nada me impede de gozar, e de gozar sozinho ou em grupo, e de me acomodar novamente em mais um trilho de trem e seguir soltando fumaça como uma locomotiva – porque agora sou um criminoso por soltar fumaça.
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Nem no chão, nem no ar: não explodo nem me esvazio. Porque não há mais um pontilhado ou uma membrana que me divide de tudo que está fora (tudo que está fora: eu, tu, eles, os corpos com pelos e cabelos e líquidos, minha cama, as nuvens e o chão, as praias, os medos, os planos, a água. Tudo). Não há mais pontilhado que me divide de tudo isso; logo, não há como dizer que estou vazio ou que estou explodindo. Porque se vazio, é porque nada me afeta, é porque não tenho superfície. É porque não tenho ondas, nem marolas, não posso emergir e não venho à tona. Porque se explodindo, é porque absorvo demais, estendo demasiado a pele, estico o rosto num sorriso muito largo que rasga a boca. Nem dentro, nem fora: entre mim e todo o resto, entre mim e todo o entremeio do resto.
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Não te assustes, nem te apaixones, se o ser pequenino que te habita não me parecer monstruoso. Teu corpo não me estranha. Não é castigo, nem punição. Não é descuido. Não é falta de amor próprio, nem falta de autonomia. Não é opressão, não é burrice. Esse pequenino ser que agora te habita manda beijos, te lambe, desliza pelas tuas artérias, e nada disso te faz um monstro. Agora tu vive com ele, convive com ele, forma um outro corpo com ele. Esse pequenino ser que agora te habita dança axé na tua superfície. Nem a imensidão azul ou verde, nem a distância cinza: um brinde amarelo com gosto de lúpulo pelo pequenino ser que agora te habita. Nem choro, nem vela, nem procissão, nem círio. Nada me faz chorar, nem o Grande Não que recebi daquelas Mãos Judiadas. Foi só quando eu sobrevoei o mar que me dei conta do perigo pelo qual eu passei – uma espécie de pequeno monstro me habitava –, e foi então eu que renunciei a tudo que eu havia colocado uns sobre os outros: a mentira, o desejo, os óculos, os tanques de guerra, o tesão, os gatos, o sêmen, os telefonemas e os pesadelos com a Faixa de Gaza. Somente o sobrevoo me permitiu essa renúncia, e eu, de bom grado, prescindi de tudo e fiquei nu. Então, veja: eu também posso ser um pequenino monstro. E sou. Eu minto. Eu planejo vinganças – e as executo. Eu debocho e eu ironizo o sofrimento alheio. Eu desprezo o amor ao próximo e a reverência aos mortos. Eu rio do erro dos outros – na verdade eu gargalho deles. Quantas e quantas vezes eu mesmo disse: “cuidado com teu olhar, cuidado com o que tu olha e com o jeito que tu olha”. Quantas vezes eu neguei que houvesse praias brancas e desabitadas nessa costa imensa de superfície: uma impossibilidade geral de ocupar o que me era de direito, já que desde sempre me sentei à beira da saída de emergência da minha vida, louco de medo de haver um acidente fatal e, ao mesmo tempo, me sentindo totalmente incapaz de abrir a porta em caso de despressurização. Se tu me pedisse pra eu te salvar, eu daria uma gargalhada e gritaria, enquanto o avião despencava: “ERA TUDO MENTIRAAAAA!!!”. Porque eu minto e eu nego, e eu omito fatos e frases, e eu crio diálogos. Impossibilidade geral de assumir que tenho asas, ou turbinas; impossibilidade geral de aceitar que tenho curiosidade de vida, que tenho uma inteirinha que eu criei só pra mim e que ninguém entende como pode ser possível.
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Eu peço outra e outra e outra e outra. Eu não sei ter limites, eu desconheço a hora de parar. Em um momento de desespero, à beira da saída de emergência, eu me escoraria na porta e, deslizando por ela, chorando, eu pediria desculpas ao meu corpo por essa resistência em tratá-lo bem. Porque, é patético, mas parece que eu o odeio – talvez tanto quanto tu odeias o teu corpo com seu pequenino monstro nas artérias, talvez tanto quanto ele odeia o corpo dele com sua tradição de cinco mil anos. Ódio profundo de toda materialidade orgânica, de todo carbono-hidrogênio-oxigênio: impossibilidade de ocupar essa carne vistosa e falível (corruptível, maculável, matável). Nuvens negras, raios e trovões nunca me assustaram exatamente por este motivo: eu sou um pouco deles também. Maremotos, terremotos, tsunamis, erupções: só peço que não me matem lentamente. Porque, como eu disse, já não há mais pontilhado que me separa deles, não há membrana, nem porosidade: eles são um pouco de mim. Mesmo que eu sobrevoasse toda a terra conhecida, e que todos os pelos/cabelos e todas as gotas de todos os líquidos se deitassem eu todas as minhas camas, meus olhos conheceriam nenhuma nuvem além daquelas que eu atravessei: não há maremoto pior que aquele quando eu choro, nem tsunami melhor que quando eu gozo, nem erupção mais cintilante que quando eu grito.
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Eu peço mais uma e mais uma e mais uma e mais uma. Porque eu desconheço limites, eu não habito minhas praias brancas, eu minto e eu omito: um verdadeiro pequenino monstro. E, mesmo sendo tudo isso, até amendoins me oferecem sem eu pedir. Que mundo é esse que recompensa pequenos monstros? Espinhas na cara, purulentas, vermelhas, inchadas: compõem o mapa de um grande SIM que eu disse à vida. Meu rosto diz SIM em toda sua extensão, com sorriso ou com lágrimas. Me surpreende que o rapaz de 14 anos mais ali adiante reconheça o SIM do meu rosto – porque, talvez, suas espinhas jovens ainda não saibam bem que caminho desenhar [porque são muitos os caminhos nessa idade]. As minhas espinhas, com trinta anos de existência, desenham um SIM gigante no meu rosto. Peles de bebê nunca me atraíram, tu vê, que curioso: sempre preferi peles manchadas, marcadas, grossas de barba, cicatrizadas; enfim, peles que tenham o que dizer e dizem. Peles que sentiram, peles que fazem sentir. Sempre detestei peles lisas: gosto da montanha russa das peles esburacadas. Meu grande SIM esburacado. Meu grande SIM à vida, estampado no meu rosto com espinhas inflamadas. Não há remédio que cure o meu SIM: ele é um mapa, um percurso. O pequenino monstro acha suas coorden[...]
Companheiros
Não nos falta nada - já percebeste?
Temos os corpos. Porque carregam em si tudo que já foi, porque materializam tudo o que queremos. Porque no instante em que penso em ti há uma cisão, um corte, uma separação absoluta que nos impede de sermos um - e aí está nossa graça, nosso charme, porque manteremos intactos nossos quatro braços, nossos dois narizes e nossos seis olhos tais quais eles são. Seis olhos! Porque quando eu te chamo tu não escuta, tu não responde, tu não te vira; mas também porque no momento em que tu me toca eu não sinto, eu não deslizo, eu não arrepio. Porque nós gritamos e nós corremos. Porque nos colidimos e nos chocamos contra paredões. Porque nós choramos, porque nós dormimos, porque nós soltamos gases inclusive. Temos conosco o benefício da traição da promessa: nós não prometemos nada, nem a nós; não empenhamos nossa palavra e não damos partes dos nossos corpos em nome daquilo que dizemos. Ninguém poderá levar nossas orelhas, nossas falanges, em nome de palavras não cumpridas. Porque mentimos, e mentimos muito, e omitimos. Porque não há nada além de nós, nem nada passado por nós com o que mantenhamos dívidas ou juras de veridicção. Porque não pensamos um no outro com cobiça ou com posse, porque não sequestramos nossos planos, porque não esterilizamos nossa vontade. Tudo em ti é possibilidade, tudo em ti é chance, e em mim também; e quando a chance não chega ou não bate, e quando as possibilidades não combinam, não nos acusamos nem nos ressentimos. Porque somos absolutamente incomensuráveis, irredutíveis. Porque estamos juntos por muito pouco, porque há muito pouco de nós que combina, porque há quase nada em ti que me seduz e há menos ainda em mim que te fascina; mas esse pouco, esses nossos pouquinhos e essas nossas nossas migalhas são tão reincidentes e tão preciosas; porque nossos pouquinhos são tão irmãos, são tão amigos; porque essas pequenas partes dos nossos corpos corpos se gostam tanto e com tanta intensidade, e se encostam tanto e se lambem tanto; porque há tão poucas palavras a serem ditas depois da fricção dos nossos corpos que é justamente daí e por causa disso que vem tanto gozo, em jatos altos, e tanto silêncio depois, um silêncio abraçado, um silêncio epidérmico das peles que se confudem. Porque há tanto em mim que conhece o mundo através de ti e por tua causa, porque há tanto em mim que deseja a vida que tu me oferece. Porque tu não me cobra taxas por isso. Porque quando tu me odeia, tu me diz. Porque quando eu te odeio, eu simplesmente não te olho. Porque esse pouco de mim que te fascina circula com força, em espirais, por todo o teu corpo, e entra e sai de ti provocando calafrios. Porque quando tu deita na cama à noite, ou cedo da manhã, não é com o gosto dele que tu adormece (dele, desse outro recém descoberto): é pelo meu sabor que tua boca saliva. Sou eu insidiosamente por toda tua superfície, gritando nos teus tímpanos. É a minha boca selando tuas pálpebras pra tu dormir, é o meu sorriso te velando. Porque não nos falta nada - talvez só mais alguns passos, ou só mais algumas palavras, ou só mais alguns goles. Porque já temos tudo: todos os dias daqui pra frente.
Temos os corpos. Porque carregam em si tudo que já foi, porque materializam tudo o que queremos. Porque no instante em que penso em ti há uma cisão, um corte, uma separação absoluta que nos impede de sermos um - e aí está nossa graça, nosso charme, porque manteremos intactos nossos quatro braços, nossos dois narizes e nossos seis olhos tais quais eles são. Seis olhos! Porque quando eu te chamo tu não escuta, tu não responde, tu não te vira; mas também porque no momento em que tu me toca eu não sinto, eu não deslizo, eu não arrepio. Porque nós gritamos e nós corremos. Porque nos colidimos e nos chocamos contra paredões. Porque nós choramos, porque nós dormimos, porque nós soltamos gases inclusive. Temos conosco o benefício da traição da promessa: nós não prometemos nada, nem a nós; não empenhamos nossa palavra e não damos partes dos nossos corpos em nome daquilo que dizemos. Ninguém poderá levar nossas orelhas, nossas falanges, em nome de palavras não cumpridas. Porque mentimos, e mentimos muito, e omitimos. Porque não há nada além de nós, nem nada passado por nós com o que mantenhamos dívidas ou juras de veridicção. Porque não pensamos um no outro com cobiça ou com posse, porque não sequestramos nossos planos, porque não esterilizamos nossa vontade. Tudo em ti é possibilidade, tudo em ti é chance, e em mim também; e quando a chance não chega ou não bate, e quando as possibilidades não combinam, não nos acusamos nem nos ressentimos. Porque somos absolutamente incomensuráveis, irredutíveis. Porque estamos juntos por muito pouco, porque há muito pouco de nós que combina, porque há quase nada em ti que me seduz e há menos ainda em mim que te fascina; mas esse pouco, esses nossos pouquinhos e essas nossas nossas migalhas são tão reincidentes e tão preciosas; porque nossos pouquinhos são tão irmãos, são tão amigos; porque essas pequenas partes dos nossos corpos corpos se gostam tanto e com tanta intensidade, e se encostam tanto e se lambem tanto; porque há tão poucas palavras a serem ditas depois da fricção dos nossos corpos que é justamente daí e por causa disso que vem tanto gozo, em jatos altos, e tanto silêncio depois, um silêncio abraçado, um silêncio epidérmico das peles que se confudem. Porque há tanto em mim que conhece o mundo através de ti e por tua causa, porque há tanto em mim que deseja a vida que tu me oferece. Porque tu não me cobra taxas por isso. Porque quando tu me odeia, tu me diz. Porque quando eu te odeio, eu simplesmente não te olho. Porque esse pouco de mim que te fascina circula com força, em espirais, por todo o teu corpo, e entra e sai de ti provocando calafrios. Porque quando tu deita na cama à noite, ou cedo da manhã, não é com o gosto dele que tu adormece (dele, desse outro recém descoberto): é pelo meu sabor que tua boca saliva. Sou eu insidiosamente por toda tua superfície, gritando nos teus tímpanos. É a minha boca selando tuas pálpebras pra tu dormir, é o meu sorriso te velando. Porque não nos falta nada - talvez só mais alguns passos, ou só mais algumas palavras, ou só mais alguns goles. Porque já temos tudo: todos os dias daqui pra frente.
Silêncio absoluto
Apenas isso, e já estava de bom tamanho. Umas reticências antes de cada frase, pra início de conversa, e tudo parecia que já estava dito naquele breve lapso temporal em que os olhos de um desviavam dos olhos do outro pra começar a frase. Apenas isso, e já se sabia o que viria em seguida.
Enfiar o dedo no nariz; limpar o nariz; olhar em volta. Fazer uma bolinha com a sujeira recém tirada graças à prospecção da unha um pouco mais crescida que o habitual. Aguardar alguns instantes e deixar cair a bolinha da sujeira do nariz no chão ou, se muito pegajosa, grudá-la em algum objeto próximo. Certificar-se de que ninguém ao redor testemunhou essa pequena nojeira. Extrair prazer desta infâmia por ela ser, em primeiro lugar, reprovável e, em segundo, invisível. Inaudita. Altamente censurável, mas exequível.
Por outro lado, limpar a boca. Não apenas escovar os dentes, mas de fato limpar a boca. Passar o fio dental cuidadosamente em cada face da junção entre os dentes. Tirar os restos de comida que ficam entre a gengiva e os dentes. Fazer isso em cada uma das junções, da arcada superior e da arcada inferior. Depois escovar os dentes, grandes dentes amarelados, escová-los com calma e perícia, de todos os ângulos possíveis, forçando para alcançar imensos cisos lá atrás. Escovar para fazer bastante espuma. Enxaguar e cuspir. Pegar uma outra escova de longo alcance e escovar somente os cisos superiores, esquerdo e direito, com ardor e bem lá no fundo da boca. Enxaguar e cuspir. Medir 30 ml de fluor líquido, bochechar por um minuto. Cuspir. Uma belíssima boca, asséptica e sozinha.
Foi promovendo tais limpezas profundas e significativas que ele habitou sua casa naquela noite: noite de velório. Uma parte de si havia morrido: nas noites de velório um silêncio absoluto o acompanhava e se avolumava pelos cantos, na casa inteira. Ele limpou o nariz, limpou a boca e limpou todas as demais cavidades que mereciam algum tipo de atenção especial. Em breve aquela casa não seria mais dele, e ele teria de esquecer de tudo, recomeçar de outro lugar. Sempre que havia um recomeço ele fingia não guardar lembranças das dificuldades, dos cheiros e das sujeiras. Promovia limpezas: o silêncio era uma maneira de limpar os espaços já tão densamente carregados da sua presença.
Quisera ele pudesse arrancar o outro de si como o faz com a sujeira que ele tira do nariz: limpar suas cavidades da presença do outro, limpar seu corpo dos resquícios da mastigação do outro. Enxaguar e cuspir o outro. Contra aquela presença insidiosa do outro ele outorgava o silêncio. Se tudo desse errado, na manhã seguinte ao velório ele partiria para o exílio. Nem aos cães de guarda ele avisaria de seu adeus: a despedida, talvez a mais sincera e autêntica contribuição que ele poderia dar, seria ir embora todo envelopado num silêncio absoluto. E não haveria saudade. De ninguém.
Porque não era possível limpar as vontades do seu corpo como ele tão habilmente limpava seu nariz e sua boca. Não havia como escovar o outro de si. A sensação que tinha era a de estar quase se precipitando no abismo, mas segurava o passo mesmo assim, pois a queda livre seria deixar-se ir com a loucura: seria chorar e gritar, ajoelhar-se aos pés do outro e pedir que não o limpasse da sua vida. Queria permanecer dentro dele como a sujeira do nariz, como o resquício de comida entre os dentes. Queria envelopar o outro no seu silêncio e velar o corpo do outro num velório permamente.
Enfiar o dedo no nariz; limpar o nariz; olhar em volta. Fazer uma bolinha com a sujeira recém tirada graças à prospecção da unha um pouco mais crescida que o habitual. Aguardar alguns instantes e deixar cair a bolinha da sujeira do nariz no chão ou, se muito pegajosa, grudá-la em algum objeto próximo. Certificar-se de que ninguém ao redor testemunhou essa pequena nojeira. Extrair prazer desta infâmia por ela ser, em primeiro lugar, reprovável e, em segundo, invisível. Inaudita. Altamente censurável, mas exequível.
Por outro lado, limpar a boca. Não apenas escovar os dentes, mas de fato limpar a boca. Passar o fio dental cuidadosamente em cada face da junção entre os dentes. Tirar os restos de comida que ficam entre a gengiva e os dentes. Fazer isso em cada uma das junções, da arcada superior e da arcada inferior. Depois escovar os dentes, grandes dentes amarelados, escová-los com calma e perícia, de todos os ângulos possíveis, forçando para alcançar imensos cisos lá atrás. Escovar para fazer bastante espuma. Enxaguar e cuspir. Pegar uma outra escova de longo alcance e escovar somente os cisos superiores, esquerdo e direito, com ardor e bem lá no fundo da boca. Enxaguar e cuspir. Medir 30 ml de fluor líquido, bochechar por um minuto. Cuspir. Uma belíssima boca, asséptica e sozinha.
Foi promovendo tais limpezas profundas e significativas que ele habitou sua casa naquela noite: noite de velório. Uma parte de si havia morrido: nas noites de velório um silêncio absoluto o acompanhava e se avolumava pelos cantos, na casa inteira. Ele limpou o nariz, limpou a boca e limpou todas as demais cavidades que mereciam algum tipo de atenção especial. Em breve aquela casa não seria mais dele, e ele teria de esquecer de tudo, recomeçar de outro lugar. Sempre que havia um recomeço ele fingia não guardar lembranças das dificuldades, dos cheiros e das sujeiras. Promovia limpezas: o silêncio era uma maneira de limpar os espaços já tão densamente carregados da sua presença.
Quisera ele pudesse arrancar o outro de si como o faz com a sujeira que ele tira do nariz: limpar suas cavidades da presença do outro, limpar seu corpo dos resquícios da mastigação do outro. Enxaguar e cuspir o outro. Contra aquela presença insidiosa do outro ele outorgava o silêncio. Se tudo desse errado, na manhã seguinte ao velório ele partiria para o exílio. Nem aos cães de guarda ele avisaria de seu adeus: a despedida, talvez a mais sincera e autêntica contribuição que ele poderia dar, seria ir embora todo envelopado num silêncio absoluto. E não haveria saudade. De ninguém.
Porque não era possível limpar as vontades do seu corpo como ele tão habilmente limpava seu nariz e sua boca. Não havia como escovar o outro de si. A sensação que tinha era a de estar quase se precipitando no abismo, mas segurava o passo mesmo assim, pois a queda livre seria deixar-se ir com a loucura: seria chorar e gritar, ajoelhar-se aos pés do outro e pedir que não o limpasse da sua vida. Queria permanecer dentro dele como a sujeira do nariz, como o resquício de comida entre os dentes. Queria envelopar o outro no seu silêncio e velar o corpo do outro num velório permamente.