Reler é um ofício obrigatório para quem sabe que escreve mais do que pensa ou para quem sabe que as palavras contêm em si um excesso, um excedente, um plus, um grito de significância que foge à grafia ou à vocalização. Reler é um exercício, um abdominal. Reler é tortura, uma agulha entre a unha e a carne dos dedos. Reler é colocar-se em frente a um espelho que não é imagético: é imag-ético. Reler é recompor aquela figura, recolocar-se naquela paisagem, restituir-se naquele cenário. Reler é o ato de maior humildade para quem se põe a escrever.
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Durante um momento de recreação no parque, colocamos toalhas sobre a grama para sentarmos. Comíamos e bebíamos com crianças brincando ao nosso redor. Apoiei-me no chão, colocando a mão sobre uma das tolhas. Um bicho qualquer me picou ou me mordeu, mas não o vi, pois estava debaixo da toalha, na grama. Não acho que tenha sido uma mordida - que bicho tem boca, maxilar e dentes para morder minha mão? Mordida não tem veneno: cães mordem. Penso que foi uma picada, uma incisão venenosa. Aposto em uma formiga, uma aranha ou um escorpião. Acordo à noite, às vezes, com o coração batendo forte por acreditar que há um escorpião na minha cama, debaixo dos lençóis. Aposto o escorpião entocado em alguma das dobras do tecido. Não sei se ele me ataca, se me pica, se me envenena. Aposto um escorpião dormindo comigo. O que me fascina no escorpião, assim como nas aranhas e nas cobras, em alguns tipos de peixe, moluscos, e em algumas lesmas, é a maravilha dos seus corpos vivos que carregam em si a dose da morte. O mais fascinante dos escorpiões é o fato de, quando percebem estar encurralados e com sua própria vida ameaçada, suicidarem-se. Sua cauda dobra sobre si próprios e picam a si mesmos, matando-se. É intrigante e muito, muito humano - com a diferença que os humanos podem, eventualmente, dar suas vidas em sacrifício de outros humanos. Algo que um escorpião jamais fará por outro, ou outros.
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Sonhei que eu tinha companhia no quarto, que me observavam dormindo e que massageavam minhas costas. Tenho sempre alguém comigo. Sempre fantasio com acompanhantes, com parceiros. Há sempre alguém me olhando, me observando, pousando olhares de avaliação em mim. Há sempre uma fantasia de ser objeto do olhar e do escrutínio de outrem. Há sempre um medo, uma perseguição e uma crença no fracasso. Há sempre algum tipo de inquisição, de julgamento, de júri e de veredicto. "Vere-dicto" é o dizer verdadeiro - ou o olhar dizível. O que não é visto não é enunciável, nem verdadeiro. Há sempre um veneno.
Desterrei algo e alguém do fundo de tudo, graças a uma arma na cabeça e um pouco de medo no coração. Tudo poderia ser feito, menos o que eu gostaria. Lembrei do gatilho da arma, da largura do cano, do gelado do ferro e aço nas têmporas. Ameaçaram me matar uma vez. E havia um rapaz junto comigo, tão assustado quanto eu. Usava suspensórios. É precisamente esse vácuo e abismo que me separa dele que eu preciso desvendar. É necessário descobrir. É fundamental elucidar. Tudo se explica por este momento: eu estava esperando a fila do banco. Fui chamado pelo rapaz de suspensório. Ele gerenciava meu dinheiro. Ele era lindo, ruivo, com barba, olhos verdes, corpulento e musculoso. Uma gangue de assaltantes invadiu o banco, um deles apontou o revólver para minha cabeça. Eu vi a arma e o medo através dos olhos do rapaz de suspensório, pois no momento da invasão eu estava de costas. Os assaltantes levaram tudo. O rapaz de suspensório perguntou: "está tudo bem"? Eu respondi que sim, mentindo. Está tudo aí, toda as coisas e todas as cores (amarelo). Todos os corpos. Só em mim tudo houve: o bem e o mal, os juízos que separam e dividem. Toda a luta pelo convecimento está expressa no velório. Um velório para o qual eu precisei convencer as pessoas a participar porque ninguém queria estar lá. E houve pessoas que se atrasaram. Eu as encaminhava apressadamente para a van que as levaria para o enterro. Tudo haveria de recomeçar depois de eu ter morrido.
Sonhei que eu era dois. Mas não apenas duplos: dois opostos. Um estava com o pai, que me chamou a atenção: "estou com teu gêmeo". O outro era eu. Meu gêmeo deixava o copo de cerveja cair no chão e se estilhaçar; cantava e bebia; gritava. O outro era incontrolável. Gerir também significa gestar. Conter algo em si por um tempo até o algo virar alguém: prover vida à vida. Significa parir depois disso. Por no mundo, dar à luz, fazer vir à vida. Um gêmeo veio da minha mesma gestão, mas pôs-se no mundo e viu-se à luz de outra forma. É um eu radicalmente Outro, um Não-Eu. Um Não-Eu que posa para fotos e que bebe, que grita, que canta. Um Não-Eu que, ao não existir, sublinha minhas bordas e meus limites, minhas praias, meus inalcances. Lá onde eu não vou. É a borda do meu rosto onde há espinhas, cravos e pelos inflamados, a borda inflamada e dolorida do rosto. Que errado é mover-se dentro de um corpo desconhecido ou pesado, um fardo, um erro ou um engano. O corpo enganado; O corpo renunciado. Aquilo que veio a ser o corpo não me serve. O adiamento daquilo que o corpo já é resume-se a poucos procedimentos: ou é de corte, ou é de cavocação, ou é de provocação da morte. Daí já não é mais gestação - ou gestão. Já não é mais prever a vida no corpo, neste corpo que pode gerir outro corpo e que pode pôr à luz outro corpo. Não é mais um gêmeo. É uma gestação abortada, sem eira. Não é mais eu duplicado, nem oposto: NÃO É MAIS EU.
Mesmo que tenha sido um pouco, mesmo que tenha sido menos do terço ou do quarto. Um silêncio gigante, daqueles que precedem o parto. Um parto longo, dolorido, forçado: nasceu a fórceps. A mãe, que era eu, morreu. Moribundeei por ainda algumas horas apenas para dar o primeiro leite. Liberei-o, enfim, para um mundo sem mim. Não haveria de ficar descuidado, pois o pai segurava minha mão. Não o odiou, o pai: acolheu aquela coisinha pouca com toda a ternura sem-mãe. Um pai doce e sorridente, viúvo. Depois da morte da mãe, o pai contou com um marido, que era eu novamente, que retornou do exterior para criar o filho recém nascido, órfão. O guri cresceu sólido, alto e esguio. Repete-se essa mesma história mais uma vez, as mesmas peças em posições diferentes. É o enigma do parto que tento desvendar, que tento inferir. Há alguma pista que perdi. O personagem central não sou eu: eu sou a mãe que morre, sou o pai, sou o marido do pai - recalcado pela família, pela sociedade - que retorna, eu sou o filho que cresce. Eu estou diluído um pouco em cada um deles, mas devo admitir que morro e nasço, que me separo e me reconcilio, que vou e retorno, que cresço e morro mais uma vez na repetição de uma história que não só foi criada por mim mas que foi vivida por mim. Estou recriando, reelaborando, redesenhando e reescrevendo a minha história. Isso explica a paixão por Douglas (Seco, Dougie, Doguito, conforme os apelidos que eu mesmo criei para ele). Douglas sou eu. Mas a história não é justificada - ela é uma ficção, uma realidade fantástica, uma biofantásticagrafia; pelo contrário, a história justifica, ela endossa e legitima, ela aponta uma reconfiguração da minha própria. Criei um mundo repetido do qual não estou completamente ausente (eu sou o pai viúvo, o filho órfão, a mãe morta, o marido/padastro que retorna), um mundo no qual tampouco estou integralmente inserido (é um mundo que não existe, que não existirá, é uma ficção impossível, uma inrealidade). Estou um pouco, menos do terço ou do quarto. Silenciosamente renascendo a fórceps.
Ao menos uma vez na semana me coloco esta empreitada, a de escrever. Pois aqui estou. Estou vazio, de pé somente porque um sopro de vento passa por dentro de mim, como se eu fosse um bonecão de posto de gasolina. Leitores menos brilhantes diriam que sofro de flatulência. É sempre assim: há de ter uma regra, um cânone ou um paradigma para escrever, para ser entendido e para ser celebrado como genial. Do contrário, as mentes menos audazes sobrepujam toda interpretação mais promissora, mais potente. Vence a versão mais mesquinha para todos os parágrafos. Não é verdade que todo escritor ou romancista deve escrever somente quando já sabe o final de sua história. Também não é verdade que essa história de final já conhecido deva ser escrita com o domínio de quem escreve a história da Chapeuzinho Vermelho. Por outro lado, acredito mesmo que a fluidez, o magnetismo, o espetáculo de uma história fulgurante é um produto ao qual se chega depois de muito, muito trabalho. Por isso que ao menos uma vez na semana eu me coloco este desafio: o de construir uma história fulgurante. Minhas histórias fulgurantes são apenas uma, entretanto. Muito se escreveu sobre a escrita psicótica e as pistas aí contidas, possíveis de se fazer uma abordagem do fenômeno. Pouco se pensa da escrita neurótica, tão comum nos jornais e televisões e na própria narrativa recorrente que temos sobre nós mesmos. Minhas histórias fulgurantes são neuróticas. Repetem o mesmo refrão. Agora mesmo fui atrapalhado por um elemento da minha história neurótica fulgurante: "tu és incompetente". Vira e mexe, sobe e desce latitudes, com mais ou menos cervejas, a história neurótica fulgurante acaba nisto: "tu és incompetente". Muito do sentimento de vazio diz respeito a isso. Em associações cretinas, fui levado da lembrança de uma reunião de servidores federais para a qual não fui chamado para participar (por razões óbvias: não sou servidor federal e, portanto, incompetente para passar num concurso público) à lembrança de um cão já velho e magro que rosnou para mim e quase me mordeu quando tentei ajudá-lo a sair de um carro (por razões óbvias: o cão mal me conhecia e estava estressado depois de 4 horas de viagem de carro, portanto, sou incompetente para manter qualquer vínculo de afeto com seres cujo sistema nervoso é minimamente desenvolvido). Leitores menos audaciosos diriam que é só uma questão de escolher outro tema para narrativa. Diriam que é só uma questão de criar outros personagens. Outros cenários. Mas a linguagem caminha sempre para esta espiral: a espiral do vento que passa por dentro de mim e que me mantém de pé. O vento, em si mesmo, não existe; o vento é o ar, o ar indo de um lugar para outro. Para eu escrever sobre esse vento, sobre o ar indo de um lugar a outro em mim, e que me sustenta, eu tenho regras, cânones e paradigmas a serem seguidos se eu quiser escrever para ser brilhante. E enquanto eu não for brilhante, eu sigo escrevendo histórias neuróticas fulgurantes para leitores menos vorazes, menos perspicazes, menos rebuscados. Nenhuma história neurótica tem um fim. Nenhuma história neurótica é simples como a da Chapeuzinho Vermelho. Ainda bem que eu posso escrever "eu quero ir embora do mundo" de milhões de maneiras repetitivas, reincidentes, de maneiras que as mentes menos vibrantes entenderão, simplesmente, "ele quer se matar". Pois aqui está: o desafio de hoje está concluído.
Sinto assim: sem grandes movimentos possíveis. Nem pequenos. Nem poucos. Um cruzar de pernas já seria o suficiente, e não posso. Sinto perseguição e abandono. Os que me perseguem não são os mesmos que me abandonam, e os que me abandonam apoiam aqueles que me perseguem. Todos querem me exterminar: uns pela caça, outros pelo esquecimento. Que cruzada de pernas seria suficiente para alguém tão sufocado driblar seu egocentrismo? Periculosidade, agressividade, longas faixas inúteis da mesma cor pálida, satanismo, maledicência, vergonha, cansaço, micro-humilhações disfarçadas no sorriso cínico amarelado, palidez, solidão, revolta, rebeldia, pequenas noites frias de pura e intensa vontade de desaparecer. Eis aí aqueles que me perseguem e que conseguem me exterminar: velam por mim nas pequenas e sucessivas noites frias, puxando meus cabelos quando quase adormeço, gritando nos meus ouvidos quando quase sonho. Fazem com que eu sinta vontade de desaparecer, de me exterminar. Do que eu falo, então, quando cito e sinto perseguição, abandono, extermínio, desaparecimento? Uma abordagem, uma amostragem da morte. Um mundo triste, enfim, do qual saio quando durmo (e se durmo), quando desmaio, quando procrastino. Um mundo duro e infértil onde sementes apodrecem. Paralisado perante sementes natimortas e árvores de folhas secas.
Ouvi fogos ao fundo. Me perguntei quem comemorava o quê. E há? O cheiro da comida ficou na minha roupa e circula, ainda, graças ao ar-condicionado. É uma coisa que fica impregnada na roupa e na pele. E dá vontade de comer, sabe? Um prato imenso, quase sem fim. Falei hoje sobre isso: um prato de comida sem fim; uma carteira de cigarros em que há sempre cigarros; uma taça ou uma garrafa sem fundo; um beque de maconha com uma seda eterna; uma carreira de cocaína que circunda a Via Láctea. Porque desconheço a finitute daquilo que dá prazer. A gente, por exemplo: nós. Nós que procuramos a vida, a vida acima de tudo. Uma coisa qualquer pra nos sentirmos vivos. O corpo é um pouco essa linha, essa coisa que pode matar e ser matada. Ou tudo. Uma cerveja eterna demanda uma ressaca eterna? Quem de nós vive na cerveja eterna ou na ressaca eterna? Temos um pouco de tudo. Mas um pouco pra nós é pouco. Queira fogos ao fundo. A ponta do cigarro que nunca se apaga. A chama, o som do estouro que nunca se desfaz. É uma vontade de durar, um duramento, uma conservação: um prolongamento de tudo que pede mais vida. Manter-se sempre na mais alta estima, na mais alta qualidade, no mais alto apreço: sempre tem o fundo da garrafa. E descemos, na baixa luz do ser. O que há de bom nos corpos, nas coisas das pessoas, nas barbas, nas calças apertadas? O que há de bom, enfim, e há. Assumir o fim, e assumir a ressaca, assumir que não há sempre tudo de bom. Assumir que o pouco é pouco. Eu fiz minha incursão diária na vida, e houve vida. Fiquei nu na janela do hotel fazendo poses para os pedreiros do prédio em obras, em frente: palhaça. O vidro da janela tinha um revestimento espelhado. Os pedreiros viam a si próprios e adoravam. Quem comemora com fogos? É quem se alinha ao fino fio da coisa que pode ser boa. Que pode bem ser má, tem todo o potencial pra ser má (a barba ruiva, a camisa xadrez, o rosto belo), mas que é boa. Eu, eu mesmo, eu duvido ser bom. Mas caminho na linha. Não solto fogos, mas regozijo. Adoro essa palavra, "rogozijo". Lembro das aulas de catequese: "regozijai e cantai louvor!" Cantemos louvor, pois, a quem e a quê? Eu não tenho lugar num mundo no qual regozijamos por um fim. Se o fim é a certeza, eu quero a incerteza: um prato de comida sem fim; uma carteira de cigarros em que há sempre cigarros; uma taça ou uma garrafa sem fundo; um beque de maconha com uma seda eterna; uma carreira de cocaína que circunda a Via Láctea. Aguentamos porque sabemos que haverá um fim? Porque sabemos que a vida terá um fim: e o corpo. Aguantamos! E aguantamos por isto: ficamos nus na janela sem saber que o vidro é espelhado. Porque fazemos pose sem saber que não somos olhados. É crer-se eterno, nu na janela onde ninguém te vê. Penso nas meninas e nos meninos, nas mensagens, nas lembranças de mim e para mim, nas coisas que fiz ingenuamente sem crer nas consequências (de novo, achando que tudo tem um fim). E tudo tem fim. Mais fogos, estouram e encantam. É carnaval, e eu ainda nem sei em que bloco, em qual escola. Cantarei louvor ao fim do carnaval e de todas as coisas.
Dormi contigo noite passada. E pouco dormi: acordei de hora em hora acreditando o dia. Virei umas quantas vezes pra puxar o cobertor até tua nuca, pra cobrir tuas cosas, já que tu dorme de bruços e o vento do ar-condicionado te gelava a pele. Dormi contigo e dormi pouco, dormi cuidando. A cama era grande, mas não nos perdemos um do outro. Tu dormiu rápido, com a cabeça encostada no meu ombro, enquanto eu assistia TV. Resmungou um pouco quando eu te acomodei nos travesseiros e te abracei de lado no momento em que pensei que eu iria conseguir dormir. Teu calor me deixou insone. Tu não roncou; apenas fez um barulho, um zunido, um ronrono de respiração calma e profunda de quem está descansando. Tu te espalhando na cama. E mais pro meio da noite, numa das vezes que eu acordei para te zelar, tu enroscou teus pés nos meus, um pouco sem querer e muito querendo: eu sorri. Quando eu finalmente peguei no sono, durou pouco: pelas cinco horas da manhã eu acordei. Te vi de barriga pra cima, pernas esticadas, uma mão por sobre o peito e rosto voltado pra mim. Tu dormindo. Só vi tuas feições graças à penumbra do amanhecer que brilhava nos cantos da cortina. Não consegui mais voltar a dormir. Tu me encantando, e eu acreditando, acreditando, acreditando: dormi contigo noite passada.
Acontecer pra dentro, se eu pudesse. Costear, margear a pele pelo lado de dentro, acontecendo-me na beirada da pele. Explodir, vez que outra, em buracos da pele, rasgando-me no meu acontecimento - só no meu acontecimento. Curvar a pele em gota, pro lado de dentro, num acontecimento explosivo. Costurar rasgos da pele e dar pontos pelo lado de dentro. Erodir a pele onde um rio poderá passar e desfazer a margem epitelial, a costa de um continente dérmico. Densificar, espessar a pele onde ela tem de mais frágil: acontecer uma carapaça nos buracos por meio dos quais o dentro vaza e pinga. Acariciar ao acontecer, afagar um acontecimento que traga viço à pele, pele sedosa, pele sem vincos. Não parar jamais de lamber a pele pelo lado de dentro, hidratando-a. Pentear a pele para desfazer-se dela: novas peles acontecendo em camadas que crescem em ondas e que se dissolvem na beirada, diluindo a bomba do acontecido em um som quase infinito de explosão. Acontecer vulcões em mim: queimar a pele com a lava do dentro. Sem jamais prestar a atenção na cor da tez, amar a pele. Sem jamais deixar-me enganar pelo desenho da tez, aguardar por outras peles. Viver sempre em dúvida sobre a pele. Acontecendo-me nesta pele, num brilho que a atravessa; nenhuma ferida é necessária para cura. Impedir que a pele se torne translúcida: é função da pele delimitar o acontecimento para mim e em mim. Uma pele invisível destrói a paixão de descobri-la, de afastá-la, de desvelá-la. Eu quero abraçar-me e ter-me por dentro, quero tocar nessa linha, nesse tecido, nessa membrana do meu acontecimento. Estilhaçar o fino cristal da minha redoma e sufocar com a rarefação do fora: matar a pele.
Hoje eu calcei teus sapatos e andei por quilômetros, sem meias.
Soube de todos os teus segredos e das perguntas que tu nunca quis fazer.
Apertaram-me os sapatos, e bolhas doeram nas laterais dos dedos.
Andaria novamente amanhã seu eu pudesse. E posso.
Calcei teus sapatos para andar, para ir até lá, para percursionar, para incursionar nos teus pés.
As bolhas doem, mas não não meus pés.
Meus pés já fazem parte dos teus sapatos.
Tua calçada é outra, contudo.
Contemplo meus pés machucados pelos teus sapatos.
Agora não temos mais como mentir. E não mentimos.
São apenas sapatos e pés, e bolhas, e dores. Diferentes calçadas.
Nossos dedos e nossos calcanhares andaram pelo mundo na mesma sola.
Não há segredo maior do que aquele dos pés doloridos.
A intimidade dos cadarços, das palmilhas; intimidade andarilha.
Eu sei onde aperta teu sapato. E aperta.
Descalcei teus sapatos e os abracei.
Doem as bolhas dos meus pés, mas eu sei das tuas perguntas não feitas.
Quanto tu calça? Tu calça o tamanho dos meus pés sem bolhas.
Hoje foi dia de saudade.

Eu não retornarei, jamais; tampouco pedirei abrigo. Não morrerei assim, bem como todos gostariam. Não voltarei, não pedirei perdão. Não serei eu a dizer que esqueci, que vacilei. Meu erro teria sido de não ter feito doer mais, muito mais, mas nem sempre a dor tem uma só medida. E nunca tem. A gritaria teria sido outra, em outro tom. Manteiga nos meus dedos. Solidão nos vincos, nas juntas, ali onde um azulejo encontra com outro. Uma reta infalível que dá exatamente na tua casa, no teu corpo. Duas virtudes, ou menos. Jamais morrerei como os outros gostariam. Morrerei do meu jeito, tranquilo, leve. Sem alguém pedindo pra eu voltar. Sem alguém querendo me redimir. Jamais voltarei.
Ninguém lê. E também não me explicarei sobre o porquê de não escrever. Mas há de se dizer que todas as noites eu me pergunto: por que não escrevi? De tudo, talvez a pior e a melhor parte é escrever. Porque dá pra fingir que escuta, fingir que olha, fingir que lê. Escrever não é fingimento, e se for é sinal de mau caratismo. Sonhei com um livro de três páginas nas quais cabiam todos os sonhos da minha mãe. Minha mãe sonha, eu é que raramente lembro dos meus sonhos. Que triste, um filho que não sonha. Dessa vez sonhei, e sonhei com os sonhos da minha mãe, que sonha sempre. Eu, que não sonho, sonhei o sonho transbordante de quem sonha. As rochas, as dunas, os lagos, as árvores. Uma mulher atropelada, estendida na maca, gritava e chorava e pedia pela ajuda de deus. Ninguém a ajudou. Ninguém a ajudou porque todos fingiram que não a escutavam, e eu acabei de sugerir que é muito fácil fingir que não escuta. Se a tivessem escrito, aquela mulher que gritava e chorava e pedia por deus, não teriam como ignorá-la. É como se eu não quisesse limpar a casa, as chaminés: eu não escrevo, e as coisas vão se acumulando nos meus cantos - que caem em degraus inalcançáveis para o sótão e para o porão. Fico eu em em desuso: ocupado pelos toques nas teclas, esperando o exercício de pensar sobre o que se vai escrever, as longas pausas entre uma frase e outra, ou entre as vírgulas ou entre as palavras, e a ansiedade de concluir logo a lauda ou o parágrafo. Para não limpar a casa de todo, para manter pedacinhos obscuros, desorganizados, desencadeados. Ontem meu corpo doía, e eu me vulnerabilizei. Vulnerabilizei a mim mesmo, no sentido de entregar-me a uma nudez fria e seca, surda. Ofereci-me ao acaso sabendo que o acaso era cruel. Ontem vi corpos mutilados e sofridos, ossos tortos e olhares de pessoas que sequer sabem que estão desoladas, perdidas, entregues à própria nudez. Elas ignoram seu próprio estado de fragilidade, de debilidade e de abandono. Elas não se sentem usadas. Talvez elas sonhem comigo. Minha vida toda em um livro de três páginas nos sonhos daquela gente desolada. Eu sou o sonho de gente nua. É por isso que não dá para fingir que escreve, porque não se pode fugir daquilo que escrevemos. É uma caça, as palavras te caçam. Ninguém realmente lê de cabo a rabo, ao fim e ao cabo. O final vem sempre antes, antes da terceira página, antes do atropelamento, antes da nudez. É sempre antes o desfecho de quem lê, e ninguém lê.

O rascunho de Douglas - parte VII

- Eu tenho medo de ficar sozinho. Vai que me acontece alguma coisa, e eu to sozinho em casa? Num presta, não...

Estávamos, eu e Douglas, contemplando já o céu do início da noite. (“Quem haveria de deixar este guri sozinho no mundo?”) Meu braço esquerdo encostava no seu braço direito; peguei a folha de um gerânio ainda vivo, não-seco, da floreira da janela da sala ampla. Cheirei. “Sente este cheiro. É o cheiro da minha infância lá no Sul.” Levei a folha até suas narinas com minha mão direita. (“Como quem passa um mate: sempre com a mão direita.”) “Dá pra sentir o cheiro do pão assado no forno de pedra da minha vó?”, eu perguntei. Ele sorriu, os olhos achinesarem-se. Meus dedos, que já estavam tão próximos de seu rosto, tocaram sua sobrancelha, deslizaram na pele de sua face e pararam no seu queixo. Os dois narizes se aproximaram. Os lábios se encostaram. Pressionei sua nuca em direção a mim. As línguas não se encontraram, pois as bocas não se abriram. Meus olhos estavam abertos e pude ver que os olhos de Douglas estavam fechados. Ele sentiu minha barba cerrada, de pelo grosso e longo. Recuou, assustado, e arregalou os olhos sorriu envergonhado.

Depois de um breve momento de silêncio, Douglas pediu para que eu deixasse o apartamento explicasse aquilo. Desculpou-se dizendo que não era preconceito, que tinha amigos gays, mas que ele próprio não o era Eu disse que ele brilhava, que tinha muita vida. Disse que era bom estar perto dele. Desculpou-se mais uma vez. Alegou que era preciso respeitar sua orientação. Aleguei que Brasília era seca demais, que minha vida era seca demais, que ele me mostrava coisas lindas. “Tu me seduziu, mineirim.” Sorrimos. Os olhos de Douglas achinesaram-se. Eu concordei, desculpei-me também. Brinquei: “O ar seco de Brasília está me enlouquecendo”. Douglas disse que nunca havia beijado um homem antes, que nunca tinha querido beijar um homem antes, que não era gay e que não queria que eu contasse para outras pessoas o que acabara de acontecer. Eu concordei, pedi desculpas pela impetuosidade, novamente responsabilizei minha carência e minha secura. Ele disse que não era preconceituoso, mas que aquilo não aconteceria novamente. Eu respondi que entendia e me desculpei mais uma vez. Houve um momento de silêncio. Tomei a atitude de dizer que voltaria a entrar em contato com ele por e-mail para dizer se tinha me interessado pelo apartamento. Ele concordou. Dirigi-me para a porta do apartamento, Douglas a abriu. Desculpei-me Desculpou-se uma terceira vez. Eu disse: “Desculpa eu”. Saí do apartamento com a sensação de que, talvez, eu não fosse tão seco quanto eu supunha ser.

Passei no supermercado antes de voltar para meu quarto de hotel impessoal. Tive que andar muito entre as quadras da Asa Sul do Plano Piloto, à noite, e vi poucas pessoas também caminhando. (“Esparsas. Distantes.”) Conhecer Douglas foi como experimentar um café raro, e decidi que levaria uma caixa de pó do grão Sul de Minas para ter comigo, em homenagem ao tricordiano. Talvez eu pudesse pedir que passassem o café na cozinha do hotel. Ou eu poderia guardá-lo comigo para cheirá-lo de vez em quando. Ou eu poderia tomá-lo diariamente no meu novo apartamento – que certamente não seria talvez ainda fosse aquele amplo, de lajotas brancas, da quadra quatrocentos e onze Sul, já que Douglas não expressou nenhum veto imediato à minha presença ali. Será que depois Depois do acontecido Douglas não me quereria dividindo o banheiro (“e as cuecas?”) com ele.? Li na embalagem do café que comprei a definição: “Encorpado e com aromas doces de chocolate e caramelo, o espresso do grão Sul de Minas apresenta uma acidez desejada e finalização prolongada e limpa, sem amargor”. Eis o gosto de Douglas em mim: prolongado e limpo, sem amargor. Doce.

E assim foi porque assim será: λ.

História da urina


Quando eu era criança, menos de 5 anos, meu irmão mais velho costumava me dar banho. Era uma aventura. Ele tampava o ralo do box até formar reter água o suficiente ali dentro para eu chamar aquilo de uma piscina. Eu me divertia na piscina de água retida. Lembro de querer planejar o sequestro do meu irmão durante um daqueles banhos. Lembro de premeditar seu sequestro. Daria-se da seguinte forma: depois do banho, eu levaria meu irmão até nosso quarto (dividíamos o quarto) e o deitaria na nossa minha cama. O colchão da nossa minha cama de solteiro viraria num eixo central de modo que sua superfície virasse o teto de uma antessala, de um porão. Nesse porão, onde nós cairíamos, eu praticaria nele todo tipo de experimentação corporal: sexo, tortura, inanição, contemplação, lambidas, beijos, beliscões. Meu irmão era circuncisado. Não obstante, planejava levá-lo para um corredor infinito cuja porta de entrada era o buraco da uretra de um pênis gigante, não circuncisado. Nesse corredor, em ambos os lados, havia homens com pênis eretos nos quais eu passava a mão ao avançar, levando meu irmão pela mão. Meu pai uma vez disse: “tu tens que sentar cruzar as pernas como teu irmão: de pernas cruzadas, mas teu tornozelo tem que apoiar-se nos joelhos.” O olhar de irmão me reprovava, e não terei tempo de explicar aqui a razão disso. Meu irmão se suicidou no dia dos pais, com um tiro no coração, no porão de minha nossa casa.

[...]és bem hidratados com superfície pegajosa, camada de verniz um pouco oleosa, unhas mal cortadas e uma delas, do dedão esquerdo, encravada na beirada. Havia muy recentemente passado o creme branco e denso na pele carcomida, ressequida, ressentida pelos anos e anos, e ânus, de pisadas em falso que lhe torciam o tornozelo. Zelo nenhum, ou pouco, tinha ele pelas coisas eletrônicas e biológicas. Sua lógica era a seguinte: deixar esvaziar cada litro em cada linha, em cada cadafalso um pescoço, em cada bala um coração, em cada modem uma ânsia pela biologia alheia que nunca vinha e que nunca chegava, que nunca ultrapassava a média. Remediava, assim, um dia com o próximo e um tempo por todos, por tudo o que houve no tempo sem olhar pra trás nem pra frente, para que só o olhar existisse mirando o zênite de mau agouro. Logradouro imundo era onde costuma frequentar, e muito, para compartilhar momentos de prazer secreto, só dele, com muitos outros e sem que os muitos outros soubessem que lhe era aprazível. Alguns sabiam. Bebiam, porém, de outra água amarga que de seus joelhos tiravam, um ao lado do outro, em buracos cavados nas paredes, cloacas bucais, canaletas. Era de muletas que olhava para o zênite, e por isso o mau agouro: mão nenhuma poderia tapar o sol para o qual olhava porque apoiavam-se nas muletas velhas feitas de madeira nobre, pernas de pau, pés falsos, tocos e lascas de troncos ocos, serragem fina e o cheiro da madeira raspada e envergada. Sentia que poderia escrever sobre tudo o que havia em si, mas não. Não se pode escrever, sobretudo. As regras ou as leis do romance, do conto, dos elementos narrativos: tudo precisa aqui existir e coexistir em harmonia, em beleza e em inovação. Não poderia, jamais, escrever. Hidratava os pés brilhantes de madeira que reluziam, oleosos, na raspagem da luz por sobre a pele. Nem sobre isso poderia escrever, pois não dá romance, não dá história, não há enredo. Pés de madeira não servem como personagens. Insistia haver redações livres com belas marcas, letras cursivas e capítulos em números arábicos – muito mais elegantes que os números romanos – lá, aguardando, capas duras de cores sóbrias e elementares. Um título musical. Sonoro, queria dizer, um título melódico. Pouquíssimos sabem ler neste mundo. Seria um bom contador de histórias não fosse o pendor em colocar-se sempre como anti-herói. Perdia o interesse em novelas maniqueístas tecnicamente perfeitas. Escrever era um ato terapêutico, um ato hermenêutico, um instrumento de descoberta das coisas que ele sabia saber mas que desconhecia. Não haveria, acreditava ele, lugar neste mundo e nesta época para mais um escritor: reconhecidos talentos são rápidos. Se não podia escrever, fechava os olhos e imaginava com força uma folha de papel em branco, uma caneta de tinta infinita, uma mão e um antebraço para um escritor canhoto. Em sua mente fantasiava escrever. Quando a vida lhe chegava crua, fantasiava escrever. Fantasiava a mão esquerda deslizando, dançando por sobre a folha de papel em branco, esvaziando em cada linha a crueza de uma vida que não se via, nem se lia, nas palavras escritas. “Escritor”, ele murmurava, com a cabeça enterrada nos travesseiros e com os beiços desencontrados. Quando doze horas por noite não eram o bastante, nem por três noites consecutivas, e quando abria os olhos pela manhã e mirava o zênite já desejando fechar os olhos para dormir novamente, e quando o tempo que existia virava passado e desdobrava em futuro, quando os pés carcomidos e ressentidos ressequiam-se e rachavam como terra de deserto: aí, então, o pescoço quebrava no cadafalso e o coração era furado por uma bala, os beiços desencontrados não murmuravam, e sim gemiam “escritor”. Todos os cegos o adoravam, o veneravam, choravam com seus contos e tinham seus romances como livros de cabeceira. Entre os cegos ele era Nobel de literatura.

Quando o vento venta, o pelo sacode. Mas não todo pelo. Somente o meu e o teu. Uma gota te satisfaz, mas não a mim. Um superfície, uma nota de 2 reais, um chip que aprove a transação: mas que corpo obtém e detém? Uma lata de cerveja, e tudo mais: não há nada como isso nos catálogos internacionais. Estar no topo não te faz mais magra, mas mais vista: há de observar bem essa sunga. Nada: na piscinada, muita piscina pra muito nada. Não quis, mas queremos todos. Que loucura, ou psicose, desejar todos os corpos do mundo, todas as bordas, todos os pingos que caem no teclado. Todos os hóspedes que querem atenção. Todas as pessoas bonitas que não trepam. E que ninguém admira. Todas as artimanhas de instagram pra disfarçar que somos infelizes. E todos os filtros: o que sobra dos filtros? E o que queremos dos filtros? Porque amo os filtros e sinto que têm o que acrescentar. Paramos com o saco de cerveja. Mas devemos? Chove pingos, apenas pingos, e será apenas pingos que essa doença do pé te pede? Psicótica e deusa: cousas que não prevemos. Cousas que não queremos. Mas de mim, de mim mesmo: tudo me peça e tudo me tens. Porque serei tudo o que quiseres, com as gotas e com os pingos, e com as lágrimas, e tu serás aquele que me edita. E eu vou. Porque há um longo. Uma coisa longa. Que verte. Verte na parede. E ponto. Eu poderia bem ser esse buraco por onde tudo o que verte escorre. Eu engulo tudo. Mas o lugar de ralo é tão delicado: uma pomba ou abelha, ou mosca: não valida. Um beijo e jamais seria isso, seria outro. Mas esse outro, essa coisa: por mais belo, seria outro. Não há nada além do corpo: essa coisa que mija, que fode, que caga, que desliza, linda, pela minha pele e que é linda: não há nada além dessa lindeza. Nem a superfície da água: há mais dentro. E fora: há tudo no cisto que acontece fora do corpo!
Entendo... às vezes sinto que sim. Outras, já não sei. Dar um passo para fora da pele, olhar-se ao revés. Concordo. Mas não é sempre que podemos. Há momentos em que simplesmente não temos como dar um passo. Não, não estou falando de deixar a vida nos levar. Estou falando de fazermos vida, de fazermos a nossa vida, de estar onde é preciso estar: precisamente onde estamos agora. Exato! Há aqui vida para ser feita? Sempre há, pois estamos aqui. Não apenas isso: mas também a manga solta da camiseta, o cós folgado da calça. Um corpo que se esvai, fino, pela bainha italiana de alfaiataria. Uma pele toda artificial. Uma paranoia dérmica: supondo sempre outra pele por debaixo desta, por vir. Isso, e mais aquilo tudo que falávamos antes: corpo, ética, todos os sorrisos do mundo voltados para ele. E novamente aquilo que falávamos recém: há aqui vida para ser feita, neste lugar onde todos os sorrisos do mundo secaram? Compreendo, mas discordo. Escuto, mas renego. Nenhuma serenata pós-coito me convencerá de que não há um lado B daquela história. Há uma versão pouco conhecida, não autorizada, de todos os fatos - como se fossem anti-fatos, des-fatos. Um silêncio grosso por entre aqueles pelos e do avesso da carne. É ali que preciso chegar, ali está a bagunça e a resposta para tudo que cai no vácuo. Revivo pelo por pelo o que já houve e estranho desde o início. Amanhã, a essas horas, estarei no céu. Afastarei-me, mas voltarei pra casa em seguida. Desde agora desejo não ir. Desde agora desejo que as asas derretam ao chegarem perto do sol. Quero rapidamente estar de volta em tudo aquilo que um dia não mais me pertencerá. Por quê? Por mais que argumentes, nunca houve escapatória: sempre estive por perto. Nunca te abandonei. Jamais te deixei e sempre procurei por ti. Repetindo ipsis literis todos os pelos e pênis. Na distância jamais existiu realmente uma separação. Eu poderia fazer um boneco, um pequeno fantoche dos restos retalhados dos corpos onde te busquei: serias tu, inteiramente tu, ninguém perceberia que jaz em outro lugar senão nesse corpo remendado com trechos de outros onde acreditei te achar. E fugias de mim. Pelas mangas soltas das camisetas, pelo cós folgado das calças. Eu compreendo, eu compreendo... Mas eu serei outro, invariavelmente. Essa pele na qual tocas, essa pele pelada, dela eu já pisei fora. Vejo-me pelo revés. Se tu te repetes nos corpos, eu estou fora do meu.
.... me catapultei para um imprevisto mais insustentável que um não sei.
Cabem seis janelas dentro da minha própria, se olhadas de dentro. De fora, a minha é só mais um buraco na parede do prédio alto. Só a minha está aberta. Fantasio muitas vezes com as pessoas paradas por detrás dos vidros das janelas de fora olhando para cá. Atrás das cortinas. Fantasio homens de pé atrás dos vidros, atrás das cortinas, vigiando o que acontece nas janelas de cá. Em algum momento seus olhares descolam da minha janela e deslizam para outra. Desconectam da minha janela. Desconhecem as paisagens da minha janela. Desinteressam-se pelas cores. Desimportam-se e escapam como gotas, bem lentamente, para outros cenários. Despontam em outras linhas do retrato. Fantasio que eu fico só, bem aqui, com a janela aberta. Nada passa por ela, entretanto: nem olhares, nem vento, nem chuva. Uma janela hermética apesar de aberta.
Todas as guerras cessaram por falta de munição, não por falta de ódio. E os exército esperaram, esperaram como estátuas em seus respectivos lugares, imóveis; os soldados loucos para lutar. Imóveis e inúteis, sem munição. Descomandados, acéfalos, os soldados pereceram. Foram se esvaindo pelas fardas, deixando despencar as baionetas. As trincheiras se encheram de lama, e depois de terra, e depois de areia, soterrando os arames farpados. Os tanques se retorceram, e as bombas, as bombas estouraram como gelatinas, como bolhas em gel, as bombas explodiram como um balão murcho. Cara a cara com o inimigo, na beirada da fronteira disputada, todas as guerras cessaram. Nenhum soldado bateu em retirada. Todos permaneceram no campo de batalha sentados sobre seus capacetes. As razões da luta permaneciam, mas os guerreiros estavam imóveis. Até os aviões foram retidos em pleno ar, e lá permaneceram com os motores ligados. Os navios encalharam na superfície mesmo do mar, enferrujando e afundando aos poucos. Nações inteiras aguardaram o desfecho das batalhas, o retorno de seus filhos e filhas à terra-mãe. Os filhos e as filhas da guerra, contudo, desconheceram o caminho de volta. Estado de guerra constante, em suspensão, sem nenhum tiro e nenhuma bomba, conservando apenas a sensação dolorida da perda, da marcha inútil, do sangue escorrido, do toque de recolher permanente. Só o desespero da guerra ainda ardia.

Convalescendo

Oi, pai; oi, mãe

Escrevo rápido hoje, com menos do que eu gostaria de dizer, porque estou me recuperando.

Estou parindo um livro. Às vezes eu gostaria de contar que já o tenho escrito, mas eu apenas digo: tenho um livro dentro de mim. Ou dois. Não importa. E vocês me disseram tantas vezes pra eu ser discreto... e como eu pude? Nunca fui. Duvidem do meu corpo quando ele escorrega, duvidem do meu olhar. Eu só finjo por vocês. Duvidem da minha alegria, da minha beleza. Não sou belo; nem o pai, nem a mãe são.

Estou fugindo. Nem de longe suspeitarias, mas lá me vou. Crês em Deus Pai? Já fui. Essa doença feia que herdei: ficar pedindo desculpas, sentir-se culpado. Estou grávido de um livro, te interessa?

Há tantas frases que eu gostaria de te dizer. Mas siga, vá, não te pares por mim: eu só vou te atrasar, te dizer chega, te censurar. Caminhe adiante.

Não há nada pior que o corpo que caminha adiante.

Degenerescendo

Oi, mãe; oi, pai.
Não posso escrever muito, pelo menos não tudo o que tenho.

Se é verdade que nunca falei, que nunca disse nada com todas as letras em sequência inteligível, também é verdade que nunca escondi, que nunca dissimulei. Essa forma de lidar com o não dito mas visível lhes é estranha. Não os culpo: apenas os chamo à responsabilidade de entender outras maneiras de habitar o mundo que não as suas próprias, que não apenas as suas próprias.

Eu formulei frases ótimas para dizer-lhes, frases cheias de verbos. Eu as esqueci. Eu continuo pensando nelas, construindo argumentos. São textos de teatro. Não lido com improvisações. Decoro as falas. Eu as esqueço. Gaguejo em frente à plateia. Devolvo-lhes o dinheiro.

Por que razão eu deveria me arrepender da conduta que venho adotando até então? Muitas respostas: desde os rasgos da boca e do pulmão ao sêmen não derramado. Desde os silêncios, silêncios de reticência que sempre se encarnavam em olhos cabisbaixos que olhavam para o chão, até as sungas não usadas e as camisetas não tiradas, o corpo não descoberto, até as viagens abortadas e as rotas de fuga, os atalhos, as noites trancadas nos quartos de hotéis anônimos. Desde passaportes feitos e nunca usados em 10 anos. Desde histórias falsas sobre baleias voadoras e músicas de dormir como “Boi da Cara Preta”, desde amigos imaginários que nunca foram bem-vindos lá em casa. Até namorados que foram muito bem-vindos, até pratos imensos de comida, até as noites sem ar-condicionado no verão, até a primeira taça de vinho aos 15 anos de idade, até os 11 anos de aluguéis pagos, até as roupas que serviram para cobrir o corpo, até os telefonemas. Muitas são as razões: desde o celibato forçado até o celibato voluntário. Desde o assassinato da criança que eu era em nome do adulto prematuro. Desde a vergonha endereçada até a vitória inesperada, ao amor pela chuva e pela cama quente no inverno, ao amor pelo vinho e pelo banho quente no inverno. Até a chuva batendo na janela, que eu escuto sozinho, até a cama quente vazia, até a garrafa de vinho não compartilhada, até o banho anônimo e silencioso, quente, no inverno. Desde o amor por aviões até a reserva medrosa em relação às praias e às areias, às águas em geral. Ainda ouço gente dizer “esse guri é poeta, essa bicha é poetisa”, mas eu sei que vou morrer a sós com meu corpo, sem mediação nem consolo, e já não sinto mais medo disso.

É essa vida toda que eu tenho que mudar agora e é demais para eu fazer em tão pouco tempo. Eu sobrevoarei uma por uma de todas as minhas cisões e contracorrentes. De todas as minhas vergonhas eu vou procurar me esquivar, e são muitas, andarei em ziguezague. Eu vou pra fora, pro lado de fora, rarefeito. Não é longe, é aqui do lado, do lado de lá da minha pele.

O lucro do luto

[...]visitar as sombras e por ali ficar, gastar um tempo com as sombras, deitar nelas. Nunca vi tanto lucro no meu luto: capaz de comprar uma vida inteira, reluzindo de tão nova. Deitar nas sombras e adormecer, e ao adormecer sonhar com aquilo que morreu ou com aquilo que matei. Acordar e regozijar com meu homicídio ou suicídio[...]
[...]as a vida grita mesmo assim. Eu fui até a janela, e nem a superfície da piscina estava calma. Não adianta represá-la, nem fazer barricadas: ela avança. Quando se está à espreita a vida acontece. E nisso há aqueles que se acanham, que se encolhem na sua pequenez de misericórdia, e ficam murmurando suas mágoas, seus restos de opiniões, juntando as migalhas de pão mofado para dar de comer às suas soberbas. Há aqueles que fogem, que se calam, que se misturam ao silêncio, que tentam passar incólumes, que preferem não ser vistos nem ouvidos e que trancam o que há pra sair. Há aqueles que choram e que rosnam, raivosos, aqueles que vociferam e ensaiam uma altivez cretina. Há aqueles que olham pro horizonte, estufam o peito e abrem os braços, caindo de olhos bem abertos no redemoinho que sabem que não podem evitar[...]

Um mês antes do Natal

[...]ada. Não tinha taça, nem vinho, nem roupa de cama, nem água. O beijo, por mais suculento, não tinha nada. E um mês antes do natal ele enfeitou a árvore: que linda árvore com bolas e folhas, e luzes, e galhos. Nada de mais sedutor que as palavras escritas com obscuro do verão do hemisfério sul. O braço, eu me pergunto sobre o braço: ele sente sono? Porque, não: eu não te amo. Mas nada me impede de cair por ti, de afeições e afagos, e nada te impede de aproveitares isso, um sorriso ou uma conversa, ou um abraço, ou uma coisa linda qualquer. Não me seduza com tua inteligência ou com teu frio, com tua frieza, tua terra é fria. Mas me conceda o passaporte, e o visto a tempo, me deixe entrar, me deixe carimbar essa lente louca que me olha e que me julga querendo ou não entrar na tua terra. Se teus olhos já passaram por aqui – de servidor público ou de desempregado, de solteiro ou de casado – tu é quem decide se deve ou não fechar a página ou continuar escutando nossas vozes agudas, de adolescentes, falando sobre essas coisas íntimas e bonitas do qual falamos. Não me responsabilize por tremer ao te ver, ou por comprar um café pra tomar contigo. Não me responsabilize por essa fome, ou solidão, ou vontade de beber toda a garrafa de champagne: eu vou bebê-la, o que não significa que eu não penso em ti, ó gordinho lindo, coisa mais bela da minha semana! Sem que se peneire quadro a quadro, nada haverá de sustentar qualquer toque ou gozo sobre minha pele. Retome isso. Decore. Nada haverá sobre minha pele. Um olhar me vale mais do que essa coisa branca que despejas em mim: um beijo? Uma mentira? Não me surpreende que tu estás nesse casamento. Porque casamento é isso mesmo: aquilo que te faz tirar a primeira gota de sangue do tórax. NADA. Uma praia branca vazia. Habite-se. [...]

Zelo

[...]mpre o mesmo banco, mas nunca os mesmos homens. Porque eu passo correndo por ali, literalmente correndo, e vejo aqueles homens sozinhos, insulares, sentados nos bancos e se articulando através de olhares que te escaneiam. Centopeias oculares, flexo e reflexo. Eu poderia passar por ali dois séculos depois de hoje e eu ainda acharia rastros desses olhares – sem dúvida não acharia os mesmos homens, tampouco o mesmo jogo de flexo e de reflexo, mas eu acharia algo todo novo e inusitado que, de certa forma, seria um quê herdeiro dessa disponibilidade, dessa disposição, dessa inquietude dos homens que se sentam naquele banco. Uma beleza tardia se despencou na minha frente: nunca a supus, e quanto tempo perdi procurando-a e produzindo-a sentado num banco que nunca mudava. Sem medos ou esperanças: o que se faz diante dos meus olhos? Aquilo que se arrisca no olhar, aquilo que fulgura; aquilo que impede Narciso de apaixonar-se à beira do rio. É uma água turva, movente, que bloqueia qualquer marasmo ou estado plácido de calmaria que transforma a superfície da água em espelho – nunca haveria de refletir rosto nenhum. E, quem diria?, uma parte toda lisa de mim te absorve e te reflete, te irradia. Flexo e reflexo. É mentira que as pessoas deixam o céu aberto porque não querem se molhar: é a chuva que chega e que se gruda nos corpos querendo ir embora das nuvens. Nunca percebeste? Então vem, te gruda em mim, corre no meu entorno, que eu te espero com zelo sentado naquele banc[...]