eu não sei se está chovendo lá fora. gostaria de dormir com chuva, com o som dos pingos na janela, nos carros e nas árvores. sinto um aconchego tremendo ao saber da água no lado de fora. dou-me conta de que essa sensação de aconchego é inseparável da segurança e proteção que sempre gozei. sempre tive casa, sempre tive quarto, sempre tive cobertores. sempre tive uma pele sedosa, que só agora começa a enrugar. cogito me levantar e ir até a sacada para verificar se chove mesmo. quero a comprovação. mas do que me servirá a comprovação - de que chove ou de que não chove? decido não ir até a sacada. escolho acreditar que está chovendo. se eu eventualmente verificasse que não está chovendo, eu teria de lidar com a frustração. é um pouco este o exercício geral: desistir da verificação, escolher acreditar no que aconchega e evitar a frustração. já tenho rugas demais para ter que aceitar que não chove, e que não posso fazer chover.
a descida espiralada da negação e as rugas ríspidas da rua; o que deixei hoje no assento, caindo do sacolejo do ônibus; por onde andei, me pergunto, como cheguei aqui; por quanto tempo houve a esperança de que tivesse sido diferente, a esperança de que ainda será; por onde deixei tudo que aqui agora me falta, que nunca foi meu e que sempre julguei de minha propriedade; como não percebi que era aqui afinal, o fim, a última etapa, o degrau por todos considerado o mais alto - que é para mim apenas o primeiro; e eu já cansado da escada; sinto pena profunda de mim; em qual escolha decidi torto, decidi enviesado; em qual espelho eu olho, em qual espelho curvado; não haveria será nenhuma chance de vida outra; não quis a sorte de nada perguntar e de apenas viver; eu, macabeia que se crê pensante, que não se salvará da ironia do asfalto; no asfalto acabará a descida espiralada: nas rugas ríspidas da rua.
Desde ontem experimentamos o feriado. Nas beiradas do sábado com o domingo, diminui a culpa de levantar da cama às 14 horas.
Mas eu estaria mais tranquilo com chegada de mais uma semana, a tal semana, se eu pudesse contar com um apoio que não viesse estritamente de dentro. Hoje escutei minha própria voz somente às 16 horas, quando eu lavava uma panela. Estranhei. Não costumo ficar tanto tempo calado na minha própria presença. Tenho ficado, contudo. Um apoio que não viesse de mim mesmo, que não se sustentasse por esse solo flácido que sou eu. Há algo que me cala na vida, na coisa toda viva. Não me considero à altura do empreendimento de viver. Todas as semanas são cruéis.
Se saio da cama às 9 horas, todo o meu dia se confunde. Os ponteiros do relógio se dobram, os números se esvaziam. Tamanha é a necessidade de produção, rastejo até a meia-noite. Horas produtivas é o que eu mais custo a ter.
Fico em silêncio, às vezes, na sala. Com as janelas abertas, geralmente à noite. Só escuto o som da geladeira. Fico em silêncio e deixo tudo me invadir: a geladeira, o vento, o céu, o calor e o frio. Quando estou fortalecido, permaneço em pé na sacada apenas deixando o tempo passar em mim. O tempo é tudo. É uma grandeza que se apropria de nós, à revelia.
As pontas dos meus dedos, onde mais tocarão?
haveria uma sensação a respeito da qual eu ainda escreveria: o zunido nos ouvidos depois de muita conversa; o zunido nos ouvidos depois de um show; os zunidos nos ouvidos depois de um dia pesado. Eu escreveria sobre o zunido, sobre o silêncio adornado pelo zunido. Não se restringe a uma onomatopeia: é um constituinte do profundo zelo do não-som. haveria também o sol se pondo, a perpendicularidade da luz, a sombra móvel dos telhados. Esvair-se no oeste e toda correnteza de fé que se vai no pôr-de-sol. Depósito de confiança no futuro.
E se o tempo fosse apenas o erro do sentido? E se houvesse somente um dia, sempre um dia? "Sempre" já não seria eternidade, mas uma partícula de algumas horas de luz depois da qual só restaria o zunido.
O zunido, o silêncio, a sombra, a luz perpendicular.
O tempo surpreendentemente tomando meu corpo, e a pele das minhas mãos e os fios do meu cabelo.
Eu ensurdecendo, pedindo para repetirem a última sílaba e a última palavra, ignorando um zum-zum-zum que diz meu nome.
As marcas de oxidação do ferro da sacada, marcando o "sempre" (chuva, sol, dia e noite marcando o ferro).
O silêncio de meses que se fez aqui, entre um texto e outro, caracterizado pelo zumbido do vácuo daquilo que já foi tão falado em outras vezes e que continua sendo sentido, e fazendo sentido, conduzindo "sempre" para o fim e para o desejo de fim, para a dúvida sobre o porquê de estar aqui, e vivo, sendo iluminado por uma luz perpendicular que parece estar "sempre" se pondo.

Eu lutei. Ele escreveu "eu lutei", e teve gente que desdenhou, que menosprezou, que achou um abuso da parte dele que viesse a público afirmar que havia lutado. Na doença eu lutei, e foi uma luta minúscula repetidas vezes no mesmo dia. Ele escreveu "luta minúscula", e isso escandalizou a todos. Cada dose dos medicamentos, cada corte da cirurgia, cada seringa e cada cânula nos meus orifícios - alguns que eu até ignorava existir: eu senti tudo no meu corpo e eu lutei com eles, contra eles, para eles. Eu lutei no meu corpo, deitado sobre a cama, tendo a comida levada à boca por outrem. Eu lutei graças a uma coisa mínima em mim que recalcitrava. Ele escreveu "uma coisa mínima em mim", e teve gente que satirizou o fim das grandes explicações econômicas, políticas e sociológicas. Deram-me um ano de vida com sofrimento, e eu lhes devolvi trinta com muito sarcasmo. Estavam todos raivosos por ele não ter morrido rápido.
não conduza jamais a batata à boca. ela arde. tem uma coisa em mim pronta pra sair - alou, amigo: seria por isso que sonhei que meu pai bradava contra minha minha mãe? era alucinante, louco, delirante, ela(ele?) reduzia minha mãe... nada. Não é isso? Não tem você e não tem eu? É isso que me corrói: a falta do outro. Por isso fico o tempo tempo (repeti) todo olhando pra sacada do vizinho.... tive dificuldades em escrever isso.... pois fiquei olhando pelo reflexo da janela da varanda da minha sala... pra ver se tinha alguém lá... E tinha! ele estava com a cabeça virada para nós, eu-tu diria, para essa coisa da qual ele não pode não escapar.... e daí me dá um escrúpulo. Pois a mim não interessa uma coisa grudenta em mim. Tudo começa com"abaixar o alto-falante do computador". GRAVE! É o vizinho? Escute..... É o vizinho? Haveria drama menor do que sofrer pelo corpo do vizinho? Selecione um drama e poste aqui. Eu pago por isso. Eu pago um real e a porra da inflação. Deixa eu digitar direitinho: d.i.r.e.i.t.i.n.h.o: eu sou normal. Eu cruzo as pessoas, eu as atravesso, MAS NÃO É ISSO, porque é sempre isso que você pensa quando a gente diz "atravesso". Que mundo é esse, no qual atravessar é quase um crime. Gente? Ficar apenas pensando na próxima frase é coisa pra fraco. O mundo subsistirá. "Apenas" o amor, né?. "Apenas", essa coisa bonita que acontece entre dois corpos. "Apenas" essa coisa da qual alguns não podem participar? Quanto a mim, permanece inalterado o estado de torpor. Venha a mim, e experimente a normalidade. Experimente: deguste; no peitinho, na bunda caída; pau murcho que não fode o cu. Normal, apenas o comum que podes encontrar no metrô. Eu e você, sem ser Minhocão ou Paulista. Você de mim sabe o quê a ponto de querer saber o que sai nas teclas? Te direi a tempo da coisa toda desvendada, escute: a coisa toda. Os pássaros dizendo e gritando, grágrágrágrá. Que merda isso, né? Até os pássaros dizem essa porra! Mas por onde mais tu haveria de dizer? Não tome corpo algum antes de saber se sua carne é apropriável, não coce a cabeça, não minta. Todos mentiram hoje, não sejamos desoneStos com quem chega. MAS EU NÃO SOU HOMICIDA, sabemos disso. No entanto, estás sempre na sacada à espera do olhar! A cabeça dell'e está aqui hoje. Não me custa cortá-la e fazê-la de minha sopa para bem amaciar aquele que é meu senhor e meu carrasco (Pausei para escrevê-lo no teclado). Meu cu ao procurá-lo. apenas crie e demande da vida. chame a vida para si. ela não existe fora. chame a vida para si.
Eu subi calmamente as escadas do hospital. Informaram-me o andar onde Maria Gabriela havia sido internada um dia antes para dar ao mundo Santiago. Resolvi exercitar as pernas um pouco. "Santiago", eu vinha pensando ao longo do voo de quase doze horas da Nova Zelândia ao Brasil, "Santiago", um nome de fé. Um nome para o qual dá vontade de ajoelhar. Eu e Douglas havíamos pensado em Valentim, mas ninguém haveria de ajoelhar-se para um Valentim. Naquela época, sete anos antes da escadaria do hospital, eu sonhava com um filho homem cujo nome não tivesse a vogal "O", pois julgava "O" demasiado masculino. Douglas, por sua vez, gostava da fé de Santiago. Mencionei que existira um San Valentín. E que existira um San Martín também. Martin seria lindo, não fosse a resistência de Douglas em relação a esse nome que, segundo ele, era uma Marta tímida. Douglas e Maria Gabriela decidiram-se por Santiago, e eu me deliciei. Havia três anos que eu e Douglas tínhamos nos separado e eu tive a certeza de que era comigo com quem ele ainda queria ficar precisamente pelo jogo persuasivo com que convenceu Maria Gabriela a adotar este nome para a criança. Douglas jamais contou para Maria Gabriela que fazíamos listas de nomes para nossos futuros filhos em dias de muito bom humor e depois de muito bom sexo. Apenas sustentou, ao longo de mais de oito meses, a escolha de um nome já escolhido para um filho que já havíamos tido. "A Gabriela é quase uma barriga de aluguel", pensei nas escadas, não fossem os olhos verdes e a voz calma que conquistaram Douglas. "Serão bons pais", eu tinha certeza. Cheguei ao andar do quarto um pouco ofegante. De imediato reconheci Douglas sentado em uma cadeira do corredor, seu pai estava ao seu lado. Douglas apoiava sua cabeça nas mãos, tinha o cabelo raspado. Dei passo por passo para não alertá-lo da minha aproximação. Queria que fosse uma surpresa e tanto. A alguns metros ele levantou o olhar, e eu vi lágrimas nos seus olhos. Ele se levantou dizendo "Ainda bem...", veio ao meu encontro, me abraçou forte e chorou muito. Quanto tempo eu quis sentir aquele abraço de novo, mas não naquele desespero de quem se agarra a um corpo no naufrágio. Maria Gabriela queria muito ter Santiago por parto normal, e aguentou as dores até quando não pôde mais. E não pôde. Foi necessária a cesariana. Todos ignoravam, ela mesma, a obstetra, a ginecologista, o pediatra, o cirurgião, que Maria Gabriela tinha sensibilidade a um dos componentes da anestesia. Choque anafilático profundo. Santiago nascera bem, nascera gordo, nascera chorando e se esparramando. A mãe entrara em coma. "E agora, como ela está?", "É preciso ter fé", me respondeu Douglas sorrindo, com lábios molhados de choro. "Eu posso ficar", eu disse. Douglas me olhou surpreendido, "Mas a gente tinha se separado porque você não queria ser pai". "Estou tendo a segunda chance e agora estou disposto a aprender".
Pôr-se à vista. Comprar roupas justas, de cores lisas e tecidos inteligentes (que pensam pelo corpo, no lugar da pele). Esperar o olhar, esperar o ônibus, esperar belo. Aguardar o pouso do olhar na pele, digo, no tecido inteligente. Senti-lo queimar, grudar mais na pele, embrulhar a pele como se a pele já fosse subcutânea. Pôr-se à vista e esperar o olhar pousar, raspar, tocar, fazer cócegas. Comprar um par de tênis inteligentes que propulsionam os calcanhares. Jamais tocar o chão. Posar e aguardar o pouso do olhar nos tênis inteligentes, que guardam pés bem hidratados. Ninguém verá os pés hidratados. O tênis inteligente vale mais que os pés hidratados; pés hidratados não vão além, não saltam, não amortecem. E no que se trata, ou quer se tratar, de hidratação, fazer balançar ao vento os cabelos também hidratados, bem cortados, brilhosos, estupefantes. Comprar shampoo inteligente que desembaraça os fios, que os reveste de uma camada de microespelhos: shampoo que pensa pelos cabelos, que os reveste, que os encapsula. Posar a cabeça imóvel na quina onde o vento ricocheteia e deixar os cabelos dançarem. O sol iluminando os fios na perpendicular, uma cabeça reluzente, porém não pensante. Quem pensa é o shampoo. Aguardar a vista, aguardar o olhar. Depilar o saco escrotal com cuidado, aparar os pelos pubianos. Envolvê-los em cuecas de tecido inteligente (um tecido que pensa pelos pelos, pelo saco escrotal, que pensa no lugar dos testículos). Aguardar a vista, esperar arrancar.

Contracorriente, Plata Quemada & Brokeback Mountain: Os Seis Homens que Não Amavam as Mulheres - ou Os Homens que Amavam Alguns Homens


A matriz homoerótica

Esse subtítulo em corruptela é um arremedo um pouco mal feito. Toma uma parte do título do primeiro volume da trilogia de livros “Millennium” – que do sueco para o português de Portugal foi traduzido literalmente para “os homens que odiavam as mulheres” – e o coloca a serviço de um desejo meu bastante específico: passear por entre algumas digressões a partir dos três filmes que encabeçam este texto. É um arremedo mal feito porque na trilogia “Millennium” não se dá centralidade às relações eróticas e afetivas entre homens como se dá em Contracorriente, Plata Quemada e Brokeback Mountain. É um arremedo mal feito porque “não amar as mulheres”, em “Millennium”, não é um outro modo de dizer “amar os homens”. É um arremedo mal feito porque “odiar as mulheres”, como explicita o título original em sueco do livro, não é o mesmo que “não amar as mulheres”, como é a tradução brasileira do romance. Mesmo sendo um arremedo mal feito, ainda aposto no seguinte: a matriz homoerótica e homossocial operante em Contracorriente, Plata Quemada e Brokeback Mountain pode ser expressa do avesso, em uma negação ou como em um filme negativo de uma fotografia, por meio da descrição “os homens que não amavam as mulheres”. Aposto, contudo, que os homens que não amavam as mulheres em Contracorriente, Plata Quemada e Brokeback Mountain não necessariamente odiavam as mulheres – apenas algumas delas. Nesses filmes, é possível sugerir que de fato os homens não amavam as mulheres, o que pode implicar na hipótese vigorosa de que, sim, “não amar as mulheres” corresponde a “amar os homens” – mas não todos, nem quaisquer homens. Talvez o subtítulo mais adequado a esta pequena digressão muito pessoal poderia ser: “os homens que amavam alguns homens”. Veremos. “Alguns homens” expressa bastante bem o que entendo ser a matriz homoerótica comum aos três filmes: tratam-se de três duplas de homens (Ennis e Jack, em Brokeback Mountain; Angel e Nene, em Plata Quemada; Santiago e Miguel, em Contracorriente) nas quais ao menos três deles encarnam especialmente certas masculinidades clássicas. Pescador casado, quase-pai (Miguel); homem do campo, seco e ríspido (Ennis); bandido ex-presidiário, fugitivo (Nene). Os correspondentes parceiros ou aderem à paternidade familiar e à relação monogâmica heterossexual de modo opaco (Jack), ou habitam um mundo esquizo, mentalmente esfumaçado por drogas e vozes inauditas (Angel), ou são artistas-pintores exilados, solitários, cujos laços com a urbanidade ocidental foram rompidos (Santiago). Nas três duplas, um polo encarna regras tradicionais do ser-homem, com toda sua disciplina espartana, linguagem árida e econômica, peles casca-grossa; o outro polo orbita aí como um resíduo deste homem-tradição, como um produto desencaixado, como um pedaço de terra à deriva, e às vezes em estado de revolta, deste imenso continente-homem. As três duplas negam o tropos da inversão, que faz novena ao mito de que um homem, quando ama outro homem, só pode ser uma mulher por dentro; que em uma relação entre dois homens, haverá sempre um mais feminino, que dará o cu para e que chupará rola do outro, que por sua vez ocupará o lugar mais masculino. Não há sinais aparentes de tributo ao tropos da inversão nessas três histórias, nessas três duplas. Talvez o mais desafiador das histórias envolvendo esses seis homens é que são “homens que amam alguns outros homens” enquanto homens, sem recorrer tão facilmente à feminilidade para dar inteligibilidade às relações estabelecidas, aos desejos, às práticas sexuais e afetivas que ligam, articulam, implicam e aproximam esses seis homens em suas duplas. Precisamente por isso, há uma ode à masculinidade viril, à hombridade supostamente honrosa, que apagam quaisquer marcas de feminilidade dos seus corpos, de seus desejos, de suas histórias. Tratam-se de três histórias que emergem e se desenvolvem de maneiras masculinas, másculas: nas montanhas frias, em cabanas no campo, durante o pastoreio de inverno ou durante pescarias fortuitas; em séries de práticas ilegais e de contravenção, na fuga baratinada da força da Lei do Estado, na frequentação de cinemas pornôs e banheiros de pegação, no uso e no abuso de drogas; na lida cotidiana e diária da pescaria em alto mar, em um vilarejo cuja ordem dos gêneros estabelece que os homens se lançam ao mar e as mulheres guardam a terra. As três duplas vivem às turras com a heterossexualidade e com a heternorma. Mas também delas se ocupam e a elas servem: Ennis e Jack usam como desculpa para suas esposas a pescaria anual na montanha Brokeback para viverem dias de paixão intensa; Miguel encontra Santiago somente em praias desertas ou em casas abandonadas, e regozija quando consegue passear pelo vilarejo de mãos dadas com o parceiro, ou quando assiste à novela acompanhado da sua mulher grávida e do parceiro – mas apenas quando este se torna uma alma penada e invisível. Só Angel e Nene, os criminosos que já transgrediram tantas regras, parecem dar pouco valor à heteronorma: Letícia, apaixonada por Nene, oferece-lhe uma oportunidade de fugir de Montevidéo para o Brasil passando-se por sua namorada; os policiais aduaneiros estariam procurando por dois homens juntos e não por um casal heterossexual, seria fácil cruzar a fronteira de modo seguro e invisível. Nene expulsa Letícia e escolhe ficar com Angel, resistir ao cerco da polícia uruguaia, morrer ao lado do seu resgatador espiritual. Quanto mais criminoso e ilegal é o casal, mais profundamente éticos são os homens. A matriz homoerótica que liga essas histórias, contudo, institui um princípio de invisibilidade e discrição entre as duplas que negocia, em muito, com a virilidade masculina, conjurando o fantasma feminino. A virilidade desses homens é elemento constituinte da matriz homoerótica que dá consistência, sabor e cheiro, aos corpos e aos rostos dos “homens que amam alguns outros homens”. São seis homens másculos, fortes, magros, brancos. Que desejo nosso as histórias desses homens realizam? Que estranha força tem a matriz homoerótica dessas histórias, desses corpos, a ponto de nos tirar noites de sono?

O resgate de si e do outro

O primeiro desses filmes a que assisti foi Plata Quemada, na Casa de Cultura Mario Quintana, pelos idos de 2000. O filme me mobilizou a ponto de assisti-lo 3 vezes, em dias consecutivos, exigindo que eu faltasse aulas para ir às sessões. Eu tinha 17 anos. A intervenção do filme em mim não foi amadurecida muito além da lembrança bastante firme das cenas de sexo e carícias entre Angel e Nene. Quando comprei meu primeiro aparelho DVD, uma das minhas primeiras aquisições foi justamente o filme Plata Quemada. Desde então me ponho a vê-lo sempre que quero, e com o passar dos anos o meu querer diminuiu consideravelmente. É um filme longo, e eu já conheço as falas de antemão. É um filme explícito em violência, uso de drogas, ilegalidade, roubo, traição, marginalidade, contravenção. Não é sempre que estou disponível a rever essa história que articula tão fortemente uma determinada experiência homoerótica àquilo que se considera ilegal e criminoso, moralmente reprovável. No entanto, essa articulação guarda em si aspectos éticos, quiçá de amor, que são opulentos. A cumplicidade entre Nene (frio e racional) e Angel (psicótico e impulsivo) é profundamente ética. Na sua fuga da polícia argentina por serem os autores do “assalto ao caminhão pagador”, ficam reclusos em um apartamento em ruínas de Montevidéo. Ao longo da fuga, Nene resgata Angel de ferimentos de bala, de overdoses de heroína, de tentativas de suicídio por afogamento; Angel, por sua vez, resgata Nene apenas nas últimas cenas do filme, quando este é baleado mortalmente durante o cerco ao apartamento onde se escondiam da polícia uruguaia. E trata-se de um resgate absolutamente espiritual, quando ambos sabem que suas vidas estão no fim. O nome deste homem, Angel, é um anúncio literal não só da sua função como resgatador de Nene perto do fim da vida como também um emblema de remissão mediante o amor, ou mediante o cumprimento do compromisso ético que liga esses dois homens. Em pouco difere a relação que Miguel estabelece com Santiago depois de sua morte. Miguel celebra funerais aos mortos, dedicando seus corpos ao mar por meio de um ritual que inclui carregar os mortos em seus ombros, deitados em uma esteira de taquaras e enrolados em panos simples, leva-los até um barco, dizer palavras de encomendação e lançá-los em alto mar. É precisamente desse ritual que a alma de Santiago precisa para ir embora da terra. Santiago “assombra” Miguel, que se satisfaz inclusive sexualmente do espírito vagante e invisível do parceiro, desejando que assim fosse até o final dos dias. É estarrecedor o egocentrismo de Miguel, que deseja que a alma invisível de Santiago permaneça presa à terra unicamente porque assim Miguel (pescador, marido, pai-de-família) despreocupar-se-ia em ser pego em romance com outro homem. É também deste egocentrismo macabro do qual Santiago precisa resgatar Miguel, ou melhor, do qual o próprio Miguel precisa resgatar-se por meio da prática do ritual fúnebre de entrega, dedicação e oferecimento do corpo de Santiago ao mar. Mesmo tendo encontrado o corpo morto de Santiago, Miguel amarra-o às pedras embaixo d’água para aproveitar um pouco mais sua assombração, a companhia do parceiro morto. As correntes, ou contracorrentes, marinhas traem Miguel e deslocam o corpo morto de Santiago, que é achado pelos outros pescadores do vilarejo e é escondido de Miguel. Afinal, Santiago manchara (punha em dúvida) o pescador-marido-pai-de-família, e de Miguel até mesmo o corpo em avançado estado de decomposição precisava ser afastado. Miguel descobre o corpo e aceita ritualizá-lo publicamente. Uma das consequências disso é a perda da mulher e do filho, que o deixam. Mas outra consequência da tomada de responsabilidade pelo ritual fúnebre do parceiro morto é a superação do seu egocentrismo macabro, liberando a alma de Santiago, além da assunção do resgate da sua honra ética para com Santiago – honra de sua relação, de suas pinturas, dos dias de sexo na praia, dos beijos, dos desejos. É-me difícil, contudo, pensar em resgate de qualquer ordem quando se trata de Brokeback Mountain. Talvez seja esta uma das razões pelas quais me pareça que esse é a mais triste e sombria das três histórias, mais ainda que Plata Quemada. Também não amadureci os motivos que me levaram a assistir ao filme oito (8 = o-i-t-o) vezes no cinema, duas vezes num só dia. É provável que eu tenha me fascinado, e me torturado, com a impossibilidade do resgate de Ennis e de Jack – a impossibilidade de resgatar aquela relação, aquele desejo, aquele laço ético que os unia. Quando Ennis tenta reclamar a presença de Jack e liga para sua casa, sua mulher lhe dá a notícia de que Jack morreu. A sequência de cenas nesse trecho do filme é intrigante e misteriosa: enquanto a viúva narra, emocionada, uma simples troca de pneu de carro que acabou com a borracha estourando no rosto de Jack, o que teria provocado sua morte, alternam-se imagens de outro possível desfecho para a vida de Jack, que sugere explicitamente o assassinato por crime de ódio. Não se sabe se as cenas do assassinato são uma alucinação de Ennis, ou são aquilo que a viúva tenta esconder ao contar a história oficial da morte do marido. Talvez, e somente talvez, haveria a possibilidade de pensar em um resgate – em um arremedo de resgate – para Ennis no movimento que ele faz de ir à casa dos pais de Jack e apresentar-se. O pai de Jack estranha Ennis, lhe torce o nariz e o bigode; a mãe, por outro lado, mostra-lhe o quarto do filho morto, onde Ennis encontra a camisa xadrez ensanguentada que o ex-parceiro guardou até morrer e que era o emblema do laço entre esses dois homens que se amavam. O filme termina com a imagem da camisa xadrez de Jack dentro do roupeiro de Ennis, que acaba vivendo em um trailler, nômade, sem mulher e sem suas filhas. Para Ennis, a única âncora, o único resgate é a camisa xadrez ensanguentada do parceiro morto. Há resgate, de si e do outro, sem a morte?

Alucinando para viver

Dá-me pruridos pensar em “amor” nas três histórias. Prefiro “ética”, “amizade”, aliados a “laço homoerótico”. Sinto que “amor”, nessas três histórias, serve quase como que um álcool-gel antisséptico que purifica uma relação proibida, abjeta – a relação entre homens. “Amor” nessas três histórias também funciona na direção de ocultar o “tesão”, a “pica dura”, os corpos eletrizados pelo contato da derme e pelo esgarçamento dos orifícios. O “amor” que Ennis sente por Jack, que Miguel sente por Santiago e que Angel sente por Nene não significa a remissão de seus pecados. Angel, o anjo resgatador de Nene, não pode redimir os pecados do parceiro, nem os seus próprios, pois são muitos e demasiado pesados. Talvez não seja difícil imaginar, nessa direção, as razões que fazem com que Angel deixe de trepar com Nene para “guardar o leite, o leite sagrado”. O esperma guardado talvez fosse, para o psicótico Angel, a única pureza que lhe restava. Não há economia de esperma em Contracorriente nem em Brokeback Mountain: Miguel é pai; Ennis e Jack também. Aí o esperma tem dupla função política, a de reprodução e a de satisfação dos desejos. Por mais que Santiago, em Contracorriente, não tenha descendentes graças à utilização reprodutiva de seu sêmen, mesmo assim ele não o retém, nem o poupa: espalha-o pelas ondas do mar até mesmo depois de morto, trepando muito com Miguel. As alucinações desses seis “homens que amam alguns outros homens” sinalizam algo, que ainda me foge. Angel ouve vozes, que o torturam e o obrigam a economizar sua própria porra, e Nene também alucina graças ao uso de álcool e drogas; Ennis alucina, talvez, uma outra morte para Jack, diferente da oficial que a viúva lhe conta, além de entregar-se à paranoia persecutória da saída do armário ao longo de toda a narrativa – o medo de ser pego com outro homem. De igual paranoia sofre Miguel, além de ser o único que “vê” a alma de Santiago, o que pode facilmente ser descrito como uma forma de alucinação psicótica. Porém, Miguel talvez seja o único desses homens que amadurece sua própria psicose, aceitando-a e incorporando-a como um realismo fantástico em sua própria existência. Depois de ritualizar o corpo morto de Santiago, Miguel vai de barco para alto mar, abraça-o e lança-o na água, dedicando-o ao infinito. Neste momento a alma de Santiago faz uma carícia no rosto de Miguel e o beija, aceitando deixar o mundo dos vivos e o parceiro. Miguel, por sua vez, ao cumprir publicamente o ritual fúnebre daquele “homem que amou”, deixa de negar sua relação homoerótica, deixa de esconder o laço ético que o liga à memória de Santiago perante os demais pescadores e moradores/as do vilarejo. Santiago parte para o mundo dos mortos, mas é imediatamente reinserido no mundo dos vivos ao ocupar publicamente seu lugar na vida e na história de Miguel. As alucinações, nas três histórias, servem para algo. Não são necessariamente um obstáculo, pois para Miguel foi precisamente o trampolim para a responsabilização ética acerca do que sentia por Santiago. As alucinações podem dar densidade aos corpos, como acontece com Nene e Angel: corpos densos de drogas injetáveis e aspiráveis, deglutíveis, mergulhados em porra; as alucinações podem sugerir respostas que justificam a perda irremediável do parceiro, como acontece para Ennis. Sem alucinar, não lidamos com a concretude crua disso que chamamos vida e disso que chamamos amor – “amor”, aliás, que no mais das vezes é em si mesmo a psicose preferida de todos nós.

A água e os corpos

Os corpos dos seis homens são lancinantes: doem de tão belos. Provavelmente uma das fortes razões pelas quais as histórias ardem tanto mesmo depois dos filmes terem acabado. Entretanto, embora marcados a ferro e a fogo pela masculinidade viril que lhes dá consistência, sabor e cheiro, esses corpos de homens são também perfurados por seringas, por tiros a bala, por socos, por pênis, por álcool e outras drogas. São corpos densos, espessos, de prazer e de dor. São corpos que fascinam, a tal ponto de Santiago retratar o corpo nu de Miguel em várias, dezenas de ilustrações. São corpos que desejam, a ponto de Jack pegar a caminhonete e cruzar a fronteira dos EUA em direção ao México para embrenhar-se em um beco escuro junto de outro homem. São corpos que matam e que se matam, a tal ponto de Angel tentar suicídio duas vezes e matar dezenas de policiais. A água serve de contexto para esses corpos densos e espessos: Miguel e Santiago trepam na areia, banhados pelas ondas, bem como é a água que tira a vida de Santiago e que, igualmente, restitui a responsabilidade ética de Miguel; é durante uma tempestade de Angel é baleado, e que Nene o socorre, bem como é lançando-se ao mar que Angel tenta se matar, e Nene o resgata. Onde menos há água é em Brokeback Mountain, apesar de os parceiros pescarem anualmente em um rio próximo à tal montanha como pretexto para dias de intensa interpenetração passional. A relação entre os dois cowboys é feita de pedra, rocha e neve; porém, quis o destino, ou um roteirista pouco brilhante, que o sobrenome de Ennis fosse “Del Mar”. A água, no saber astrológico, é puro sentimento, intuição, entrega, mistério; é também um elemento fundamentalmente feminino. Estaríamos, então, diante de uma representação arquetípica do feminino como o pano de fundo para amores tão viris? Improdutivo responder. Há algo, entretanto, sobre o qual me fascina pensar: esses corpos tão lancinantemente belos, belos de doer, decompõem-se a galope na água. Toda a virilidade, beleza, densidade e espessura se desfazem no corpo morto debaixo d’água. A água reclama para si a beleza e virilidade desses corpos, e o emblema máximo disso é quando Miguel entra a sala onde jaz o corpo morto, e em avançado estado de decomposição, de Santiago. Ele quase não suporta o cheiro da carne morta do parceiro e põe um lenço no nariz. Aproxima-se. O corpo de Santiago está coberto por papéis de jornal. Ele levanta o papel que cobre o rosto de Santiago. Pelo seu olhar, é possível sugerir que aquele rosto que Miguel conheceu, que amou, que desejou e que beijou, não estava mais lá. No corpo morto de Santiago existia, então, um rosto-monstro, o rosto da morte, do corpo reclamado pela água. Gosto (na verdade, detesto) de pensar nisto: toda a beleza, virilidade, densidade e espessura das quais se vangloriam muitos homens másculos que amam alguns outros homens másculos terão um dia um só rosto: o da morte.

As mulheres que amavam os homens

Quem são as mulheres nessas histórias? São geralmente traídas, raivosas, cínicas, periféricas, reprodutoras, traidoras, delatoras, mentirosas. Mesmo quando íntegras, elas abandonam os homens que amavam, mas que amavam alguns outros homens. São mulheres que não participam da Terra de Marlboro. Quando participam, atrapalham. Salvo duas exceções: a filha de Ennis, em Brokeback Mountain, que na última sequência de cenas o visita em seu trailer e reivindica participação na sua vida, positivando uma relação que, se dependesse do pai, estava fadada ao fracasso (como todas suas escolhas envolvendo sua relação com Jack); e, em Contracorriente, uma moradora do vilarejo onde Miguel mora que, de fofoqueira, passa a ser sua aliada na recuperação ética de sua honra junto à memória de Santiago ao contar para o pescador que o corpo morto do parceiro fora encontrado e que era mantido escondido dele. A filha de Ennis mostra que é possível um recomeço afetivo; a moradora do vilarejo mostra que é possível um resgate ético. A história das mulheres que amavam homens que não as amavam está para ser contada.

A morte como coroa

[.... ainda por vir, com mais fôlego.]

A ação Indedicatóra

Verdejantes, 02 de janeiro de 2015.

Prezados Senhores,
Presas Mulheres,
Prendidas Crianças,

Que houvesse ao menos um, Senhores, porém não.
Que houvesse de dois a quatro.

Nunca houve dedicação antes por estas minhas terras. E agora escrevem meu nome já nas primeiras páginas de um romance. Enganosa impressão, essa que fica, na folha e entre os leitores, de que eu me espalharei pelas páginas. Não sou coisa que se dilua em 200 folhas frente-e-verso. Concentro-me nos dedos a digitar por dias e meses. Saio em palavras quando bem entendo. Ao contrário das Senhoras, presas, e dos Senhores de igual mente, não sou protagonista. Bovary, Karenina: não. Sou um leitor em ação, em dedicação.

Por entre a virada das folhas de papel havia um veneno. É por causa dele que Vos escrevo - especialmente Vós, Prendidas Crianças. O veneno corrói os olhos de quem o lê, a pele dos dedos de quem vira as páginas. Polui a mente de quem chega a saber do romance, do seu título, da sua coisa toda interna. Não deem a Vossas Crianças um ai que sirva em seus cadeados. Não lhes sirvam comida às asas, às coisas emigratórias. Observem bem e controlem, por onde o veneno escorre. Corre-se o risco de que Mulheres, Crianças e Senhores não saibam mais, sob o efeito do veneno, se são presos, prezas, prisioneiros. Cuidai de Vossas Crianças; elas sabem demasiado o que fazem.

Ademais, certifico-me de rubricar cada página frente-e-verso.

Certo de sua Ciência, e desejando dedicações futuras nas quais eu possa me espelhar, dedico dedos introdutórios para próstatas ingênuas, leitoras do romance.

Cordeiramente,
O Dedicado.
Eu não suporto mais a minha própria voz dizendo que não dá = coisas de neurótico. A bunda assentada na cadeira Tok&Stok, bem confortável, bem murcha. Eu não consigo prever o que eles querem = eles, essa legião que me consome. O exército que me suga. Desisto do nome, dessa "              " que me vem. Não adianta recheá-la com músicas acústicas ou com fatias de filé mignon = que armadilha terrível. Não adianta baixar a cortina, não adianta fingir que não vê, não adianta molhar as plantas na sacadas fingindo estar despretensiosamente ali bonito. A beleza jamais te visitou. A que isso vai esconder: qualquer ferida ou rasgo? Desfaz-se neste momento a cadeia nacional de ódio e vergonha. De que adianta, me diz, pra onde vamos? Pra onde vai a superfície da pele que gruda nos músculos, transparente? Pra onde vão os músculos? Esta é uma pergunta minha, mas que também pode ser tua e nossa. Nossa pergunta, algo que compartilhamos: o que fazemos quando somos recusados? Minha história inteira, a dobra lisa de minha pele, e todos os pelos e os dentes, a história dos meus dentes, das coisas feias entrementes, o pelo nascido e inocente de qualquer esporro, o próprio pênis inocente. Haverá pênis inocente de qualquer coisa neste mundo? Não dá = há coisas que voltam. A pele descascando. A escolha errada no xingamento = um xingamento errado, eticamente deslocado. Pele mole, dobras cutâneas. Flacidez. O destino, meu destino, que não desvia um milímetro de todo o erro que ele me guardou. O fundo do copo me guardou uma frase ou sentença, uma oração = nos dois sentidos. Parte de mim me anima, e quer ver aquilo que realmente há borbulhando na pele e nos pelos, por entre as placas do crânio. Nada é reluzente. Os desenhos, as imagens, os movimentos inibem tudo o que exite por entre pintas marrons, as veias saltadas. Nunca haverá VOCÊ. VOCÊ é uma farsa, nunca se teve notícia boa ou má, ou regojizante de VOCÊ. VOCÊ não veio, não virá, não passou em pretas nuvens. VOCÊ não fez tempestade na minha vida. E ainda sim cava um buraco em mim, em espiral, buraco cretino. VOCÊ = cretino. VOCÊ = que labirinto há cuja saída é íntegra? V               Ê. Saudade.
São, na verdade, as palavras em guerra. Aquilo que qualquer um de nós reconheceria como um insulto, uma agressão. Um dedo apontado em riste para o teu rosto. O dedo em riste para o rosto pode ser também o pênis ereto para a boca. É por isso que soa tão ultrajante; é por isso que soa tão potente. Gritos ecoando da boca. Sons estremecendo nos lábios. De onde toda a beirada das palavras guerreia: minha nova diretriz é manter-me firme na palavra. Não naquilo que a palavra diz, mas naquilo que pode dizer, no efeito da sílaba, no eco. Há debochados chamando-me de Nossa Senhora das Flores. É esta a beirada: de ser um insulto e também uma obra, uma arte, uma experiência literária. Uma guerra da qual sempre se sai perdendo, mesmo sendo o melhor no front. A palavra sempre vai embora da guerra, depois de iniciada. E ficamos nós implicados em saber sobre quem a palavra dizia. A palavra nunca tem compromisso com a guerra. Mas o que fica, então, depois de dita a palavra em guerra? Ficamos nós inteiros, nossa coisa mole interna, a parte de dentro da nossa pele, e também sua superfície. O corpo fica em guerra, os lábios, mesmo depois de proferir a palavra. "O dia do fracasso geral" dito no espelho: eu nunca fui tão fundo no caráter sanguíneo da guerra. Nunca fui tão consciente naquilo que cada uma delas poderia dizer, grudado na sua beirada no front de batalha. O espelho respondeu: "Mais um dia do fracasso", na voz de uma mulher. O limiar, a franja da guerra: eu invertido. Palavras morrem no front, nas trincheiras. O corpo continua agonizando, à espera de outra palavra. E sempre vem outra para recomeçar, para relançar um pouco mais adiante a granada que explodirá na próxima palavra, dita pelo outro. Passo os dedos pela pele, sinto os pelos, a camada morta. A pele morta é mais densa. Reconheço-me na busca pela morte, no desejo de ir embora do mundo - algo banal, já-dito - "reconheço que quero morrer". As palavras saem trépidas dos lábios, com granadas, as palavras ditas no espelho. Mas lá na superfície do espelho tocam e reverberam, sem nenhuma reflexão: guerreiam, as palavras recém ditas, e como todos que se postam frente ao espelho, atravessam-no e tornam-se o seu avesso, a sua inversão, a sua antítese.
o problema do meu escritório é o meu vizinho.

Desculpe, eu não entendi.

o problema do meu escritório é o meu vizinho. o vizinho do sétimo andar do bloco h. é horrível pra mim, não consigo me concentrar no meu trabalho, nos meus estudos, nas coisas que tenho para fazer. simplesmente não consigo.

Por quê?

todos os vazamentos do apartamento dele dão pra janela do meu escritório. todas as entradas do apartamento dele estão viradas para minha janela, menos a porta principal, que obviamente comunica com o corredor interno do prédio.

Vazamentos?

sim. a sacada, a imensa janela da sacada, a porta da área de serviço, a janela de um quarto, de outro quarto e do banheiro. todas as aberturas, as linhas pontilhadas que conectam onde ele mora com o resto do mundo dão direto pra minha janela! [as mãos, em forma de garra, agarram os joelhos.] qualquer movimento que vem de lá, qualquer coisa me assusta, captura meu olhar, me chicoteia e dói em mim.

E por que isso te deixa tão nervoso?

porque ele é lindo. eu já o vi na academia do condomínio, já o vi circulando sem camisa na sacada. lindo.

[Silêncio.]

ontem eu ouvi a voz dele. foi desesperador. [apoia a testa em uma das mãos, fecha os olhos.] ele pediu ao vizinho de baixo que deixasse para outro momento do dia a serragem de canos, pois tentava estudar e não conseguia por causa do barulho. puxou mais alguma conversa sobre o tempo, falaram alguma coisa sobre uma ambulância. [abre os olhos e mira pela janela pássaros que voam.] isso me debilitou. fiquei atordoado. a voz dele não saía dos meus ouvidos. o cabelo pendendo sobre o rosto. o corpo alto e esguio que cabe em qualquer calça, em qualquer cueca, com a mesma graça.

É a beleza dele que te perturba?

é a minha falta de beleza que me perturba. ele só é a coisa mais cintilante próxima de mim que me mostra que eu jamais serei assim, nem nunca fui.

[Silêncio.]

eu já desisti, nessa vida.

Eu discordo.

Ahn?

Eu discordo. Eu não acho que tu já desistiu. Pelo contrário, eu acho que tu continua tentando. Por isso que teu vizinho te perturba tanto.

não. acabou. o vizinho é a prova de que não há esperança pra mim.

O vizinho é a prova de que tu tá vivo e continua tentando.

eu nunca vou ser bonito, nunca vou ter aquele corpo.

Eu não estou falando de beleza, nem de corpo.

Tá falando de que, então?

De vida, de esperança. Foram as palavras que tu mesmo acabou de usar.

[silêncio.]

Talvez fosse o caso de des-insistir em vez de desistir.
Olá.

oi.

Como está?

incomodado. com um monte de coisa, com um monte de gente.

Começa por alguma coisa, por alguma gente.

hoje saí de casa pra ir pro trabalho e vi que minha vizinha deixa os sapatos do lado de fora da porta, no corredor. é revoltante.

Na área comum do prédio, tu quer dizer?

é. vê se pode.

Não dá pra conversar sobre isso com ela ou com a pessoa que é síndica no teu condomínio?

e dizer o quê? "olha, essa mulher aí é louca, põe pra fora o que deveria por pra dentro." as normas do condomínio não dizem nada sobre sapatos no batente da porta.

Entendo. Então a questão é que há algo pra fora que deveria estar pra dentro.

claro. pra mim é a mesma coisa que cagar de porta aberta com visita em casa.

[Silêncio]

[olha pela janela] são pessoas feias, fascistas, eu to cansando. em um programa de tv, um alto empresário disse que um grande sonho da vida dele é chegar aos cem anos de idade, o imbecil. milionário, lindo, com um pau imenso, realmente essa vida e esse mundo devem ser uma experiência e um lugar do qual não se quer ir embora, que não se quer perder. eu quero morrer aos sessenta.

[Silêncio]

há um sentimento recorrente em mim.

Qual?

quando eu saio do trabalho, eu geralmente avisto a parada do ônibus desde muito longe. e vou caminhando até lá. desde muito longe eu vejo lá parado meu ônibus, o ônibus que passa na minha casa. eu fico ansioso, tento caminhar mais rápido, às vezes chego a correr pra poder chegar a tempo de pegá-lo. nunca dá. é esse o sentimento que volta, sempre: de enxergar, esforçar-me e perder.

Não há outro ônibus em um horário em seguida?

mas não interessa o horário do ônibus. interessa que eu o perco.

Não interessa perder o ônibus se este não é o único.
[olha para as unhas, em silêncio]

No que tu tá pensando?


[pousa uma mão sobre a outra] vi um trecho de um filme hoje, logo quando acordei. eu estava um pouco sonolento, talvez ainda sonhando. mas fiquei bastante impressionado com o que eu vi, ou com o que eu pensei ter visto na cena. fiquei perturbado.

Como era a cena?

uma mãe precisa abandonar o filho porque assassinos querem matá-lo. ela precisa escondê-lo dos assassinos. ela deixa o filho, que é pouco mais que um bebê, dentro de uma cesta, em uma carroça. na cena, dá pra ver a criança refletida na íris, na pupila da mãe. eu, espectador do filme, vi a criança por meio do reflexo dos olhos da mãe. a mãe olhava diretamente pra mim, na tv. mas não era eu refletido nos olhos dela: era a criança prestes a ser abandonada. em seguida, a mãe sai correndo e chama a atenção dos assassinos para si. é um modo de despitá-los.

Tu te sentes abandonado?

eu me sinto abandonando. é isso, um movimento contínuo, um fazer perpétuo do abandono. eu abandonando as pessoas, o mundo. é como se o meu reflexo nos olhos dos outros fosse sempre aquele, de quem está sendo deixado.

[Silêncio.] Qual era o filme?

kung fu panda.

[Risos.] Eu imaginava que fosse um filme de guerra, ou algo assim...

não. é um desenho animado, bastante frugal, bastante simplório. mas as coisas aderem na gente, grudam de alguma maneira. podem vir da coisa mais idiota, mas entram. é quase como a agulha do soro, intravenosa.

Uma agulha?

sim. há cenas, há palavras que são intravenosas. eu, que estava diante da mãe, não estava refletido no olhar dela. ou deveria estar?

Talv[...]

é a mesma coisa quando assisto a um filme pornô. [silêncio.] me excito assistindo a filmes pornôs em que há uma mulher e dois, ou mais homens. me excito quando eles se encostam, se tocam, na ânsia de penetrar a mulher. me excito quando o olhar dos homens desliza e, mesmo que por um segundo e mesmo que o alvo seja o rosto da mulher, encontra o pau ou a bunda do outro.

Onde tu está nesse jogo de olhares, então?

em nenhuma parte. [volta a olhar as unhas.] em lugar nenhum. há corpos que não são olhados, não têm o direito de ser olhados. ninguém olha pra mim. e quando olham, como a mãe do filme, não sou eu lá no olho dela.

Tu acha que ninguém te olha?

acho. eu lembro que tinha uma época em que eu ficava muito em casa. dias sem sair de casa, três ou quatro dias sem falar com ninguém. daí chegava o momento em que eu precisava de pão, água. eu ia ao supermercado e jogava o carrinho de compras contra as pessoas, contra os carrinhos delas. forçava uma colisão. pra eu ter certeza de existir, de que eu não tinha morrido ainda. pra mostrar pras pessoas que eu estava ali.

E alguém te olhava?

não lembro. não me recordo de alguém ter me olhado. só lembro do gesto, da atitude, da técnica. colidir com os outros.

Hoje tu continua colidindo com as pessoas pra ter certeza de existir?

não. hoje eu falo palavras intravenosas pras pessoas. palavras que grudam, que entram na jugular. falo coisas feias, coisas podres, que rasgam as artérias dos outros. ou assim eu desejo.

Talvez seja por isso que tu sente que está sempre sendo deixado.

por quê? porque eu sou insuportável?

Sim. Se tu diz coisas feias e podres pros outros com o intuito de rasgar suas artérias, é possível que ninguém queira ficar perto de ti.

de um modo ou de outro, eu consigo confirmar minha existência. existo tanto, tanto, mas tanto, que ninguém me suporta.
O céu do sul é menor que o céu do centro.


Do centro?


É. Do planalto central.


Em que sentido?


Lá é maior, mas largo. A embocadura, o gargalo... mais amplo. Sabes? Vemos grandes distâncias de qualquer ponto. Tudo muito plano, tudo muito alto. Vemos longe.


Aqui tu vês curto, vês pouco?


Vejo muito, mas tudo muito fragmentado, de uma forma entrecortada. As montanhas, as pessoas, tudo muito reunido e agrupado. A vista não comporta ver tanto. A montanha impede que se veja o horizonte.

Mas a montanha pode ser, ela própria, um horizonte.


Sim, é verdade. Mas ela fica próxima demais da vista. É isto: lá no centro é plano, aqui não. Então, lá dá pra ver mais longe, e o céu encontra a terra sempre bem longe da vista. Aqui não: o céu encontra a terra quase em todo lugar, bem no nosso nariz. No nariz de todas as pessoas, agrupadas, reunidas.


Tu desejas separar as pessoas?


Não. Cada uma tem o céu e o nariz que merece.


[silêncio] E qual o céu que tu mereces?


[silêncio] Eu aprendi a amar o céu do centro. O sol do centro. O sol do centro demorava mais tempo para sair da terra e para encontrá-la novamente. Caminho difícil, de muita paciência. É lindo, lindo.


É o céu do centro que tu mereces?


Nenhum céu. Não havia nada, nenhum céu, nenhum sol. Nada lá no início, antes, bem antes. Não havia essa luz, esse brilho. Sabe? Era opaco, um pouco morno. Não tinha essa força.


Início de quê?


Da dor.


[Silêncio.] Qual dor?


De manter-se em pé. De andar. Não tinha essa dor, não tinha esse céu, nem o sol.


A dor veio junto com a força e com o brilho?


Veio, claro. A dor trouxe a força. Banhou de brilho. Um sol radiante percorrendo um céu glorioso.


Tu não conseguia te manter de pé nem andar por causa da dor.


Sim. Era uma dor paralisante.


Não entendo como essa dor paralisante trouxe brilho, força... e céu... e sol...?


Nem eu. Mas eu fui descobrindo o quanto tudo brilhava justamente porque engatinhei, andei de quatro. Tudo brilha rente ao chão. A força que a dor trouxe veio para me distanciar do chão, pra me erguer, pra colocar um pé depois do outro e pra equilibrar. Todos os dedos dos pés, os músculos e os nervos precisam de orquestra, de regência, de maestro. É uma verdadeira sinfonia, uma ópera em vários atos. Se eu hoje consigo me pôr de pé e andar, como eu não conseguia antes, eu sou o sol. Eu, sendo sol, percorro o céu, eu abraço o céu.


Mas então a dor não era tão paralisante assim.


Era inabilitante. Roubava minhas habilidades.


[Silêncio.] Então tu mereces um céu glorioso, já que és um sol radiante.


Sim, mereço. Porque toda abóboda celeste um dia cai e se estilhaça.


E o sol?


O sol é justamente o furo, o espaço vazio. Um buraco esplendoroso.


O sol não é um elemento do céu?


Não. O sol é uma passagem, uma conexão.


Com o quê?


[silêncio.] Eu não sei. Porque quem vai para além do céu só passa por mim sem deixar nada. Não manda lembranças, nem recados. Só passa, atravessa o céu, desaparece. Eu sou essa lacuna, esse vacúolo. Eu sou o sol que brilha o vácuo, que irradia o oco.
falando em repetição, há uma música na minha cabeça faz meses. "o homem caminha só na estação / vindo de todo trem, de todo o lugar". ela repete toda entrecortada, versos aqui e ali. vem toda quebrada: em alguns momentos uns trechos sobrepõem-se aos outros, ou ganham mais rouquidão. repete-se também a campainha de um telefone. "chega em casa e senta ao lado de um cara que não diz nada". repete-se: um alguém ao lado, vazio, esvaziado. só eu sei que ninguém fala comigo, ninguém mais. não digo nada. sou eu o cara que não diz nada, sou eu quem não responde. "e pergunta pra ele / e pergunta sem parar: que lugar é esse?". pura feiúra. nenhum lugar é mais vazio que o meu. coisinhas feias deste mundo vieram me sugar ontem à noite. drenaram-me. tem um telefone tocando, mas eu não respondo. não há repetição quando não há fala, quando não há o que falar para repetir.
é verdade, repito sempre "coisas imensas", "vácuos imóveis e permanentes", "faltas cujas bordas avançam, fazendo faltar a falta", "ulceração nômade". sim, eu repito tudo isso e outras coisas mais. repito também que o corpo avoluma-se demasiado no olhar, na mão, e que há de ir embora em algum momento. ainda bem que esta porra toda há de acabar. não adianta, portanto, desviar-se. já ali mais adiante estará o "vácuo imóvel" a me fitar. então repito, repito mesmo, como um refrão: não custa lembrar-me do corpo que não é novo nem belo mas que é a medida do meu ser. custa. custa montantes "imensos" de energia lembrar-me. vasculhar tudo e trazer à tona o que há de mais reincidente. custa. demora para conseguir um êxito por dia. abrir os olhos não conta; custa.
Eu me mato por todos os silêncios. Sim, haveria a condolência e a vergonha, a vergonha alheia, o desprezo, e a inocência de não saber que te requisitam. Mas nenhum seria tão pesado quanto o olhar que tu de mim desvias, que tu de mim bifurcas, que tu de mim separas. Escansão. O olhar articulado ao silêncio é a pior experiência, a pior prospecção. Um negar que envolve o corpo todo: a boca, os braços, os pés que vão embora. Até chegar aí, que estrada longa não trilhou? Não sou só eu, é um bando de gente. Não me mato por eles e elas, pois não sou mártir. Mato-me pelo silêncio, que é imbatível e coletivo.
“As dobras do corpo já não são mais as mesmas”, ele pensou. Estão mais curvas, mais arredondadas, mas flácidas. “Algum dia forma diferentes?” Viu com certa resignação a impossibilidade de alcançar com a mão e o sabonete porções das suas costas. “Permanecerão sujas.” Os pés mais secos, a pele do rosto mais esburacada. “Estou inchado debaixo dos olhos, e as pálpebras estão caindo.” Quando criança, ouvira sua mãe uma vez dizer a uma tia que, de acordo com o mais recente sermão do padre, era um pecado soterrar talentos. Um pecado. Havia quanto tempo que ele não entrava numa igreja? “Há pouco mais de um mês!” Surpreendeu-se. E não fora um momento de pânico no qual precisara pedir, requisitar, demandar. Fora apenas para agradecer. “Os bancos frios e duros da igreja, quando eu era criança... Eu ajoelhado; os joelhos doíam.” Solicitações e regozijos. Tudo mais ou menos enterrado naquele corpo. A lucidez à míngua, o ocaso de qualquer prega com o real, com o concreto. Desajoelhando-se do mundo. “Vou-me perdendo e me separando, escorregando para fora.” A água ainda caia, quente. Perguntou-se acerca dos dias inteiros e ininterruptos que simplesmente não saía de casa: era justo consigo? Acasulando-se, enovelando-se, rodopiando-se como um pião nos fios longos da recusa a qualquer contato. “Acabo estranhando gente, a gente toda, quando elas falam e quando elas caminham; me perturbam.” O mais perto que chegava das fronteiras rente à gente toda era na sua sacada, imensa, cortada por um horizonte impressionante a perder de vista. Da sacada via a tempestade chegar em nuvens de chumbo, e o sol, e o vento, e a abóboda celeste inteira alegrando-se com o coaxar dos sapos. “As noites são ao menos felizes.” E escuras. Nunca dormira em um quarto mais escuro antes. Com medo da escuridão – não o medo infantil, mas o medo adulto, o medo de não acordar nunca mais –, experimentou deixar a porta do quarto e a cortina da janela da sacada abertas durante a noite. Já não haveria o perigo de dormir para sempre. “Hei de me despertar com a luz do dia.” Passou, então, a tomar remédios para dormir. Pois não podia pegar no sono com tamanha claridade vinda da rua, dos postes, das outras casas – eventualmente, da lua. “Pois há luz ofuscante até nas minhas noites felizes!” Tomava dois comprimidos de relaxante muscular, quando meio era suficiente, dado seu peso. Era um modo de adensar as paredes, finas demais em sua opinião, que o separava dos vizinhos. Todas as manhãs a vizinha de cima acordava às oito e punha-se a tossir; não raro, o casal do apartamento ao lado fazia sexo com trilha sonora da cantora Enya. Ele sobressaltava na cama. Culpava-se pelo cigarro e culpava-se pela solidão. Fantasiava acabar seus dias em uma maca de hospital público esquecida em um corredor lotado, já velho e sem forças, sem dentes, pendurado a um soro pingando lentamente e a uma sonda cuja cânula jamais era trocada. Ninguém o tiraria dali, nem o visitaria. “Vou ficar pra sempre solteiro mesmo...” Culpava-se por não fazer sexo com trilha sonora da cantora Enya. Um pouco de tudo estava soterrado nele. Um imenso pecado, diria sua mãe.
Todas as coisas vão se perder.
Me perder.
Todas as coisas vão se perder de mim.
Perder.
As coisas minhas não são nada: minha calça, meu espelho, meu prato:
Nada meu.
Perdam-se.
Quero somente meu, minhas, eu.
Perdi.
Eu acho que sim.
Eu acho que decidirei ir embora - haverá tempo pra isso.
Sozinho consigo, ele pensou. Sozinho apenas com um sorriso, e o sorriso é sempre um companheiro. Sorrindo consigo, ele pensou, e sorrir é sempre uma dádiva. Pôde, enfim, dizer não a qualquer desatino do ego, a qualquer controle da martelada: o prego saliente é sempre alvo da primeira martelada: mas isso é pouco. Liga a geladeira. Ela refresca o que já haverá de comer e de dizer chega. Já diz, a geladeira, o que eu hei de comer e de recusar. O que eu posso ingerir. Voltando, então: é tudo belo. Tenho umas plantinhas crescendo na vertical da minha minha perede. Não consigo prever, agora, se elas resistirão: é preciso considerar que me sugam a vida, que me confiscam a vida. Uma piada mal feita, um riso, um olhar; um cigarro, uma long neck de Stella Artois; o tira-limo que uso em excesso e que que respiro profundamente quando limpo o box do banheiro: a vida que se extingue, que eu sei que vai embora ou que se diminui, que fica opaca, que vira a cara pro Sol e pra todo seu reflexo. É uma vida que esvai, que recusa e que renuncia. Não haveremos de dar ouvidos, em algum momento, para aqueles e aquelas que tiram suas próprias vidas? Que grito haverá de ter nas cordas vocais de quem esteve lá para ouvir e para resignar-se, para entender o motivo de quem não quer mais estar entre nós? Ir embora - da minha janta, da minha festa, do meu texto ou da minha palestra - jamais significa abandonar quem não quis estar conosco. Guardam um segredo, essas pessoas que recusaram o mundo tal como ele é: sua razão e seus motivos, sua lógica. Expresso simploriamente por meio de um ato (um tiro, um enforcamento, um carro jogado no poste, uma ingestão obtusa de medicamentos), há explícito em seu corpo e em sua feição tudo aquilo que escapa ao que consideramos justo: a beleza, a juventude, a alegria, a magreza e a riqueza. Jamais deixemos de explorar quem se mata. Não por razões necrófilas, mas por razões políticas. Quem se mata monta um quebra-cabeça, um código, uma chave, uma senha que nos diz da impossibilidade do mundo no qual vivemos. Escutemos seus gritos, ouçamos seus tiros, experimentemos suas químicas. O que temos, enfim, para aprender com quem vai embora por ofício, por decisão e por amor? Com quem recusa este mundo do modo como está? Com quem sente pena de nós por ficar?
Todas as coisas entre dois fiapos de nuvem ou entre dois tijolos: depende. O pote de café entre um pote de sal e outro de açúcar, que lugar é esse? Um mais pra lá do outro, assimétrico, me irrita, mas que lugar é esse? Entre um pote e outro, um lugar que me irrita. O lugar onde umas coisas entram mais que outras, umas pessoas cabem mais que outras: o lugar do cimento ou o lugar do céu. Irrita um espaço maior entre o pote de café e o pote de sal; um espaço menor entre o pote de café e o pote de açúcar. Todos cabem entre esses espaços, mas todos cabem mais entre uns que entre outros. Fim do dia de domingo, sol entre chuva, notícias de um suicídio. Houve aquele que não coube nem entre os potes de café e sal, tampouco entre os potes de café e açúcar. Houve aquele que achou um espaço acima, ou abaixo, dos potes. Houve aquele que recusou os potes e seus espaços entre um e outro. E foi embora. Cada início, cada começo: onde começam? Num piscar, num estalar, outra criança nasce no mundo. No mundo onde tudo cabe nos espaços entre três potes. A resposta à pergunta "que lugar é esse?" nunca acaba, nunca acha o ponto final que cada frase precisa ter para fazer sentido.  O início de uma criança no mundo nunca acaba: ela se pergunta "que lugar é esse?", e a resposta nunca termina. Ela seguirá se perguntando: "que lugar é esse entre os tijolos, entre os fiapos de nuvem?" Talvez haverá o sol brilhando entre os fiapos, ou talvez o cimento endurecido. Um sol brilhando assimétrico entre duas nuvens desproporcionais, que se movem. Talvez haverá dois tijolos simétricos, porém estancados no mundo, na coisa toda do mundo que gira e reverbera. Notícias de um suicídio não são animadoras, mas marcam o ponto final da resposta à pergunta "que lugar é esse?" Eu aposto em todas as crianças que nasceram durante esta escrita, aposto em todos os fiapos de nuvem e em todos os espaços entre eles: assimétricos, móveis e criativos.



Pequeno, eu diria. Ou muito mais. As forças e as cores. E as teclas, eu acho que haveria muito mais teclas se os computadores realmente dissessem quem somos. Lembro que quando eu morava no Canadá um roomate me disse: "Digitamos de acordo com os sons." Ele era taiwanês. Mas que sons compartilhamos com ele nesse exíguo espaço? Pequeno, eu diria.
*
Oh, coisa lá em cima (ou abaixo), não me deixe preso à circunscrição pouca de ser apenas isto que sou..
*
Um monte de coisinhas pularam na minha cabeça, e preciso acalmá-las.
*
O corpo todo e mais um pouco. E isso que me interessa. A força e a virtude, a lisura: a reentrância. O que não é óbvio. O que não é o brilho do chão, o que é o gosto amargo que sinto na boca. Opa: é o cigarro. Mas e isto, o cigarro: não é uma forma de potência? Eu assopro e eu expiro!
*
Um monte de coisinhas pularam, e eu disse: "Agora é hora de dormir.".
*
Pois foi quando tudo desmoronou e doeu, as costas e o nariz, e a dificuldade de saber que cada tecla era exatamente o que eu queria dizer. Ingênuo que eu sou.
*
"Dói mesmo", eu diria pro primeiro pequeno. "Dói". A coluna e a garganta.
Reler é um ofício obrigatório para quem sabe que escreve mais do que pensa ou para quem sabe que as palavras contêm em si um excesso, um excedente, um plus, um grito de significância que foge à grafia ou à vocalização. Reler é um exercício, um abdominal. Reler é tortura, uma agulha entre a unha e a carne dos dedos. Reler é colocar-se em frente a um espelho que não é imagético: é imag-ético. Reler é recompor aquela figura, recolocar-se naquela paisagem, restituir-se naquele cenário. Reler é o ato de maior humildade para quem se põe a escrever.
*
Durante um momento de recreação no parque, colocamos toalhas sobre a grama para sentarmos. Comíamos e bebíamos com crianças brincando ao nosso redor. Apoiei-me no chão, colocando a mão sobre uma das tolhas. Um bicho qualquer me picou ou me mordeu, mas não o vi, pois estava debaixo da toalha, na grama. Não acho que tenha sido uma mordida - que bicho tem boca, maxilar e dentes para morder minha mão? Mordida não tem veneno: cães mordem. Penso que foi uma picada, uma incisão venenosa. Aposto em uma formiga, uma aranha ou um escorpião. Acordo à noite, às vezes, com o coração batendo forte por acreditar que há um escorpião na minha cama, debaixo dos lençóis. Aposto o escorpião entocado em alguma das dobras do tecido. Não sei se ele me ataca, se me pica, se me envenena. Aposto um escorpião dormindo comigo. O que me fascina no escorpião, assim como nas aranhas e nas cobras, em alguns tipos de peixe, moluscos, e em algumas lesmas, é a maravilha dos seus corpos vivos que carregam em si a dose da morte. O mais fascinante dos escorpiões é o fato de, quando percebem estar encurralados e com sua própria vida ameaçada, suicidarem-se. Sua cauda dobra sobre si próprios e picam a si mesmos, matando-se. É intrigante e muito, muito humano - com a diferença que os humanos podem, eventualmente, dar suas vidas em sacrifício de outros humanos. Algo que um escorpião jamais fará por outro, ou outros.
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Sonhei que eu tinha companhia no quarto, que me observavam dormindo e que massageavam minhas costas. Tenho sempre alguém comigo. Sempre fantasio com acompanhantes, com parceiros. Há sempre alguém me olhando, me observando, pousando olhares de avaliação em mim. Há sempre uma fantasia de ser objeto do olhar e do escrutínio de outrem. Há sempre um medo, uma perseguição e uma crença no fracasso. Há sempre algum tipo de inquisição, de julgamento, de júri e de veredicto. "Vere-dicto" é o dizer verdadeiro - ou o olhar dizível. O que não é visto não é enunciável, nem verdadeiro. Há sempre um veneno.
Desterrei algo e alguém do fundo de tudo, graças a uma arma na cabeça e um pouco de medo no coração. Tudo poderia ser feito, menos o que eu gostaria. Lembrei do gatilho da arma, da largura do cano, do gelado do ferro e aço nas têmporas. Ameaçaram me matar uma vez. E havia um rapaz junto comigo, tão assustado quanto eu. Usava suspensórios. É precisamente esse vácuo e abismo que me separa dele que eu preciso desvendar. É necessário descobrir. É fundamental elucidar. Tudo se explica por este momento: eu estava esperando a fila do banco. Fui chamado pelo rapaz de suspensório. Ele gerenciava meu dinheiro. Ele era lindo, ruivo, com barba, olhos verdes, corpulento e musculoso. Uma gangue de assaltantes invadiu o banco, um deles apontou o revólver para minha cabeça. Eu vi a arma e o medo através dos olhos do rapaz de suspensório, pois no momento da invasão eu estava de costas. Os assaltantes levaram tudo. O rapaz de suspensório perguntou: "está tudo bem"? Eu respondi que sim, mentindo. Está tudo aí, toda as coisas e todas as cores (amarelo). Todos os corpos. Só em mim tudo houve: o bem e o mal, os juízos que separam e dividem. Toda a luta pelo convecimento está expressa no velório. Um velório para o qual eu precisei convencer as pessoas a participar porque ninguém queria estar lá. E houve pessoas que se atrasaram. Eu as encaminhava apressadamente para a van que as levaria para o enterro. Tudo haveria de recomeçar depois de eu ter morrido.
Sonhei que eu era dois. Mas não apenas duplos: dois opostos. Um estava com o pai, que me chamou a atenção: "estou com teu gêmeo". O outro era eu. Meu gêmeo deixava o copo de cerveja cair no chão e se estilhaçar; cantava e bebia; gritava. O outro era incontrolável. Gerir também significa gestar. Conter algo em si por um tempo até o algo virar alguém: prover vida à vida. Significa parir depois disso. Por no mundo, dar à luz, fazer vir à vida. Um gêmeo veio da minha mesma gestão, mas pôs-se no mundo e viu-se à luz de outra forma. É um eu radicalmente Outro, um Não-Eu. Um Não-Eu que posa para fotos e que bebe, que grita, que canta. Um Não-Eu que, ao não existir, sublinha minhas bordas e meus limites, minhas praias, meus inalcances. Lá onde eu não vou. É a borda do meu rosto onde há espinhas, cravos e pelos inflamados, a borda inflamada e dolorida do rosto. Que errado é mover-se dentro de um corpo desconhecido ou pesado, um fardo, um erro ou um engano. O corpo enganado; O corpo renunciado. Aquilo que veio a ser o corpo não me serve. O adiamento daquilo que o corpo já é resume-se a poucos procedimentos: ou é de corte, ou é de cavocação, ou é de provocação da morte. Daí já não é mais gestação - ou gestão. Já não é mais prever a vida no corpo, neste corpo que pode gerir outro corpo e que pode pôr à luz outro corpo. Não é mais um gêmeo. É uma gestação abortada, sem eira. Não é mais eu duplicado, nem oposto: NÃO É MAIS EU.
Mesmo que tenha sido um pouco, mesmo que tenha sido menos do terço ou do quarto. Um silêncio gigante, daqueles que precedem o parto. Um parto longo, dolorido, forçado: nasceu a fórceps. A mãe, que era eu, morreu. Moribundeei por ainda algumas horas apenas para dar o primeiro leite. Liberei-o, enfim, para um mundo sem mim. Não haveria de ficar descuidado, pois o pai segurava minha mão. Não o odiou, o pai: acolheu aquela coisinha pouca com toda a ternura sem-mãe. Um pai doce e sorridente, viúvo. Depois da morte da mãe, o pai contou com um marido, que era eu novamente, que retornou do exterior para criar o filho recém nascido, órfão. O guri cresceu sólido, alto e esguio. Repete-se essa mesma história mais uma vez, as mesmas peças em posições diferentes. É o enigma do parto que tento desvendar, que tento inferir. Há alguma pista que perdi. O personagem central não sou eu: eu sou a mãe que morre, sou o pai, sou o marido do pai - recalcado pela família, pela sociedade - que retorna, eu sou o filho que cresce. Eu estou diluído um pouco em cada um deles, mas devo admitir que morro e nasço, que me separo e me reconcilio, que vou e retorno, que cresço e morro mais uma vez na repetição de uma história que não só foi criada por mim mas que foi vivida por mim. Estou recriando, reelaborando, redesenhando e reescrevendo a minha história. Isso explica a paixão por Douglas (Seco, Dougie, Doguito, conforme os apelidos que eu mesmo criei para ele). Douglas sou eu. Mas a história não é justificada - ela é uma ficção, uma realidade fantástica, uma biofantásticagrafia; pelo contrário, a história justifica, ela endossa e legitima, ela aponta uma reconfiguração da minha própria. Criei um mundo repetido do qual não estou completamente ausente (eu sou o pai viúvo, o filho órfão, a mãe morta, o marido/padastro que retorna), um mundo no qual tampouco estou integralmente inserido (é um mundo que não existe, que não existirá, é uma ficção impossível, uma inrealidade). Estou um pouco, menos do terço ou do quarto. Silenciosamente renascendo a fórceps.