hoje meu coração disparou PARTE FINAL

[a trilha sonora deste trecho é "menina, amanhã de manhã".] 

não me vinguei, em fim. não sou vingativo. não fui feliz, como eu havia previsto e desejado.

não houve velório. só houve a convalescença da Pequena. alguns amigos fizeram uma cerimônia ao pôr-de-sol de despedida pra a criança. nenhum dos parentes do Rio vieram prestar seus pêsames. eu tentava apoiá-la com minha companhia, mas ela rosnava cada vez mais alto. ouvi de um conhecido que toda a situação só poderia ter sido castigo das deusas gays. percebi que meu namoro com a Pequena sempre fora objeto de piada. inclusive pra ela própria. e agora a piada tinha ficado sem graça. eu ouvia até as paredes rirem de mim, como pai. o cheiro da marginal tietê era o aroma do deboche de mim, como namorado: podre, e a metade de são paulo ainda cagando ali. suportei dividir o apartamento na zêéle até o dia em que eu ouvi a Pequena levantar de manhã cedo e ligar a caixinha de som JBL no spotify. até então, eu dormi as noites em um amontoado de colchas e edredons arrumado onde antes eu havia montado o berço da nossa criança. a Pequena dormia na cama de casal, um casal que nunca existiu, no quarto ao lado. não nos falávamos no cotidiano. no dia em que ouvi a playlist de samba às seis e meia, pela primeira vez em meses, eu refiz minhas três malas. ela voltara a desejar. ela quis me dizer algo quando me encontrou na sala, mas eu a impedi. "estou indo embora. pode ficar com os meus móveis." ela arregalou os olhos, mais de raiva do que de surpresa. vi nas rugas dela a contrariedade de não ter podido me convidar a deixar o apartamento. diferentemente de quando eu cheguei, minhas três malas estavam mais leves.

chovia naquela manhã. um mês se passou desde que eu fui embora do apartamento da Pequena, só fez sol. quero interpretar essas condições climáticas como um sinal. foi necessário, tanto pra mim quanto pra Pequena, ser livramento um pro outro. o sol é livramento, é claridade que ilumina. havia morte no meu sêmen?, morte no útero dela?, morte nos nossos corpos que não poderiam ter se encontrado para desejar vida?, o sol está dizendo que sim. porque está tudo aí exposto: a morte de uma criança que não mereceu velório, nem luto. está tudo aí exposto e a claridade mostra: não seja pai; sua vida não fertiliza outra, não nutre outra. a última vida da linhagem carregando três malas leves do tatuapé até santa cecília, onde haverá de encontrar um lugar pro seu desespero, refazer um ninho onde nada vibra, nem o assombro de perder o que tinha de mais precioso. uma criança que nunca fora sua.

e Nestor... é uma borboleta escura que cruzou meu caminho, saindo da minha cabeça. nunca o esqueci, nem quando sentia pela Pequena tudo de mais grudendo que existiu, como a lealdade de um pastor alemão. eu fui um cão pra Pequena, acompanhando-a, às vezes defendendo seu corpo. mas não senti por ela o mesmo que senti por Nestor. não, isso não foi traição. nem mentira. não escondi o que tinha acontecido entre mim e ele. porque ainda quero poder me apaixonar por outro homem como eu me apaixonei por Nestor. pelas pequenininhas coisinhas da convivência: a cueca esgarçada; o sol poente brilhando entre os fios do cabelo dele; o cheiro de chuva quente no asfalto [o hálito da cidade que eu mais adoro] que entrava pela janela onde ele se escorava, seminu. até hoje encontro os pentelhos de Nestor na minha barba - ou assim fantasio com seu rastro em mim. até hoje rio das suas piadas sobre as senhorinhas quatrocentonas, bolsonaristas de higienópolis. algumas pessoas encontram a chave de quartos na nossa memória, se acomodam lá com poucos de seus pertences, e se domiciliam. às vezes abrimos as portas desses quartos e olhamos a míngua na qual se transformaram - mas elas estão lá e ainda falam, ainda gritam. Nestor me habita nessa condição minguante, com uma ou duas malas pequenas onde cabem sua cueca esgarçada, seus cabelos desalinhados, sua barba e seu humor. e eu talvez habite um quarto, uma varanda ou uma gaveta da memória da Pequena. ela nunca foi o tipo de pessoa que revira gavetas. sempre que o fazia encontrava algo que julgava perdido, já absolutamente esquecido, e se dava conta de que ela própria tinha criado uma narrativa pra a perda daquele objeto qualquer, que era uma mentira. ou melhor, uma fantasia - a Pequena fantasiava muito. fantasiou a nossa criança. e eu acreditei na sua fantasia, naquilo que ela dizia que sentia por mim e na relação que ela queria ter comigo. não foi traição, nem se trata de mentira. eu estava em surto, atravessado por uma psicose de paternidade. um pai psicótico é risco de morte-e-vida pra uma criança. ainda bem que a nossa criança morreu antes de vir à luz. porque a luz expõe tudo. e a luz a qual a criança seria dada exporia o pai psicótico que a fertilizara. a colher de sopa de loucura que há no meu sêmen iria reluzir, como o sol por entre os cabelos de Nestor.

[a trilha sonora deste microtrecho é "adoração"]

e Nestor na Pequena... ou sobre quem eu quis que ela fosse, esse homem que eu procurei nela, eu me desculpo. eu peço desculpas por gritar truco a cada vez que ela dizia apenas "sim". fiz tudo por ti, porra, e tu me esquece, me substitui nessa criança nascida morta, o que mais tu quer de mim?, cara rasgada ou dente caído, eu te amo, ou lábio destroçado?, eu todo pra ti, teu corpo todo me serpenteando, e a flecha do ciúme sempre me acompanhando porque pra ti sou nu, sou translúcido, me pega e me atravessa, me toca, o elevador tá gritando que alguém vai descer no meu andar, eu lembro de não pegar elevador e seguir num corredor longo, amarelo, e eu dei de cara com um rapaz por quem eu poderia ter vivido a vida inteira em sorrisos e pouco dinheiro, às custas de qualquer auxílio estatal, bolsa-meu-cu-que-seja-eu-te-amo, era diego o nome dele, eu jamais quis ter outra filha, nenhuma filha, já tive um no Chile e chama-se Estebán, e minha dor mais imensa é ser sozinho, sem nenhum toque grosso, nada na pele branca, nem um arranhão teu, essa pele branquela e ridícula que não tem história pra contar que não seja de escravidão, eu te grito pra tu voltar e sei que tu não volta nem que eu pague nem que eu lamba a linha vermelha inteira, eu te lambo, eu te grito, e não tem nada na vida que faça teu samba descompassar, eu prometo que cuido da tua buceta linda, e te como, eu te como, viado que sou, tua buceta linda eu como porque eu sou tu aqui atrás, no mais lindo do teu bacanal, seu viado filho da puta, não enxergas que sou eu sustentando toda tua malemolência e acidez, porque não acho que tua putaria te garanta um lugar muito - como gato, como leão, ou como uma coisa felina que pousa as patas arredondadas na terra e marca -, tu é rio, eu sou margem, não vês?, eu sou tu ao contrário, e quando eu perco tudo [eu perdi tudo por ele, meu dinheiro e meu respeito, e é aí que ele me acha comum] tu escolhe viver a vida com outro, O OUTRO, por quem nada haverá de surgir, nada de belo haverá de iluminar a linha da tua pele quando tu não quiser acordar às seis da manhã pra trabalhar, e eu estava lá pra te fazer café, mas vejo e sinto que não é isso, "não é sobre isso" como dizem teus amigos hipsters, é sobre o quê?, seu filho da puta previsível, eu sei de todo teu desejo como quem assiste a um filme VHS, rebobino teu gozo, e vejo que tudo o que experimentei é só e tão somente essa farsa, fascinante, que é tu, e venha deitar na nossa cama, que falta faz cada pentelho teu na nossa cama, cada suspiro e ronco; volta; não posso lidar com o mínimo que tu me dá; mas que mínimo, a final, que não seja aquilo que pensamos de nós próprios; minha voz e minha pele, e meu sorriso, são todos teus pra tu trocar pelo sorriso desse OUTRO que tu pensa ser melhor que eu, e eu que não penso ser melhor que numa vez que usamos emedê, eu era todo, tu nem tanto, havia uma parte de ti que achava outras saídas de mim, e eu te seguia, te perseguia, e lá ia tu saindo de toda intimidade que eu havia criado, não era cafona nem mofada, tinha cheiro de benjoim, e tu disse que eu "procurava macho" quando era tu, apenas, que fazia todo o sentido naquelas paredes que hoje eu preciso pintar, seu filho da puta, eu tenho que pintar as paredes onde eu fermentei teu corpo e tua voz, tá tudo ali, seu filho da puta, não tem demão de tinta que dê conta do que eu senti por ti, seu filho da puta, meu cu era todo teu e minha pele rasgada, velha, caída, minhas olheiras, eu tentei te acompanhar nas drogas mas [como cão] eu uivei, e acabei num cubículo em perdizes, cep zero um dois três três, e o caralho, era tu, seu puto, que viveria comigo pra todo sempre, mentiroso, desonesto, era sobre você estar naquela casa da qual não consigo mais desapegar, e pago rios de dinheiro pra tentar desfazer, e se agora estou desempregado é por tua culpa, inteiríssima culpa, mas como sei que tu não sente culpa eu só te desejo solidão. estar consigo. porque deve ser como um dildo pequeno no seu cu quando tu pede pra ser humilhado. uma camada de nada. o pior dos fracassos. 

[a trilha sonora deste microtrecho é "fina estampa".]

eu sempre me imaginei nesta situação exercendo alguma dignidade. agora, pelo retrovisor dos dias, sinto que tive pouco - e o pouco de dignidade que eu tive serviu para que todos em minha volta me achassem i) grosseiro ii) insensível iii) doente. disseram que eu "esqueci da Pequena muito rápido"; que eu "excluí Nestor da minha vida abruptamente"; que eu "mudei e des-mudei como um homem cis branco católico pequeno burguês safado e arrogante, que monta e desmonta casas como se de cartas fossem". não gostaria que pensassem isso, pois é menos de um quinto do que se passou em mim. mais que trepar [também trepar!], eu gosto de contar segredos sobre mim. mais que andar na rua de mãos dadas [e andar na rua de mãos de dadas é pra mim obrigatório!], eu gosto de compartilhar uma noite de sono. eu preparo refeições e as ofereço. eu planejo e executo viagens. se necessário for, eu até canto, até declamo versos da Florbela Espanca. eu monto berços. conduzi com dignidade meus sentimentos por Nestor e por Pequena. aquele escolheu outro; aquela não quis minha criança. isso não é pouco. repito: atravessei meus sentimentos por Nestor e por Pequena com dignidade, o que não significa que eu habitei uma casca, nem que dissociei. tenho cá minhas doenças; nenhuma delas me impede de me apaixonar. e o fiz, duas vezes, na sequência. tive essa habilidade. e fui engenhoso a ponto de me acreditar pai. não segurei minha criança no colo, mas fui seu pai; pai de uma criança que cuidei e nutri. tenho cá minhas misérias neuróticas; nenhuma delas me impediu de me conduzir com dignidade pelos labirintos de Nestor e pelos dreads da Pequena. houve felicidades banais. se me calei, se sumi, se arrumei três malas leves e saí com muita rapidez, foi porque estava a ponto de perder a dignidade. o que vocês veem é uma fina estampa. mesmo quando eu choro, e há algumas noites eu agachei no piso do box chorando no banho, de soluçar, até nesses momentos eu o faço com sobriedade, com motivo. eu perdi minha criança, uma criança cujo sorriso eu desejei. e mesmo tendo enterrado uma criança natimorta, eu ainda me sinto capaz de me apaixonar, de desejar vida pra outra criança, de montar berços, e de arrumar malas leves pra ir embora se for preciso. se amar não for encontrar a morte no corpo do outro, doer com isso e continuar apostando na vida encontrada no outro [apesar da sua porção de morte], nenhuma forma de amor vale o canto. se amar não for isso, nenhuma forma de amor vale a viagem da barra funda à itaquera. se amar não for isso, nenhuma forma de amor sobrevive a são paulo.

[a trilha sonora deste microtrecho é "noite de são joão"]

nas primeiras noites depois do último minuto que passei com Nestor, depois do último minuto que passei com a Pequena, eu só conseguia dormir com remédios. desses fortes, tarja preta, que consegui porque desagreguei das duas vezes e fui atendido em clínicas por médicos que não pouparam receitas controladas. não conseguia ficar em casa sozinho. não conseguia lidar com o escuro, nem com o silêncio. das duas vezes. por isso, eu quase não dormia. e fui criando bolsas de retenção de líquido embaixo dos olhos. e não conseguia comer, o que me fez emagrecer. das duas vezes. meu rosto desmanchou: bochechas caídas num andar abaixo das olheiras inchadas. eu parecia um bulldog em luto. das duas vezes. bebia demais, muita cerveja, porque já que não conseguia ficar em casa [quando eu desesperava era durante os pores-de-sol, quando o lusco-fusco entre dia e noite sinalizava "fim" em toda a cidade], eu apelava pela companhia de amigos em botecos, quaisquer botecos, desses com mesas e cadeiras de praia na calçada. bebi demais das duas vezes. e, com isso, gastava meu salário todo antes do dia 20 de cada mês. quando acordava, tomava café passado no coador e fumava um cigarro bolado [essa prática foi mais intensa nas centenas de milhares de minutos depois do último que passei com a Pequena, porque me lembrava dela]. isso me deu azia. das duas vezes. virei um monstro bêbado. todos esses sintomas de conversão, em verdade punições, passaram depois de meses. quando eu entendi que Nestor e Pequena eram, assim como eu pra eles, substituíveis. sem rancor, sem ressentimento. das duas vezes. passei duas oitavas acima nas minhas canções de amor. e meu corpo também se regenerou. não sinto raiva nem de um, nem de outra. senti pena de mim, às vezes, porque eu era atravessado, no meu próprio corpo, pelo metal da decepção. nem um, nem outra foram decepcionantes. mas eu tinha lá minhas expectativas em relação a ele e à ela, que vinham em tsunamis de frias lâminas. era meu corpo soterrado. não foi só tempo que exerceu cura. foi, também, a humildade de suportar a contradição da decisão, a escolha pelo erro. das duas vezes. me reconhecer humano no erro e na contradição foi o que me curou. pra essa cura não há tempo; há postura. aguentar calado a rocha da imperfeição sobre os ombros. ouvir o grito de quem existe, mas que por sua vez não sabe que existimos, e não tentar se fazer conhecido. conviver com a ignorância do outro sobre nós, e tomar chá com nossos demônios [chá de picão].

hoje meu coração disparou PARTE VI

[a trilha sonora deste trecho é "não é céu".]

chorei por horas e dormi ao lado do berço. acordei de madrugada. a porta do quarto permanecia fechada, e eu não ouvia nenhum som vindo de lá. talvez a Pequena tivesse pegado no sono. peguei a caixa de ferramentas que tinha comprado pra a montagem do móvel-ninho. heranças materiais pra nossa criança - as ferramentas, o ninho. compreendi que era necessária a desmontagem naquele instante, e nos próximos, até que a porta do quarto se abrisse e voltássemos pra o hospital. um parto induzido; um aborto espontâneo. dar à luz uma criança morta. um viado gaúcho pai da criança de uma sambista carioca. estava tudo ao contrário, tudo contradizendo o que a vida poderia ser, deveria ser. um quase-pai de uma quase-criança que indesejou vir ao mundo.

tirei os parafusos e desencaixei as peças de mdf. empilhei uma a uma, da maior pra menor. a cabeceira do berço deixei de pé, encostada na parede. facilitaria sua remoção. eu não suportaria fazer isso. chamaria amigos pra me ajudar. ou contrataria o mesmo carreto que levou minhas poucas coisas pra zêéle, quando fui morar com a Pequena. ou jogaria pela janela ainda à noite. ou poria fogo em tudo assim que a Pequena fosse pro hospital. ou serraria tudo em pedaços, em retângulos, pra fazer um dominó ou um quebra-cabeças, um xadrez que comporia o rosto imaginado da nossa criança. ou construiria um caixãozinho onde nossa criança seria velada. aquele já estava sendo parte do meu velório enquanto pai indesejado.

abri as portas do armário e as gavetas da cômoda. uma a uma, tirei de lá as roupas pensadas para vestirem a criança. eu as desdobrava, abria os panos com as mãos e sentia o tecido, roçando minha pele em cada peça que jamais cobririam o corpo da nossa criança, já morta dentro da mãe. voltava a dobrá-las para colocá-las dentro de uma mala. a Pequena quereria doar tudo para uma nova mãe, para uma criança viva. eu rasgaria tudo, cortaria partes como mangas e punhos, costuraria as peças desmontadas formando um grande tecido bricolado, revestido com as fraldas RN, preenchido com os montes de algodão, e jogaria nele todo o shampoo e essência "com cheiro de bebê" que eu havia comprado pra nossa criança. e enrolaria o corpo da nossa criança nesse grande patchwork sombrio e perfumado. e poria fogo em tudo. um ritual definitivo de cremação para uma criança quase-viva, realizado por um pai indesejado.

hoje meu coração disparou PARTE V

[a trilha sonora deste trecho é "i get a kick out of you".]

cheguei na casa da Pequena com três malas, quase não conseguia carregá-las. contratei um carretinho pra levar até o apartamento na zona leste, zêéle, meus móveis. fui morar na zêéle, onde o berço da nossa criança estava montado. eu quis tanto um berço, um lugar de conforto e acolhimento; uma manjedoura onde nutrir nossa criança (a criança dela, em verdade); um ninho. a Pequena desprezava ninhos, assim como raízes. ela estava mais pra cardume do que pra matilha. navegava em águas tristes por aqueles dias, eu não entendia o porquê. houve uma manifestação feminista no vão do MASP na tarde mais fria do ano. ela tremia, e eu a abracei. e perguntei a razão pela qual ela não sorria. ela disse que estava cansada, talvez por causa da gravidez. a vida que ela carregava na barriga estava pesada demais pra um corpinho que mal sustentava os dreads do cabelo. mas a Pequena seguia sambando, como numa apresentação de teatro em que o show não poderia parar. o cansaço da Pequena era de outra ordem já ali, e eu não percebi. como sempre, a Pequena me escapava, de mim desviava, onde eu estava quase entendendo o que nela se passava. voltávamos pra zêéle de metrô, a Pequena calada desde a estação Marechal Deodoro. quando paramos na estação Anhangabaú, ela disse: "posso te pedir uma coisa? não precisa lavar a louça todos os dias. nem dobrar a roupa pra guardar no armário. não quero que a minha criança seja toda certinha e sem graça". do Anhangabaú até o Tatuapé quem permaneceu calado fui eu.

esse foi o primeiro momento em que um par de pensamentos me ocorreram. um: a Pequena estava cansada de mim. dois: teria sido melhor permanecer viado.

passei a desconectar da Pequena a partir da estação Anhangabaú. e segui desconectando, a cada dez minutos mais, até nos separarmos. se fosse uma imagem no espaço, isso daria pra muito além de Itaquera. mas a nossa criança estava dentro do seu corpo, e eu continuei orbitando, perto. o movimento de desconectar da mãe e ainda estar com a criança criou uma bifurcação que me rasgou ao meio. a Pequena desejava a criança, a sua criança, e não a mim. tudo bem. era uma forma de reparação histórica, pois meus antepassados usaram o corpo de mulheres pretas por séculos, indesejando as crianças que vinham desse encontro. eu sofria, mas entendia que era melhor assim do que ao contrário: que a Pequena desejasse a mim, e não a criança. pois uma mãe que não deseja sua criança confisca a possibilidade da criança se inserir no mundo, na vida. então aceitei a triangulação. a mãe e o pai desejavam a criança; a mãe não desejava o pai. o pai estava sozinho e sustentaria essa solidão em nome da vida da criança.

a quem eu e Nestor desejaríamos em uma triangulação? passei a pensar em formas de relação aberta, não monogâmica, entre homens. fantasiava com surubas gays enquanto escolhia fraldas RN e pomadas pra assaduras. não ficava de pau duro. porque não se tratava de gozar com e pelos outros. eu queria ter gozado pelo Nestor.

a Pequena já não queria trepar fazia semanas, e estava cada dia mais cansada e triste, calada. eu sustentava cada segundo do seu cansaço, em nome da criança que eu e ela desejávamos. porque a criança nunca teve nada a ver com gozo, com buceta molhada ou com pau duro. a criança tinha a ver com um projeto de vida em parceria, que eu sabia estar em demolição. mas quando uma parede parecia desabar, um teto parecia rachar ou uma viga parecia trincar, eu corria para segurar tudo. porque a criança precisava de uma casa onde ter seu berço. e teve uma manhã de segunda, quando chovia, em que a Pequena desmaiou em casa. disse que sentia náuseas. eu a levei ao pronto-socorro e chamei a médica que a acompanhava no pré-natal. a Pequena foi atendida, levou soro na veia, e uns outros medicamentos coloridos porque, ao que parecia, ela estava anêmica. samba demais, ferro de menos. quando a médica chegou, questionou a Pequena sobre o porquê de ter interrompido as consultas periódicas. a médica estava soturna. foi quando eu soube que havia mais de seis semanas que a Pequena não fazia o acompanhamento. na maca de um quarto coletivo da enfermaria, ela virou o olhar para a janela e chorou. a Pequena estava indesejante. temi pela nossa criança.

algumas horas depois vieram os resultados dos inúmeros exames. a criança estava morta dentro da Pequena. má formação fetal, ou algo assim, que misturava a maldade com a gestação e com um feto espremido dentro de uma barriga, que já não era mais ninho. não seria possível fazer o procedimento de retirada naquele momento, mas dias depois por meio de um parto induzido. nossa criança estava grande demais, ocupando espaço demais, abrindo o buraco da morte fundo demais. para tirar um corpo morto de dentro de um corpo vivo seria preciso todo o cuidado, pois a morte se alastra. e se alastrou. a Pequena e eu tivemos que aguentar conviver com o cadáver da nossa criança por algumas horas, as piores das nossas vidas, até que o parto da nossa criança natimorta fosse realizado. quando chegamos no nosso apartamento na zêéle, a Pequena se trancou no quarto. eu não ouvia sequer seus soluços quando bati na porta e pedi pra chorarmos juntos. ela não respondeu. eu sentei no chão, ao lado do berço que eu tinha montado. e, de novo, senti saudade de Nestor.

hoje meu coração disparou PARTE IV

por coincidência, reparei naquele homem barbudo na praia. eu já tinha tomado algumas caipiroskas; a Pequena já dançava funk. conhecia aquele jeito de parar de pé em uma perna só. as mãos entrelaçadas sob a bunda. mas eu poderia estar bêbado. ou os óculos escuros poderiam estar embaçados pela maresia. ou poderia ser uma miragem, uma fantasia. ou seria a Pequena que chamava muito a atenção do entorno. mas o perfil daquele homem, o nariz de bolota, os cabelos em desalinho, o sol queimando aquela pele: eu já havia estado ali.

Nestor e Pequena estavam na mesma areia, no mesmo mar, sob o mesmo sol. haviam estado com o mesmo homem, eu, que se interpunha aos dois. uma ignorava a presença do outro.

neste dia eu poderia ter tomado rumos mais interessantes pra a vida que seguiria. nem com uma, nem com outro, eu poderia ter escolhido outro alguém. eu poderia ter escolhido ir embora. eu poderia ter escolhido devolver ao mar o que do mar é. poderia, em paz, ter escolhido morrer. de certa forma eu escolhi morrer. prolonguei, entretanto, minha morte. a minha, a do Nestor, a da Pequena. acho que nós três morremos. no dia em que coabitávamos a praia foi quando, talvez, estávamos mais felizes. a Pequena já estava grávida e Nestor estava com seu namorado. e eu, sozinho. não chamei por Nestor, não nos cumprimentamos, acho que sequer ele me viu. eu não informei sua presença à Pequena. ela estava tão feliz, enfim. feliz em fim: no estertor de dia de sol que seria seguido de uma míngua até o golpe mais baixo, até a manhã de maior desespero. até o canto entre paredes onde o escuro desfaz a pele do peito, e os órgãos se dissipam, se estilhaçam, porque o escuro tem boca de piranha e arranca partes de nós em silêncio, em sofrimento. e em primeiro lugar o escuro-piranha morde nossa garganta para não gritarmos. e em segundo lugar o escuro-piranha morde a boca de nosso estômago, por onde vomitamos um sentimento que nem supúnhamos ali. deslizamos a parede do canto onde estamos encurralados sem garganta e sem estômago, sendo atacados pelo escuro-piranha, desejando que no próximo golpe a morte já venha, mas aí ele se retira e nos deixa sob o ar da solitude, do esquecimento, tentando costurar os pedaços das cordas vocais pra gritar, chamar mãe ou pai, ou pra tapar a boca do estômago pra parar de vomitar a lava. e em terceiro lugar ele volta, o escuro-piranha, pra arrancar nossos olhos, pra entrar na nossa boca e morder nossos dentes, alimentar-se da nossa língua, arrombar nosso cu e rasgar nosso reto, nós comidos por dentro pelos dentes de serra de um escuro que não para, e não para, e não para. é aí onde estou hoje, sem Nestor e sem Pequena. cada um de nós com nossos escuros-piranha, sendo devorados por dentro.

hoje talvez tenha sido o pior dia desde esse, no qual Nestor e Pequena, sem saber, estavam lado a lado. se eu soubesse o que viria, teria fugido. teria morrido. teria matado. mas eu não sabia. por isso, morreram no meu lugar.

hoje meu coração disparou PARTE III - alínea b

 [a trilha sonora deste trecho é "grávida"]

"não vai ter chá de fralda merda nenhuma, mermão", gritou a Pequena. ela falava ao telefone com a família, do RJ, e negociava a vinda deles para conhecer o rebento. com os meses passando, ela me dava notícias a conta-gotas das opiniões e expectativas sobre a criança - e sobre nós, os pais. perguntavam pra ela como era possível um viado engravidar uma mulher. ela respondia: "é possível porque sou muito fértil". uns queriam uma guria; outros, um guri. os motivos para desejarem um ou outro eram invariavelmente machistas: gurias sofrem mais, é mais fácil de criar guris. as razões de ser mais sofrido ou mais fácil permaneciam inquestionadas. eu dizia que a gente criaria nossa criança tendo como critérios a honestidade e a responsabilidade - eu tinha excluído o amor e a humildade porque não combinavam em nada com a própria Pequena. eu nem tocava no tema da liberdade, pois nela eu não acredito mesmo. a Pequena ouvia eu falar isso e me olhava com desdém. ela nunca dizia como queria criar sua criança - sua criança, ela afirmava, nunca a nossa criança. eu sempre respeitei, pois reconhecia nessa linguagem uma afirmação preta, feminista. e a sustentava. à Pequena caberia o lugar do corte, da separação; a mim, o da religação, da comunhão. nós dois só concordamos com orgulho em um aspecto: nossa criança seria preta.

a Pequena não queria saber o sexo da criança. nem eu. nada que estivesse ligado àquela biologia, àquele amontoado de carne, definiria o gênero daquele ser. a Pequena achou que assim estaríamos afirmando a liberdade da criança. um dia eu disse que ninguém era livre, nem a nossa criança. ela respondeu: "a minha criança será a pessoa mais livre deste mundo". e foi. a criança da Pequena pode ser tudo, pode ser todos, pode ser todes. eu, como pai, só queria que a criança pudesse ser ela/ele mesma/o, com suas dores e lutas, e vitórias, e choros. eu queria que a minha criança tivesse história para contar de si já desde muito jovem. porque quem tem história pra contar de si é quem se joga na vida. e eu queria isso pra minha criança porque essa seria a herança ética da mãe. uma mulher que é uma força da natureza, uma tempestade. eu também sou uma força da natureza, mas de outra ordem. eu sou a terra e a rocha, aquilo que sustenta. a minha herança ética seria responsabilidade pelas escolhas. os progenitores perfeitos, pois.

já era vigésima, vigésima primeira semana de gravidez. a Pequena e eu tínhamos comprado um berço de madeira. combinamos de montá-lo num domingo. chovia, pois era março. eu me embrenhei por entre parafusos e martelos. suava. tirei a camiseta. me senti homem: seminu, construindo a cama da minha criança - digo, da criança da pessoa que me pediu em namoro. pensei que eu não havia sido homem com Nestor, em nenhum momento. pelo menos não na intensidade com a qual estava sendo com a Pequena. grávida, eu sentia mais tesão nela. ela, pelo contrário, se afastava. no entanto, no momento em que terminei de montar o berço, a Pequena me perguntou: "vamos morar juntos?".

hoje meu coração disparou - PARTE III alínea a

[a trilha sonora deste trecho é "perfume do invisível"]

já não lembro direito. mas parece, ao que tudo indica, que Nestor parou de responder minhas mensagens. é, acho que foi isso. eu lembro de estar almoçando com uma amiga em um restaurante de Higienópolis, era um sábado. eu havia mandado mensagem pra ele pela manhã. já eram três da tarde. eu insisti: "tá tudo bem por ae?". ao que ele replicou dizendo que havia trabalhado, que estava cansado, que estava sem rumo, que estava nublado... o que se diz geralmente quando se quer fazer com que alguém acredite que "não é problema seu, é problema meu". fiquei puto e deletei a conversa com Nestor. faço dessas. com a Pequena, ih, fiz milhões de vezes. só guardei seu último texto, tal como Madame Curie guardou o pedaço do crânio do seu marido. o último texto que a Pequena me mandou ainda está aqui no meu whatsapp, e fede como o osso de um cadáver.

não me recordo com precisão. talvez seja efeito dos remédios psicotrópicos que tenho tomado. mas Nestor passou uma semana sem nem dizer um "oi sumido rs". ou talvez eu não consiga resgatar essas memórias porque já faz bastante tempo que isso aconteceu. ah, sim: ele me mandava mensagens sobre seu trabalho, dia sim, dia não. nunca perguntava como eu estava, se já tinha limpado a casa ou se já tinha batido punheta. segunda sim; terça não; quarta sim; quinta não; sexta sim; e eu mandei à merda. porra. respirei. peguei uma folha de papel, um lápis. fiz um roteiro do que dizer em um áudio curto. porque sou desses que manda áudio de três, quatro, até dezoito minutos. sou mesmo. escrevi:

  • que legal, teu trabalho está sendo reconhecido e será um sucesso;
  • entendo que não queira mais encontrar;
  • eu gosto muito de ti;
  • eu vou seguir minha vida;
  • vá para o mar e aproveite a água, que tu tanto adora.

bem cognitivo comportamental, pois a psicanálise eu deixei pra depois, com a Pequena. parece que seria rápido, mas foram um minuto e trinta e sete segundos. eu ainda queria estender mais, só pra protelar esse pequeno fim. aquela preta cueca esgarçada que eu nunca mais tiraria; a barba em que eu nunca mais roçaria. queria que ele ficasse grudado no celular com aquela orelha onde passei minha língua, só pra ouvir minha voz. alguém mais termina uma pegação de quatro meses com um áudio de um minuto e trinta e sete segundos baseado em um roteiro? sou desses. e mandei. ele respondeu "positivo e operante. desculpe de encher o saco. sucesso na vida".

eu desfaleci. não lembro, mas acho que quase desmaiei. pro Nestor, eu não merecia nem quinze segundos de resposta pela sua própria voz. resplandecia, por isso, o lugar que eu ocupava em sua vida. fui pra academia e caí na esteira enquanto ouvia o mais recente número do Foro de Teresina. tropecei no cadarço do tênis. virei chacota, saí de lá e fui pra um boteco qualquer. bebi a noite toda. e no outro diz amanheci na sarjeta da avenida paulista com a rua augusta, aos pés do banco safra, nas condições já relatadas.

eu havia me tornado invisível. eu não lembro direito, mas acho que foi isso.

hoje meu coração disparou - PARTE III

eu e a Pequena trepamos três vezes por semana, por três meses. ela chegava na minha casa como uma pombagira de rua. no início eu ignorava com desprezo sua intensidade. achava que era só uma casquinha que ocultava o vácuo e a dor da vida que a trouxe até mim. ao final dos três meses, percebi que eu não estava tão equivocado, mas que tampouco acertava no alvo. o alvo da Pequena era móvel, cigano; quando eu acreditava ter encontrado uma fragilidade, algo mais intenso vinha em seguida que dirigia minha atenção para outra paisagem, e outra, e outra desse cenário em tempestade. 

ela entrava pela porta jogando a bolsa no chão, tirando os sapatos, deixando um na cozinha e outro no banheiro. às vezes ela não usava sutiã, e eu me perguntava como sustentar aqueles encontros. mas seguia encontrando. ela tomava banho e deixava o tubo de shampoo de ponta-cabeça. ela tomava água em diferentes copos, que ia esquecendo em cima da mesa, da escrivaninha, da geladeira. ela abria latinhas de cerveja e deixava pingar o líquido no sofá. ria quando isso acontecia. foi introduzindo o caos aos poucos, sempre me perguntando se podia, acreditando que eu nunca diria “não”, e eu consentia. de tão revolucionária com sua própria vida, me pediu em namoro. talvez acreditando que eu não diria “não”. e eu não disse.

viajamos. algo parecido com uma lua-de-mel, mas com muitas drogas. até hoje não sei se é possível fazer uma lua-de-mel com drogas porque aquela não foi inteiramente uma lua-de-mel. nem tão lua, nem tão mel com os sintéticos, lisérgicos e estimuladores. nada com a Pequena foi inteiramente algo. havia sempre um deslize ou um vazamento, uma escorregada: uma ideia que se perdia nas suas divagações; uma espuma de sabão que escorria na louça enxaguada; um olhar para a tevê quando eu me declarava; um bolo de cabelos num canto recém varrido. ela parecia não-toda. não porque fosse incompleta, mas porque ela desviava. ela estava ali, mas também estava em outros lugares. ela sempre pegava um detour, um atalho para fazer o que queria. e fazia. isso, com o tempo, me fez sentir paixão.

sem sutiã e sem vergonha, passamos a nos ver todos os dias. pequenas gotas de caos pingaram no meu piso vinílico. seu corpo, que eu vinha aprendendo a manipular tão bem pro meu próprio deleite, também tinha seus jeitos de escorregar. seu corpo pulsava em um lugar, pra onde eu ia com minha boca, mas então ele já pulsava em outro, que eu tentava agarrar com minha mão. nunca consegui abraçar sua vida. mas quase o fiz.

a Pequena chegou do trabalho pelas sete e meia da noite de um dia de outubro. me deu um “oi” entre os dentes. estranhei. ela não tirou os sapatos. pediu água, que eu dei. segurou o copo em silêncio. e me disse: “estou grávida”.

hoje meu coração disparou PARTE II - alínea d

 [a trilha sonora deste trecho é "absolute beginners", na voz da Carla Bruni.]

nos encontramos na rua Itambé com a rua Alagoas. era manhã de um sábado, quase primavera. a cidade arranhava: muitas pessoas em situação de rua nos pediam dinheiro, comida; uma transexual nos pediu papel higiênico e sabonete, e demos. caminhamos até o Parque Buenos Aires. Nestor e eu nos deitamos no gramado atrás da recém restaurada fonte, na entrada. o sol não esquentava, só iluminava. havia uma claridade naquela manhã que fazia tudo ter um brilho esfumaçado. quando nos deitamos na grama, Nestor se incomodou com o orvalho. eu sorri.

- tiozão de esquerda reclamão, rotulei.

nos demos as mãos. havia pássaros que voavam e cantavam entre as árvores. e pessoas em situação de rua que se escoravam nas grades em torno do Parque. e ônibus que subiam e desciam a Avenida Angélica - "a Terrível", complementava Nestor, porque era onde morava um dos seus ex-namorados com quem não falava mais. essa era uma das passagens do seu labirinto na qual eu adorava entrar: a dos romances do passado. sempre eram becos sem saída, e eu precisava voltar de onde eu viera. eu insistia porque havia algo naquele paredão, o paredão que me impedia de seguir, algo de quente. eu insistia porque sabia estar perto de algo pulsante na história de Nestor. as passagens dos romances do passado sempre me levavam ao paredão quente. Nestor dava sua versão dos primeiros encontros, das primeiras trepadas, dos momentos mais bonitos, dos mais delicados de suas relações prévias. mas cessava de articular palavra sobre o fim, ou os fins. como se houvesse um segredo sobre o término de suas relações, ou vergonha, ou culpa, ou crime. eu notava me aproximar dos paredões do seu labirinto quando ele começava a preencher com silêncio o tempo entre as frases das narrativas sobre suas relações do passado. entre uma e outra havia segundos nos quais ele olhava pro chão ou pro céu. e as pausas aumentavam na medida em que as narrativas se encaminhavam para os últimos dias do convívio de Nestor com os ex-namorados: não mais entre frases, mas entre palavras, que ele passava a escolher com muito cuidado (ou simplesmente lhe faltavam [impossível que lhe faltassem, tão rico que era em verbos e adjetivos, tão cheio de recursos de ironia e deboche.], pois há experiências para as quais não se têm nomes). 

- ... nos vimos num domingo ... eu mandei mensagem ... naquela noite ... senti que tinha algo ... de errado ... por isso, eu acho ... que mandei ... a mensagem ... agora sei que não ... não devia ... ele respondeu ... na ...  segunda-feira ... ... ...

e de repente quase dois minutos de silêncio. me senti constrangido, deitado na grama, com as costas molhadas, achando que havia forçado demais um assunto sobre o qual Nestor não queria falar. eu estava diante do paredão quente, eu ouvia a pulsação, eu sentia as ondas de calor. estendi o braço e toquei com as pontas dos dedos: fiz carinho na sua barba. ele fechou os olhos sem sorrir. um trio de senhorinhas em trajes de atividade física caminhava pelo Parque. romperam nosso silêncio. comentavam com furor que o PT não poderia voltar em 2022. seus cães yorkshire e lhasa-apso latiam, talvez pra discordarem delas (gosto de pensar que todos os cães são de esquerda [eu também.], especialmente os vira-latas). diziam, porém, que do jeito que estava não era possível continuar. que usariam máscaras até a pandemia acabar. que tomariam quantas doses de vacina fossem necessárias, "menos a coronavac", assinalou uma delas. Nestor virou o rosto pra mim e riu:

- essas senhorinhas conservadoras de Higienópolis (risos).

- sim, e as jovenzinhas lacanianas discursando sobre desejo e recalque (risos), eu retruquei.

- que devem ser suas netas, e tem também os netinhos jovenzinhos são-paulinos ou palmeirenses em quem eu gosto de dar uns beijos de vez em quando.

ele sempre escapava. ele sempre tinha um jeito de baixar a cancela, impedir meu fluxo. sempre tinha um modo de dizer que eu coexistia com netinhos jovenzinhos são-paulinos ou palmeirenses de Higienópolis, em quem ele às vezes dava uns beijos. eu era uma mosca rebatendo no vidro da janela; uma perereca grudada em uma janela tentando entrar em um quarto. havia uma blindagem. mas naquele dia, naquela manhã de sábado, ficamos quase 3 horas de mãos dadas, deitados na grama. e almoçamos. e tomamos café com torta de limão e merengue. e voltamos ao minhocão. e tomamos mais café. e escolhemos um restaurante pra janta. e tomamos mais vinho. e rimos e gargalhamos. e nos demos beijos públicos. mesmo quando eu não planejava, era arremessado contra o paredão quente e pulsante de Nestor. eu percorria com destreza seu labirinto; ele permitia que eu ali estivesse; entretanto, a cada encontro e a cada nova passagem eu ficava, em vários momentos, diante do seu paredão. eu recuava. não o acessava em algum lugar, algum lugar dele onde era quente, onde latejava o Nestor namorador, cheio de romances passados. foi assim por meses, mas eu me divertia no labirinto. e achava estar próximo do meio, bem do meio, do meio onde havia vibrações. porque, desde o primeiro dia, houve café, vinho, boa comida. monólogos de Nestor sobre sua relação com a irmã mais nova, que adorava; sobre seu pai, que era um mistério; sobre sua mãe, que era, afinal, mãe, presente como um incômodo às vezes. da irmã mais velha, de quem ele não gostava. e me fascinavam, os monólogos de Nestor. ele parecia declamá-los pra mim, só pra mim. fui me perdendo em seu labirinto de monólogos, vestindo somente tanga e segurando uma tocha, por 4 meses. da última vez que o vi ele vestia uma cueca preta esgarçada, estava parado perto do parapeito da janela assistindo ao por-de-sol. havia chovido o dia todo e, naquele fim de tarde, o sol abria passagem. tínhamos trepado com a chuva batendo na vidraça.

- a minha vida toda poderia ser assim, um por-de-sol depois da chuva, me disse o Nestor de olhos fechados e sem virar o rosto do sol.

eu me arrabatei por aquele homem em quem eu não conseguia entrar. eu apostei, eu topei; de tanga e tocha no seu labirinto escuro. eu disse sim pra um paredão.

hoje meu coração disparou PARTE II - alínea c

 [...]sseram que cê é viado. por mim tudo bem", me conta agora a Pequena. os amigos que fizeram o churrasco foram gentis, segundo ela, e quiseram apenas colocar em pratos limpos algo que estava difícil de engolir. mastigavam, assavam, fritavam, cortavam com a faca, mas era de difícil deglutição, o sabor era amargo. nossos amigos em comum tinham me conhecido ficando com homens, nunca tinham visto a Pequena com outras mulheres (embora ela tivesse tido uma história lésbica com uma colega de faculdade por dois anos [algo que somente eu, a colega e a própria Pequena sabiam, parecia que a Pequena tinha vergonha disso.], era um segredo), menos ainda com um homem viado. nossos amigos em comum têm pouco em comum conosco. serviram pra nos apresentar um ao outro. mas agora deixam de fazer sentido. há 3 meses eu estou conhecendo a Pequena, 3 meses desde o churrasco em dia nublado com cerveja, cachaça e maconha; há 3 meses me desloco pelo seu corpo cheio de curvas e derrapo. ela parece gostar ou, pelo menos, não se importar. há 3 meses nossos amigos incomuns fazem comentários jocosos sobre o homem que sou. e sou um homem. pararam de nos convidar para encontrar nos finais de semana. alegam que estão se resguardando das novas ondas da pandemia e de todas as variantes do vírus. o único vírus variável é a escrotidão, com o qual eles já se contaminaram. há 3 meses meu pinto branquelo broxou, esse pintinho murcho, mas a Pequena pediu pra eu dormir de conchinha naquela noite. e fiquei. na manhã seguinte, acordei de ressaca. ela estava pior. eu deitei de barriga pra cima na cama, nu; ela pôs a perna esquerda sobre as minhas e encostou a cabeça no meu peito. seu cabelo feito árvore frondosa cheirava a lavanda e... um pouco de baunilha. fiz carinho naquela cabeleira macia e cheirosa. ela veio pra mais perto de mim, e eu a apertei contra meu tórax. ela murmurou algo, e eu pedi ao senhor (sou ateu [nessas horas recorro até a Buda se necessário], mas que há uma energia que corre entre os corpos, há!) que meu pintinho branquelo ficasse duro. ela me deu uns beijos no queixo e mordiscou meu mamilo. duro, ufa, pelo menos em processo de endurecimento, o que já é um ganho. nos beijamos, e parecia que tínhamos mil línguas. ela apertava minha bunda. eu gostava. eu apertava seus peitos. ela gostava. a cor marrom da sua pele fulgurava, emitia faíscas quando o sol da manhã entrava pela fresta janela e a tocava. eu preciso de beijos pra endurecer, de línguas, de mil línguas, e de mil faíscas feito fogos de artifício; disto é feito meu pintinho branquelo: beijos, línguas, faíscas e sol. até que a Pequena se virou na cama, abriu as pernas e demandou "me chupa". eu vacilei: "eita", pensei. encarei a Pequena. ela agarrou meus cabelos "vou te dizendo como". ela com a cabeça entre os travesseiros, de barriga pra cima, pernas abertas; eu fui lambendo os peitos dela, a barriga dela, até que cheguei lá e ouvi um "oi, mané, você é novo por aqui". aquela protuberância rosa, cheia da força feminina, parecia muito segura de si. "oi, beleza? ahn... sim, cheguei hoje. ontem, na verdade, mas acabamos dormindo e", "sei, mais um broxa?", "não exatamente, é quê", "olha, queridinho, faz teu corre. compra maca peruana, toma guaraná, cialis, faz injeção de hormônio pra cavalo", "sim senhora, perfeitamente, senhora, é quê", "não precisa ser grande, não, até ajuda, mas a questão é se entregar, entende?, investir, gostar de estar por aqui", "claro, entendo, é sobre isso quê", "nos trate bem, esteja conosco, quando estiver comigo você está também com ela, você gosta de mim? aqui na ponta e nas beiradas é onde me espalho, é onde me arrepio", "ah, certo, na ponta e nas bordas, obrigado, senhora, é quê", "nós somos o infinito, nós somos uma força da natureza, nós somos a resposta ao universo", "a respos..., certo, entendi, senhora, é quê", "é uma magia, uma bênção mística estar em face do mais feminino que há numa mulher", "sim, senhora", "deixa eu ver tua língua, mostra a língua", mostrei, "hum, boa língua, hein, ela abre e estica?", fiz que sim com a cabeça, "cê tem cara de bobão, mermão, mó mané você, de onde você veio?, onde ela arrumou você?", "eu vim do vale", "que vale, seu trouxa?", "do vale dos homossexuais", "eita, porra", "desculpe, eu sou viado, mas rolou um troço intenso entre nós ontem", "sei", "eu já estive por aqui antes, quer dizer, não aqui aqui, estive no aqui de outras mulheres, mas foi muito rápido e agora eu to aqui de de novo e eu to nervoso porque sei que é uma atividade que demanda experiência, trajetória, acúmulo, expertise, savoir-faire, know-how, que eu não tenho", "e rola, cê chupa?", "chupo, sim, senhora", "aqui é mais difícil, mané, aqui é arte, aqui é glória", "eu sei, senhora", "merda, nem sei como ensinar viado", "peço a gentileza de ter paciência, senhora", "mas então cê quer mesmo?, tá a fim mesmo?", "tô, senhora", (silêncio), "vai ver viado pode fazer melhor que os últimos héteros que passaram aqui, porque eu vou te contar, bando de preguiçosos", "prometo me esforçar", (silêncio), "seu beijo é molhado?", "sim, senhora, bem molhado", "e cê enfia a língua na boca quando beija ou roça a sua língua na outra língua", "um pouco dos dois, senhora, mas prefiro roçar a língua na outra", "ok, porque enfiar a língua é mais ali embaixo", "ah, disso eu sei, senhora", (silêncio), "é sério que cê é viado com essa cara de bobão?", não respondi e fiz cara de cachorro pidão, "tá bem, vai, de alguma coisa há de servir ter chupado rola, mas aqui não é rola, não, seu mané, aqui o sabor é Pachamama, vai aos poucos, reverenciando cada dobra, e presta atenção nela, ela é o foco, viado com cara de bobão, e cai de boca", "sim, senhora, com licença, senhora".

a Pequena se levantou e vestiu uma calcinha, sem sutiã. foi pra janela. me surpreendi observando sua silhueta contornada pelos raios de sol. Pequena linda. Nestor era assim também, uma extensão do sol vestindo somente uma cueca preta de elástico esgarçado; porque havia uma luz que percorria o encaracolado bagunçado dos seus cabelos e os fios desordenados da sua barba da última vez que o vi; uma luz que se expandiu e implodiu como supernova; uma luz de por de sol, moribunda; uma luz que eu não sentia já havia 6 meses. doí de saudade de Nestor. a Pequena virou pra mim, eu nu, deitado na cama, com os lábios molhados, língua cansada demais. ela me perguntou, se espreguiçando "vou fazer café, vamos tomar café? tenho tapioca e queijo, uns ovos. vamos fumar um baseado? preciso tomar água. café forte ou fraco? vou por uma música. que música cê gosta? cê tem uma cara de menininho de bossa nova". ela ligou a caixinha de som, que começou a tocar "braille", do Rico Dalasam.

hoje meu coração disparou PARTE II - alínea b

 [a trilha sonora deste trecho é, como não poderia ser de outro modo, "freguês da meia noite", na voz de quem fala de espera, angústia e desejo.]

então marcamos de encontrar no Largo do Arouche, número 346, às dezenove horas, quando a temperatura chegasse aos oito graus Celsius. frio. às dezoito e quarenta e três já fazia nove. e lá o esperei. Nestor chegou mal agasalhado pra aquela noite.

- você é sempre pontual?, ele perguntou se aproximando do meu rosto para um abraço (foi quando senti o mau hálito [aguento ou esqueço ou fujo; ele bebe demais e eu também; algo temporário ou permanente; e de manhã cedo, será que é pior?], e pensei em interromper o encontrinho ali mesmo mas ele sorriu ao tirar a máscara, e eu por aquele sorriso eu fiquei, eu ficaria, eu ainda estou).

- sempre, respondi, e tu é sempre calorento? 

- vim pra me aquecer.

arrá!, meu cão não late em vão. fingi ser democrático e perguntei qual vinho beberíamos. eu já havia escolhido: uma garrafa do novo mundo, África do Sul. ele sugeriu um vinho português, mas eu argumentei que a noite pedia uma uva densa. ele concordou. sugeri o sul-africano. ele concordou.

- e de entrada? terrine com pistache?, Nestor quis e completou: j'adore.

e eu quis vomitar ali mesmo porque detesto fígado, ainda mais de pato. fui democrático e aceitei. e até comi um pouco quando chegou à mesa trazido pelo garçon, engasgando ao engolir, sorrindo de leve ao tocar a faca na beirada do prato, tomando um cheio gole das uvas importadas pra disfarçar o gosto impregnado na minha boca. um beijo, naquele momento, na boca de Nestor pra dissipar aquele mal estar de fígado - eu queria o fígado de Nestor, e o sumo fermentado das suas uvas, e todo o mau hálito dele espalhado na minha virilha, e sua máscara caída ao lado da minha cama como se estivesse ali esquecida, e o seu cabelo encaracolado sobre meu travesseiro, furta cor de prazer -, e pousei a taça de cristal sobre a toalha de linho branco que cobria a mesa e levantei o guardanapo de pano do meu colo e limpei com cuidado a gota de vinho que caía do meu lábio. falamos de música, e de música passamos a falar de política, nos detemos no assunto política brasileira pós-golpe de 2016.

- quando foi que tu beijou um homem pela primeira vez?, perguntei.

- (riso, um riso que era um risco), o que isso tem a ver com o bozo?

- tudo!, (gargalhada, joguei minha cabeça pra trás).

ele também gargalhou. contou do tesão e do receio em se aproximar da boca de outro homem aos 16 anos de idade. que tinha sido hetero até então. "era outro tempo", ele argumentou, o tiozão de esquerda. ficou em pânico quando o fez, mas repetiu no dia seguinte. e no outro, e repete até hoje. os homens, sempre mais diretos que as mulheres, com menos curvas e menos becos sem saída nos diálogos, com menos simbolismos e com menos duplos sentidos. "uma linguagem mais plana", ele disse, uma condição masculina que possibilitaria relações mais simples, com inícios e desfechos menos dramáticos, menos barrocos. pra Nestor, ser homem era ser menos, era ser minimalista.

- e você?

- viado, sempre fui viado, mas hoje sinto que to velho porque estranho os quia.

- (riso, um riso que era um risco), os quia?, quem são os quia?

- a sopa de letrinhas, os elegêbetêquiamais. é muita gente pra pouco sexo.

houve um tempo em que ser viado era glamouroso, um requinte. sempre foi desconfortável, mas também sempre foi gostoso. era uma marca distintiva: ler livros que poucos liam, ouvir músicas de acordes complexos, vestir roupas coladas no corpo esbelto, empostar a voz de barítono para dizer sagacidades bem-humoradas. já eu sou de uma geração em que ser viado se tornou desculpável por causa da Xuxa. Rainha dos Baixinhos, Lua de Cristal, Super Xuxa Contra o Baixo Astral, Meu Cãozinho Xuxo, as Paquitas (e, mais tarde, os Paquitos [ah, sim, os Paquitos, hm, delícia.], por quem eu aguardava uma noite inteira só pra ligar a tevê pela manhã e vê-los, fingindo pros meus pais que o Praga e o Dengue eram quem me interessavam), tudo fez com que uma geração de guris fosse viada e a culpa recaiu sobre a Globo, não sobre o fato de que ser viado é gostoso, apenas. e teve a Madonna também. sabe, ouvir Madonna no início dos anos 1990 no interior do Rio Grande do Sul, quase fronteira com a Argentina, era uma atitude de guerra. era militância no talo, ativismo no pelo. ser viado era simples: era um guri gostar de outros guris. mas aí veio a internet em linha discada - o som da conexão do modem ainda ecoa na minha cabeça. e vieram as salas de bate-papo do UoL. e vieram os sites de relacionamento. e vieram as webcams, e a internet banda larga. e a aids, que nunca nos deixou. imagine tu que assisti a "Filadélfia" em 1993 e, com 9 anos de idade, saí do cinema com a certeza de ter HIV. não tenho até hoje, mas, está vendo?, a sopa de letrinhas está grudada na história de ser viado. agáivê, elegêbetê, quiamais, a ou p?

- cê tá me perguntando se sou ativo ou passivo?, Nestor me interrompeu.

- tenho outras perguntas pra te fazer que podem ser mais interessantes.

- (riso, um riso que era um risco), eu tenho uma primeiro. posso?

- vá lá, peguei a taça e fui virando um gole demorado de um vinho que grudava na língua, na garganta.

- existe amor em essepê?

- existe amor com emedê, (gargalhada, joguei minha cabeça pra trás ainda segurando a taça).

- (gargalhada, jogou a cabeça pra trás), olha nós com a sopa de letrinhas!

cinco graus Celsius no Mercado das Flores. eram dez da noite. ainda pedimos mais uma garrafa de vinho, o mesmo, pois Nestor havia gostado das uvas do novo mundo. minhas gargalhadas, acredito hoje em retrospecto, me permitiram entrar no labirinto da intimidade de Nestor. ele deve ter sentido que era possível me deixar passar. aceitei uma única entrada sem garantia de saída. lá dentro era cavernoso, escuro, úmido, e às vezes rajavam ventos de furacão; e eu no labirinto de tanga, com uma tocha, ouvindo seus relatos da relação com o pai, com a mãe, com as irmãs (eram 2, uma mais velha e outra mais nova, mas ele só se dava bem mesmo com a mais nova). os homens por quem foi apaixonado; maremotos e tsunamis no labirinto. eu desfilava como uma modelo nas passarelas da semana de moda de Paris por aqueles túneis de Nestor. eu fazia nado sincronizado nas ondas do mar revolto das suas memórias.

- aliás, sou versátil, disse Nestor.

- legal, eu também. mas nem sempre curto penetração.

- nem sempre... como assim? (riso, um riso que era um risco).

- ser viado é mais simples do que dar ou comer. e vai mais além também.

silêncio. nos encaramos ao som do tilintar dos talheres e taças do restaurante, do sussurrar das risadas e conversas dos outros fregueses, do craquelar do frio à meia-noite.

- eu gosto de você.

- eu gosto de ti também, Nestor.

e não há como negar que o prato a se ofertar não o faça salivar.

hoje meu coração disparou PARTE II - alínea a

 na página 100 de "copo vazio" eu escrevo a lápis "TODAS assediam o mundo espiritual para trazer o macho de volta". como se aquela piroca fosse a única das galáxias. na página 108 eu comento "a gente faz dessas", sobre quando Mirela vai pra debaixo da mesa e grita alto o nome de Pedro na tentativa ilógica, incoerente, de trazê-lo pra sua vida novamente. nas páginas 72 e 84 eu puxo setas e escrevo nas margens "eles dão sinais"; "eles nos avisam". esses homens que vão embora têm suas formas de vazar resquícios, rastros, pistas de que algo vai dar mal pra nós. a gente percebe e, na hora, finge que é auto-sabotagem. finge que é neurose. finge que é vício de experiências anteriores que deram errado. Mirela doida no enorme pinto flamenguista de Pedro, no seu sotaque de Minas. compreensível. rogo, por outro lado, que possamos fazer pequenos avanços, talvez em uma sequência de workshops ou em breves sessões de coaching, de modo a habilitar esse faro que temos (e temos [nem todas tão aguçadamente.] em algum lugar) para sentir o odor da cafajestada.

depois da tirada de cartas na casa da minha amiga, perdi noites com a imagem das nove espadas perfurando um corpo - o meu corpo. "a crueldade". achei por bem não abrir minha intimidade para mais ninguém. seria melhor manter-me discreto emocionalmente: sofrer em silêncio pela saudade de Nestor, passar os finais de semana lendo romances e assistindo a séries no Netflix. apagar os perfis dos apps de pegação. impedir, ou pelo menos dificultar muito, que outro homem se esgueirasse pelas frestas da minha fragilidade. só não pude supor que uma mulher o faria. pois foi quando aceitei o convite para ir ao churrasco. e lá tinha uma diva fumante.

hoje meu coração disparou PARTE II

[a trilha sonora deste parágrafo é "socorro", cantada pelo Arnaldo Antunes.]

"bora lá, não tem sofrência boa sem um tarô", disse a amiga que me acolheu em seu apartamento dias depois do meu meltdown emocional por Nestor. ela tem razão. a mística das cartas, da astrologia, tem tudo a ver com uma dor de cotovelo. "põe as cartas pra esta macabéa", eu ratifiquei. eu quase havia precisado ir a um atendimento psiquiátrico de emergência. queriam me dar lorazepam, diazepam, um mata-leão qualquer pra me fazer parar de chorar e calar a boca. na sexta-feira anterior, depois de uma semana inteira de mensagens territorialistas, ambíguas, e sem nenhuma intenção de me ter no colo, Nestor mandou um meme. não, não era um meme; era um post de um perfil aleatório do twitter que brincava com a letra de "vambora", da A. Calcanhotto. só poderia ser um deboche, uma ironia. eu digitei "é uma piada?", ao que ele respondeu "não faz a Maysa", que eu supus remeter à cantora de "meu mundo caiu". ainda pensa que sou um romântico brega, esse calhorda. mandei logo um áudio de um minuto e vinte e três segundos. pápápá, somos dois adultos, bibibi, não é culpa de ninguém, tananã, eu vou viver minha vida, e isso e aquilo, gosto demais de ti. era por volta das três e meia da tarde. nunca mais recebi notícias de Nestor.

"então, amigo, vamos ver o que as cartas dizem", "elas mentem sempre", "hoje não vão mentir". ela embaralhou, pediu pra eu cortar o monte em três. eu cortei. ela reuniu novamente os montes, embaralhou. abriu as cartas em um semicírculo sobre a mesa de madeira. ela tinha colocado um incenso fedorento pra queimar, de cravo, meus olhos ardiam. "escolhe cinco." peguei três da ponta esquerda, uma do meio e uma da ponta direita da fileira. o assento da cadeira praticamente não tinha mais estofo, minha bunda doía contra a madeira, afundada. ela colocou quatro cartas em cruz e uma do lado superior direito. "esta separada aqui é a que manda no jogo."

1a carta:

A Diva: uma mulher forte, poderosa, vai entrar na tua vida. ela é muito magnética. ela brilha. certifique-se de que ela te enxergue, te perceba, te aceite na vida dela como tu é; do contrário, ela será um rolo compressor.

2a carta:

A Pêssega: uma série de atitudes ingênuas e orgulhosas podem levar a um grande mal entendido, um grande ruído de comunicação. perda de valores por vaidade.

3a carta: 

A Falsiane: cuidado com a mentira e com a ilusão. o fascínio cega. palavras doces podem estar encobertas de segundas intenções, prenhes de veneno. alguém quer o suco da tua vida e vai fazer de tudo para vampirizar tua energia.

4a carta:

O Funkeiro: amante do sexo, drogas, samba, rock'n'roll. o ser errático que requebra os quadris na velocidade cinco do créo, que faz quadradinho de oito invertido. nascido do proibidão, desconhece a regra e a moral. pode ser a alma da festa ou o estraga prazeres.

5a carta:

A Sofrida: imersa na dor, não distingue tristeza, melancolia e cansaço. é a carta que rege o jogo. está enforcada, sacrificada. deu mais do que tinha e agora não tem como pegar de volta. deve aos traficantes da biqueira. entregou-se, mas foi rejeitada. chora e ninguém a ouve.

"achei um jogo pesado. quem sabe tiramos mais uma por descargo de consciência?", "a macabéa aqui aceita", "seja lá o que for, vai passar", "tem tanto sentimento, deve ter algum que sirva, cantou o arnaldo."

6a carta:

9 de espadas: a crueldade. nove espadas perfuram seu corpo. é mais que dor: é terror, é pânico, é horror.

"agora vou ser atropelado por uma mercedes?"


hoje meu coração disparou PARTE I - parágrafo único

 [a trilha sonora deste parágrafo é "eu bebo sim", na voz da Elza Soares.]

quando eu cheguei no churrasco dos amigos, no dia nublado, e reparei na Pequena, acho que conectei também com a força da sua ancestralidade. a força das mulheres negras é um repuxo de mar. eu achava que a isca do isqueiro esquecido era minha, quando na verdade ela sabia que se tratava de uma forma de eu começar a conversar com ela. desde o início era ela quem me queria, quem queria o meu destino, quem queria a minha vida na dela. e desde o início eu, um branquelo insípido, não tive outra escolha senão entrar nesse redemoinho de algodão e lavanda que era sua voz, seu cabelo. ela estava enérgica naquele dia. a Pequena gosta de beber, e eu tentei acompanhá-la na cerveja, primeiro, na cachaça, em seguida. sem sucesso. mas bebiriquei o destilado mineiro acompanhado de água. "cê não aguenta, não?", me questionou a Pequena. "aguento, mas hoje eu quero estar o mais lúcido possível." "por quê?", "porque hoje eu quero dormir pelado contigo." ela sorriu e pegou um baseado que circulava de mão em mão entre nossos amigos. "quer um peguinha?", e eu calculei rapidamente que sim porque sabia que havia docinhos e uma torta de chocolate com sorvete de creme de sobremesas. então: cerveja, cachaça, maconha, chocolate; só drogas leves. a Pequena me contava do seu trabalho, da mudança do Rio de Janeiro para São Paulo. da dureza da adolescência, isso sem nenhuma cor de drama. à medida que falava da sua história abria um sorriso porque conquistou tudo o que havia se proposto a conquistar: a mudança do interior pra capital, a entrada na universidade federal, o ingresso nos primeiros estágios de trabalho - sempre os melhores, muito bem posicionada nos processos seletivos. não porque era esforçada, mas porque tinha tesão em fazer o que fazia. e disse "eu até vou em manifestações anti-bozo, mas a maneira mais radical de mudar esse país é botando mais gente pra viver, é botando mais gente neste mundo, é dar sequência à linhagem de luta que me trouxe até aqui". fascinante, impetuosa. meus amigos presentes no churrasco passaram a me censurar. diziam que eu queria chamar a atenção dando beijos em uma mulher só porque eu estava com dor de cotovelo. repetiam que eu tinha nascido viado e que aquilo era heresia. que iam tirar minha carteirinha de passiva. que iam me excluir do decanato dos adoradores da Cher. um deles, já no final da noite, sussurrou no meu ouvido que não era com uma pepeca que eu iria tapar o buraco que o pinto do Nestor deixara em mim. o comentário nojento não teve réplica, mas merecia. a Pequena daria uma resposta à altura, mas quando ela chegou do banheiro eu já havia esquecido da grosseria e dei um beijo nela. minhas amigas queriam saber de onde eu havia tirado a lábia, a malemolência, a sedução. uma delas só soltou um "ai, se eu soubesse antes...", que eu também esqueci de comentar com a Pequena porque estava muito, muito, muito loucão. eu comi 3 fatias da torta de chocolate com 4 bolas de sorvete de creme. a Pequena só tomou mais uma dose da cachaça mineira e deu mais umas baforadas no baseadinho. fomos a pé pro apartamento dela. ela é bagunceirinha. nos beijávamos muito enquanto tirávamos a roupa um do outro - que, pra mim, levou um tempo longo e bem aproveitado. naquela noite meu pinto branquelo broxou (assim mesmo, com x [um uso chulo e desaconselhável pelos dicionaristas.], porque meu pintinho branquelo é chulo). perguntei se ela queria que eu fosse embora. a Pequena não se importou, "fica do lado de fora da conchinha pra eu pegar no sono?". e dormimos.

hoje meu coração disparou PARTE I - parágrafo único

[a trilha sonora deste parágrafo é "everybody's gotta learn sometimes", cantada por Beck. Ah, para ler "hoje meu coração disparou" é necessário ter assistido a esse filme também. do contrário, nada acontecerá nessas almas moles de vocês.]

leio "copo vazio" com um lápis. sempre leio romances com um lápis em punho porque tenho a mania de comentar, corrigir, encontrar pequenos erros de digitação, sublinhar o que me impressiona. eu estudo a narrativa de ficção. vou atrás das referências, confiro as intertextualidades. monto a rede de histórias na história - não para entender melhor, mas para espalhar o que leio. esparramo a narrativa. escrevo na margem de vários parágrafos de "copo vazio": "eu todinho", "eu inteirinho", "puta merda"; faço emojis de coração ao lado de "ele se deitou de cueca" na página 29; assinalo asteriscos nas ruas por onde passei; comento na página 31 "gata, você é uma trouxa"; discordo da narradora, na página 43, quando fala em "abandono", pois não acredito que Pedro tenha abandonado Mirela, e escrevo "desinteresse", "desprezo", "condescendência", "despaixão" nas margens. converso com Mirela, pois me identifico. trouxa, ingênua. adoro Mirela. caiu no conto do flamenguista. Pedro é meu Nestor - com sutis diferenças. eu o conheci no minhocão, num dia estranhamente quente depois de uma sequência de dias frios. amanheceu aquele domingo de sol morninho, um domingo que aconteceu, assim mesmo, como se acontecimento fosse. eu vesti regata e bermuda displicentemente, fones de ouvido e celular, paramentado para caminhar. era metade da manhã. o minhocão é energizante. os grandes murais dos prédios carcomidos, com mensagens de emancipação e revolta e autoafirmação, as pessoas estranhas nas janelas e sacadas, as pessoas mais estranhas ainda usando o asfalto como se praia fosse (e é [não é, mas serve.], a praia santa cecílier). caminhei e li "eu sabia que você existia"; "no país da corrupção pixação é crime", "hoje não vou me ferir", e eu sorria. naquele domingo eu estava ali e em nenhum outro lugar. não estava radiante, eufórico. estava só aproveitando a bondade do domingo, que era um acontecimento. decidi me sentar nos bancos improvisados próximos à praça Roosevelt. e notei o rosto por trás da máscara (às que lerem isto anos no futuro, houve uma pandemia causada por um vírus entre 2019-2020-2021 e todas as pessoas do mundo precisaram usar máscaras como forma de prevenção [o que foi uma chance para quem era feia e uma dificuldade a mais pra quem era apenas normal mas tinha harmonia facial, como eu.]), cujos olhos me acompanhavam. Nestor estava sentado a poucos metros num platô de madeira. eu me deitei em algo que parecia uma espreguiçadeira, de tal forma que o rosto por trás da máscara estava no meu campo de visão. escolhi um podcast de política para ouvir no spotify. e cuidava daquele rosto por trás da máscara que, sem cansar, sustentava o olhar em minha direção. boné, bermuda jeans, chinelo de dedo, camiseta verde da osklen. nesse primeiro instante eu não tinha certeza de gostar daquele homem que me encarava. eu o achei jogado demais - mas o que é ser jogado? era eu quem vestia displicentemente regata e bermuda, seminu. e o rosto por trás da máscara ainda olhava. "a política externa de bolsonaro, pipipi-pópópó, a descrença nas instituições democráticas, patati-patatá", eu ouvia o podcast certo de ser alguém que, mais que sustentar um olhar, poderia sustentar também uma conversa. o rosto por trás da máscara se levantou e veio caminhando devagar até um espaço vazio próximo de onde eu estava deitado. sentou-se e arrumou a camiseta verde da osklen amarrotada. olhou pra frente, virou pra mim, o rosto por trás da máscara sustentou o olhar em mim. decidi retribuir, simulando aquelas brincadeiras de quem-piscar-primeiro-perde ou quem-rir-primeiro-perde. eu perdi porque eu ri primeiro. ele percebeu, mesmo que eu também estivesse usando máscara (só naquele momento me dei conta de que eu poderia ser uma boa ou má supresa pra ele quando eu tirasse minha máscara [e ele também pra mim.], então a tirei, um pouco envergonhado). "eu sou Nestor. o que cê tá ouvindo?". tirei um fone do ouvido, "desculpe, não te ouvi". "eu disse que sou Nestor. o que cê tá ouvindo aí?" "ah, uns podcasts sobre política. é sempre um horror." "é sempre um horror. eu deixei de ouvir. prefiro viver, fazer coisas boas. porque se esse cara continuar como presidente..." e foi então, vendo e ouvindo Nestor articular as primeiras palavras, que me fixei nos pelos pretos e brancos da barba se movendo por entre os elásticos que prendiam a máscara pelas orelhas. um tiozão de esquerda nove anos mais velho que eu. Nestor foi se espalhando, e eu fui dando entrada. de política trocamos de assunto pra cinema; de cinema pra literatura; e já era início de tarde, e eu o convidei pra conhecer uma cafeteria ali perto onde há café e também livros; nos demoramos na literatura; de literatura pra música; de música pra adolescência; e a tarde já virava noite, e do café passamos pro vinho; da adolescência pro primeiro beijo; do primeiro beijo pras saídas do armário - pra família, pros colegas de trabalho, pros novos amigos; de saídas do armário pros grandes medos. eram dez da noite. tínhamos passado doze horas conversando. o café estava fechando. pensei em trepar com ele na rua mesmo. mas ele, por outro lado, pareceu querer preservar alguma coisa de vitoriana daquele momento. pediu, apenas, que eu mandasse um oi no whatsapp e disse que responderia quando chegasse em casa, pois a bateria do celular tinha acabado. de pronto registrei o número nos contatos e corri pro aplicativo pra conferir a foto de perfil que ele escolhera. um pouco decepcionante. mesmo assim escrevi: "conforme o prometido, oi". como sempre, eu mantenho minhas promessas. eu aposto.

paramos nos grandes medos, e Nestor é isso pra mim até hoje.

hoje meu coração disparou PARTE I - alínea a

 "como não escrever sobre o amor?" é a última pergunta na coluna de uma escritora publicada hoje, 26 de novembro de 2021, no jornal Folha de S. Paulo.

ora, não escrevendo. o problema é que quase tudo surge ou acaba em amor, leva ao amor. o problema é que os melhores textos, os melhores romances, as melhores músicas, os melhores filmes, as telas e esculturas mais belas são sobre amor. o amor não é um tema, é o pano de fundo de quase todos os temas mais interessantes. pouco(s) escapa(m) ao amor. eu sou um deles.

esta não é uma história de amor. é uma história de arrebatamentos, de fascínios. e de arrebatamentos desencontrados: Nestor nunca foi arrebatado por mim (ele nem sabe mais quem eu sou [será mesmo que nenhum resto do meu rosto grudou na sua memória? não.] e se sabe algo sabe errado, é um equívoco) e a Pequena acho que nunca será. porque eu sei que a Pequena quer alguém - simplesmente alguém com quem estar. ela gosta de mim, mas ela gostaria também daquele e do outro lá desde que eles topassem tudo o que ela propõe. eu topo. assim como topava todos os convites de Nestor, para qualquer atividade no frio ou no calor, para beber e para comer sorvete, para deitar no gramado do parque buenos aires. eu sou assim: eu topo. eu aposto.

então, esta história não é uma história de amor. é uma história de arrebatamentos desencontrados. mas o amor é o pano de fundo desta história, a redoma onde os desencontros acontecem. tento ter cuidado em escrever e falar a palavra "amor". porque o amor não me conhece, não sabe meu nome: comigo o amor age como Nestor. escrever e falar "amor" exige compromisso, comprometimento e cuidado. é uma responsabilidade falar "amor". o que sinto por Nestor não é amor, mas segue o curso de um sulco forjado pelo amor - caldo este que, admito, ainda quero que desemboque nos deltas de Nestor. o que a Pequena sente por mim também não é amor, mas eu venho percebendo que eu sou um veículo para ela por no mundo alguém que ela vai amar muito. eu não amo nem sou amado. mas o amor me circunda e me circunscreve. talvez seja só isso que terei na vida.

hoje meu coração disparou PARTE I

 um pé na bunda te joga pra frente. e a melhor vingança é ser feliz.

ontem uma amiga me deu de presente, de surpresa, "copo vazio". na dedicatória ela escreveu: "seguimos juntos ... em tudo mais que essa experiência de viver nos traz". uma dedicatória digna de ser escrita, afinal. na narrativa, Mirela levou um ghosting. ela se arrasta pelas ruas de São Paulo, transtornada para entender o porquê de Pedro ter desaparecido depois do encontro arrebatado entre os dois. Mirela não está só, nem Pedro.

[a trilha sonora deste parágrafo é "devolva-me", cantada por Adriana Calcanhotto.]

soube que Nestor está bem e namorando. aquela alma atormentada. faz exatos três meses que deixamos de falar. foi um ghosting reverso: ele desembarcou aos poucos de mim, e caiu no meu colo a responsabilidade de dar fim àquelas seis semanas de um encontro também arrebatado (para mim, ao menos [que desde o início suspeitei da desconfiança dele sobre meu corpo, da capacidade dele em foder, da disponibilidade dele para meus espinhos], que sou um personagem saído de um romance da Jane Austen). ele não me quis mais, e fui eu quem precisou parar de responder as mensagens dele mesmo querendo, desejando, desesperando cada centímetro quadrado da sua pele. perverso, Nestor não me chamava mais para almoçar, jantar, nem para tomar café, nem para sentar no parque e falar mal das senhorinhas bolsonaristas cheias da grana que circulavam com seus cães shitsu, yorkshire, lhasa-apso, tecendo comentários horrorizados sobre as eleições de 2022 - mas ele manteve uma comunicação territorialista, feita dia sim, dia não, do tipo guerrilha, em cujas mensagens ele dizia absolutamente nada, ora uma foto aleatória, ora um meme, ora uma figurinha ou um gif repetido em vários grupos de whatsapp. não eram convites para estarmos juntos; era só uma estratégia para me impedir de esquecê-lo. não sou homem disso. tomou um ghosting reverso. os dias foram e têm sido horríveis desde então. o que eu senti e sinto por ele é forte demais. mas esse arrebatamento é um animal, uma coisa viva que pode morrer. eu quero que morra, mas o arrebatamento luta por si próprio. o que sinto por Nestor luta, não se entrega, revida.

[a trilha sonora deste parágrafo é "ela é carioca", cantada por João Gilberto.]

mas conheci a Pequena no mês passado. cheguei num churrasco na casa de amigos, debaixo de chuva, e reparei nela de imediato. a Pequena é - pequena. magrinha, pequeninha, peitinhos, mãozinhas. é enérgica, tem fala acelerada, tem uma piada para fazer a cada frase e uma história nova para contar a cada cinco minutos. ela é fluminense, ela é fluminense - daria para reescrever a música. olhos de gata, oblíquos, honestos. nos olhamos de cima abaixo durante algum tempo. ela demorou um pouco mais nessa atividade porque tenho um metro e oitenta e cinco. e ela gostou. eu me demorei mais nessa olhada, apesar de ela ser pequena - a minha Pequena -, porque a camisa que ela usava marcava os bicos dos peitinhos. e gostei da combinação de saia rodada e tênis adidas. ela fumava, e eu estava aprendendo a fumar novamente (como se fosse possível [e é], fumar é como escrever, escovar os dentes ou andar de bicicleta). ela tinha uma carteira de marlboro light e eu, um saquinho de tabaco natureba. "ela é linda demais e além do mais ela é fluminense, ela é fluminense", eu cantava no seu ouvido. fumamos juntos porque eu fingi estar sem o isqueiro só para ela vir em meu auxílio - e veio. a Pequena e seu isqueiro amarelo. na primeira baforada eu quis beijá-la. e de fato nos demos mil beijos naquele churrasco, e eu perguntei a ela depois de muita cerveja e muita maconha: vamos dormir juntos, pelados? meus amigos, depois, insistiam que eu deveria parar com aquilo - porque eu só estaria querendo chamar atenção em um churrasco que deveria ser só diversão. minhas amigas, por outro lado, foram mais furiosas - desde quando eu pegava mulher, desde quando eu gostava de mulher, desde quando eu sabia chegar numa mulher? ora, desde que eu vi a Pequena. e desde que Nestor desembarcou de mim. os dias foram e têm sido horríveis, mas a pequena tem me dado momentos lindos, oásis na maré de mijo.

nesta história há um tanto de Mirela, um tanto de Pedro. muitos copos vazios. Nestor me destruiu com seu silêncio. mas me jogou nos braços da Pequena, alguém sem cuja companhia já não consigo imaginar meus finais de semana. penso em Nestor em todas as horas de cada dia desde que nos conhecemos no minhocão. sinto raiva dele, e pena, e saudade, e orgulho. o bichinho é bom no que faz. mas a Pequena é, também, um encanto, uma leveza, um oásis na secura da rejeição. (a Pequena é um oásis em qualquer lugar onde ela esteja, onde eu estiver.) com a Pequena eu gargalho de Nestor, mesmo que ela saiba que ele tenha existido na minha vida, com seus paredões. ela sabe o suficiente de mim. ele soube de menos, e eu nunca vou perdoá-lo por isso.

 "morrer de amor e continuar vivendo": quando eu era criança, com menos de 5 anos, uma vizinha tinha uma cachorra, a diana. ela tinha pelos longos, pretos e brancos. eu, de pé, tinha a altura dela e me deitava sobre seu corpo. gostava de tocá-la, afundar meus dedos na pelagem, sentir o cheiro de animal, as lambidas no meu rosto. me divertia assistindo diana pular para morder no ar o pedaço de carne que a vizinha arremessava enquanto preparava o almoço. meu sonho de liberdade ainda é passear com diana, gozar da sua companhia quando o dia nasce. latir junto com ela. e durar o tempo que um cão dura no mundo, peludo, deixar só saudade e histórias engraçadas de roupas mascadas, de vidros quebrados.

 tu acabou de sair daqui. dou pulinhos atrás da porta, feliz, sabendo que à noite vamos numa roda de chorinho beber caipirinha de limão siciliano, que tu adora, sem açúcar, porque eu preciso. no espelho já não sou mais o mesmo: nenhum pelo da barba está inflamado. sorrio porque, ao acordar, tu disse que sonhou comigo. tu acabou de pegar o metrô e me mandou mensagem avisando que está tudo bem. de nenhuma das minhas feridas escorre pus. e avisou que sente saudade. me debruço na janela e sinto o vento, uns poucos pingos de chuva. hoje a noite vai ser fria, e vamos dormir juntos. quando acordarmos, faremos o de sempre: eu na conchinha de fora e tu na de dentro; viramos; tu na conchinha de fora e eu na de dentro; beijos; tu fala dos teus sonhos, e eu em silêncio porque nunca lembro dos meus; levantamos da cama; fazemos xixi; tomamos trezentos e cinquenta ml de água em jejum; vamos pra sacada ver o sol nascer e fumar um cigarro de kumbayá cada um. tu acabou de dizer que chegou em casa e manda um emoji de coração. eu me jogo no sofá e amo cada parte de mim em que tu encostou durante a noite.

 eu apoiei e incentivei todas as tentativas e fantasias de tu ter uma casa. sem sucesso. eu desapareci com tudo que era teu, eu não tenho mais nada teu, a não ser tudo. pra onde eu me viro tua cara está virada pra mim, teus olhos grudados nos meus. em cada hora de cada dia, em cada sonho à noite. é uma tortura que eu só aguento com cigarro. um são sebastião fumante que apaga as bitucas em si próprio.

 ninguém volta pra casa sozinho. ninguém faz sozinho da tenda uma casa. não consigo amar dois homens ao mesmo tempo. não esqueço desprezos, nem rejeições. preciso diminuir o cigarro. já tenho um plano de saúde privado. odeio crianças dentro de aviões. poucas foram as vezes em que tive uma casa. nunca casei. nunca amei - melancólico é o pai cujo filho não é capaz de amar. quase sempre chorei quando afirmei que me sentia mais feliz por um ou dois segundos. e quase sempre foi mentira, e quase sempre durou menos que aquilo. detesto trabalhar depois das 19h. estendo a roupa lavada no varal, mas gosto mesmo é de passar camisas a ferro, na tábua - ninguém entende isso. já me senti o último homem assistindo ao por-do-sol. nunca desejei a fama, nem o brilho. não sou imprescindível pra nada. família sempre foi um dever. amizades se tornaram menos mistério com a idade. a velhice, um espinho. o corpo é o tempo presente que se desgasta, pedra de areia na margem do rio em erosão. não extraio prazer da dor, nem da humilhação. minto e me envergonho. quero mais da vida do que ela é hábil em me dar. não lembro dos meus sonhos - fria é a mãe cujo filho não lembra dos seus sonhos. pouco sei sobre o porquê de eu estar aqui do jeito como estou. tentei poucas vezes de quase tudo, e quase sempre deu errado. o que deu certo me manteve vivo. por isso sou eu quem percorre o vão entre as torres gêmeas sem cabo de segurança.

 [...]asia com a morte, com a dor, com o caos. tu chegou e tirou tudo, tudo: o ranço, o mofo. pegou com a mão e espanou o pó, arrancou as teias de aranha. os dias mais felizes da minha vida, os mais nublados, os mais frios, os mais demorados. nunca suportei aeroportos, e tu aterrissou em mim, abriu o reverso, ocupou o hangar. desembarcou pra dentro. tu tirou tudo com a mão: as ideações, os ideais, as dúvidas. ainda me pergunto como chegar em casa, o que fazer em casa, como limpar a casa. mas agora eu tenho tu, tu, tu. eu sorrio enquanto tu lava a louça de cueca furada. eu sorrio enquanto tu baba no travesseiro dormindo. eu sorrio enquanto tu escova os dentes pelado. um homem aterrissou em mim. eu trabalhando, tu assistindo tevê; eu deslizei o olho pro lado da tela pra te observar; o quase riso com a quase piada da série que eu indiquei; eu sabia que tu não estava gostando, mas tu te esforçava porque queria me agradar; eu sorri. eu nunca suportei aeroportos. eu sempre fiz banheirão em aeroportos: não mais. ou, talvez, sim, pensando em ti, em cada centímetro quadrado desse corpo pelo qual choro hoje de tesão e, ontem, de saudade. eu sinto a inveja em quem nos vê quando andamos na rua, quando jantamos juntos na tratoria, quando nos deitamos no gramado, quando pegamos o metrô, quando vamos ao supermercado e tu briga comigo porque estou comprando muito vinho ou se sigo escolhendo a manteiga mais cara. somos tão nós mesmos que irrita quem nos encontra. as frases que não precisam de palavras para terminar: eu sei qual o verbo, qual o adjetivo que tu usa pra a ironia apropriada. tu, tu, tu me preenche, na boca, na bunda, na insônia que tu suporta comigo e aguenta até o sol nascer pra depois voltar a dormir e levantar só às 11h. eu to odiando aviões. me levam pra longe de ti, e tu pra longe de mim a me espelhar no teu olhar até sumir. eu e tu: não há quarto que aguente, não há cama que sustente. pesamos, efervescemos, crescemos onde o lodo invejoso dos outros grassa. tu, tu, tu pediu pra vir e veio e ficou e eu chorei. e choro até hoje. e gozo até hoje onde tu me pedir pra gozar, e onde eu também assim escolher, pois cada centímetro quadrado da tua pele acolhe meu sêmen e a minha, o teu. compartilhamos peles. nem todo o látex do mundo enrolado em volta do meu pinto impediria a transmissão dos vírus mais potentes com os quais nos recontaminamos: a cumplicidade de quem vai desligar os aparelhos quando eu estiver em coma, a lealdade de quem vai trocar tuas fraldas quando estiver imóvel e inconsciente, a resignação de quem vai ver me ver apaixonar por outro e esperar passar. tu, tu, tu. aperto tuas mãos contra minhas costas pra enterrar teus dedos nas minhas costelas e te fazer entrar, imiscuir, mesclar, misturar. somos um humano de 46 pares de genes autossuficientes e complementares. teu esperma gruda no meu e faz gigantes: a vênus monstruosa sai da concha. queremos cada gole de toda a ressaca do outro. cada gemido de dor de cabeça. cada vômito, pois não temos nojo dos fluidos do corpo, das excreções do corpo. pois o meu é também o teu. se mijamos, mijamos juntos, e eu deixo tu molhar a mão no meu jato. e lambo tua mão depois, pois o que sai de mim sai de também de ti, e entra. tu, tu, tu em cada fotografia emoldurada do edifício copan. inteiro e sublime pensando em se jogar da janela. não seria criativo. eu, eu, eu te agarrando pela camiseta verde da osklen e suplicando: [...]

 a noite foi de festa. não dormimos.

eu chorei quando tu deixou de falar comigo.

eu não chorei, mas quebrei um copo.

fiquei esperando tu mandar mensagem, chamar pra conversar.

tu disse que ia seguir tua vida. eu deixei.

era o contrário: era um pedido pra tu não deixar eu seguir minha vida sem ti.

quando mais tu diz uma coisa querendo dizer o contrário?

eu já disse que te odiava, que queria que tu fosse feliz com os caras que tu tava pegando, que tu mudasse logo pra Europa. tudo ao contrário.

tu quer que eu esteja aqui, agora?

eu quero em todas as horas de todos os dias desde que eu te conheci.

ao contrário?

não, na única direção que pode ser. reto, direto, o papo não faz curva.

eu quis te ligar e te xingar, principalmente depois de uma garrafa de vinho.

deveria ter feito.

[risos] posso agora?

pode.

não quero te xingar. quero ficar. posso?

com uma condição.

[...]

não me deixe mais de tanga, no corredor escuro e úmido da tua tristeza.

[...]

 - beijo. beijo. língua, beijo. olho no olho. beijo, língua. pau duro. -

já não está escuro. e eu to feliz.

então eu quero morar no teu corredor.

o domingo com nuvens amanheceu denso da ressaca alegre da festa da noite anterior.

 a ilha se habita. é noite de festa.

 agora não se chora mais: o ghost se fez em carne. e ficou.

 te ver hoje me fez homem. obrigado. uma nova pele cresce em mim. obrigado. fique pra sempre nesta posição, deitado na minha cama, dormindo, nu. obrigado. tu veio. obrigado. eu te esperei. e entendo teu despedaçamento. obrigado por despedaçar-se em mim.

 [...]eito de ser feliz. pois não acredito nisso. não acredito, tampouco, que ele estivesse indisponível, indisposto para relacionar-se. "não se trata de um problema com você, mas de um problema com os outros em geral." eu não sou os outros. [acabei de lembrar que um dia ele me disse essa frase, mas saindo da boca da mãe.] é claro que se trata de um problema comigo. mas viver o esplendor da rejeição não admite atalhos. há de se bater um todas as portas desse palacete. às vezes penso em mudar de cidade. ou beber muito. optei por comprar novas roupas, coloridas e estampadas, curtas. quero expor meu corpo. e por falar em corpo, me exercito todo o dia. e por falar em corpo, mudei a dieta. e por falar em corpo, fiz mais duas tatuagens. e agendei a próxima para daqui 3 semanas. às vezes penso em pedir demissão do meu job. sinto que não sou descolado o suficiente pra ele. passei a detestar cerveja. ele queria alguém mais alegre, mas nossas playlists no spotify são tão parecidas. a cada dia que acordo vou a um velório diferente. de uma abelha no tanque, de um mosquito no ralo, de uma aranha na janela. cada cadáver conta uma história, e eu os honro por isso. portanto: é claro que o problema é comigo. às vezes quero só chorar, sobretudo quando chove. se me fosse dada a opção de recomeçar minha vida já sabendo do que aconteceria só para não repetir, eu escolheria morrer de vez. porque as novas escolhas me levariam a erros piores. ele não foi um erro, embora eu tenha sido um para ele. cogito morrer, sem dúvida, mas com isso não preciso me preocupar. desço um degrau por vez para melhor respirar o ar úmido desse porão. toco as paredes para bem sentir o mofo entre os dedos. quero conhecer todos os cômodos da recusa. nas últimas semanas sou só o pó de glitter, sem brilho e sem cor. há dias em que tenho vergonha; em outros, só cansaço. é claro que penso em fugir, sumir, desaparecer. me sinto descartado. trocável como um bonecão de posto de combustível que não tem direito de ser f[...]

 vou a um café. vendem-se livros ali. sento de frente para a estante. lá está ele, vibrando, gritando. olho pra ele, e dói. baixo a cabeça. ligo o computador. ele late e mia. peço um café, leio um artigo em inglês sobre uso de medicamentos. preciso de qualquer coisa que me arranque da mesa, da prateleira. ele ainda canta. chega o café. faço um cigarro. vou pra calçada. fumo o cigarro, empurro o café pra dentro de mim. ele assovia e pisca pra mim. volto pra mesa. uso de medicamentos nos estados unidos. altas taxas de prescrição de antibióticos para crianças. ele me lambe da prateleira. milhares de dólares gastos com tratamentos de infecções respiratórias agudas. um rapaz bonito chega sozinho, senta à mesa, olha no celular. fantasio que ele pode estar te esperando. mais um date, mais um encontrinho, mais um contatinho. ele uiva. o rapaz bonito só pode estar te esperando. tu só pode estar vindo encontrá-lo. tu só pode ter me esquecido. ele muge e rosna pra mim. tratamentos com antibióticos devem ser reduzidos ao mínimo de dias. ele é teu novo rapaz. vocês são lindos juntos. peço mais um café, faço mais um cigarro. fumo na chuva. eu fantasio que vocês vão ficar juntos para o resto das suas vidas. tu só pode estar feliz, e eu, molhado. te conheço, te desejo. e tu solto no universo procurando outro e outros. te conheço e eu preso naquela praça, naquela tarde. nem um minuto se passou pra mim desde então. eu quero que isso pare, que isso termine. que horas tu chega pra encontrar teu boy? na prateleira ele me chama pelo meu nome.

olá, ghost.

por quê? por que se recolocar em rota, atravessar a zona, passear pelo meu olhar? sofrimento: capítulo dois. e eu amei. eu me refestelei de novo na vontade de estar em ti, por sobre tua pele. não quero ser a sombra da tua sombra; eu quero ser o corpo ao teu lado, tua companhia, o sorriso que sorri antes e depois de ti. [o trem é meu amigo, não posso odiá-lo.] não durmo. sonambulo na expectativa de um encontro, reencontro, novo encontro, num outro tempo, numa outra vida; teria visto em mim outro homem? eu preciso dar um destino para a força do que sinto. o que sinto é meu, minha habilidade, minha capacidade. o que isso me permite fazer com a vida; a cada convite para me desacomodar eu digo sim, sim. eu digo sim para me rasgar. eu usava roupas de tecido sintético quando nos conhecemos; eu brinquei com fogo; a roupa queimou e grudou na minha pele, chamuscada; eu te arranco de mim como tecido sintético em chamas. o que eu faço com essa força? [o trem é meu amigo, ele carrega pessoas vivas.] eu vou matar o tecido sintético queimado, arrancado da minha pele, pedaços chamuscados do que queria de ti e contigo. eu vou matá-lo como se matam todas as belezas. eu vou assassinar os pedaços sintéticos queimados de pele, da pele que encostou em ti. vou trancá-los num caixote de vidro. sem comida e ser ar. vou matar essa força por inanição e por asfixia. não vou dar de comer, não vou dar de respirar. [o trem é meu amigo, ele é o retrato de são paulo.] por quê? depois de ti só sobra meu corpo sem pele, em carne viva, viva, viva.

 [...]tei no chão do apartamento vazio. nenhum móvel. só o som dos trens indo e vindo. a coluna toda aderente ao piso. a cabeça pesando no décimo quarto andar pela gravidade que era, sem dúvida, maior que no nono. senti que tinha todo o tempo de uma vida para tentar ser feliz naquele lugar. levantei com esforço a cabeça do chão pra ver a paisagem: até a cantareira. eu estava ancorado ali. o teto mexia em redemoinhos que, percebi mais tarde, eram futuros problemas oftalmológicos. eu não flutuava, nem dissolvia. eu era uma das rochas oceânicas que permanecem através de eras, afundam navios, destroçam submarinos; uma das rochas oceânicas onde moram gerações de corais, peixes e moluscos, nobres e plebeus, sagrados e profanos. eu com toda a força de alguém que não sabe o que quer, mas quer. eu com todo o peso de quem tem o que carregar e oferecer como dád[...]

 olá, ghost.

hoje passei por uma das ruas onde nos despedimos. foi uma despedida à noite, escura, fria. evito a qualquer custo, a qualquer distância, passar pelos mesmos pontos onde coabitamos. escolho a outra calçada, a outra rua, o outro bairro. fujo, mas te reencontro como ghost em cada paralelepípedo. evito a lembrança. evito a possibilidade de cair em um túnel e ser arremessado de volta para o momento em que estávamos lado a lado, se olhando, se escutando, se tocando. sinto ser possível que o arrebatamento, que o encantamento que senti possam ter grudado, impregnado, se enroscado em cada paralelepípedo. desvio. mas sei que te procuro. como um cão que fareja: estou no teu encalço. escorei numa varanda de onde se vê a vista que te salvou, te curou. de fato, é como ter um mundo feito de tapete em concreto. e o céu tocado pelas pontas dos altos prédios, por onde passa o sol todos os dias. muito sol. não considero aquela vista curativa, nem salvadora. admito, porém, que olhar a cidade de lá é um aconchego. há tanto o que viver aqui. quis comer a cidade com uma colher, como quem a enfia com furor em um tiramisù. quero comer esta cidade em colheradas. e o trem da cptm passa bem ali embaixo. e acho que isso, sim, pode me salvar de ser Anna Karenina. é porque tem gente ali dentro. é porque assim não me sinto um fantasma no mundo. é porque hoje descobri que ser sozinho não é o meu maior problema. nunca foi. tua presença, ghost, é uma lacuna, um buraco. de todos, aquele com mais espinhos. hoje meu coração disparou e foi de tristeza. não foi de angústia, nem de pânico. foi de pesar. entristeci com o vazio. há um vazio, uma ausência. um lugar que não ganha sentido, nunca, que permanece vacante, que recusa preenchimentos e distrações. não porque estou sozinho, mas porque fiquei diante de uma parte, de um lugar que é vazio: um buraco em um paralelepípedo. sozinho eu me ouço; no vazio, entretanto, só há ecos.