[...]tei no chão do apartamento vazio. nenhum móvel. só o som dos trens indo e vindo. a coluna toda aderente ao piso. a cabeça pesando no décimo quarto andar pela gravidade que era, sem dúvida, maior que no nono. senti que tinha todo o tempo de uma vida para tentar ser feliz naquele lugar. levantei com esforço a cabeça do chão pra ver a paisagem: até a cantareira. eu estava ancorado ali. o teto mexia em redemoinhos que, percebi mais tarde, eram futuros problemas oftalmológicos. eu não flutuava, nem dissolvia. eu era uma das rochas oceânicas que permanecem através de eras, afundam navios, destroçam submarinos; uma das rochas oceânicas onde moram gerações de corais, peixes e moluscos, nobres e plebeus, sagrados e profanos. eu com toda a força de alguém que não sabe o que quer, mas quer. eu com todo o peso de quem tem o que carregar e oferecer como dád[...]
olá, ghost.
hoje passei por uma das ruas onde nos despedimos. foi uma despedida à noite, escura, fria. evito a qualquer custo, a qualquer distância, passar pelos mesmos pontos onde coabitamos. escolho a outra calçada, a outra rua, o outro bairro. fujo, mas te reencontro como ghost em cada paralelepípedo. evito a lembrança. evito a possibilidade de cair em um túnel e ser arremessado de volta para o momento em que estávamos lado a lado, se olhando, se escutando, se tocando. sinto ser possível que o arrebatamento, que o encantamento que senti possam ter grudado, impregnado, se enroscado em cada paralelepípedo. desvio. mas sei que te procuro. como um cão que fareja: estou no teu encalço. escorei numa varanda de onde se vê a vista que te salvou, te curou. de fato, é como ter um mundo feito de tapete em concreto. e o céu tocado pelas pontas dos altos prédios, por onde passa o sol todos os dias. muito sol. não considero aquela vista curativa, nem salvadora. admito, porém, que olhar a cidade de lá é um aconchego. há tanto o que viver aqui. quis comer a cidade com uma colher, como quem a enfia com furor em um tiramisù. quero comer esta cidade em colheradas. e o trem da cptm passa bem ali embaixo. e acho que isso, sim, pode me salvar de ser Anna Karenina. é porque tem gente ali dentro. é porque assim não me sinto um fantasma no mundo. é porque hoje descobri que ser sozinho não é o meu maior problema. nunca foi. tua presença, ghost, é uma lacuna, um buraco. de todos, aquele com mais espinhos. hoje meu coração disparou e foi de tristeza. não foi de angústia, nem de pânico. foi de pesar. entristeci com o vazio. há um vazio, uma ausência. um lugar que não ganha sentido, nunca, que permanece vacante, que recusa preenchimentos e distrações. não porque estou sozinho, mas porque fiquei diante de uma parte, de um lugar que é vazio: um buraco em um paralelepípedo. sozinho eu me ouço; no vazio, entretanto, só há ecos.
então vamos falar as merdas? ok.
vou gritar mesmo, esculachar, cuspir nessa bosta de prédio, não serve pra nada de tu está dentro, eu sempre disse o que queria, O QUÊ?, eu sou uma pessoa honesta, eu te queria e tu não me quis, eu respeito isso, não rolou, mas não precisava ser escroto desse tanto, que merda caralho, e esse lixinho que tu carrega contigo, ixi, não chega nem aos pés de que a gente imaginou que poderia ser junto, e mesmo assim tu vem me esfregar essa bichinha na cara, seu escroto sem alma, eu nunca disse isso, acho que tu me entendeu mal, para, calma, vamos conversar, não foi isso, me ouve, mas não, como?, queria sim todo teu corpo, teus beijos e companhia, mas agora teu rosto já se esvai, não lembro da tua pele, como era?, era bom mas era caro, cala a boca bicha nojenta, não sou assim e não fiz isso, larga do meu braço se tu quer falar comigo, não seja estúpida, e o bafo do cigarro que tu tem me enlouquece, beija aqui e isso beija mais, sua merda escrota me deixou num apagão emocional, essa bosta desse prédio, GRITO CONTRA O PRÉDIO, porque é feio e sombrio, todo dia vou jogar lixo no prédio, não admito que tu diga que foi por pouco tempo, que nem valeu a pena, que podemos recomeçar de outro jeito, não vou, não admito, não sustente essa mentira, flácido e macio É A BOSTA DO TEU PRÉDIO, eu malho e pode não estar fazendo efeito agora mas vai fazer aí tu vai te arrepender, não me responda. não me reSPONDA. NÃO ME RESPONDA. tu nunca disse nada do que sentia, pensava ou queria, eu fiquei num apagão emocional. não. não. eu seguro. não vai. eu sei. nem um beijo?
[...]nterrei pontas soltas. sujas de terra. enlacei uma e outra numa tentativa de amarração. esvaziaram-se sem vida. viajei, voei. busquei um esquecimento, qualquer que fosse, de ti. sonhei e não entendi o sonho. bebi. carreguei comigo essa bola murcha. não é de quilômetros que é feito o desejo que tenho. desfiz-me na água do mar. não é de carne que é feito o desejo que tenho, nem de sangue, pois nenhum tubarão me mordeu. detesto areia. colocaria azulejo em toda a praia se prefeito fosse do lugar. nadei e dormi lembrando de ti. lamentei que não estivesse comigo. o sal, o sol, as ondas e a cozinha lamentaram também. disseram-se que foi melhor assim. tive medo de cair do trigésimo andar. mas o trigésimo andar me prometeu que não me empurraria. duas pontas soltas sem v[...]
[...]ero que sejas bem feliz junto do teu novo rapaz. faço votos de que goze bastante, ria bastante, caia de boca nesse arrebatamento que é ser reconhecido por quem estamos apaixonados. parabéns. concordo, gozar na cara é mais gostoso. que bom que se gostam. é. nossa, que rápido, né? parabéns mesmo. é, eu também acho: há algumas pessoas que passam pelas nossas vidas para ser degraus, elevadores, andaimes, catapultas. aham. é, entendo. imagina, nenhuma. ofendido eu estaria se tu não soubesse quem eu sou. é, né? verdade, sou uma pessoa muito de boas. não sei se tu te importa em eu perguntar, mas pra que perder tanto tempo comigo, então? sim, foram vários dias, várias horas. lembra? não, eu estava usando óculos e uma malha. estava frio e botei um casaco pesado. lembra? não, nunca fomos a pinheiros. não. eu subi direto pro teu apartamento. estava frio. é. eu preparei um cousz cousz com amêndoas, cebolinha, páprica. mas tu me disse que não comia peixe. lembra? ah, entendi. é. a vida passa, sim. aham. meu trabalho tá legal, acho que vão renovar meu contrato. não, ainda não fui à europa. tá difícil, né. o euro ao preço que tá. entendi. nunca mais voltei no parque buenos aires. porque não quero, não faz sentido, tive pouco tempo. isso, muito trabalho. não é no capão redondo, é no campo limpo. tu tem certeza que sabe qual é o meu nome? foi só uma piada pra ver se tu tá acordado. é. sei. então, menino, fiquei com uns guris aí, mas na maioria das vezes não rola. tu sabe bem como é, quando não rola, né? estar com quem não rola é brochante. não é? é. verdade, um dia aparece. príncipe? é. um dia ele vem. não to mais morando lá. mudei pra barra funda. não, eu morava perto da paulista. ah, é, mesmo? que bom, ótimo bairro. tranquilo pra um casal morar. aham. daqui a pouco serei feliz, seremos todos. oxalá. aham. obrigado. imagina, nenhuma. pra ti também. tenho certeza que sim. tchau.
olá, ghost.
tu ainda chacoalha correntes atrás das portas. ainda geme de madrugada. ainda assopra meu pescoço enquanto lavo a louça. depois da tua morte, tu é assombração que flui, que se move como gás.
aos poucos faço as pazes com todo o terror que tua figura me evoca, me provoca, me impõe. esta é uma cidade fantasma, de fato, e preciso viver nela. escolhi estar aqui. é uma cidade fantasma porque dá margem para que as feias imagens do desespero ganhem voz e cheiro. somos todos párias aqui. eu ainda não estou morto, mas rogo para que eu saiba discernir em qual horror eu habito quando a hora chegar. não tenciono morar na casa de alguém puxando os cabelos dos vivos enquanto eles dormem. ainda não estou morto, mas já sei que tua presença é assombração. já separei tua vida da tua morte. já vi teus olhos sem fundo. tu é mais um habitante morto desta necrópole.
o que eu faço com meus mortos? por um tempo vou sentir dor ao pensar em ti, ghost. vou repassar todos os momentos em que eu deveria ou poderia ter evitado tua morte. e vou chorar pensando que tu não queria me deixar. depois vou praticar a revolta porque eu saberei que tu morreu porque tu quis. e vou chorar pensando que tu premeditou me deixar. na surdina da minha alegria tu já tinha data para falecer. em seguida, vou entender que foi só um encontro, que não há explicação do porquê tu quis morrer, que tenho pouca participação em qualquer decisão que tu tenha tomado sobre tua própria morte, que se tu me deixou foi porque tu sentiu que assim era pra ser - simples assim - e que isso não significa que uma parte de mim tenha que morrer também. pra ti eu já não sou assombração. pra ti eu nunca estive vivo, nem no toque, nem na escuta. nem quando eu disse que estaria feliz em qualquer lugar onde tu também estivesse, qualquer lugar que tu me convidasse pra estar contigo.
no que me é dado saber, estou vivo. mas há esse negativo de vida com o qual preciso coabitar. tu uivando para a lua, tu derrubando quadros, tu movendo talheres. um morto que ainda me visita. meus mortos: são a sombra da minha história viva. caminho vivo pela necrópole que mantenho em cada linha da minha história.
[...]á conseguia lidar com o silêncio do apartamento, com a luz apagada para dormir. permanecia, porém, como ghost que não desaparece, a lembrança do homem. a inquietação do domingo nublado o empurrou para as calçadas. talvez caminhando a dor drenasse: o ralo por onde escoava era na boca do seu estômago. andou e chorou em uma porção nordestina de são paulo. deixou traços de lágrimas na piauí, maranhão, alagoas. nina simone o acolheu: o homem precisava dele. fantasiava que, ao retornar para casa, o homem estaria à sua espera na portaria do seu prédio. na tentativa de expulsar esse delírio, caminhou durante três horas por quatro bairros diferentes. enxergava o homem por de trás de cada arbusto, em todas as janelas dos prédios, saindo de carro das garagens abertas. passava os olhos em todas as mesas dos botecos, em todas as filas de espera dos restaurantes, desesperando encontrar o homem. percebeu que, mesmo já sabendo lidar com o silêncio e com o escuro, buscava o homem, queria estar em face do homem. não tentava escapar; circulava pela cidade com o intuito de encontrá-lo. não fugia; ia em seu encalço. e passou a assumir para si que, sim, queria olhar nos olhos do homem e suplicar, como no pôster do filme "lua de fel". era tarde para isso, e fora de moda também. mas se pudesse, se lhe fosse dada essa chance, ele não teria pudores em implorar. só mais um toque na barba, no cabelo; só mais um beijo na orelha; só mais uma risada com uma taça de vinho compartilhada. só mais uma companhia do seu ghost preferido.
era um sábado. manhã fria, chuvosa. o som dos pingos oscilava entre "romântico" e "melancólico". ele acordara às seis e treze, sem coisa alguma para fazer. lembrou do homem. teve a certeza de que, para o homem, o som dos pingos de chuva cravava no centro da definição de "romântico". perdeu alguns minutos olhando pela janela, compondo o corpo que deveria estar com o homem naquela manhã. não era o seu, por certo, pois o homem o havia rejeitado. perdeu mais alguns minutos elencando partes e características do seu próprio corpo que o homem teria detestado. antebraços finos; gordura abdominal; glúteos flácidos; pescoço longo; olhos inchados. marcou horário na academia. preparou café e tomou uma xícara, sem açúcar. a chuva engrossou: o homem deveria ter apertado a conchinha, deitado na cama quente. cogitou a hipótese de que, talvez, o homem o tivesse rejeitado não apenas pela sua aparência e consistência físicas, mas também pela sua classe social. morava num apartamento alugado onde não incidia luz solar. metade dos móveis não eram seus. ele próprio ajoelhava-se para limpar o banheiro e o vaso sanitário uma vez por semana. o cartão do sus estava sobre a mesa, junto com guias para agendamento de consultas. era pobre, afinal? (pobre marca horário na academia?) encheu mais uma xícara com café e, daquela vez, misturou uma colher de chá de açúcar demerara e mexeu o líquido com uma das duas, apenas duas colheres que dispunha. (pobre compra açúcar demerara?) no primeiro gole pensou em acender um cigarro: chuva, frio e café pediam por cigarro. e pensou em vinho. (pobre pensa em vinho?) sabia que o homem havia tomado vinho com o outro na noite anterior em um jantar que acertava em cheio na definição de "romântico". riu de dor. e pensou em cerveja. e pensou na sua própria pança, cuja responsabilidade era sua mas também da heineken e da stella artois. ele sofria mas bebia bem. a chuva não parava. desejou ser amigo de bridget jones. o homem saberia como aproveitar um sábado frio e chuvoso. vestiu uma calça de moleton, uma camiseta branca manchada na região das axilas, um casaco, meias e chinelos. saiu do apartamento, do prédio, sem guarda-chuva. foi até a lanchonete cuca real, comprou marlboro e um isqueiro vermelho, para lembrar o inter de porto alegre. pediu dez heineken long neck; só tinha brahma. who cares? levou para casa doze latinhas brahma. higienizou todas com álcool setenta por cento e as colocou na geladeira, que precisava ser descongelada. depois da primeira baforada do primeiro cigarro, desmarcou academia. a chuva parara. o homem deveria já ter feito sexo àquela hora; imaginava-o tomando banho com outro. toda a delicadeza de um dia como aquele - sábado, chuvoso, frio - lhe escapava. a sujeira do tabaco se espalhava por dentro dele, pelas suas veias e artérias. e a bunda por mais um dia mole e os olhos por mais um dia empapuçados. soube-se pobre: sozinho e classista; arrogante e preconceituoso. habitava o coração de uma palavra ainda não inventada para o sentimento de.
[...]va pensando em causar. fazer algo que impactasse a vida paulistana de modo a deslocar o interesse urbano daquele dia preciso, daquela hora agendada. fazer algo que tumultuasse as redes. quebrar as vidraças da sede do banco safra. pousar um boeing no minhocão. implodir o copan. (essa seria minha cartada final, mas eu morreria um pouco em cada tijolo, em cada elevador, em cada ripa de madeira do saguão.) cagar nas vidraças do masp e deixar escorrer. marcar suruba na sinagoga da doutor veiga filho. gritar "lula livre!" na faria lima. botar uma camisinha no obelisco. (e tentar sentar nele depois.) correr a frei caneca pelado não é uma alternativa porque é uma redundância. e um vexame, sejamos claros. limites. [...]
[...]scongelou e derreteu. escorreu pelo chão, desceu o ralo da área de serviço. (lembrar de jogar água fervente no ralo da área de serviço, pois as mosquinhas já se acumulam na parede de azulejo.) não só de choro, de lágrima, de suor pela angústia de ficar sozinho no seu apartamento de quarenta metros quadrados com vista pra um paredão, voltado pro sul. não só de mijo que desceu suas pernas sem aviso porque tinha tomado três garrafas de vinho e caiu desmaiado na cozinha num quase coma alcoólico. não só. a coisa fria que ele era havia se desprendido de um grande continente. estava à deriva, se movendo em alto mar, em direção aos trópicos: a coisa fria que era (não esquecer de descongelar a geladeira medieval que foi alugada como mobília do apartamento.) (lembrar de comprar um bolo para o porteiro da madrugada, que o havia socorrido numa das madrugadas em que desesperou lembrando do outro, que conversou durante duas horas no saguão do prédio dizendo que tudo ia ficar bem e que deus aceita todos.) (não esquecer de retomar os exercícios de mindfullness na sacada.) o grande bloco de gelo se aproximava do paralelo 33. e ele se dissolvia no calor da palpitação em fantasiar que o outro, àquela altura, sequer lembrava do seu nome, do seu rosto, dos trechos de vida que lhe havia contado. ele estalava e craquelava e despencava em blocos que submergiam em alto mar, provocando ondas, na arritmia do coração crente de que o outro bebia e beijava e fodia e gozava e bebia e beijava com porra e gozava porque beijava com porra outros homens - que não ele. (lembrar de bater punheta, quando puder.) mesmo assim se movia, ia em direção aos trópicos, derretendo. ia ao encontro de algo que o outro arrancara nele. e convidava o outro pra ir junto, ou pra habitar o trópico quando ele lá chegasse. e se restasse algo desse pedaço congelado que ele era, se algo de frio ainda boiasse no mar dos trópicos que pudesse ser pego com a mão, queria que a mão que o pegasse fosse a do outro. aquela mão que o explorara. (não esquecer de fazer três séries de vinte abdominais-bicicleta pra esquerda e pra direita, diariamente.) (lembrar de jogar no tanque as cervejas guardadas.) o outro o havia deixado. o outro desembarcou dele. algo se incompatibilizou entre os dois. foi a pergunta sobre "o quê?" que o separou do grande continente. o outro talvez soubesse a resposta, de pronto. ele não sabia. porque pra ele o bloco de gelo ainda era um cont[...]
[...]oite curta, de cinco horas. a angústia me impede de permanecer no escuro, trancado na paisagem do meu quarto pequeno, que é uma caverna. significa submergir nos acordes mentais da música da gal. significa vê-lo se aproximando em silêncio, e eu pronto para ouvi-lo, para deixá-lo entrar. sem conseguir respirar, me levanto. acendo todas as luzes do apartamento. ligo a tevê em qualquer canal em que haja alguém falando: um noticiário, uma missa, uma receita de bolo. é para dispersar aa voz dele me contando sobre o que gosta de fazer durante o carnaval. há pássaros em são paulo, bem-te-vis, canários, sabiás, tucanos e corujas. e pelicanos. atobás, albatrozes. pássaros caçadores na cidade onde faz vinte e um por cento de umidade em agosto. em mais uma noite curta eu precisei molhar uma toalha e deixá-la pendurada ao lado da cama, na minha caverna. talvez seja por isso que os pássaros vêm cantar na minha janela. repasso as últimas vezes em que nos encontramos e quase acredito que eu deveria tê-lo beijado desde a primeira vez. é só em mim que essa fenda separa; é só em mim que a noite curta pesa; é só em mim que a lembrança da última vez em que eu toquei na sua barba estraç[...]
[...]sde janeiro, muito e pouco mudou. estou morando em são paulo, na consolação - nada poderia ser mais adequado pra mim do que morar no consolo. consegui trabalho, não emprego. desqualificado, trabalhoso, pesado, demorado, arrastado. um consolo sacrificial depois de seis anos de pura exploração, depois de seis meses de desemprego. mas não reclamo. estranho, não reclamo. passeio por higienópolis, centro, jardins, barra funda e santa cecília, conheço as ruas desses bairros e a posição solar da cidade como se a palma da minha mão fosse a terra plana. e é, em certa medida: meu mundo é um terreno plano, um pouco inclinado, dentro de uma redoma. entre maio e agosto escrevi um diário a mão, só pra exercitar. dei de presente a um amigo. um moleskine inteiro de letra cursiva, romântica. desde a primeira semana de agosto estou escrevendo outro diário, também a mão, também em um moleskine, mas menor. mais um presente para outro amigo. minhas amizades mais próximas são canibais, pois dou a elas partes de mim para se alimentarem. na verdade, o canibal sou eu.
são justificativas do porquê não tenho escrito mais aqui. mas estou escrevendo, estou escrevendo muito, talvez mais sinceramente do que nunca. talvez até devesse pensar seriamente em publicar um livro sobre tadzzio. ou sobre uma ilha deserta. por ora, decidi voltar aqui para não enlouquecer. não posso me dar ao luxo de ficar louco, nem de oferecer essa pequena vitória a quem contribui para minha loucura.
*
são três e meia da tarde de uma sexta-feira que já dura quatro dias. foi o horário em que nos falamos da última vez. desde então, desagreguei, desabei, desorganizei. em algum milésimo de segundo desde esse big bang, eu não suportei o apartamento que dá para um paredão, o escuro, o silêncio. em outro, eu caminhei de um lado pra outro, da sala para o quarto, depois para a sacada com vista para um bloco de concreto, olhei para cima e para os lados, para baixo, em busca de outros apartamentos com luz, com movimentação humana. queria ouvir músicas vindas de outras casas, gritos. não vi nem ouvi nada. meu coração palpitava, e me escorei no parapeito: segundo andar, muito baixo. eu não suportaria ficar sozinho. vesti qualquer coisa surrada, peguei uma máscara grande e óculos escuros. andei pela rua augusta, sentei em três botecos diferentes para tomar café e ver pessoas caminhando, sentir o sol. chorei por detrás de tudo, um choro de quem fragmentava e não conseguia coser os trechos de emoções muito, muito antigas. chorei com café, com pão de queijo e com pão na chapa lambuzado de cream cheese. fui subindo a augusta do centro em direção à avenida paulista. não conversei com ninguém simplesmente porque eu não conseguiria articular palavra sequer. quando choro minha garganta fecha: não comunico para fora. só via imagens da barba e dos cabelos desalinhados entrecortadas por choques que eu sentia no peito, na boca do estômago. talvez eu estivesse vivendo em um pesadelo e alguém no mundo acordado tentava me reanimar com desfibrilador. não deu certo. quando cheguei à sede do banco safra eu desabei. sentei o mais próximo do asfalto e do concreto que pude, no meio-fio. a avenida paulista nunca decepciona, pois sempre há transeuntes dispostos a te ignorar. é para lembrar que tu precisa ser discreto. e naquele momento eu era um escândalo. eu chorei pela confusão, pela rejeição, pela incompreensão. ninguém de fato viu, pois essas são emoções comuns no meio-fio que une a paulista à augusta. eu era só mais um em mais de um século. senti revolta e medo. derreti naquela dor estranha onde eu havia molhado meus pés.
eu estou muito cansado. é um dia muito longo, esta sexta-feira que não acaba. esse desprezo que repete o gesto em looping. a indiferença paralisa o tempo na melancolia, que é um gás. é uma gravidade que me impede de levantar. minha cabeça dói e pende pro chão. sinto que vou desfalecer, entrar no sono regido por uma dor de cabeça forte. ouço a voz dele e acordo. é de madrugada. o escuro do quarto é insuportável, e ligo a luz num movimento de desespero. venho à sala, abro a janela da sacada: paredão. lá longe vejo dois apartamentos com as luzes ligadas. fixo neles o olhar, já lacrimejando, pedindo para que alguém se levante do sofá, ou ande até a cozinha. não suporto estar sozinho. ninguém se movimenta. o terror que ejetou de mim precisa ser filtrado; é parte do que sou. o desespero é uma serra que separa membros e eviscera corpos: meus braços e olhos flutuam no teto. o que resta de mim está preso ao chão na mesma gravidade que torna difícil eu correr, gritar e até mesmo bater nele. porque ele não disse uma palavra de carinho. ele delegou a mim a atitude de botar um ponto final em uma frase quando eu queria escrever junto com ele um livro inteiro. será que ele estava certo, afinal? foi demais, muito rápido, muito pesado? ou foi de menos, muito ingênuo? o que eu fiz e o que eu deixei de fazer para que essa história encontrasse seu fim em palavras minhas - minhas palavras, eu, que estava disposto a tudo com ele? o luto existe para que possamos encontrar nossas respostas para perguntas deixadas em aberto pela ausência do outro, do outro que desejamos e que foi arrancado (arrancou-se) da nossa vida. do desespero à raiva; depois à conformação; depois à indiferença. nesses degraus, devo resgatar os pedaços rasgados e os reintegrar a um novo corpo. porque ele me manteve no escuro e se despediu sem nenhuma palavra de carinho. eu rasguei sua dedicatória e coloquei seus papéis no lixo reciclável. a mais triste tristeza é esta em monólogo. o silêncio e o escuro: ainda não sei o que fazer neles. ainda estou no subsolo do desespero.
[...] agora está claro: entendi tudo.
cheguei em casa e lasquei vinho na taça. no copo.
tomei um, dois, três. e fui entendendo.
e acessei o xvideos. e fui entendendo: tomam um, dois, três.
só faz sentido em zoom: se mais perto ou mais distante. se mais perto a gente vomita. não dá conta. é como ícaro, ou como rádio. matam, derretem, destroem. se mais longe, é como inveja. uma grama verde ao lado. um corpo mais bonito. um sorriso mais branco. um currículo mais longo (ou mais preciso).
fiquei nu e sentei no sofá. nada contra o sofá, mas eu precisava ser lambido pelo vento gelado do ar-condicionado. no corpo todo ardia uma labareda que SÓ O AR-CONDICIONADO poderia apagar. e eu paguei a conta depois.
decidi que começaria a rir de mim antes que os outros rissem. e se não rissem, se minha piada fosse totalmente interna (e todas são), eu mesmo assim faria piada do fato de eu rir de mim mesmo. ratificaria o menosprezo. acho que ficará mais fácil no futuro, se for assim e somente assim.
nenhum centavo valem minhas memórias. é que quando a mãe da gente abandona, devolve ou nega, a gente se pergunta porque essa enrascada começou. e daí nada mais depois faz sentido. não é edípico, pois não se trata de jocasta. é jásico, pois se trata de medeia. fui morto numa fogueira quando ela soube da gravidez. nasci numa labareda.
todos os que tiveram uma mãe sabem quê. e não clicam naquela aba do xvideos. mas os que não tiveram gozam precisamente com aqueles filmes. se vingam das mulheres, em geral, pelo gozo geral.
depois tem a ficha da solteirice, que é como da solidão mas com registro civil: SOLTEIRO. tudo bem, não me incomoda. já me incomodou mais. pelo menos minha parte na herança (né, mãe) é minha. a outra leitura, mais estética: como você se apresenta ao mundo? é inevitável. a pergunta mais ontológica: quem você é? aparece nas mentes menos brilhantes. a pergunta pragmática, o que você fez? é típica dos infelizes. a pergunta moral, por que você é assim? é a que rende mais desculpas e justificativas. mas a pergunta que realmente sempre me importou responder, e ninguém fez, é: em qual mundo tu deseja viver?
desinfetar a casa com álcool 70 pode parecer até exagero, mas mantém os bichos longe. eu quero os bichos longe. posso até assar as duas minipizzas que estão no congelador, e posso inclusive esquecer o sorvete que tomei após o almoço, mas nunca, nunca, vou esquecer que tu me disse que eu não deveria estar ali na praia porque a sunga comportava um corpo descabido. "manter os bichos longe." sigo limpando a casa.
se eu acordar agora, posso deletar os sonhos que tive até então?
se eu cair agora, pode ser com a velocidade instantânea?
como num piscar de olhos sair da vida. os rapazes trocando passes com as bolas na areia: um grito casual de quem não sabe que eu existo - ouvi numa canção. os surfistas por dentro de um túnel de água simplesmente me superesquecendo. os maratonistas pisando no asfalto e suando a ignorância de mim. os lixeiros, os pedreiros, os livreiros, os azulejistas, os carteiros e os pintores, os ourives, os punheteiros, os marceneiros, os jardineiros e, finalmente, os entregadores de gás. eu falhando na memória de todos, inclusive no meu cheiro, inclusive no meu gosto - pois meu rosto já nem comparece.
encarar o desconhecido sem parapeitos, sem gradil. desaparecer. cair. fantasio muito com a queda. entregar-me à gravidade - à coisa que pesa e que puxa pro chão. que leva à terra. à coisa pesada. aceitar me despedaçar com a proximidade da atmosfera. estilhaçar em contato com o oxigênio. brilhar como cometa em contato com o ar. e aterrisar, tocar o chão, afundar, espatifar o solo inteiro, explodir pedaços de mim na tangente macabra. descer. ser abraçado pelo vento. dormir no aconchego de um ninho de algodão macio deslizante. e deslizar velozmente até o chão. e cintilar de vermelho e ocre nas mais belas curvas desintegradas que hão de existir.
entendi parte do todo, que há de se despedaçar.
[...] tudo o que escrevo é uma carta. pequenos trechos, idas e vindas, pulando nos círculos da espiral: debruçando-me no mezanino do tédio, olhando para o andar de baixo com desprezo. tudo o que escrevo é um fragmento de cartão postal para os amigos. um recado de onde estive, para onde gostaria de ir. e continuo indo, me deslocando, saltitando de uma dimensão a outra. mas quem olha de fora me enxerga mais como um touro pesado, um búfalo enlameado, que se move devagar e sempre na mesma direção, com dificuldade nas curvas mais fechadas. babando e bufando. encarando pesadamente o horizonte. touros não escrevem cartas e búfalos não mandam cartões postais. eu mando. posso estar enlameado, mas não sou lento. a velocidade na qual me transformo é rápida demais para os olhos leigos. e vou mandando cartas aos amigos desde os diferentes pontos de paragem dessa minha viagem louca.
hoje meu coração acelerou. que frase bonita, essa. poderia vir entre aspas, pra posar como início de um romance digno do jabuti: "hoje meu coração acelerou". mas não quero, não posso, enganar meus amigos. eles sabem que meu coração não acelera. a não ser com bebidas geladas, com raspas finas elétricas, fumaças perfumosas. e estou santo, estou limpo; não obstante, hoje meu coração acelerou. poderia ser a primeira sentença de um romance romântico, arrebatador. não o meu romance. meus amigos não se deixariam enganar: eles sabem que eu não amo romanticamente. não caio no engodo do par, do eterno, do complemento. sou como uma frigideira que cozinha melhor sem tampa mesmo. apesar disso, hoje meu coração acelerou. terá sido a cafeína? a caminhada? o peso de um passado que me acorda todos os dias com um estridente grito de fracasso?
meus amigos não seriam tão facilmente engambelados. eles são espertos e conhecem minhas estratégias de disfarce - que são poucas, mas funcionam com os leigos. tudo o que escrevo é uma carta endereçada aos meus amigos, e eles entendem cada linha. victor heringer me entenderia; ele me entendeu, entendeu toda a gente da minha estirpe, e decidiu que já tinha vivido o suficiente. tomou pra si a decisão sobre a vida. nenhum amigo meu faria o mesmo. mando cartas para meus amigos porque eu preciso me explicar, explicar pra eles, tim-tim por tim-tim, pra que eles entendam. não sou bom frente a frente, cara a cara, corpo a corpo. prefiro enviar cartões postais, colar selos com a saliva e jogar o envelope num buraco da parede. a distância eu funciono melhor. escrevendo eu me explico, deixo minha fragrância no mundo: escrevo meu cheiro como aquele perfume que fica na última camiseta usada por um falecido. é sangue com notas amadeiradas. jamais cítricos; florais são um acinte.
os livros fechados na estante, eles aceleram meu coração. os pingos da chuva no vidro da janela, os trovões à noite, saldo da conta bancária com mais de cinco dígitos também. dia ensolarado sem nuvens no céu não acelera meu coração. nem dias quentes. o silêncio do meu apartamento, sem amigos que me visitam, paralisa meu coração. o desemprego acelera meu coração. lembranças do passado paralisam meu coração. as cenouras sobre o fogão, à vista para eu não esquecer de assá-las: aceleram. a louça suja na pia pra eu lavar, à noite, antes de dormir: paralisa. quando há uma história ainda a ser feita, a ser contada, meu coração dispara. mas quando algo retém o tempo ou simboliza o fim de um momento, meu coração para. meus amigos sabem: eu vou morrer num dia de inverno, sobre o asfalto. não sou do tipo que morrerá numa cama, numa maca. no momento antes da minha morte meu coração baterá com força. meus amigos entenderão. [...]
preciso deixar a torneira aberta, senão a água limpa não vem.
[carta aos amigos]
ao dobrar a esquina da avenida joão pessoa e entrar na josé bonifácio, eu quis morar naquela paisagem que vi, pra sempre. as árvores (ipês amarelos?) exibiam folhas e flores robustas, que projetavam sombras discretas por toda a extensão dos canteiros. havia um cheiro leve de ano que se aproximava do fim. era surpreendentemente fresca a temperatura apesar do sol brilhante. havia certa luminosidade inclusive na sombra das árvores. isso porque alguns raios de sol atravessam as flores, as folhas, que caíam em arco por sobre a calçada. um túnel verde, amarelo, resplandecente, fresco, me convidava para atravessá-lo. não havia trânsito pesado naquela ponta da avenida. por isso, só percebia um silêncio que deixava transpassar toda a tranquilidade daquele momento preciso, isolável. uma calma tão harmoniosa que se confundia com o asfalto, os paralelepípedos, o vento ameno, a luz e o verde, o cheiro de final de ano. paz, enfim, entre as coisas vivas e inanimadas que faziam possível aquela paisagem. eu quis morar naquele momento.
porque havia um dulçor, uma frescura naquela sombra. uma vida, então doce e levemente fria. era onde eu queria morar, era como o mundo deveria ser pra mim. fresco e doce. não foi por pressa nem por preguiça, mas minha vida tomou outro rumo. meus ombros queimaram ao sol. ardiam. minha pele converteu-se em pelanca. todo meu perfume ou se evaporou ou virou o cheiro forte que exalam os corpos velhos - a velhice tem um cheiro. rolei pela rua. me vi morto. me arrependi de quase tudo. nenhuma tomada de decisão estava certa. eu estou trancado num momento que não vai acabar, nunca. só mais desespero, só mais choro. antes de vir ao mundo eu desfiz minhas ilusões - para aquilo que seria minha vida, minha pessoa, meu caráter e a estima que as demais pessoas sentiriam de mim. mas agora as decepções passaram de qualquer limite. não há modalidade de rancor, de pena, de lástima que não caiba tão perfeitamente em cada segundo que passei na estrada, à noite, sustentando aquela realidade. eles são a medida do arrependimento que pesa amarrado aos meus pés. eu caí e rolei na rua. ninguém me ajudou.
eu sei, amigos: não é sempre que minha companhia é fácil. eu sei: às vezes dá vontade de não me ajudar. eu sei: dá vontade de me fazer sofrer. eu sei, amigos: inclinam-se para que a vida me ensine, pelo mal, o seu valor para que eu, quebrado, constitua o meu próprio. eu sei. é por isso que os mato quando posso. porque querem me ensinar pelo mal. desculpem-me.
o tempo não me passa, não me atravessa. o tempo pra mim é espacial. habito o tempo como quem habita um quarto, uma sala. o tempo da infância foi um quadrado cercado, largo, amplo - porém vazio, úmido. abri uma porta, passei para outro tempo: de paredes espinhentas, anoitecidas, teto mofado, chacoalhado por terremotos - a adolescência. atravessei um corredor longo, estreito, asfixiante: o tempo na faculdade. desemboquei num grande, imenso balcão que dava para um bosque a terminar no horizonte, um balcão de um palácio no qual ventava e o vento, em curvas, uivava nos meus ouvidos - a jovem adultez. de onde caí em degraus de uma escada que só permitia descida: a adultez em si. e a adultez velha, ou a jovem velhice, é este trecho público da rua josé bonifácio num mês de outubro, com árvores, luzes e sombras radiantes. cada tempo tem sua sala.
tá tudo bem. e ainda não é exatamente isso. não é muito acurado dizer "bem" ou "tudo". nem "estar"; talvez coubesse dizer "é tudo bem", como se estar bem fosse da essência das coisas que me rodeiam. três palavras perfeitas (2-4-3) não acertam o alvo. porque há insetos mortos na lajota branca da sala, porque o vizinho faz reuniõezinhas animadinhas até tarde da noite, porque o sinal da internet cai o dia inteiro, porque tomo muito café e sinto dor de estômago. mas tá tudo bem. e não é verossímil. vizinho bom é vizinho invisível, inaudível, inodoro e insípido. os meus não são, mas eu tento ser. é o meu ideal de vizinhança. é como meu ideal de família: está tudo bem, mas não se trata de estar tudo bem. se trata de ir, vir e contornar os valores morais, de dar dois pesos para duas medidas, de esquecer estrategicamente aqui e ali qualquer coisa que para o outro é fundamental. e é de amor que falamos o tempo inteiro? não. portanto: não se trata de estar tudo bem. esse é meu ideal de família. pois tá tudo bem, e isso ainda não convence. não se trata de uma reuniãozinha animadinha. se trata de dizer algo, ou de não dizer algo, e estar sempre errado. ser sempre distante e, por ser distante, ser mau. ser sempre inadequado, sobretudo quando se tenta a ironia. se trata de ser mal-quisto, porém necessário. se trata de não ser bem-vindo, mas ainda assim convidado. não sei como será a visão do velório dos meus pais. não sei o que de fato eu enxergarei nesse dia, nessa paisagem. o que haverá de volumes e cores que povoarão a cena. não sei sequer se haverá dois corpos ali a serem incinerados, ou se eu já o terei feito desde agora. de como o luto me chegará, de como a falta se acomodará nos cantos ou bem no centro da sala-de-"estar". de como eu me livrarei deles mais que eles da vida, mais que eles de mim. de como a inveja pelas suas mortes substituirá, em mim, a melancolia pela perda dos cuidadores. de como o desamparo pela morte dos pais não me é estranho, nem o desprezo que suas mortes podem eventualmente significar ("como vocês podem me deixar sozinho no mundo?"). disso nada sei, mas estou atento. pois é um conjunto de sentimentos intoleráveis. por tal razão, nada está bem de fato, e isso é perfeitamente verdadeiro.
[...]ência da criação. às vezes eu sento e escrevo, menos por necessidade e mais como um exercício. ou como uma massagem que destensiona um feixe muscular. como um mergulho no qual não respiro, envolto num silêncio submerso. e volto à vida. mas enquanto escrevo estou morto. escrevo do meu túmulo. chegou ao fim um domingo precioso. há 51 anos meus pais se casavam. se eu pudesse, se eu lá estivesse, interromperia o ritual. mostraria fotografias minhas e dos meus irmãos como evidências do porquê aquele casório não poderia acontecer - ou melhor, poderia, mas ao custo de 3 ou 4 vidas. e de fato eu estava lá, virtualmente: eu estava no casamento dos meus pais há 51 anos num porvir. ali, e talvez um pouco antes ainda, eu comecei a me fazer. tenho 51 anos hoje, talvez um pouco mais velho ainda. o domingo termina com chuva. com o apartamento limpo. com a geladeira cheia. com uma garrafa de vinho pela metade. com certa dor de estômago. me sinto pobre: nos remanejos da mudança de apartamento, fiz de uma fruteira meu criado-mudo. e o fogão está atravessado na cozinha, impedindo a passagem para a área de serviço. o sabonete que passei a usar é dos mais baratos e deixa um cheiro fino, frágil, sobre a pele. era o que eu poderia pagar para continuar tomando 2 banhos por dia. preferi diminuir a quantidade de comida a racionar as chuveiradas. faço 3 refeições simples por dia, sem transbordamentos e sem repetições. a manteiga se espalha discretamente sobre a torrada. a granola é medida na balança. sim, geralmente me deito com fome e pego no sono com a barriga roncando, aguardo até o próximo dia para o café da manhã. sonho com comidas variadas. mas ou diminuo a compra de comida, a ingestão de comida, ou tomo menos banhos por dia. no meu orçamento não cabem igualmente o litro de leite e o sabonete glicerinado. o nome disso é desespero e é o que entretece o fio confuso da vida por esses dias. o desespero de racionar a comida e o sabonete para manter-se vivo, para manter-se limpo. me sinto pobre. [...]
[...]pre me vi como uma ficção que se atualizava a cada dia. e eu nunca era verdadeiramente aquele personagem que eu criara. acabava sendo um outro, mais desgastado, mais puído, aparentando ser mais velho do que eu era. eu produzia um script para ser um e dava sempre noutro.
eu era sempre uma versão mais perseverante de mim mesmo do que eu alardeava. eu pensava em morrer, em desistir da vida... e, ao mesmo tempo, eu tomava dois banhos por dia e escovava os dentes quatro vezes ao dia e me preocupava com a taxa de glicose. não me parecem atitudes de quem estivesse aguardando a morte. do que adianta o enxaguante bucal no momento de bater as botas?
porque quando tudo dava errado eu queria comer doces. ou tomar um café com leite ao sol, se fosse inverno. ou um pote de sorvete importado, se fosse verão. eu era este tipo de farsante: a vida me dava uma rasteira, e eu lambia os beiços com açúcar. eu não me deixava abater, mas vivia escrevendo textos tristes para comover os amigos. com qual objetivo eu queria convencer alguém de que eu era um coitado?
obcecado por limpeza. por desinfetantes de toda ordem, por aromatizadores; doido por borrifadores de álcool para desinfecção de superfícies, por escovas e esponjas de limpeza pesada; aficcionado pela água sanitária para jogar nos ralos. eu queria mesmo era viver num reino pequeno e salubre onde eu pudesse espalhar minha história discreta. nenhuma cor gritante nas paredes e pouquíssimos objetos de decoração. mas a disposição dos móveis nas peças, o brilho das superfícies, a ventilação e iluminação dos espaços e o cheiro - sobretudo o cheiro - de chão e teto limpos, saudáveis, refrescantes. seria esse um túmulo higienizado que eu organizava para meu fim?
domingos eram dias especiais: necrodays de pura tristeza e, simultaneamente, o momento da semana em que eu trocava as roupas de banho, cama e os panos de prato da cozinha. lava cada um deles com produtos específicos e esterilizava todos. era de toalhas novas que meu velório precisava?
[...]ua de cabeça baixa. olhando diretamente pro chão, no máximo mais alguns metros para me certificar de que não esbarro em alguém. mas bem que eu queria bater em alguém. de qualquer modo, tenho olhado muito o chão, e hoje especialmente foi um dia de chão. quando dobrei numa esquina levantei a cabeça, só pra confirmar que não esbarraria em alguém. mas bem que eu queria bater em alguém. eu vi um senhor em situação de rua sentado na calçada, escorado num muro, cuja posição fez doer minha coluna cervical. um pouco mais adiante, uma senhora idosa empurrava um triciclo no qual pedalava um rapaz com síndrome de down. naqueles poucos metros de chão havia tanta realidade, concretude crua da vida sem banho de glória (sem banho, simplesmente). eis o movimento lento do triciclo, que se movia um pouco pela força nos pedais e um pouco pelo mão que empurrava o banco, observado do chão pelo senhor deitado numa posição dolorosa. havia um pouco de dor e um pouco de cinismo nessa cena. tudo se ligava por uma resignação seca: esses personagens eram o que eram, e eram o que suas vidas permitiu que fossem. será que na sua posição dolorosa o senhor em situação de rua sabia que era um refugiado em seu próprio país, expulso da esfera cidadã, sentenciado a perambular sem casa por um crime que não cometeu? será que a mãe-natureza, tão correta em seus caminhos misteriosos, havia presenteado um corpo com um cromossomo a mais sem que nenhuma revolta ou preconceito lhe viesse investir desde já? esses corpos testemunharam histórias de quê? continuei a caminhar e baixei a cabeça. eu não resolveria os problemas que só eu pensei ter encontrado nessa cena. tampouco eu estava certo a respeito da dor, do cinismo e da resignação. talvez só em mim esses sentimentos habitassem. mais adiante, dobrando outras várias esquinas, ia à minha frente um rapaz que teve algum tipo de paralisia. ele andava, mas o fazia com esforços do corpo todo, movendo braços e cabeça. a cadência do seu passo era mais marcada pelo pisar, batendo a sola do tênis no chão. e ele avançava pela calçada, sabendo onde queria ir. ele sabia-se todo, estava presente em si em cada passo, em cada pisada, em cada esforço para ir onde queria ir. seu veículo parecia atrasá-lo. mas ele não se importava, ou não parecia se importar: olhava ora para a calçada, ora para o horizonte. cuidava a superfície por onde passava e calculava com a vista o quanto mais faltava para alcançar algo. era alguém se movendo. mover-se é cuidar por onde passa e saber onde chegar. e o rapaz era tão bonito. ele parecia sorrir. talvez pelo fato de eu tê-lo achado bonito, eu diminuí a velocidade da minha caminhada para preservar-me no seu encalço. talvez por eu tê-lo achado confiante eu quis zelar por ele, como numa fantasia de apoio para que ele seguisse seu caminho mais seguro ainda. de repente fui tomado por um delírio: estremeci ao pensar no risco de que ele pudesse tropeçar em algum buraco ou pedra ou paralelepípedo e cair no chão, machucar-se. de repente inventei para ele uma fragilidade que, embora real (de fato havia buracos e pedras e paralelepípedos soltos pelas calçadas, que poderiam fazê-lo tropeçar), subtraía dele autonomia. ele parecia depender totalmente de mim para não cair naquele momento. eu já queria carregá-lo, salvá-lo de todas as pedras do seu caminho. com isso eu confiscava do rapaz aquilo que por primeiro eu havia nele admirado: sua autenticidade irreverente de se mover, de estar no mundo. canibalmente eu fantasiava engolir (incorporar) aquilo que de belo eu havia encontrado naquele ser. baixei a cabeça, olhei para o chão, apressei o meu passo. distanciei-me do rapaz, ainda agarrado ao som dos seus pés batendo no chão. enunciei mentalmente "não tropece, não tropece...". e fui eu quem tropeçou na escadaria do prédio. [...]
tive pensamentos sombrios. não foram sobre a sombra, nem se esconderam por trás da luz. foram pensamentos sombrios porque me cobriram com um manto escuro, frio, e se enrolaram pelos meus braços e pernas até me convidarem a parar de me mexer, e enveloparam minha cabeça em muitas voltas, revoltas, como se um turbante em chifre cinzento. eram pensamentos tristes. eram pingos vagarosos e intermitentes, amargos. não eram translúcidos, não havia lucidez; eram opacos, sem brilho. pensamentos melancólicos de uma textura grudenta, de aspecto denso e pesado, que se derretem lentamente e carregam o que estiver a sua frente com sua aderência morna, incômoda. tive pensamentos doídos que andaram pela minha cabeça como panos velhos reutilizados, manchados, furados, fedorentos. pensei de sombria-mente, de triste-mente, de doída-mente. eram moscas nas minhas narinas.
daí me vi andando pela calçada úmida, um pouco limenta, e o céu bem carregado de nuvens cinzas, aquele cinza brabo de quem quer brigar, e batia um vento frio, e a rua estava vazia. só eu andava naquela quadra, e uma ou duas outras pessoas dispersas nas demais. havia um silêncio quase de cidade fantasma. naquele momento eu me senti sozinho e me doeu um pouco o coração. porque sozinho é, sozinho foi, sozinho será. e ontem, ou antes, estava lendo um livro do Caio no qual consta um conto que me irritou muito. porque reconheci na estética da sua escrita a mesma que quis imprimir num parágrafo lindo que escrevi uns anos atrás, sem nunca ter lido o tal conto. acho que o título é "Visita". odiei esse conto, e por uma única razão: não fui eu quem o escreveu. eu achava que eu era autêntico ou que havia sido, pelo menos uma vez. porque cópia é, cópia foi, cópia será. pois eu disse que não queria grandes valores, queria somente o que era do meu direito, da minha alçada. e aquilo que era meu por direito era pouco, talvez não uma miséria, mas algo pagável. e disse também que eu não precisava justificar o porquê de eu reivindicar esse valor. era ele quem tinha que argumentar sobre sua razão de não querer me pagar o que devia. uma dívida é uma espada. muitos me devem, muitos usaram meu dinheiro em benefício próprio. para muitos eu emprestei por ajuda, num momento de necessidade. e muitos não têm intenção de quitar o débito contraído. porque enganado é, enganado foi, enganado será.