[...]stico frouxo da cueca, desbeiçada. a circunferência que não parava de arredondar, de absorver as coisas do mundo, todas as coisas do mundo, como se fossem feitas ou dirigidas a ele. um imã em vida atraindo para os cantos das unhas cortadas rente à carne o peso e o quilate dos olhares seguidos de silêncio. o profundo desprezo de quem o conheceu, grudado nos fios que separam unha de carne. dois cortes nos dedos, no indicador esquerdo e no mindinho direito, cujas cicatrizes, embora discretas e já bem fechadas, apenas dissimulavam o abismo de dentro que caía fundo, como falésia, na neve e na língua inglesa que ele deixou pra trás. mas não as esqueceu. ainda borbulhavam às vezes, vertendo pelas mãos: a doçura politicamente correta dos canadenses. que saudade. sonhava em voltar. e poderia? teria idade? seria um bom candidato à migração? contribuiria para o país tanto quanto ou o máximo que pudesse, agudo ou crônico, simbolicamente retribuindo ao país e à cultura aquilo que lhe proporcionaram? que nenhuma cicatriz seja capaz de apaziguar isso, de acalmar esse desejo. triste. sozinho em casa, de cueca. sonhando com o que fervia nas fendas das cicatrizes, arrastando os quilates de desprezo entre as unhas. respeitoso do tempo e dos corpos dos outros, ele era. mas não dos seus. nunca quis ser deste mundo. nunca quis estar aqui num corpo. mas estava, e se perguntava se haveria outro ou outros mundos nos quais poderia ou deveria estar. e se perguntava se já não estaria, naquele preciso momento, existindo de outra forma em outro mundo. não num mundo novo, não numa nova vida: apenas em outras condições, em outras linguagens e comunicações, em outras coisas que não o orgânico, o carbônico, o fisiológico. se, num outro mundo, não houvesse palavras, ele ainda estaria triste? ainda usaria cueca desbeiçada? ainda cortaria rente à carne as unh[...]

o fracasso segundo z

eu não precisaria contar o que houve hoje, tampouco os planos que tenho feito para mim visando um futuro próximo. não foi deus, nem o neutro das coisas, que eu vi e que eu experimentei. não tenho nenhum relato filosófico-espiritual para fazer a partir dessa parte pequena do meu dia; tenho apenas uma série de conexões mais ou menos conscientes de uma psique organizada em torno daquilo que experts chamariam de neurose depressivo-obsessiva - três palavras que em sequência e separadas dizem pouco. o importante não é contar o que significou fazer o que fiz, nem o sentido que pode haver num ato cuja única testemunha está morta – única testemunha além de mim mesmo, mas embora eu já tenha testemunhado contra mim, não tenciono fazê-lo neste caso. não se trata, portanto, de hermenêutica. trata-se das conexões possíveis de serem feitas, e que foram realmente feitas, no curto tempo que levou ao acontecido, ao próprio acontecido, e aos desdobramentos do acontecido, que já se enfraquecem agora, impotentes. porque, afinal de contas, o mais importante não são os neurônios, mas as sinapses. o mais importante não são as leis, mas as jurisprudências.

***

era metade da tarde, um dia quente e úmido de verão. mesmo depois das tempestades de manhã cedo, a temperatura não havia cedido. cada pelo do meu corpo grudava em cada centímetro quadrado de pele, e o suor exalava um cheiro de homem indisfarçável. eu estava de passagem da sala para o banheiro. vi no chão do canto do quarto, oposto da janela e bem ao lado da cama, um pequeno monte de roupas para lavar. não havia cesta de roupas, nem saco de roupas: era um canto onde eu as jogava. num relance estremeci. roupas claras e escuras se misturavam, contrastando com a parede texturizada branca que encontrava o guarda-roupa, formando o canto das roupas sujas. a confusão era efeito de dias de muito álcool, de quando eu chegava em casa bastante alterado, mas não tanto a ponto de prescindir do banho antes de deitar na cama para dormir. eu já havia caído dentro do box do banheiro devido a essa excentricidade (que alguns experts chamam de neurose); eu já havia feito feridas nos dedos de vezes em que eu escolhia limpar o box do banheiro precisamente nas noites em que eu chegava da rua bêbado, me jogando numa escovação frenética com desinfetantes e água sanitária (alguns experts chamariam isso de transtorno obsessivo). estremeci porque o monte confuso e colorido de roupas sujas assinalava as noites mal dormidas, as manhãs de dor de cabeça, a indisposição gástrica, a gastança desnecessária. assinalava também a sujeira que precisava ser limpa. a energia necessária para escovar, desinfetar, polir, enxugar. a energia necessária, a energia: era preciso ter energia. o sol não entrava no quarto, somente a luminosidade do dia. veja: a coisa em si não entrava nunca no quarto, somente seu efeito. não havia movimento na luminosidade, somente na própria luz solar. a luminosidade era uma coisa estática, que ou estava ou não estava. era um quarto no qual não havia movimento. mesmo assim eu dei quatro passos dentro do quarto e parei meus pés quase no monte de roupas sujas. olhei novamente: camadas de tecidos revoltos, tecidos sintéticos, algodão, elastano, jeans. todas as cores misturadas. não poderiam ser lavadas juntas. era preciso ordenar critérios para separar as peças e colocá-las na máquina de lavar respectivamente, obedecendo às condições e aos requisitos da boa lavagem. havia pelo menos dois modos de separar as roupas: pela cor ou pelo tecido. pelo tecido, haveria empate entre tecidos sintéticos e tecidos naturais, mas as cores se misturariam. pela cor, as peças claras eram em maior número. decidi estabelecer o critério das cores como definidor - mas por que mesmo? onde mais eu estabelecia o critério da cor como definidor? ora, em praticamente tudo. a única dimensão da vida em que eu era daltônico era no amor. meu amor, o conjunto de coisas que chamo de amor: a sobreposição dos corpos, o banho acompanhado, o zelo pelo sono do outro, a espera ansiosa pelo tom de voz do outro, a compreensão e respeito pela opinião divergente, os filmes e as músicas que nos costuram e que nos juntam, a beleza dos pequenos atos de falta de higiene (soltar puns à noite, pegar pedaço de pão caído no chão e comê-lo, não limpar direito a bunda, usar all star sem meias, repetir por dois dias a mesma cueca e, no terceiro, virá-la do avesso). amor cinza: se estivesse no monte de roupas sujas, estaria em menor número e seria lavado. meu amor cinza, feito de tons de cor e de não cor, num monte de roupas sujas.

***

agachei-me. e a minha coluna lombar doeu. porque tenho um problema crônico na coluna lombar, nas quatro primeiras vértebras da coluna lombar. compressão da medula. era preciso fortalecer os músculos através da prática de atividades selecionadas e orientadas. oficialmente eu estava proibido de correr, mas estava obrigado a me exercitar. esse tipo de paradoxo é comum nos dias de hoje: nos impedem de algo ao mesmo tempo que impõem esse algo como um dever. e ali, agachado em frente a um monte de roupas sujas claras e escuras, de vários tecidos, eu fui separando camisetas de bermudas, cuecas de camisas, meias de calças, amor de esperança, corpo da vida. o corpo apartado da vida, excluído da celebração da vida, habitando um quarto luminoso porém sem sol. eu era todo separado da coisa viva em si mesma. habitava espaços que corroboravam para essa separação e a reforçavam. se houvesse um rastro de vida no meu corpo, esse rastro estava comprimido nas minhas vértebras e doía. para que mesmo, para que a coisa orgânica do corpo? era o corpo que precisava de roupa, ou eram as roupas que precisavam de corpos? pois se fossem as roupas que precisavam de corpos, estávamos num estado zumbi assustador. éramos usados pelas coisas, que não tinham identidade alguma porque foram criadas outrora por nós - os prescindíveis. peguei uma calça e uma camiseta, nelas as etiquetas reluziam na luminosidade parada do quarto: a notícia boa foi que eu era um zumbi. os objetos do mundo tinham ganhado autonomia e nos usavam: as roupas, os guarda-roupas, as máquinas de lavar roupas. isso explicaria em parte o porquê de muitos de nós desejarem ser objetos, portarem-se como objetos, consumirem uns aos outros como objetos, como coisas autônomas, inanimadas e sem identidade que usam as pessoas. eu era todo usado pelas etiquetas. eu era consumido como coisa pelas outras pessoas. isso também explicaria em parte o consumo excessivo de álcool que eu fazia (no limite, era o álcool que me consumia): era como uma religião, um ato ritual através do qual eu procurava me religar com o rastro comprimido de vida recolhido entre minhas vértebras, era uma forma de eu perder a autonomia de objeto com etiqueta no mercado da carne. o consumo excessivo de álcool era uma forma de eu desprender da carne, ir embora da carne, esquecer da carne, e tentar ascender de modo sôfrego e doloroso, sacrificial, a um estado não humano, não objeto, não carne, despido em todos os aspectos, sem a etiqueta da linguagem e sem a etiqueta da cultura, sem a etiqueta da psique e da consciência. roupas e máquinas de lavar roupa precisam de etiquetas para ser. o humano precisa de critérios para separar-se. é por isso que ser humano é, necessariamente, não ser. a notícia boa foi que eu era humano - ou, dito de outra forma, eu era um zumbi usado pelos objetos e pelos humanos-objeto. razão que explica em parte o fato de eu nunca ter amado; na melhor das hipóteses, eu poderia ter sido eventualmente objeto de paixão.

***

com dor na coluna, separei as roupas de acordo com o critério da cor. um pequeno monte de três ou quatro peças escuras, um monte de seis ou sete peças claras. o monte de roupas escuras à minha esquerda, o monte de roupas claras à minha direita. fiquei feliz com a organização, que deveria ser respeitada por mim até o momento de lavar as roupas - o que poderia demorar alguns dias. só mesmo uma pessoa infeliz ou bastante lúcida da sua condição humana para criar uma regra arbitrária e regozijar por obrigar-se a cumpri-la. não era este, enfim, o princípio basilar da civilização: aceitar os impedimentos oriundos da Lei? pois que seja, e que a Lei que me impede de algo seja feita por mim mesmo! e uma aranha saiu por entre as peças de roupa escuras. era grande, marrom. deslocou-se para a parede texturizada branca e foi subindo. quem era ela? de onde vinha? o que comia? como se comportava? a quem obedecia? o ser inumano, sem etiquetas, que morava no monte das minhas roupas sujas. o ser inumano que coabitava o meu quarto, em minha companhia. finas patas marrons que subiam a parede branca. uma vida não humana que valia nada. coisa não morta, cidadã da pequena república que eu recém criara: aquela composta pelas roupas claras e pelas roupas escuras. testemunha da minha dor, do meu amor cinza. no chão, perto dos montes de roupas sujas, estava o livro "a legião estrangeira", de Clarice Lispector, cujo conto "o ovo e a galinha" eu havia lido na noite anterior. era a única ferramenta de assassinato possível naquele momento. tomei o livro e, num tapa brusco, esmaguei a aranha na parede branca com a contracapa. ironicamente, a gosma da aranha espalhou-se sobre a foto do rosto de Clarice.

***

"é agora que eu devo lamber a contracapa do livro e engolir o que veio de dentro da aranha? é agora que eu preciso experimentar o leve salgado da coisa neutra da vida?" não. pois eu era humano, um humano sem amor. levei a contracapa do livro ao banheiro. limpei com papel higiênico. em outras ocasiões, ali também haveria uma coisa neutra, meio adocicada, de vida - da minha vida. para onde ia a minha vida, saída em gosma de mim? para onde ia minha vida em gosma, comprimida entre minhas vértebras? porque minha escolha foi de não acessar o divino por meio da gosma neutra da aranha. não há neutralidade na gosma, nem no sêmen, nem no sangue. algumas patas da aranha permaneceram grudadas à parede texturizada branca, e lá eu as vou deixar como etiqueta da parede. os restos da aranha ficarão na parede enquanto for necessário me lembrar de que não há muito mais que dois ou três montes de roupas sujas toda a semana, duas ou três vértebras com medula comprimida, cinco ou seis máquinas de lavar que lavam as etiquetas. as patas separadas do corpo da aranha ficarão grudadas na parede enquanto for necessário eu me manter circunscrito àquilo que no mais mundano ainda continuar sendo humano.
[...]roca numérica. apenas uma mudança ao fim da sentença de números. às portas do "novo ano", o "novo" já havia ficado para trás como uma promessa de campanha eleitoral, para sempre protelada. pois demo-nos conta de que o antigo sempre fora a densidade consolidada por sobre a qual deslizaram todas as palavras e números do "novo" e do "futuro". o futuro, sim, era palavra e número a ser disputado; o "novo" era superado. relendo "a paixão segundo G.H." só pude sentir paz por caminhar junto dela através do inferno da coisa neutra da barata, pois a palavra e o número já não são mais neutros mas parciais. era límpido o inferno solar em que G.H. adentrou naquele pequeno quarto para, somente então, poder achar a coisa mesma da barata. de um sofrimento atroz, porém límpido. às vezes fantasio com o terror da tortura, com cenas da minha própria tortura, se porventura meu corpo cair em mãos que odeiam. tenho horror a essas fantasias, mas admito que as busco. pergunto-me se não desejo a tortura, a outorga cruel de sofrimento ao corpo, como forma extrema de atravessar o inferno solar de G.H. à minha moda. pergunto-me se não desejo uma forma de expiação ou de purificação, de punição, por ser quem sou, por ter me transformado em quem me transformei, por ter tocado ou tangenciado as vidas, todas as vidas, que já conheci. talvez a fantasia da tortura e a presunção de compreender G.H. sejam efeitos da sentença de mim mesmo, do júri que me confirma como criminoso. como se, depois de torturado e eventualmente ainda vivo, eu chegasse à minha coisa mesma de barata, eu chegasse ao meu neutro da vida para, a partir dele, poder ser violento usando palavras e números. como um mártir vivo e furioso, capaz de dizer a verdade sobre o núcleo irredutível da coisa mesma que precede e funda o humano. um sacrifício horrip[...]
...ão as coisas mais tristes na vida, como quando chega até nós o som abafado, distante, da música que embala a alegria de outros, como quando sabemos ou mais que sabemos que vamos morrer, como quando enfrentamos essa que a única certeza e a mais negada e evitada, como quando sabemos que vamos ficar vivos para ver a família e os amigos morrerem, como quando supomos que seremos os últimos a morrer de toda a extensa lista de pessoas que conhecemos, como quando imaginamos que não sobrará ninguém para lembrar de nós e que nossa falta não será sentida. triste e desolado, como o último que morre.

eu sabendo que em cada dobra do corpo haveria um resquício a ser lido, decifrado, interpretado e passado às gerações vindouras com pouca ou nenhuma deturpação em sua mensagem, em sua informação, no gérmen de vida que estaria inscrito em cada pequeno sulco das rugas das palmas das mãos, cada um deles e todos eles juntos, as linhas das mãos que eram mapas de como chegar, de como seguir em frente, em cada dobra do corpo haveria um pequeno tesouro em hieróglifo ainda se pretendendo arqueológico, lendas de uma vida cancelada em sua mais nobre tarefa, conjunto de uma biofantásticagrafia que deveria ser dada àqueles que viessem depois de mim não como mera ficção neurótica mas como mito coletivo que abraça e atravessa o mais belo gesto de toda a população de quem sou pai, um corpo envolto em uma pele e uma pele encapsulada em um destino, em um dever, em um comando, um corpo que haveria de ser procurado, escavado e posto nu ao olhar dos descendentes em todo seu brilho escravo e fosco, e mãos com linhas cartográficas que se imporiam sobre o futuro de toda a prole.
iludir: forçar crença na máscara; seduzir pelo brilho do verniz; raptar a dúvida; desintegrar os rastros que apontam para o erro e para o equívoco. escolher: errar nos termos do acerto; acertar nos termos do erro; engolir as sobras do "não" sem explodir; arrastar os restos do "sim" ao longo dos dias. saudade: escombro ou ruína do outro em mim; pedaço quebrado de vidro atravessando o peito; ato de chicotear a memória; nuvem densa e carregada carinho que chove quando choramos.
"o cheiro do fracasso impregna tão pesadamente que agora até minha pele está exalando este fedor", disse um personagem de desenho animado às 22 horas e 15 minutos de um dia de semana, num desses canais de tevê paga cuja programação é voltada para as crianças. é esta uma das corredeiras através das quais desagua o conteúdo do buraco, da fenda, do vacúolo? ou teria sido mais importante, e profilático, ter estancado o próprio cavocar que forjou o buraco que viria a ser preenchido até a borda com o fedor? durante as conversas mais profundas, mais terríveis, eu desvio o olhar do meu interlocutor e pouso a vista em algo que escapa da mirada do outro, por um instante, para formular uma ideia que não seja capturada em seu processo de feitura, para evitar o vacilo e desinteresse do olhar do meu interlocutor - que me perturba e me empurra para fora do vagão em trânsito -, e em seguida eu volto a seus olhos para dizer nada do que eu havia formulado. foi assim muitas vezes hoje. a felicidade dele um pouco enviesada, díspar em relação à cor bronzeada da pele, irredutível aos movimentos dos braços e ao emprego dos adjetivos de intensidade, me fez contornar a imensidão corporal e o continente de sentimentos para rapidamente encontrar-me atrás dele, na parte além da sua falésia, na parte de fora da  pele das suas costas, eu em frangalhos, eu em destroços, "eu me despeço; eu em pedaços". alguma força estranha varreu meus cacos na sarjeta, juntou-me na pá e me trouxe para casa num punhado. que cheiro tem o fracasso que já dura três décadas? na mesma medida em que eu desviava do olhar do meu interlocutor meu corpo se encurvava, como haste elástica torcida, com as pontas moles (mãos, pés e cabeça) que pareciam derreter-se como gelatina pouco máscula, pouco viril, pouco tesa. o fim do dia é isto: assistir ao desenho animado num dia de semana, num desses canais de tevê paga cuja programação é voltada para as crianças.
desafogar: arrancar de um estado de queda; catapultar para fora [seja o dentro qualquer um dos limites possíveis]; fluir sem resistir; reverter o processo de sufocamento por falta de ter o que viver. desacreditar: drenar o sentido, esvaziá-lo, "desafogar" o sentido; deslocar a fé de uma potência a outra; estancar o som oco da batida em uma porta onde já não mora mais ninguém. abandonar: separar; colocar para além [não necessariamente fora]; despedir-se; caminhar no sentido oposto, inverso ou avesso; fazer viver em separado, fazer viver de longe, viver depois da bifurcação ou da esquina. titubear: tremor; dar um passo a frente e outro atrás; duvidar que haverá um fim e recusar-se a por um fim; driblar a despedida ou fingir que se está indo embora, esperar atrás da porta; tocar com a mão quando não há mais esperança. luto: processo pelo qual a falta escorre e provoca erosões em tudo o que restou; estado de recolhimento nos restos; situação de lamento pela despedida do que havia de quente ou morno ao vê-lo; condição de construção de vida a partir dos escombros; o corpo que se deita na cama vazia novamente, sem nunca ter tido outro corpo ao seu lado [entendimento de que nunca existiu alguém ali, nem fora, nem dentro].
o que é mesmo aquela tristeza, o silêncio em que ela vem envelopada, a desistência de ter de recomeçar (ou o horror de ter de recomeçar), a retirada sem anúncios e sem trombetas, o recolhimento no escuro, a imobilidade entre os lençóis, a sensação de que a aposta gorou, a impressão de que a empreitada falhou, o olhar que olha sem ver atravessando as paredes, o soluço seco sem lágrimas, a frieza de uma presença distante, o conforto do vazio depois da guerra de si, em si, na qual não houve quem ganhasse?
desejo-me. neste conjunto da histórias de abandono e cômodos conjugados, separados pela parede, desejo-me, desejo aquele centro carnudo de mim, uma parte suculenta e enervada, saltitante, que jorra quando é mordida. desejo o centro, o meio, a parte entre o início e o final, a coisa espremida que dá nome à história: abandono. "qual é o nome da minha alma?" o meio do vácuo é o mais denso do vácuo, do silêncio e da indiferença àquilo que poderia existir. parado na porta da frente, me pergunto se posso entrar: se posso pisar no meio, no dentro, dentro da entrada e da saída, dentro da frente e do atrás. desejo-me nesta fase, neste grau e neste andar, neste espaço comprimido e celebrado que é o conteúdo. o conteúdo é meu amigo. a forma me trai.

mais uma vez, longo período sem escrever. houve momentos em que pensei que pudesse colocar uma ou duas linhas a respeito de uma ou duas cenas ou diálogos ou sentimentos que me tivessem ocorrido em um dia ou tarde ou noite, mas eu não pude e eu não quis. mais uma vez, longo período sem rodar a engrenagem da linguagem, longo período sem mover a cadeia dos sentidos. às vezes o desejo pedia “escreva, escreva”, e eu negava. são tantas antessalas que precedem cada palavra, e tantas portas que a sucedem, que me atordoava (e fascinava) ter que abrir a página em branco e fazer a roda da linguagem girar. agora mesmo, escrevendo este breve prólogo, quantas escolhas tive de fazer para digitar uma palavra e não outra de quase mesmo sentido – quase mesmo, portanto, não o Mesmo –, de modo a abrir uma porta específica, estrategicamente escolhida, depois de tal palavra. debati-me em várias antessalas de várias palavras já aqui nessas poucas linhas, a ponto de escrever-apagar-elaborar-reescrever muito – ou pelo menos o suficiente para chegar ao fim da introdução. e cheguei.

--XXX--
passei um longo período sem escrever, sem girar a roda, sem empurrar a engrenagem, sem movimentar a cadeia. de certa maneira censurei-me por isso, ou lamentei. até que resolvi escrever definitivamente, com sangue, em meu corpo. escolhi vinte e cinco palavras de um texto escrito por mim, de meu próprio punho e de minha própria imaginação, para deitarem na minha pele. vou tatuar nas minhas costas uma frase de um dos meus textos. quando tomei a decisão, excitei-me como se tivesse acabado de escrever um romance, um romance honesto. é que eu serei inteiramente as antessalas e as portas que precedem e que sucedem cada uma das vinte e cinco palavras que vou tatuar nas minhas costas. os caminhos que giram a roda, que empurram a engrenagem, que movimentam a cadeia estão em mim. meses sem escrever uma palavra que fosse, sobre mim ou sobre qualquer outro, e acabei por querer marcar meu corpo com minhas palavras. escolhi uma frase na qual eu não caibo inteiro: minha inteireza está na escolha estratégica dos sentidos de cada uma das vinte e cinco palavras tatuadas no meu corpo – nas antessalas que as precedem, nas portas que as sucedem. por ocasião da escrita de tal frase, senti a excitação de reconhecê-la como tatuável: um mapa labiríntico daquilo que eu sou. convido-os para entreter nos pequenos vinte e cinco espaços antecedentes e convido-os a avançar as portas dos fundos de cada palavra tatuada.

--XXX--
há mais, porém. considerem aspas duplas antes e depois de uma palavra: o que resta dela? o que fazem a uma palavra aspas duplas antes e depois? há um aviso na antessala de cada palavra advertindo aqueles que ali entretêm para não abrirem a porta mais fácil – ou a já aberta. aspas duplas antes e depois de uma palavra suspendem seu sentido rápido ou fácil e convidam a escolher estrategicamente a porta dos fundos de tal palavra. (sim, as palavras têm portas dos fundos.) aspas duplas antes e depois de uma palavra avisam: não tomem o sentido como dado de antemão; escolham, forjem o sentido desta palavra; aqui está escrito algo que pode ser outra coisa, outra pessoa. aspas duplas, no jargão acadêmico, é também aquele decalque da palavra do Outro que empregamos na construção do sentido do nosso próprio texto. em um artigo acadêmico, tese, dissertação, monografia, ensaio, aspas duplas indicam um poro aberto do texto por meio do qual acontecem a respiração e a comunicação com aqueles e aquelas que já pensaram antes de nós. quando usamos aspas duplas em um texto acadêmico, fazemos da voz do Outro a nossa por um instante com o objetivo de avançarmos o sentido do texto em direção a uma porta estrategicamente escolhida. aí aspas duplas advertem que aquilo que está compreendido entre elas não é de nossa autoria; inobstante, tatuamos um sentido estratégico da voz do Outro no nosso texto para construir um argumento, para movimentar a cadeia da linguagem apoiando-nos naquilo que já foi dito. pois: tatuarei também um par de aspas duplas na parte frontal do ombro esquerdo e um par de aspas duplas na parte frontal do ombro direito. eu sou uma pessoa entre aspas: eu sou uma pessoa cujo sentido está suspenso: eu sou uma citação da voz do Outro.

--XXX--
na fúria da escrita, acreditando-me entreaberto e já sabendo que para fazer avançar os meus sentidos eu dependo da citação daquilo que já foi dito por outrem, tatuarei mais uma frase na base da coluna, imediatamente acima das nádegas, da maneira exata como segue: “terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se a falha foi necessária.”

--XXX--
estou feliz. meus exércitos se apresentaram para lutar. o que haveria de marchar em direção ao front, às linhas inimigas? mas eis que surge o problema: não estou em guerra. estou parado dentro de casa, em um estado de potência aguardando o limiar da explosão. vibrando. pulsando. ondulando. estou feliz aqui, neste casulo de pura virtude. uma bomba de lava ou lama.
que tolo, querendo atualizar os acordes de invernos passados. que tolo, inspirando o ar e querendo que doa nas narinas, na traqueia, porque é frio. o ar nunca é frio do mesmo jeito. nunca é o mesmo inverno. nunca é a mesma neve, nem aquela que se viu no sul, nem aquela que se viu no norte. nem aquela que foi simulada com pedaços de papel a3. em papel a3 está colado "preliminar" em toda a extensão de um pensamento que não é preliminar a coisa alguma, mas que é a coisa toda de seu tempo. como eu quis chorar esta semana, pelas pessoas que se atravessam no meu caminho e pelos caminhos que se querem reivindicando lugar em mim: quiseram que eu resistisse, que eu fosse alguém forte, mas sou um brinco da orelha da princesa, pronto para quebrar. uma tristeza imensa me tomou, e me quis paralisar, que é o processo pelo qual, de modo eficaz, você me faz sentir-me feio, me faz sentir-me abjeto, nojento. menos que a barata de GH, menos que as larvas que saem do ralo do meu banheiro quando ali jogo água sanitária, menos que olhar e nausear. menos. e é um peso, uma vergonha, uma corrente que se amarra ao peito e que vou levando, movendo-me com lentidão porque arrasto no chão minha cara e tudo o que diz de mim, que atesta que eu sou eu, envergonhando o próprio chão.
pois se há: coisas só ditas no não dito, coisas só entendidas no espaço entre as linhas. pois sim: forma e conteúdo dóceis, cada qual no seu quarto contíguo e separado. há um jeito de ser, não sabe?, que deve ser no mínimo mencionado em cada tomada de voz. a imagem, a palavra, o sentido, o significado: e tudo se resume a isso. esta deveria ser uma pergunta e não uma afirmação. tenho passado mais tempo sozinho que acompanhado nas minas andanças pelas cidades. tempo de pensar em tudo: na anti-matéria, no poder de dirigir um carro, na inconveniência de ter dito algo inadequado. de não saber. de não ser suficiente para saber e para passar o saber, produzir o saber no outro. penso que o que eu sinto é uma coisa tão minha, a ponto de o outro ser totalmente desresponsável por qualquer pensamento ou afeto que me ocorrer: a responsabilidade por aquilo que sinto é inteiramente minha. quero coisas que estão fora do meu alcance - e não é justamente essa a função do querer? pela primeira vez em anos eu penso antes de digitar, e não raramente apago frases inteiras, principalmente as que abrem os parágrafos, porque não encontro a entrada para aquilo que quero dizer. denuncio e bloqueio tudo aquilo que me excita. e assim vamos mudando de cidade, de latitude, de língua, sem mexer um centímetro no que pode ser verdadeiramente interessante: a forma triste através da qual tudo ganha sentido, tudo ganha conteúdo, o não dito entre o silêncio das coisas.
parei o carro na vaga do estacionamento, desliguei o motor. situação e lugar sensivelmente diferentes daqueles de outrora, quando o sol metálico escorria pelo asfalto, pela água do rio, pela vista da cidade vizinha. eu estava apenas parado dentro de um estacionamento. apenas em silêncio com o motor parado. tive um pouco de medo, pois aquela sensação eu já havia tido dezessete anos antes: sensação de que tudo estava para acontecer, mas que a vida passava muito rápido. daqui dezessete anos eu terei 49, e isso é assustador. eu serei assustador. eu estarei sozinho. um ano passa depressa, cinco, dez; dezessete é praticamente amanhã. eu só tenho mais dezessete anos para fazer algo da minha vida, para fazer algo com a minha vida. pois eu não vou desafiar a morte. não vou postergá-la. que ela chegue; eu simplesmente vou. só por mais dezessete anos... pensei que era inútil recomeçar ou tentar fazer diferente. tudo já está terminando, em processo de finalização. há dezessete anos eu pensava "ainda vai dar tempo" ou "um dia eu farei...". hoje eu penso que dezessete anos já estão aqui.
menos uma de todas as paranóias e explicações apriorísticas sem verificação. se falo com o outro e se circulo em meio à alteridade, preciso tomá-los naquilo que são, e aquilo que são só pode ser como se apresentam. não sei há risos por detrás de todo aperto de mão, mas é mais econômico psiquicamente lidar apenas com o aperto de mão. deixo o riso, a suposição do riso ou a crença no riso para mais tarde, um pouco antes de dormir, na contabilidade diária e administrativa dos acertos e dos erros. se o outro se apresenta careca e com barba, pois bem, é com sua careca e com sua barba com quem terei de me a ver, sem nenhuma atualização de outros corpos virtuais, sem nenhuma elucubração de história de vida. reduzir as pessoas à estreiteza do modo como emergem entre as várias outras não parece uma operação de desprezo. é colocá-las num plano raso, numa tela oca, numa inteira possibilidade de ser tudo menos os meus acréscimos projetivos, meus medos vaidosos. não posso envernizar um aperto de mão, uma careca e uma barba com minhas fraquezas, nem vesti-los com meus vacilos.
qual é, me diga, e verdadeira contribuição? aquela que te deixa zonzo, aquela que te deixa sem chão? à espera por um toque, por um sinal sonoro, por uma mensagem de alguém que soube que tu estava online, é disso que se trata a espera e a promessa, a beleza e a fantasia, a gratidão e a tarde de sábado inteira subsumida por algumas páginas de word, uma térmica de chimarrão e dois e-mails de agradecimento? uma parte inteira do teu corpo que está fria, sem irrigação, quase isquêmica, insensível, enrugada e em processo de decomposição, e tu achando que é bolacha no pacote? um quadradinho online, uma foto de abdome, e basta para estragar os próximos quinze minutos? e não haveria nenhuma coragem em chorar em frente ao outro e em frente àquela que pelas costas fala de ti? haveria maior coragem? ou ela não faz nada disso e é mais sincera que tu mesmo, mais dona de si e de sua vida do que tu, mais bela e consistente? e se amanhã houvesse dois casacos de lã novos, duas camisetas, um par de sapatos, duas camisas, três perfumes: quantos reflexos no espelho ainda faltariam para um sorriso? quantos espelhos faltariam para uma folga ou férias da autocomiseração? e da beleza integral não sobra um resquício de feiúra e de vergonha, de desprezo por aquilo que o belo é? o belo não é desprezado, nunca? o esplendor sagaz de toda uma coluna tesa, rígida, jovem, não te causa inveja? o corpo morto embalsamado não te causa pena? o que haveria de se colocar entre mim e ti se é tu em quem eu penso e quem eu quero esquentar numa noite como hoje? e se haveria de que te querer, haveria de te expulsar, de te renegar, de te excluir, tão selvagem e chucro que tu é, e por isso mesmo tão sedutor e atraente? e tu não seria isso tudo, uma coisa inesperada em mim, avançando sobre minhas fronteiras, "pelos sete buracos da minha cabeça", como um salto alto avança sobre o piso, estridente, seco, impiedoso? não sou mais eu? já fui embora por ti e em ti? já estou lá, falando ainda aqui? e lá ainda não há voz? a palavra ficou ainda aqui? que desliza e fog....
parei o carro ao sinal vermelho. a faixa de pedestres à frente, o asfalto, os outros carros que aos poucos iam parando ao meu lado e atrás de mim não deixavam dúvidas de que eu estava na cidade, e na cidade grande. nos breves segundos da sinaleira fechada estava confirmada minha experiência urbana, minha experiência entre o concreto e a buzina. a vista da cidade mais próxima do outro lado do rio e suas colunas de fumaça, por do sol refletido nos vidros dos andares mais altos dos grandes prédios: era a cidade, era inegável, que me deixava exultante, cujo brilho do sol - até ele - é metálico. e na minha casa, no meu quarto, nas reentrâncias de tijolo empilhado e de casas amontoadas onde escolhi morar e descansar, reinava o silêncio citadino emoldurado pelos motores à combustão ao fundo. nenhuma pureza, nem do espaço, nem da luz, nem do silêncio. quando o sinal ficou verde, a cidade toda se abriu para mim.

eu quis falar sobre alguém e falei do ex-vizinho – de mim, em bem verdade, mas através do ex-vizinho. botei palavras no seu corpo. entretanto, não foi ele quem mais me fez pensar sobre mim hoje. por volta das cinco e meia da tarde meu celular tocou. era uma mulher. pediu para falar com Marcelo. recebo várias ligações de pessoas querendo falar com Marcelo. eu disse que o número não era mais aquele, que eu não era Marcelo. “ah, que pena... mas já aproveitando a oportunidade, o senhor já ouviu falar sobre nosso empreendimento imobiliário.... ?” e deixei aquela mulher falar sobre o empreendimento imobiliário do qual ela estava tentando me convencer a participar. “eu não tenho interesse agora; eu realmente não tenho interesse; eu não faço investimentos imobiliários.” nada adiantava para que ela se convencesse de parar de tentar me convencer. ela começou a me chamar de Marcelo. eu não a interrompi, tampouco a corrigi sobre quem eu era – do que serviria? ela tinha certeza de que eu era Marcelo. enquanto ela usava argumentos econômicos sobre a tripla valorização que se embutiria a qualquer imóvel que eu eventualmente comprasse, ou sobre a necessidade de eu confirmar presença em um feirão de imóveis a ocorrer no próximo dia para “garantir um bom lugar na fila da compra”, eu apenas pensava como era triste, imensamente triste, que essa pessoa falasse com um estranho acreditando que ele fosse alguém que não era, e que ela estivesse tentando me persuadir a comprar um imóvel quando mal tenho dinheiro para o pão. nada nela me comunicava algo, a não ser suas (as minhas?) agudas tristeza, pequenez, estreiteza. Eu pensava na tristeza dela, e ela pensava nos meus horários para amanhã, nos meus investimentos financeiros, no quanto ela precisava captar este cliente (o Marcelo) para garantir seu próprio emprego. o problema é que, ao falar de novo e de novo e de novo do corpo do ex-vizinho que me espreita, eu estou “garantindo um bom lugar na fila da compra” da minha trsiteza, da minha pequenez, da minha estreiteza. fecho-me em copas à possibilidade de o ex-vizinho não ser quem eu penso (quero) que ele seja: ele pode não ser Marcelo. não seja Marcelo.
aqui, de onde a vejo, a chuva é uma fumaça. uma nuvem, uma nódoa espessa que não cai, mas que flutua grudada ao céu. percebo o movimento da água no vidro da janela, superfície na qual a água desliza. o barulho é aconchegante. são salpiques de pingos moles nas pedras, azulejos, metais, zinco duros. é profundamente classista gostar de tempestades, gostar do som da chuva, dos raios e relâmpagos. só os admiro porque, abrigado de sua destruição e desolação, eu me refestelo nos lençóis de algodão recém lavados. e o que haveria de ser o corpo do vizinho (agora ex) senão o desabrigo, a desolação, o desespero e o anonimato de alguém a perambular nas ruas sob uma forte tempestade? o que haveria de ser o corpo do ex-vizinho senão uma imagem e uma sensação de forte desamparo? uma criptonita da vida. o corpo do ex-vizinho está se insinuando por outros corpos, pronto para capturá-los e neles se assentar. pois sim: o corpo do ex-vizinho está por aí perambulando na chuva, preparando-se para não ser mais ex, mas ser in, prestes a se atualizar na minha nova rede da vida, exibindo sua cara e sua pujança, seu gosto e cheiro fortes. ele não sorri, nem fala comigo. o corpo do vizinho é meu abandono, meu exílio, longe da minha cama morna, dos meus lençois bem lavados. é onde estou todo exposto à intempérie dos olhares dos outros.  
eu finalmente mudei para o meio da cidade, para o coração da cidade, para o centro da quadra entre os prédios. eu mudei para o espaço imerso no urbano, no concreto, nas casas empilhadas, nas luzes que nunca apagam. mudei para o trânsito e para o tumulto, para a agitação, para o barulho e para a bagunça. nunca outrora eu estive tão quieto e calmo, consistente no passo, seguro na mirada. se fico três dias sem escrever me seco por dentro. se escrevo, inundo. meu coração dispara ao ouvir motores de carros na rua. a cabeça dói pelo álcool. tudo faz parte da experiência de estar aqui, no meio de gente, no meio de gente anônima, no meio de gente que se dilui (mas que também se afirma) no mar cinza. eu me libertei do vizinho, por exemplo. não temo mais me aproximar das janelas (coisa que faço, aliás, com menos pudor do que eu fazia antes), nem impeço meu olhar de pousar nas janelas alheias (que, de modo geral, não me chama a atenção). me libertei dele e de seu corpo, e das promessas que eu vi em toda sua vida. sem dúvida ele continua existindo em mim, mas não do mesmo modo. ele está deslocado, ofuscado, obscurecido pelo brilho fosco da diluição urbana anônima. ganhei outros vizinhos. com seus problemas e com suas vidas, e com suas luzes, suas esperanças, suas belezas. troquei um vizinho por vizinhos, no plural, e isso já valeu a mudança. troquei meu singular pelo meu plural, e isso já valeu a mudança. valeu a coragem de administrar as coisas que precisavam ir embora, e fazê-las ir embora, e a coragem de assumir os erros oriundos da decisão. nunca me supus um corajoso. finalmente eu mudei para o meio de mim, com meus vinhos, no plural.
há de nascer mais um dia, como este que vejo, e mais outro por cima de todos que o antecederam. a luz do sol sobre todas as vozes exaltadas de ontem, a luz do sol sobre todo o medo, o céu pesando sobre aqueles que se escondem, o céu pesando sobre aqueles que se revoltam. mais um dia para esquecer e também mais um dia para reafirmar-se no que se crê, no que se luta, no que se aposta. o som tranquilo de aves gorjeando e cães latindo deslizando entre os rostos contritos e deformados de quem odeia e quer matar. todas as manhãs carregam essa marca incômoda, desconfortável, da paz e da beleza embaralhadas com promessas de horror.
peçam de mim um gole, uma lambida, um soco, peçam de mim uma palavra, e a terão. amaldiçoo o dia inteiro, e a noite inteira, que se acabam sem glória e sem promessa de repetição, sem zunido de festa, sem risos, sem alegria. desfaço qualquer nó ou tumba, qualquer farrapo e qualquer sarcófago, locupleto-me na morte sem ouro nem horizonte infindável. riam de mim. gargalhem. pego em armas se for preciso, pego nas rosas e nas gardênias, nas fardas, nas metralhadoras. solicitem bombas, ou livros, ou vídeos, ou música: eu os darei e lhes explicarei, todos ao reverso, todos ao contrário, as letras todas arranhadas de trás para frente, consolidando o que de mal há não só no som mas em todo o mundo criado por deus. dirijam-se ao palanque, à tribuna. haverá de falar em nome de mim e de todos vocês aquele que não tem mais voz e que se ocupa das nossas para proferir mentiras. prefira mentiras à hipocrisia, e verá quem é teu amigo. a mim nunca faltou véu, nem echarpe, nunca se deduziu coisa muito distante daquilo que eu manifestei, a não ser no dia em que fui tido como mau caráter. nada mais  injusto. de julgamentos em julgamentos vamos enchendo nosso escroto, bem avolumado, bem viril, que ostentamos em praça e tv públicas. honramo-nos e honramos a família. queríamos o pai e o filho, e o espírito santo veio apenas a calhar, como gel lubrificante para tudo o que aconteceria depois. pois venha você até mim e encontre-se, abra-me e verás o quanto há de contradição e de loucura em tudo o que falamos, desordene-se em face de mim e faça a melhor coisa que poderia fazer em vida, ou em morte, ou em coisa qualquer que não seja neste mundo: assuma o erro. errar não é humano. corra e fuja, mas haverá essas pontes e cadafalsos em sua mente onde tu estarás sempre enforcado. haverá plateia, haverá juri, haverá torcida, haverá transmissão ao vivo. queira sempre estar em volta, nas minhas costas, pressionando minhas glândulas lacrimais, lambendo minha virilha. tua barba na minha, friccionando, cantando hinos de louvor às Forças Armadas. da pele áspera sabe-se pouco, mas do sorriso macabro e da ilusão noturna não se tem dúvidas sobre as hordas que nelas avançam, em silêncio, assassinando tudo o que encontram, desde pontes até flores. consumam seus olhares em fogueiras abstratas feitas de livros em chamas, feitas de quadros em chamas, feitas de vestidos de cetim e renda, ou seda, que homens gostam de usar ao serem fodidos por outros homens. pois é isto: creiam que estarão fazendo justiça, creiam que seus juízes são os mais sábios, creiam que há lógica ou coerência, e será aí que hão de ruir e despencar, erodir, implodir. cortem minha língua e quebrem meus dedos. abram as portas no escuro.
mudei toda a disposição dos móveis em mim. resolvi botar a cama embaixo da minha janela e o sofá virado para minha parede. minha nova porta estará sempre aberta: não estou mais recluso em uma penitência, pagando pelo pecado da coragem. não estou mais radicado em exílio. mudei os móveis, mudei a geladeira, mudei as estantes de livro em mim. há uma nova vaga na minha garagem: haverá alguém a estacionar nela. cada cantinho com pó e teias de aranha, cada gaveta enferrujada, cada folha seca em mim mudou de lugar, deslocou-se. minha nova porta não terá chaves. não haverá segredo ou código para entrar em mim. haverá cada pedaço de teto para cada pedido de abrigo, para todas as noites possíveis, para todos os corpos que quiserem descansar ao meu lado.
hoje eu escrevi o seguinte, e falei para algumas pessoas:
"amar não é se esvaziar para o outro, como a colega recém opinou.
não acho que se trate de um esvaziamento de si em detrimento do outro.
não acho que se trate de oferecer ao outro uma falta nossa que o outro vem a preencher, que é chamado a preencher, que nós demandamos que preencha.
também não acho que se trate de amar primeiro a mim mesmo para depois amar outro.
amo o outro, na maioria das vezes, simultaneamente não gostando de mim ou estando pelo menos incomodado comigo mesmo. posso, na melhor das hipóteses, estar tranquilo com o que sou no ato de amar o outro.
acho que amar é dar-se, abrir-se, expor-se ao outro naquilo que se é, na medida do que se é, lidando com o outro no tamanho que ele tem. o tamanho do outro é precisamente apenas seu tamanho, sua própria dimensão, sua própria extensão e seu próprio peso, sem adicionar a ele nada (nem tamanho, nem volume, nem peso) que seja meu.
por isso, amor não tem nada, absolutamente nada a ver com liberdade."
não surtiu efeito.