Quando o vento venta, o pelo sacode. Mas não todo pelo.
Somente o meu e o teu. Uma gota te satisfaz, mas não a mim. Um superfície, uma
nota de 2 reais, um chip que aprove a transação: mas que corpo obtém e detém?
Uma lata de cerveja, e tudo mais: não há nada como isso nos catálogos
internacionais. Estar no topo não te faz mais magra, mas mais vista: há de
observar bem essa sunga. Nada: na piscinada, muita piscina pra muito nada. Não
quis, mas queremos todos. Que loucura, ou psicose, desejar todos os corpos do
mundo, todas as bordas, todos os pingos que caem no teclado. Todos os hóspedes
que querem atenção. Todas as pessoas bonitas que não trepam. E que ninguém
admira. Todas as artimanhas de instagram pra disfarçar que somos infelizes. E
todos os filtros: o que sobra dos filtros? E o que queremos dos filtros? Porque
amo os filtros e sinto que têm o que acrescentar. Paramos com o saco de
cerveja. Mas devemos? Chove pingos, apenas pingos, e será apenas pingos que
essa doença do pé te pede? Psicótica e deusa: cousas que não prevemos. Cousas
que não queremos. Mas de mim, de mim mesmo: tudo me peça e tudo me tens. Porque
serei tudo o que quiseres, com as gotas e com os pingos, e com as lágrimas, e
tu serás aquele que me edita. E eu vou. Porque há um longo. Uma coisa longa.
Que verte. Verte na parede. E ponto. Eu poderia bem ser esse buraco por onde
tudo o que verte escorre. Eu engulo tudo. Mas o lugar de ralo é tão delicado:
uma pomba ou abelha, ou mosca: não valida. Um beijo e jamais seria isso, seria
outro. Mas esse outro, essa coisa: por mais belo, seria outro. Não há nada além
do corpo: essa coisa que mija, que fode, que caga, que desliza, linda, pela
minha pele e que é linda: não há nada além dessa lindeza. Nem a superfície da
água: há mais dentro. E fora: há tudo no cisto que acontece fora do corpo!
Entendo... às vezes sinto que sim. Outras, já não sei. Dar um passo para fora da pele, olhar-se ao revés. Concordo. Mas não é sempre que podemos. Há momentos em que simplesmente não temos como dar um passo. Não, não estou falando de deixar a vida nos levar. Estou falando de fazermos vida, de fazermos a nossa vida, de estar onde é preciso estar: precisamente onde estamos agora. Exato! Há aqui vida para ser feita? Sempre há, pois estamos aqui. Não apenas isso: mas também a manga solta da camiseta, o cós folgado da calça. Um corpo que se esvai, fino, pela bainha italiana de alfaiataria. Uma pele toda artificial. Uma paranoia dérmica: supondo sempre outra pele por debaixo desta, por vir. Isso, e mais aquilo tudo que falávamos antes: corpo, ética, todos os sorrisos do mundo voltados para ele. E novamente aquilo que falávamos recém: há aqui vida para ser feita, neste lugar onde todos os sorrisos do mundo secaram? Compreendo, mas discordo. Escuto, mas renego. Nenhuma serenata pós-coito me convencerá de que não há um lado B daquela história. Há uma versão pouco conhecida, não autorizada, de todos os fatos - como se fossem anti-fatos, des-fatos. Um silêncio grosso por entre aqueles pelos e do avesso da carne. É ali que preciso chegar, ali está a bagunça e a resposta para tudo que cai no vácuo. Revivo pelo por pelo o que já houve e estranho desde o início. Amanhã, a essas horas, estarei no céu. Afastarei-me, mas voltarei pra casa em seguida. Desde agora desejo não ir. Desde agora desejo que as asas derretam ao chegarem perto do sol. Quero rapidamente estar de volta em tudo aquilo que um dia não mais me pertencerá. Por quê? Por mais que argumentes, nunca houve escapatória: sempre estive por perto. Nunca te abandonei. Jamais te deixei e sempre procurei por ti. Repetindo ipsis literis todos os pelos e pênis. Na distância jamais existiu realmente uma separação. Eu poderia fazer um boneco, um pequeno fantoche dos restos retalhados dos corpos onde te busquei: serias tu, inteiramente tu, ninguém perceberia que jaz em outro lugar senão nesse corpo remendado com trechos de outros onde acreditei te achar. E fugias de mim. Pelas mangas soltas das camisetas, pelo cós folgado das calças. Eu compreendo, eu compreendo... Mas eu serei outro, invariavelmente. Essa pele na qual tocas, essa pele pelada, dela eu já pisei fora. Vejo-me pelo revés. Se tu te repetes nos corpos, eu estou fora do meu.
Cabem seis janelas dentro da minha própria, se olhadas de
dentro. De fora, a minha é só mais um buraco na parede do prédio alto. Só a
minha está aberta. Fantasio muitas vezes com as pessoas paradas por detrás dos
vidros das janelas de fora olhando para cá. Atrás das cortinas. Fantasio homens
de pé atrás dos vidros, atrás das cortinas, vigiando o que acontece nas janelas
de cá. Em algum momento seus olhares descolam da minha janela e deslizam para
outra. Desconectam da minha janela. Desconhecem as paisagens da minha janela.
Desinteressam-se pelas cores. Desimportam-se e escapam como gotas, bem
lentamente, para outros cenários. Despontam em outras linhas do retrato.
Fantasio que eu fico só, bem aqui, com a janela aberta. Nada passa por ela,
entretanto: nem olhares, nem vento, nem chuva. Uma janela hermética apesar de
aberta.
Todas as guerras cessaram por falta de munição, não por falta de ódio. E os exército esperaram, esperaram como estátuas em seus respectivos lugares, imóveis; os soldados loucos para lutar. Imóveis e inúteis, sem munição. Descomandados, acéfalos, os soldados pereceram. Foram se esvaindo pelas fardas, deixando despencar as baionetas. As trincheiras se encheram de lama, e depois de terra, e depois de areia, soterrando os arames farpados. Os tanques se retorceram, e as bombas, as bombas estouraram como gelatinas, como bolhas em gel, as bombas explodiram como um balão murcho. Cara a cara com o inimigo, na beirada da fronteira disputada, todas as guerras cessaram. Nenhum soldado bateu em retirada. Todos permaneceram no campo de batalha sentados sobre seus capacetes. As razões da luta permaneciam, mas os guerreiros estavam imóveis. Até os aviões foram retidos em pleno ar, e lá permaneceram com os motores ligados. Os navios encalharam na superfície mesmo do mar, enferrujando e afundando aos poucos. Nações inteiras aguardaram o desfecho das batalhas, o retorno de seus filhos e filhas à terra-mãe. Os filhos e as filhas da guerra, contudo, desconheceram o caminho de volta. Estado de guerra constante, em suspensão, sem nenhum tiro e nenhuma bomba, conservando apenas a sensação dolorida da perda, da marcha inútil, do sangue escorrido, do toque de recolher permanente. Só o desespero da guerra ainda ardia.
Convalescendo
Oi, pai; oi, mãe
Escrevo rápido hoje, com menos do que eu gostaria de dizer, porque estou me recuperando.
Estou parindo um livro. Às vezes eu gostaria de contar que já o tenho escrito, mas eu apenas digo: tenho um livro dentro de mim. Ou dois. Não importa. E vocês me disseram tantas vezes pra eu ser discreto... e como eu pude? Nunca fui. Duvidem do meu corpo quando ele escorrega, duvidem do meu olhar. Eu só finjo por vocês. Duvidem da minha alegria, da minha beleza. Não sou belo; nem o pai, nem a mãe são.
Estou fugindo. Nem de longe suspeitarias, mas lá me vou. Crês em Deus Pai? Já fui. Essa doença feia que herdei: ficar pedindo desculpas, sentir-se culpado. Estou grávido de um livro, te interessa?
Há tantas frases que eu gostaria de te dizer. Mas siga, vá, não te pares por mim: eu só vou te atrasar, te dizer chega, te censurar. Caminhe adiante.
Não há nada pior que o corpo que caminha adiante.
Escrevo rápido hoje, com menos do que eu gostaria de dizer, porque estou me recuperando.
Estou parindo um livro. Às vezes eu gostaria de contar que já o tenho escrito, mas eu apenas digo: tenho um livro dentro de mim. Ou dois. Não importa. E vocês me disseram tantas vezes pra eu ser discreto... e como eu pude? Nunca fui. Duvidem do meu corpo quando ele escorrega, duvidem do meu olhar. Eu só finjo por vocês. Duvidem da minha alegria, da minha beleza. Não sou belo; nem o pai, nem a mãe são.
Estou fugindo. Nem de longe suspeitarias, mas lá me vou. Crês em Deus Pai? Já fui. Essa doença feia que herdei: ficar pedindo desculpas, sentir-se culpado. Estou grávido de um livro, te interessa?
Há tantas frases que eu gostaria de te dizer. Mas siga, vá, não te pares por mim: eu só vou te atrasar, te dizer chega, te censurar. Caminhe adiante.
Não há nada pior que o corpo que caminha adiante.
Degenerescendo
Oi, mãe; oi, pai.
Não posso escrever muito, pelo menos não tudo o que tenho.
Se é verdade que nunca falei, que nunca disse nada com todas as letras em sequência inteligível, também é verdade que nunca escondi, que nunca dissimulei. Essa forma de lidar com o não dito mas visível lhes é estranha. Não os culpo: apenas os chamo à responsabilidade de entender outras maneiras de habitar o mundo que não as suas próprias, que não apenas as suas próprias.
Eu formulei frases ótimas para dizer-lhes, frases cheias de verbos. Eu as esqueci. Eu continuo pensando nelas, construindo argumentos. São textos de teatro. Não lido com improvisações. Decoro as falas. Eu as esqueço. Gaguejo em frente à plateia. Devolvo-lhes o dinheiro.
Por que razão eu deveria me arrepender da conduta que venho adotando até então? Muitas respostas: desde os rasgos da boca e do pulmão ao sêmen não derramado. Desde os silêncios, silêncios de reticência que sempre se encarnavam em olhos cabisbaixos que olhavam para o chão, até as sungas não usadas e as camisetas não tiradas, o corpo não descoberto, até as viagens abortadas e as rotas de fuga, os atalhos, as noites trancadas nos quartos de hotéis anônimos. Desde passaportes feitos e nunca usados em 10 anos. Desde histórias falsas sobre baleias voadoras e músicas de dormir como “Boi da Cara Preta”, desde amigos imaginários que nunca foram bem-vindos lá em casa. Até namorados que foram muito bem-vindos, até pratos imensos de comida, até as noites sem ar-condicionado no verão, até a primeira taça de vinho aos 15 anos de idade, até os 11 anos de aluguéis pagos, até as roupas que serviram para cobrir o corpo, até os telefonemas. Muitas são as razões: desde o celibato forçado até o celibato voluntário. Desde o assassinato da criança que eu era em nome do adulto prematuro. Desde a vergonha endereçada até a vitória inesperada, ao amor pela chuva e pela cama quente no inverno, ao amor pelo vinho e pelo banho quente no inverno. Até a chuva batendo na janela, que eu escuto sozinho, até a cama quente vazia, até a garrafa de vinho não compartilhada, até o banho anônimo e silencioso, quente, no inverno. Desde o amor por aviões até a reserva medrosa em relação às praias e às areias, às águas em geral. Ainda ouço gente dizer “esse guri é poeta, essa bicha é poetisa”, mas eu sei que vou morrer a sós com meu corpo, sem mediação nem consolo, e já não sinto mais medo disso.
É essa vida toda que eu tenho que mudar agora e é demais para eu fazer em tão pouco tempo. Eu sobrevoarei uma por uma de todas as minhas cisões e contracorrentes. De todas as minhas vergonhas eu vou procurar me esquivar, e são muitas, andarei em ziguezague. Eu vou pra fora, pro lado de fora, rarefeito. Não é longe, é aqui do lado, do lado de lá da minha pele.
Não posso escrever muito, pelo menos não tudo o que tenho.
Se é verdade que nunca falei, que nunca disse nada com todas as letras em sequência inteligível, também é verdade que nunca escondi, que nunca dissimulei. Essa forma de lidar com o não dito mas visível lhes é estranha. Não os culpo: apenas os chamo à responsabilidade de entender outras maneiras de habitar o mundo que não as suas próprias, que não apenas as suas próprias.
Eu formulei frases ótimas para dizer-lhes, frases cheias de verbos. Eu as esqueci. Eu continuo pensando nelas, construindo argumentos. São textos de teatro. Não lido com improvisações. Decoro as falas. Eu as esqueço. Gaguejo em frente à plateia. Devolvo-lhes o dinheiro.
Por que razão eu deveria me arrepender da conduta que venho adotando até então? Muitas respostas: desde os rasgos da boca e do pulmão ao sêmen não derramado. Desde os silêncios, silêncios de reticência que sempre se encarnavam em olhos cabisbaixos que olhavam para o chão, até as sungas não usadas e as camisetas não tiradas, o corpo não descoberto, até as viagens abortadas e as rotas de fuga, os atalhos, as noites trancadas nos quartos de hotéis anônimos. Desde passaportes feitos e nunca usados em 10 anos. Desde histórias falsas sobre baleias voadoras e músicas de dormir como “Boi da Cara Preta”, desde amigos imaginários que nunca foram bem-vindos lá em casa. Até namorados que foram muito bem-vindos, até pratos imensos de comida, até as noites sem ar-condicionado no verão, até a primeira taça de vinho aos 15 anos de idade, até os 11 anos de aluguéis pagos, até as roupas que serviram para cobrir o corpo, até os telefonemas. Muitas são as razões: desde o celibato forçado até o celibato voluntário. Desde o assassinato da criança que eu era em nome do adulto prematuro. Desde a vergonha endereçada até a vitória inesperada, ao amor pela chuva e pela cama quente no inverno, ao amor pelo vinho e pelo banho quente no inverno. Até a chuva batendo na janela, que eu escuto sozinho, até a cama quente vazia, até a garrafa de vinho não compartilhada, até o banho anônimo e silencioso, quente, no inverno. Desde o amor por aviões até a reserva medrosa em relação às praias e às areias, às águas em geral. Ainda ouço gente dizer “esse guri é poeta, essa bicha é poetisa”, mas eu sei que vou morrer a sós com meu corpo, sem mediação nem consolo, e já não sinto mais medo disso.
É essa vida toda que eu tenho que mudar agora e é demais para eu fazer em tão pouco tempo. Eu sobrevoarei uma por uma de todas as minhas cisões e contracorrentes. De todas as minhas vergonhas eu vou procurar me esquivar, e são muitas, andarei em ziguezague. Eu vou pra fora, pro lado de fora, rarefeito. Não é longe, é aqui do lado, do lado de lá da minha pele.
O lucro do luto
[...]visitar as sombras e por ali ficar, gastar um tempo com as sombras, deitar nelas. Nunca vi tanto lucro no meu luto: capaz de comprar uma vida inteira, reluzindo de tão nova. Deitar nas sombras e adormecer, e ao adormecer sonhar com aquilo que morreu ou com aquilo que matei. Acordar e regozijar com meu homicídio ou suicídio[...]
[...]as a vida grita mesmo assim. Eu fui até a janela, e nem a superfície da piscina estava calma. Não adianta represá-la, nem fazer barricadas: ela avança. Quando se está à espreita a vida acontece. E nisso há aqueles que se acanham, que se encolhem na sua pequenez de misericórdia, e ficam murmurando suas mágoas, seus restos de opiniões, juntando as migalhas de pão mofado para dar de comer às suas soberbas. Há aqueles que fogem, que se calam, que se misturam ao silêncio, que tentam passar incólumes, que preferem não ser vistos nem ouvidos e que trancam o que há pra sair. Há aqueles que choram e que rosnam, raivosos, aqueles que vociferam e ensaiam uma altivez cretina. Há aqueles que olham pro horizonte, estufam o peito e abrem os braços, caindo de olhos bem abertos no redemoinho que sabem que não podem evitar[...]
Um mês antes do Natal
[...]ada. Não tinha taça, nem vinho, nem roupa de cama, nem água. O beijo, por mais suculento, não tinha nada. E um mês antes do natal ele enfeitou a árvore: que linda árvore com bolas e folhas, e luzes, e galhos. Nada de mais sedutor que as palavras escritas com obscuro do verão do hemisfério sul. O braço, eu me pergunto sobre o braço: ele sente sono? Porque, não: eu não te amo. Mas nada me impede de cair por ti, de afeições e afagos, e nada te impede de aproveitares isso, um sorriso ou uma conversa, ou um abraço, ou uma coisa linda qualquer. Não me seduza com tua inteligência ou com teu frio, com tua frieza, tua terra é fria. Mas me conceda o passaporte, e o visto a tempo, me deixe entrar, me deixe carimbar essa lente louca que me olha e que me julga querendo ou não entrar na tua terra. Se teus olhos já passaram por aqui – de servidor público ou de desempregado, de solteiro ou de casado – tu é quem decide se deve ou não fechar a página ou continuar escutando nossas vozes agudas, de adolescentes, falando sobre essas coisas íntimas e bonitas do qual falamos. Não me responsabilize por tremer ao te ver, ou por comprar um café pra tomar contigo. Não me responsabilize por essa fome, ou solidão, ou vontade de beber toda a garrafa de champagne: eu vou bebê-la, o que não significa que eu não penso em ti, ó gordinho lindo, coisa mais bela da minha semana! Sem que se peneire quadro a quadro, nada haverá de sustentar qualquer toque ou gozo sobre minha pele. Retome isso. Decore. Nada haverá sobre minha pele. Um olhar me vale mais do que essa coisa branca que despejas em mim: um beijo? Uma mentira? Não me surpreende que tu estás nesse casamento. Porque casamento é isso mesmo: aquilo que te faz tirar a primeira gota de sangue do tórax. NADA. Uma praia branca vazia. Habite-se. [...]
Zelo
[...]mpre o mesmo banco, mas nunca os mesmos homens. Porque eu passo correndo por ali, literalmente correndo, e vejo aqueles homens sozinhos, insulares, sentados nos bancos e se articulando através de olhares que te escaneiam. Centopeias oculares, flexo e reflexo. Eu poderia passar por ali dois séculos depois de hoje e eu ainda acharia rastros desses olhares – sem dúvida não acharia os mesmos homens, tampouco o mesmo jogo de flexo e de reflexo, mas eu acharia algo todo novo e inusitado que, de certa forma, seria um quê herdeiro dessa disponibilidade, dessa disposição, dessa inquietude dos homens que se sentam naquele banco. Uma beleza tardia se despencou na minha frente: nunca a supus, e quanto tempo perdi procurando-a e produzindo-a sentado num banco que nunca mudava. Sem medos ou esperanças: o que se faz diante dos meus olhos? Aquilo que se arrisca no olhar, aquilo que fulgura; aquilo que impede Narciso de apaixonar-se à beira do rio. É uma água turva, movente, que bloqueia qualquer marasmo ou estado plácido de calmaria que transforma a superfície da água em espelho – nunca haveria de refletir rosto nenhum. E, quem diria?, uma parte toda lisa de mim te absorve e te reflete, te irradia. Flexo e reflexo. É mentira que as pessoas deixam o céu aberto porque não querem se molhar: é a chuva que chega e que se gruda nos corpos querendo ir embora das nuvens. Nunca percebeste? Então vem, te gruda em mim, corre no meu entorno, que eu te espero com zelo sentado naquele banc[...]
O PÓ SOBRE MIM
Num momento de desatino, eu até poderia ter feito algo do qual meu corpo se orgulharia mais tarde. Mas não fiz. Bebi, bebi muito, e beberia mais. Porque pouco me importa a saúde do meu fígado, ou o estado do meu estômago. Pouco me importa a segurança da minha cidadania quando eu sento nas raízes das árvores querendo sexo na madrugada. Pouco me importa a decência das minhas roupas. Eu apenas me perfumo para despistar minhas misérias. Houve um momento de desatino, de grito, de coisa estridente, de barulho. Um momento me perdendo nos olhos, e nos dedos, e na roupa, e na história. E não haveria algo de mais sublime que perder-se na história de alguém? Me conte toda ela, não seja tímido, me desvende tua vida com tua literatura – com aquelas histórias que tu narras e que tua achas que são verdadeiras, ou que sabes que são ficção: são lindas. Me conta do teu corpo, de como ele envelheceu e criou rugas, de como tu cortas a tua pele, de como nascem teus pelos, de como tu te deitas e de como tu comes. Tudo é algo novo sobre mim, espana meu pó pra longe. Eu já deveria ter limpado essa casa do avesso não sei quantas vezes, seus vidros, suas louças sujas, suas tolhas pra lavar. E eu faço: minha tristeza é não ter mais vidros, mais louças, mais roupas, mais pó. Eu não sei se há mais perguntas a serem feitas, mas também não te convido para entrar, pois há tantos outros que eu convidaria para entrar, há tantos outros com quem eu passaria uma noite, ou uma tarde, que já não sei se tu és tu nisso que eu quero. Não sei se tu é pó ou espanador. Nem mais a bebida eu aceitaria depois disso. Quando eu me viro pra luz eu vejo que meu corpo todo é recoberto por essa penugem ingênua de quem crê em tudo o que é puro e sincero. Acorde: a vida toda é feita de pequenas perversidades. Não me custaria nada rasgar tua cara, te sodomizar em frente a todos. Tua feiúra grita nessas brechas ocas de uma beleza que não tem nada a dizer, de uma beleza reticente, inabitada até por mosquitos. Um beijo meu te salvaria? É disso que tu precisas? Venha cá, te dou de bom grado tudo o que tu precisas para uma viagem migratória, um cruzeiro em alto mar, uma noite em paz. Te dou o que precisas, eu sei que posso. Jamais escreverei palavras de amor, mas os meus murmúrios e meu pó vão ecoar, como ondas, nesse teu labirinto opaco – que truque interessante, apagar tua luz: tudo em ti brilha pros meus olhos. Não tens como te esconder.
Jamais escreverei um romance
[...]alar o menos possível. Porque o que mais tem aí fora são pessoas falando e gritando, criança chorando, esposa querendo afeto de macho e macho querendo desejo de outro macho. Falar o menos possível, o silêncio: quanto exercício. Talvez eu deixe separada em uma das minhas gavetas uma carteira de cigarros, porque quando eu fumo eu penso – necessariamente. Eu sou capaz de ir lá no saguão do prédio pra fumar, não apenas pra isolar a casa do cheiro da nicotina e do alcatrão, mas também para ficar sozinho e separado de toda gente. Pra escrever textos com as cinzas. Pra não ser eu mesmo – e é tão clichê dizer isso depois de Clarice. Fumar um long cigarette com um vestido sereia, perolado, com uma piteira imensa, deitado em uma chaise negra. Cruzar a linha do possível e te arrancar do nada, te arrancar da inércia, te acomodar entre meus braços e te levar nessa onda tumultuosa que eu vivo. Aceitas? Escrever essas coisas depois de Clarice não é nada fácil. Te arrancar do nada e trazer pra essa flora profunda, de raízes radículas, que te engolfam e te calam a boca se eventualmente tu quiser me elogiar. Pra isso não pronuncie palavras: apenas emita sons guturais, emita gemidos, vibrações vocais. Não há nada no mundo que me irrite mais na hora da sedução que palavras. Gema. E revire os olhos. Fale o menos possível quando eu te arrancar da linha do possível. Encoste teu corpo todo no meu, desde os dedos dos pés, as pernas, os quadris, a barriga (eu gosto de barrigas), o peito, os braços, os ombros; encoste as costas e a bunda e a nuca. Vire-se do avesso. Fale o menos possível. Jogue um beijo no ar: ele vai se cravar no meu rosto. Eu não escrevo romances por isso (e por várias outras razões): porque começo escrevendo sobre uma coisa e me grudo em outras, sem seleção, e sigo seus rumos. Não haverá romance pra esse trânsito: primeiro porque um romance não pode ser infinito, porque ele precisa ter um ponto final, uma página de fim, um posfácio, um silêncio. E meus grudes nas coisas que seguem é intenso, é caótico. Não caberia nessa estreiteza física do romance. Segundo porque um romance precisa de um título, e um título é sempre um jeito que a gente acha de resumir, de condensar, de sintetizar a coisa toda. E não se trata disso: o objetivo é multiplicar, cortar, enxertar. Múltiplas experiências a partir dos textos, a partir de uma cena, de uma frase ou de uma palavra – ou de um som, de um gemido, de uma vibração gutural –, multiplicar os caminhos e expandir o texto. Rasgar as linhas. Jamais haverá título, nem subtítulo, para um romance meu. Porque é preciso falar o men[ ...]
Uma chuva bem fina
Eles me diziam que eu estava errado: ninguém chove, ninguém amanhece, ninguém tem crepúsculos. Eu argumentava que nem todos e que nem todas, de fato, poderiam amanhecer [é duro, é difícil, é cruel amanhecer em vida]. Eu argumentava que eu já vira muitos e muitas choverem, peneirando pingos de chuva e tomando-os, espalhando-os pela pele. Mas é possível, é absolutamente possível. Há restos em dois dos seis ralos da minha casa, e nesses dois ralos estão retidos restos, fragmentos orgânicos que represam a água. Ralos, restos retidos, represando. Há três toalhas para serem lavadas, peças de roupas em um monte. Há bolinhas de pó no pé da minha estante da sala que se encostam ali nos cantos, e a estante está quebrada, pendendo para o lado. Esta é uma casa insegura. Esta é uma casa que tem um crepúsculo, eu posso dizer que minha casa tem um crepúsculo. Mas ela tem, igualmente, uma aurora, uma manhã de festa, uma luz que é própria do alvorecer e que perpassa todas as suas paredes, que brilha das janelas para fora, que ilumina o chão: uma luz de dia que nasce – por mais que dias não nasçam, se eu assim escrever, todos e todas entenderão de que luz eu estou falando e acharão lindo (como eles dizem no primeiro dos mil platôs). Então por que razão, será, que eu mesmo não posso chover? Eu posso, é possível: eu chovo uma chuva bem fina, mais leve que o vento, e o vento rouba meus pingos e os faz tremer no ar. Uma chuva bem fina é essa que eu chovo, sem raios nem trovões, sem inundações ou granizos. Quase uma garoa, mas um pouco mais vigorosa que uma garoa, do tipo que molha sorrindo. Eu chovo a chuva que te faz dormir.
Beiradas
[...]or a mais, amor demais. Mentiras, trapaças e traições; é demais. Porque chego na beirada, na linha que precipita o corpo, no trampolim: e eu não me jogo, não me atiro, não pulo. Sigo andando pela beirada, como quem caminha sobre uma mureta ou meio-fio da calçada, colocando um pé depois do outro e mantendo o equilíbrio com a ajuda dos braços estendidos na linha dos ombros. De braços abertos eu me equilibro caminhando na beirada. Jamais caio, pois o jogo termina se eu cair. Se eu cair, serão eles que terão me vencido, serão eles que terão mudado meu percurso. Não caio; não, Caio. Mas não me tirem nada, nem os pelos das orelhas, nem uma lembrança que pesa meu rancor: qualquer subtração do meu amontoado desestabiliza meu caminhar, e aí sim eu caio. Nem a barba, nem a pança, nem os cisos: não me tirem nada. Eu desequilibro com subtrações. Só aceito agregar: um beijo teu, e eu inundo; um beijo teu, e eu surfo na beirada. É difícil de escrever isso; gaguejo ao redigir esse texto. Prefiro fechar toda a casa, ir embora. Vou com a chuva para longe. É horrível escrever esse texto. Falar em ti já não é mais tão f[...]
o riso da diaba cristã
[...], essa culpa sibilante que me persegue, cascavel, que se enrosca em mim e me sufoca, jiboia, que me persegue e me assusta e se levanta sobre mim, naja, que me mal-trata e me pisoteia e que me despreza, sucuri, tu que não liga nem bate na porta, mentiroso, que me prometeu mais uma vez e outra e quiçá mais uma, víbora, que me dá pó de vidro pra cheirar e eu fico viciado, essa culpa rastejante de seis patas, escamada, de língua bifurcada, ofídica, essa culpa pela inalação e pela inação, pela paralisia, essa culpa pelo desprezo, mas nada se encaixa melhor em ti do que o continente que se desprendeu de mim quando eu te tirei da minha vida, essa culpa monumental e venenosa de sentir prazer em ser feliz, essa arrogância linda de quem é feliz e o sabe, de quem é feliz e pode pegar no ar a inveja alheia, essa impáfia linda de quem ri da miséria de espírito daqueles que pensam ter um espírito: o riso da diaba cristã que há dentro de mim [...]
Um grande SIM feito de espinhas inflamadas
[...]belos na minha cama e gotas de líquidos corpóreos. Coisa doida. Consigo contar pelo menos cinco diferentes formas, cores, texturas e gostos para esses pelos e cabelos, para essas gotas e líquidos. Nenhum deles se repetiu. Só eu, mas isso já estava suposto, isso era necessário.
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Não, não, não me censure, não diga que é feio. Eu só preciso me acomodar numa linha de força, num trilho de trem, numa corrente de água do mar e então eu vou seguindo bem confortavelmente até quando eu sou ejetado, pulo fora, renuncio à coroa. Porque eu gosto mesmo é do cetro. Não pense isso de mim: eu mudei. Eu até consigo seduzir. Eu até consigo arrancar as roupas, não de uma nem de duas, mas de três ou mil pessoas quase ao mesmo tempo – porque eu mudei. Nem sobre as nuvens, nem sob o chão. Eu minto, não nego, deixo a verdade pra mais tarde. Mas nada me impede de gozar, e de gozar sozinho ou em grupo, e de me acomodar novamente em mais um trilho de trem e seguir soltando fumaça como uma locomotiva – porque agora sou um criminoso por soltar fumaça.
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Nem no chão, nem no ar: não explodo nem me esvazio. Porque não há mais um pontilhado ou uma membrana que me divide de tudo que está fora (tudo que está fora: eu, tu, eles, os corpos com pelos e cabelos e líquidos, minha cama, as nuvens e o chão, as praias, os medos, os planos, a água. Tudo). Não há mais pontilhado que me divide de tudo isso; logo, não há como dizer que estou vazio ou que estou explodindo. Porque se vazio, é porque nada me afeta, é porque não tenho superfície. É porque não tenho ondas, nem marolas, não posso emergir e não venho à tona. Porque se explodindo, é porque absorvo demais, estendo demasiado a pele, estico o rosto num sorriso muito largo que rasga a boca. Nem dentro, nem fora: entre mim e todo o resto, entre mim e todo o entremeio do resto.
{{ }}
Não te assustes, nem te apaixones, se o ser pequenino que te habita não me parecer monstruoso. Teu corpo não me estranha. Não é castigo, nem punição. Não é descuido. Não é falta de amor próprio, nem falta de autonomia. Não é opressão, não é burrice. Esse pequenino ser que agora te habita manda beijos, te lambe, desliza pelas tuas artérias, e nada disso te faz um monstro. Agora tu vive com ele, convive com ele, forma um outro corpo com ele. Esse pequenino ser que agora te habita dança axé na tua superfície. Nem a imensidão azul ou verde, nem a distância cinza: um brinde amarelo com gosto de lúpulo pelo pequenino ser que agora te habita. Nem choro, nem vela, nem procissão, nem círio. Nada me faz chorar, nem o Grande Não que recebi daquelas Mãos Judiadas. Foi só quando eu sobrevoei o mar que me dei conta do perigo pelo qual eu passei – uma espécie de pequeno monstro me habitava –, e foi então eu que renunciei a tudo que eu havia colocado uns sobre os outros: a mentira, o desejo, os óculos, os tanques de guerra, o tesão, os gatos, o sêmen, os telefonemas e os pesadelos com a Faixa de Gaza. Somente o sobrevoo me permitiu essa renúncia, e eu, de bom grado, prescindi de tudo e fiquei nu. Então, veja: eu também posso ser um pequenino monstro. E sou. Eu minto. Eu planejo vinganças – e as executo. Eu debocho e eu ironizo o sofrimento alheio. Eu desprezo o amor ao próximo e a reverência aos mortos. Eu rio do erro dos outros – na verdade eu gargalho deles. Quantas e quantas vezes eu mesmo disse: “cuidado com teu olhar, cuidado com o que tu olha e com o jeito que tu olha”. Quantas vezes eu neguei que houvesse praias brancas e desabitadas nessa costa imensa de superfície: uma impossibilidade geral de ocupar o que me era de direito, já que desde sempre me sentei à beira da saída de emergência da minha vida, louco de medo de haver um acidente fatal e, ao mesmo tempo, me sentindo totalmente incapaz de abrir a porta em caso de despressurização. Se tu me pedisse pra eu te salvar, eu daria uma gargalhada e gritaria, enquanto o avião despencava: “ERA TUDO MENTIRAAAAA!!!”. Porque eu minto e eu nego, e eu omito fatos e frases, e eu crio diálogos. Impossibilidade geral de assumir que tenho asas, ou turbinas; impossibilidade geral de aceitar que tenho curiosidade de vida, que tenho uma inteirinha que eu criei só pra mim e que ninguém entende como pode ser possível.
{{ }}
Eu peço outra e outra e outra e outra. Eu não sei ter limites, eu desconheço a hora de parar. Em um momento de desespero, à beira da saída de emergência, eu me escoraria na porta e, deslizando por ela, chorando, eu pediria desculpas ao meu corpo por essa resistência em tratá-lo bem. Porque, é patético, mas parece que eu o odeio – talvez tanto quanto tu odeias o teu corpo com seu pequenino monstro nas artérias, talvez tanto quanto ele odeia o corpo dele com sua tradição de cinco mil anos. Ódio profundo de toda materialidade orgânica, de todo carbono-hidrogênio-oxigênio: impossibilidade de ocupar essa carne vistosa e falível (corruptível, maculável, matável). Nuvens negras, raios e trovões nunca me assustaram exatamente por este motivo: eu sou um pouco deles também. Maremotos, terremotos, tsunamis, erupções: só peço que não me matem lentamente. Porque, como eu disse, já não há mais pontilhado que me separa deles, não há membrana, nem porosidade: eles são um pouco de mim. Mesmo que eu sobrevoasse toda a terra conhecida, e que todos os pelos/cabelos e todas as gotas de todos os líquidos se deitassem eu todas as minhas camas, meus olhos conheceriam nenhuma nuvem além daquelas que eu atravessei: não há maremoto pior que aquele quando eu choro, nem tsunami melhor que quando eu gozo, nem erupção mais cintilante que quando eu grito.
{{ }}
Eu peço mais uma e mais uma e mais uma e mais uma. Porque eu desconheço limites, eu não habito minhas praias brancas, eu minto e eu omito: um verdadeiro pequenino monstro. E, mesmo sendo tudo isso, até amendoins me oferecem sem eu pedir. Que mundo é esse que recompensa pequenos monstros? Espinhas na cara, purulentas, vermelhas, inchadas: compõem o mapa de um grande SIM que eu disse à vida. Meu rosto diz SIM em toda sua extensão, com sorriso ou com lágrimas. Me surpreende que o rapaz de 14 anos mais ali adiante reconheça o SIM do meu rosto – porque, talvez, suas espinhas jovens ainda não saibam bem que caminho desenhar [porque são muitos os caminhos nessa idade]. As minhas espinhas, com trinta anos de existência, desenham um SIM gigante no meu rosto. Peles de bebê nunca me atraíram, tu vê, que curioso: sempre preferi peles manchadas, marcadas, grossas de barba, cicatrizadas; enfim, peles que tenham o que dizer e dizem. Peles que sentiram, peles que fazem sentir. Sempre detestei peles lisas: gosto da montanha russa das peles esburacadas. Meu grande SIM esburacado. Meu grande SIM à vida, estampado no meu rosto com espinhas inflamadas. Não há remédio que cure o meu SIM: ele é um mapa, um percurso. O pequenino monstro acha suas coorden[...]
{{ }}
Não, não, não me censure, não diga que é feio. Eu só preciso me acomodar numa linha de força, num trilho de trem, numa corrente de água do mar e então eu vou seguindo bem confortavelmente até quando eu sou ejetado, pulo fora, renuncio à coroa. Porque eu gosto mesmo é do cetro. Não pense isso de mim: eu mudei. Eu até consigo seduzir. Eu até consigo arrancar as roupas, não de uma nem de duas, mas de três ou mil pessoas quase ao mesmo tempo – porque eu mudei. Nem sobre as nuvens, nem sob o chão. Eu minto, não nego, deixo a verdade pra mais tarde. Mas nada me impede de gozar, e de gozar sozinho ou em grupo, e de me acomodar novamente em mais um trilho de trem e seguir soltando fumaça como uma locomotiva – porque agora sou um criminoso por soltar fumaça.
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Nem no chão, nem no ar: não explodo nem me esvazio. Porque não há mais um pontilhado ou uma membrana que me divide de tudo que está fora (tudo que está fora: eu, tu, eles, os corpos com pelos e cabelos e líquidos, minha cama, as nuvens e o chão, as praias, os medos, os planos, a água. Tudo). Não há mais pontilhado que me divide de tudo isso; logo, não há como dizer que estou vazio ou que estou explodindo. Porque se vazio, é porque nada me afeta, é porque não tenho superfície. É porque não tenho ondas, nem marolas, não posso emergir e não venho à tona. Porque se explodindo, é porque absorvo demais, estendo demasiado a pele, estico o rosto num sorriso muito largo que rasga a boca. Nem dentro, nem fora: entre mim e todo o resto, entre mim e todo o entremeio do resto.
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Não te assustes, nem te apaixones, se o ser pequenino que te habita não me parecer monstruoso. Teu corpo não me estranha. Não é castigo, nem punição. Não é descuido. Não é falta de amor próprio, nem falta de autonomia. Não é opressão, não é burrice. Esse pequenino ser que agora te habita manda beijos, te lambe, desliza pelas tuas artérias, e nada disso te faz um monstro. Agora tu vive com ele, convive com ele, forma um outro corpo com ele. Esse pequenino ser que agora te habita dança axé na tua superfície. Nem a imensidão azul ou verde, nem a distância cinza: um brinde amarelo com gosto de lúpulo pelo pequenino ser que agora te habita. Nem choro, nem vela, nem procissão, nem círio. Nada me faz chorar, nem o Grande Não que recebi daquelas Mãos Judiadas. Foi só quando eu sobrevoei o mar que me dei conta do perigo pelo qual eu passei – uma espécie de pequeno monstro me habitava –, e foi então eu que renunciei a tudo que eu havia colocado uns sobre os outros: a mentira, o desejo, os óculos, os tanques de guerra, o tesão, os gatos, o sêmen, os telefonemas e os pesadelos com a Faixa de Gaza. Somente o sobrevoo me permitiu essa renúncia, e eu, de bom grado, prescindi de tudo e fiquei nu. Então, veja: eu também posso ser um pequenino monstro. E sou. Eu minto. Eu planejo vinganças – e as executo. Eu debocho e eu ironizo o sofrimento alheio. Eu desprezo o amor ao próximo e a reverência aos mortos. Eu rio do erro dos outros – na verdade eu gargalho deles. Quantas e quantas vezes eu mesmo disse: “cuidado com teu olhar, cuidado com o que tu olha e com o jeito que tu olha”. Quantas vezes eu neguei que houvesse praias brancas e desabitadas nessa costa imensa de superfície: uma impossibilidade geral de ocupar o que me era de direito, já que desde sempre me sentei à beira da saída de emergência da minha vida, louco de medo de haver um acidente fatal e, ao mesmo tempo, me sentindo totalmente incapaz de abrir a porta em caso de despressurização. Se tu me pedisse pra eu te salvar, eu daria uma gargalhada e gritaria, enquanto o avião despencava: “ERA TUDO MENTIRAAAAA!!!”. Porque eu minto e eu nego, e eu omito fatos e frases, e eu crio diálogos. Impossibilidade geral de assumir que tenho asas, ou turbinas; impossibilidade geral de aceitar que tenho curiosidade de vida, que tenho uma inteirinha que eu criei só pra mim e que ninguém entende como pode ser possível.
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Eu peço outra e outra e outra e outra. Eu não sei ter limites, eu desconheço a hora de parar. Em um momento de desespero, à beira da saída de emergência, eu me escoraria na porta e, deslizando por ela, chorando, eu pediria desculpas ao meu corpo por essa resistência em tratá-lo bem. Porque, é patético, mas parece que eu o odeio – talvez tanto quanto tu odeias o teu corpo com seu pequenino monstro nas artérias, talvez tanto quanto ele odeia o corpo dele com sua tradição de cinco mil anos. Ódio profundo de toda materialidade orgânica, de todo carbono-hidrogênio-oxigênio: impossibilidade de ocupar essa carne vistosa e falível (corruptível, maculável, matável). Nuvens negras, raios e trovões nunca me assustaram exatamente por este motivo: eu sou um pouco deles também. Maremotos, terremotos, tsunamis, erupções: só peço que não me matem lentamente. Porque, como eu disse, já não há mais pontilhado que me separa deles, não há membrana, nem porosidade: eles são um pouco de mim. Mesmo que eu sobrevoasse toda a terra conhecida, e que todos os pelos/cabelos e todas as gotas de todos os líquidos se deitassem eu todas as minhas camas, meus olhos conheceriam nenhuma nuvem além daquelas que eu atravessei: não há maremoto pior que aquele quando eu choro, nem tsunami melhor que quando eu gozo, nem erupção mais cintilante que quando eu grito.
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Eu peço mais uma e mais uma e mais uma e mais uma. Porque eu desconheço limites, eu não habito minhas praias brancas, eu minto e eu omito: um verdadeiro pequenino monstro. E, mesmo sendo tudo isso, até amendoins me oferecem sem eu pedir. Que mundo é esse que recompensa pequenos monstros? Espinhas na cara, purulentas, vermelhas, inchadas: compõem o mapa de um grande SIM que eu disse à vida. Meu rosto diz SIM em toda sua extensão, com sorriso ou com lágrimas. Me surpreende que o rapaz de 14 anos mais ali adiante reconheça o SIM do meu rosto – porque, talvez, suas espinhas jovens ainda não saibam bem que caminho desenhar [porque são muitos os caminhos nessa idade]. As minhas espinhas, com trinta anos de existência, desenham um SIM gigante no meu rosto. Peles de bebê nunca me atraíram, tu vê, que curioso: sempre preferi peles manchadas, marcadas, grossas de barba, cicatrizadas; enfim, peles que tenham o que dizer e dizem. Peles que sentiram, peles que fazem sentir. Sempre detestei peles lisas: gosto da montanha russa das peles esburacadas. Meu grande SIM esburacado. Meu grande SIM à vida, estampado no meu rosto com espinhas inflamadas. Não há remédio que cure o meu SIM: ele é um mapa, um percurso. O pequenino monstro acha suas coorden[...]
Companheiros
Não nos falta nada - já percebeste?
Temos os corpos. Porque carregam em si tudo que já foi, porque materializam tudo o que queremos. Porque no instante em que penso em ti há uma cisão, um corte, uma separação absoluta que nos impede de sermos um - e aí está nossa graça, nosso charme, porque manteremos intactos nossos quatro braços, nossos dois narizes e nossos seis olhos tais quais eles são. Seis olhos! Porque quando eu te chamo tu não escuta, tu não responde, tu não te vira; mas também porque no momento em que tu me toca eu não sinto, eu não deslizo, eu não arrepio. Porque nós gritamos e nós corremos. Porque nos colidimos e nos chocamos contra paredões. Porque nós choramos, porque nós dormimos, porque nós soltamos gases inclusive. Temos conosco o benefício da traição da promessa: nós não prometemos nada, nem a nós; não empenhamos nossa palavra e não damos partes dos nossos corpos em nome daquilo que dizemos. Ninguém poderá levar nossas orelhas, nossas falanges, em nome de palavras não cumpridas. Porque mentimos, e mentimos muito, e omitimos. Porque não há nada além de nós, nem nada passado por nós com o que mantenhamos dívidas ou juras de veridicção. Porque não pensamos um no outro com cobiça ou com posse, porque não sequestramos nossos planos, porque não esterilizamos nossa vontade. Tudo em ti é possibilidade, tudo em ti é chance, e em mim também; e quando a chance não chega ou não bate, e quando as possibilidades não combinam, não nos acusamos nem nos ressentimos. Porque somos absolutamente incomensuráveis, irredutíveis. Porque estamos juntos por muito pouco, porque há muito pouco de nós que combina, porque há quase nada em ti que me seduz e há menos ainda em mim que te fascina; mas esse pouco, esses nossos pouquinhos e essas nossas nossas migalhas são tão reincidentes e tão preciosas; porque nossos pouquinhos são tão irmãos, são tão amigos; porque essas pequenas partes dos nossos corpos corpos se gostam tanto e com tanta intensidade, e se encostam tanto e se lambem tanto; porque há tão poucas palavras a serem ditas depois da fricção dos nossos corpos que é justamente daí e por causa disso que vem tanto gozo, em jatos altos, e tanto silêncio depois, um silêncio abraçado, um silêncio epidérmico das peles que se confudem. Porque há tanto em mim que conhece o mundo através de ti e por tua causa, porque há tanto em mim que deseja a vida que tu me oferece. Porque tu não me cobra taxas por isso. Porque quando tu me odeia, tu me diz. Porque quando eu te odeio, eu simplesmente não te olho. Porque esse pouco de mim que te fascina circula com força, em espirais, por todo o teu corpo, e entra e sai de ti provocando calafrios. Porque quando tu deita na cama à noite, ou cedo da manhã, não é com o gosto dele que tu adormece (dele, desse outro recém descoberto): é pelo meu sabor que tua boca saliva. Sou eu insidiosamente por toda tua superfície, gritando nos teus tímpanos. É a minha boca selando tuas pálpebras pra tu dormir, é o meu sorriso te velando. Porque não nos falta nada - talvez só mais alguns passos, ou só mais algumas palavras, ou só mais alguns goles. Porque já temos tudo: todos os dias daqui pra frente.
Temos os corpos. Porque carregam em si tudo que já foi, porque materializam tudo o que queremos. Porque no instante em que penso em ti há uma cisão, um corte, uma separação absoluta que nos impede de sermos um - e aí está nossa graça, nosso charme, porque manteremos intactos nossos quatro braços, nossos dois narizes e nossos seis olhos tais quais eles são. Seis olhos! Porque quando eu te chamo tu não escuta, tu não responde, tu não te vira; mas também porque no momento em que tu me toca eu não sinto, eu não deslizo, eu não arrepio. Porque nós gritamos e nós corremos. Porque nos colidimos e nos chocamos contra paredões. Porque nós choramos, porque nós dormimos, porque nós soltamos gases inclusive. Temos conosco o benefício da traição da promessa: nós não prometemos nada, nem a nós; não empenhamos nossa palavra e não damos partes dos nossos corpos em nome daquilo que dizemos. Ninguém poderá levar nossas orelhas, nossas falanges, em nome de palavras não cumpridas. Porque mentimos, e mentimos muito, e omitimos. Porque não há nada além de nós, nem nada passado por nós com o que mantenhamos dívidas ou juras de veridicção. Porque não pensamos um no outro com cobiça ou com posse, porque não sequestramos nossos planos, porque não esterilizamos nossa vontade. Tudo em ti é possibilidade, tudo em ti é chance, e em mim também; e quando a chance não chega ou não bate, e quando as possibilidades não combinam, não nos acusamos nem nos ressentimos. Porque somos absolutamente incomensuráveis, irredutíveis. Porque estamos juntos por muito pouco, porque há muito pouco de nós que combina, porque há quase nada em ti que me seduz e há menos ainda em mim que te fascina; mas esse pouco, esses nossos pouquinhos e essas nossas nossas migalhas são tão reincidentes e tão preciosas; porque nossos pouquinhos são tão irmãos, são tão amigos; porque essas pequenas partes dos nossos corpos corpos se gostam tanto e com tanta intensidade, e se encostam tanto e se lambem tanto; porque há tão poucas palavras a serem ditas depois da fricção dos nossos corpos que é justamente daí e por causa disso que vem tanto gozo, em jatos altos, e tanto silêncio depois, um silêncio abraçado, um silêncio epidérmico das peles que se confudem. Porque há tanto em mim que conhece o mundo através de ti e por tua causa, porque há tanto em mim que deseja a vida que tu me oferece. Porque tu não me cobra taxas por isso. Porque quando tu me odeia, tu me diz. Porque quando eu te odeio, eu simplesmente não te olho. Porque esse pouco de mim que te fascina circula com força, em espirais, por todo o teu corpo, e entra e sai de ti provocando calafrios. Porque quando tu deita na cama à noite, ou cedo da manhã, não é com o gosto dele que tu adormece (dele, desse outro recém descoberto): é pelo meu sabor que tua boca saliva. Sou eu insidiosamente por toda tua superfície, gritando nos teus tímpanos. É a minha boca selando tuas pálpebras pra tu dormir, é o meu sorriso te velando. Porque não nos falta nada - talvez só mais alguns passos, ou só mais algumas palavras, ou só mais alguns goles. Porque já temos tudo: todos os dias daqui pra frente.
Silêncio absoluto
Apenas isso, e já estava de bom tamanho. Umas reticências antes de cada frase, pra início de conversa, e tudo parecia que já estava dito naquele breve lapso temporal em que os olhos de um desviavam dos olhos do outro pra começar a frase. Apenas isso, e já se sabia o que viria em seguida.
Enfiar o dedo no nariz; limpar o nariz; olhar em volta. Fazer uma bolinha com a sujeira recém tirada graças à prospecção da unha um pouco mais crescida que o habitual. Aguardar alguns instantes e deixar cair a bolinha da sujeira do nariz no chão ou, se muito pegajosa, grudá-la em algum objeto próximo. Certificar-se de que ninguém ao redor testemunhou essa pequena nojeira. Extrair prazer desta infâmia por ela ser, em primeiro lugar, reprovável e, em segundo, invisível. Inaudita. Altamente censurável, mas exequível.
Por outro lado, limpar a boca. Não apenas escovar os dentes, mas de fato limpar a boca. Passar o fio dental cuidadosamente em cada face da junção entre os dentes. Tirar os restos de comida que ficam entre a gengiva e os dentes. Fazer isso em cada uma das junções, da arcada superior e da arcada inferior. Depois escovar os dentes, grandes dentes amarelados, escová-los com calma e perícia, de todos os ângulos possíveis, forçando para alcançar imensos cisos lá atrás. Escovar para fazer bastante espuma. Enxaguar e cuspir. Pegar uma outra escova de longo alcance e escovar somente os cisos superiores, esquerdo e direito, com ardor e bem lá no fundo da boca. Enxaguar e cuspir. Medir 30 ml de fluor líquido, bochechar por um minuto. Cuspir. Uma belíssima boca, asséptica e sozinha.
Foi promovendo tais limpezas profundas e significativas que ele habitou sua casa naquela noite: noite de velório. Uma parte de si havia morrido: nas noites de velório um silêncio absoluto o acompanhava e se avolumava pelos cantos, na casa inteira. Ele limpou o nariz, limpou a boca e limpou todas as demais cavidades que mereciam algum tipo de atenção especial. Em breve aquela casa não seria mais dele, e ele teria de esquecer de tudo, recomeçar de outro lugar. Sempre que havia um recomeço ele fingia não guardar lembranças das dificuldades, dos cheiros e das sujeiras. Promovia limpezas: o silêncio era uma maneira de limpar os espaços já tão densamente carregados da sua presença.
Quisera ele pudesse arrancar o outro de si como o faz com a sujeira que ele tira do nariz: limpar suas cavidades da presença do outro, limpar seu corpo dos resquícios da mastigação do outro. Enxaguar e cuspir o outro. Contra aquela presença insidiosa do outro ele outorgava o silêncio. Se tudo desse errado, na manhã seguinte ao velório ele partiria para o exílio. Nem aos cães de guarda ele avisaria de seu adeus: a despedida, talvez a mais sincera e autêntica contribuição que ele poderia dar, seria ir embora todo envelopado num silêncio absoluto. E não haveria saudade. De ninguém.
Porque não era possível limpar as vontades do seu corpo como ele tão habilmente limpava seu nariz e sua boca. Não havia como escovar o outro de si. A sensação que tinha era a de estar quase se precipitando no abismo, mas segurava o passo mesmo assim, pois a queda livre seria deixar-se ir com a loucura: seria chorar e gritar, ajoelhar-se aos pés do outro e pedir que não o limpasse da sua vida. Queria permanecer dentro dele como a sujeira do nariz, como o resquício de comida entre os dentes. Queria envelopar o outro no seu silêncio e velar o corpo do outro num velório permamente.
Enfiar o dedo no nariz; limpar o nariz; olhar em volta. Fazer uma bolinha com a sujeira recém tirada graças à prospecção da unha um pouco mais crescida que o habitual. Aguardar alguns instantes e deixar cair a bolinha da sujeira do nariz no chão ou, se muito pegajosa, grudá-la em algum objeto próximo. Certificar-se de que ninguém ao redor testemunhou essa pequena nojeira. Extrair prazer desta infâmia por ela ser, em primeiro lugar, reprovável e, em segundo, invisível. Inaudita. Altamente censurável, mas exequível.
Por outro lado, limpar a boca. Não apenas escovar os dentes, mas de fato limpar a boca. Passar o fio dental cuidadosamente em cada face da junção entre os dentes. Tirar os restos de comida que ficam entre a gengiva e os dentes. Fazer isso em cada uma das junções, da arcada superior e da arcada inferior. Depois escovar os dentes, grandes dentes amarelados, escová-los com calma e perícia, de todos os ângulos possíveis, forçando para alcançar imensos cisos lá atrás. Escovar para fazer bastante espuma. Enxaguar e cuspir. Pegar uma outra escova de longo alcance e escovar somente os cisos superiores, esquerdo e direito, com ardor e bem lá no fundo da boca. Enxaguar e cuspir. Medir 30 ml de fluor líquido, bochechar por um minuto. Cuspir. Uma belíssima boca, asséptica e sozinha.
Foi promovendo tais limpezas profundas e significativas que ele habitou sua casa naquela noite: noite de velório. Uma parte de si havia morrido: nas noites de velório um silêncio absoluto o acompanhava e se avolumava pelos cantos, na casa inteira. Ele limpou o nariz, limpou a boca e limpou todas as demais cavidades que mereciam algum tipo de atenção especial. Em breve aquela casa não seria mais dele, e ele teria de esquecer de tudo, recomeçar de outro lugar. Sempre que havia um recomeço ele fingia não guardar lembranças das dificuldades, dos cheiros e das sujeiras. Promovia limpezas: o silêncio era uma maneira de limpar os espaços já tão densamente carregados da sua presença.
Quisera ele pudesse arrancar o outro de si como o faz com a sujeira que ele tira do nariz: limpar suas cavidades da presença do outro, limpar seu corpo dos resquícios da mastigação do outro. Enxaguar e cuspir o outro. Contra aquela presença insidiosa do outro ele outorgava o silêncio. Se tudo desse errado, na manhã seguinte ao velório ele partiria para o exílio. Nem aos cães de guarda ele avisaria de seu adeus: a despedida, talvez a mais sincera e autêntica contribuição que ele poderia dar, seria ir embora todo envelopado num silêncio absoluto. E não haveria saudade. De ninguém.
Porque não era possível limpar as vontades do seu corpo como ele tão habilmente limpava seu nariz e sua boca. Não havia como escovar o outro de si. A sensação que tinha era a de estar quase se precipitando no abismo, mas segurava o passo mesmo assim, pois a queda livre seria deixar-se ir com a loucura: seria chorar e gritar, ajoelhar-se aos pés do outro e pedir que não o limpasse da sua vida. Queria permanecer dentro dele como a sujeira do nariz, como o resquício de comida entre os dentes. Queria envelopar o outro no seu silêncio e velar o corpo do outro num velório permamente.
Telefone sem-fio
[...]ão podia sequer olhar, nem dizer nada. Era terrível, mas de certa forma ele se sentia melhor assim: não precisava assumir, sabe? Não precisava arcar com a responsabilidade – e era uma responsabilidade. Era uma vida ali diante dele, era uma história, um punhado de lembranças. Era um homem ali na frente dele, um homem de talento, e ele teve medo desse homem. Eram dois homens, um com todos os “sim” do mundo, o outro com todos os medos.
(Não me perturbe com limites de cartões, com saldos negativos em conta corrente. Me deixe falar dessa história, me deixe narrar. Não me interrompa, nem me faça escutar o som da tua respiração).
Entende? Ele perdia noites de sono embarcando nessa loucura, nessa realidade non-sense, fantástica: um homem pensando no outro. E nessa viagem, ele escutava as copas das árvores produzirem o som alto e ruidoso de quando o vento de temporal bate nelas, e ficava cronometrando um tempo que só ele entendia entre o vento bater nas copas das árvores e derrubar as primeiras folhas no chão até escutar os primeiros pingos de chuva baterem no telhado da casa. “Eu gosto de ouvir a chuva chegar, tu não? Acho que agora eu consigo dormir”, falava ele baixinho, meio sussurrando, para um lugar oco que ficava ao lado dele na cama – em qualquer cama –, fantasiando que havia alguém ali. E quem diria que não havia? Ele escutava todos os pingos caírem, todos, e todos os ventos baterem nas copas de todas as árvores. Ele contava cada folha caída. E no final de tudo, ainda não dormia. Ele voltava a sussurrar: “Eu não consigo dormir, mas tudo bem, não tem problema, o que eu gosto mesmo é de acordar e saber que tu tá aqui comigo debaixo dos cobertores”. Parava a chuva e parava o vento: ele continuava acordado ao lado do lugar oco. Ele não se importava.
(Olhe pra mim quando eu falo. Detesto a tua mania de olhar pro nada e levantar as sobrancelhas, sugerindo que está incomodado com a história que eu conto. Eu cheguei à conclusão de que não há outra maneira de tu me entender se eu não te falar tudo, e do jeito que eu bem entender, e tu tem que escutar. Eu sou um pouco de ti, um amontoado de carne que derivou de ti. Não vá achando que isso que sou é tão diferente de ti, porque não sou. Agora olhe e escute).
Ele me disse que não sabia o que iria fazer. Que tentaria fazer qualquer coisa, tomaria qualquer atitude, e que qualquer atitude seria melhor do que fazer nada, mas que sentia medo. Eu argumentei o contrário: eu disse que era pra ele ser feliz e arriscar, mas que era pra tomar uma atitude que o valorizasse, que permitisse que ele vivesse algo de bom. Eu acreditava que poderia dar certo. Ele negou com a cabeça. Disse que da outra vez que tentou arriscar, ele acabou recolhendo os dentes mortos do outro no asfalto. Me falou com dureza da profunda impossibilidade que tinha em negociar com a previsão de um “não, não é isso, tu está enganado, é uma outra coisa”; mas que, de verdade, o que mais lhe doía era a chance do “sim, eu topo, eu também quero, vamos tentar?”. O que fazer com esse mundo que se abre, com essa vida imensa, com essa história singular e esse punhado de lembranças que dizia “sim” – um “sim” grande, volumoso – pra ele bem na sua frente, sorrindo: corpo denso, corpo lindo, se insinuando e dizendo que quer ser dele? O que fazer com isso tudo: ele não tinha braços suficientes pra abraçá-lo, pernas suficientes para atravessá-lo, boca suficiente para comê-lo. E ele queria “comê-lo, degluti-lo, mastigá-lo, lamber sua língua”. Havia muita vontade nele, e isso me preocupava.
(Nojo? Que nojo é esse que tu sente? Nojo de eu ter tentado, de eu ter vivido? Sinto muito se a tua escolha foi ignorar isso tudo que eu vivo hoje. Porque eu vivo, sim, e vivo com intensidade. Mergulho nisso que tu chama de lixo).
Eu sugeri que ele pusesse pra fora. Não precisava ser com palavras, como estou fazendo agora, mas poderia ser com um toque. Ou com uma música – que lindo seria, com uma música. Um filme. Uma caminhada na chuva fina. Um momento de silêncio sentado ao lado dele, corpos próximos. Eu sugeri um carro de som, uma drag queen cantando “with or without you”, uma chuva de pétalas de tulipas negras. Ele riu e disse que não. Ele ficou quieto de repente, desfez rápido o sorriso. “Eu vou esperar desaparecer”, disse, mexendo na pele das mãos, já bem enrugadas e judiadas. Suas mãos judiadas. Tem gente que é assim, sabe? Tem gente que espera as pessoas e os sentimentos desaparecerem – egoístas que são, ficam lá fingindo que nada houve, que nada aconteceu, que nada mexeu com elas –, e tudo e todos vão embora mesmo. As pessoas, aquilo que sentimos por elas: vão embora, se esvaziam. Senti uma pena muito grande dele. Fiquei olhando ele mexendo na pele das mãos, depois limpando os farelos de torrada que caíram na calça, a cabeça baixa, resignado pela dúvida, paralisado pelo medo do “sim” imenso e volumoso que estava na frente dele. Um grande “sim”, um “sim” corpulento, um “sim” viçoso. E ele limpando a sujeira embaixo das unhas já crescidas. “Não vai tentar mesmo? De nenhum jeito?”, eu perguntei. “Desistir já é uma forma de tentar”. “Que covarde”, provoquei. Eu relatei as noites de insônia falando sozinho com lugares ocos na sua cama. Relatei todos os pingos de chuva, e todos os ventos soprando em todas as copas de todas as árvores, e contei uma a uma todas as folhas que caíram. E disse pra ele: “depois de tudo isso tu continua aí, falando sozinho, dormindo ao lado de um espaço oco. Tu já escutou toda a chuva, e todo o vento, e todo o som do temporal e ainda continua aí sozinho”. Eu fico preocupado com ele: o que vai restar ali? Se ele não tentar, o que ele vai fazer com tudo isso dentro dele: todas essas frases sussurradas no meio da madrugada pra ninguém, todas as fantasias e as situações que ele simula naquela cabeça baixa e tristonha, onde ele vai botar isso tudo? Tenho medo que ele acabe enlouquecendo, matando alguém ou se matan[...]
(Pronto, acabei. Agora pode te levantar, pode sair. Não, não comente nada. Não quero saber o que tu pensa disso, não quero saber a tua opinião. Só te levante a saia daqui. Vai, sai. Viva com isso que te contei, se puderes).
(Não me perturbe com limites de cartões, com saldos negativos em conta corrente. Me deixe falar dessa história, me deixe narrar. Não me interrompa, nem me faça escutar o som da tua respiração).
Entende? Ele perdia noites de sono embarcando nessa loucura, nessa realidade non-sense, fantástica: um homem pensando no outro. E nessa viagem, ele escutava as copas das árvores produzirem o som alto e ruidoso de quando o vento de temporal bate nelas, e ficava cronometrando um tempo que só ele entendia entre o vento bater nas copas das árvores e derrubar as primeiras folhas no chão até escutar os primeiros pingos de chuva baterem no telhado da casa. “Eu gosto de ouvir a chuva chegar, tu não? Acho que agora eu consigo dormir”, falava ele baixinho, meio sussurrando, para um lugar oco que ficava ao lado dele na cama – em qualquer cama –, fantasiando que havia alguém ali. E quem diria que não havia? Ele escutava todos os pingos caírem, todos, e todos os ventos baterem nas copas de todas as árvores. Ele contava cada folha caída. E no final de tudo, ainda não dormia. Ele voltava a sussurrar: “Eu não consigo dormir, mas tudo bem, não tem problema, o que eu gosto mesmo é de acordar e saber que tu tá aqui comigo debaixo dos cobertores”. Parava a chuva e parava o vento: ele continuava acordado ao lado do lugar oco. Ele não se importava.
(Olhe pra mim quando eu falo. Detesto a tua mania de olhar pro nada e levantar as sobrancelhas, sugerindo que está incomodado com a história que eu conto. Eu cheguei à conclusão de que não há outra maneira de tu me entender se eu não te falar tudo, e do jeito que eu bem entender, e tu tem que escutar. Eu sou um pouco de ti, um amontoado de carne que derivou de ti. Não vá achando que isso que sou é tão diferente de ti, porque não sou. Agora olhe e escute).
Ele me disse que não sabia o que iria fazer. Que tentaria fazer qualquer coisa, tomaria qualquer atitude, e que qualquer atitude seria melhor do que fazer nada, mas que sentia medo. Eu argumentei o contrário: eu disse que era pra ele ser feliz e arriscar, mas que era pra tomar uma atitude que o valorizasse, que permitisse que ele vivesse algo de bom. Eu acreditava que poderia dar certo. Ele negou com a cabeça. Disse que da outra vez que tentou arriscar, ele acabou recolhendo os dentes mortos do outro no asfalto. Me falou com dureza da profunda impossibilidade que tinha em negociar com a previsão de um “não, não é isso, tu está enganado, é uma outra coisa”; mas que, de verdade, o que mais lhe doía era a chance do “sim, eu topo, eu também quero, vamos tentar?”. O que fazer com esse mundo que se abre, com essa vida imensa, com essa história singular e esse punhado de lembranças que dizia “sim” – um “sim” grande, volumoso – pra ele bem na sua frente, sorrindo: corpo denso, corpo lindo, se insinuando e dizendo que quer ser dele? O que fazer com isso tudo: ele não tinha braços suficientes pra abraçá-lo, pernas suficientes para atravessá-lo, boca suficiente para comê-lo. E ele queria “comê-lo, degluti-lo, mastigá-lo, lamber sua língua”. Havia muita vontade nele, e isso me preocupava.
(Nojo? Que nojo é esse que tu sente? Nojo de eu ter tentado, de eu ter vivido? Sinto muito se a tua escolha foi ignorar isso tudo que eu vivo hoje. Porque eu vivo, sim, e vivo com intensidade. Mergulho nisso que tu chama de lixo).
Eu sugeri que ele pusesse pra fora. Não precisava ser com palavras, como estou fazendo agora, mas poderia ser com um toque. Ou com uma música – que lindo seria, com uma música. Um filme. Uma caminhada na chuva fina. Um momento de silêncio sentado ao lado dele, corpos próximos. Eu sugeri um carro de som, uma drag queen cantando “with or without you”, uma chuva de pétalas de tulipas negras. Ele riu e disse que não. Ele ficou quieto de repente, desfez rápido o sorriso. “Eu vou esperar desaparecer”, disse, mexendo na pele das mãos, já bem enrugadas e judiadas. Suas mãos judiadas. Tem gente que é assim, sabe? Tem gente que espera as pessoas e os sentimentos desaparecerem – egoístas que são, ficam lá fingindo que nada houve, que nada aconteceu, que nada mexeu com elas –, e tudo e todos vão embora mesmo. As pessoas, aquilo que sentimos por elas: vão embora, se esvaziam. Senti uma pena muito grande dele. Fiquei olhando ele mexendo na pele das mãos, depois limpando os farelos de torrada que caíram na calça, a cabeça baixa, resignado pela dúvida, paralisado pelo medo do “sim” imenso e volumoso que estava na frente dele. Um grande “sim”, um “sim” corpulento, um “sim” viçoso. E ele limpando a sujeira embaixo das unhas já crescidas. “Não vai tentar mesmo? De nenhum jeito?”, eu perguntei. “Desistir já é uma forma de tentar”. “Que covarde”, provoquei. Eu relatei as noites de insônia falando sozinho com lugares ocos na sua cama. Relatei todos os pingos de chuva, e todos os ventos soprando em todas as copas de todas as árvores, e contei uma a uma todas as folhas que caíram. E disse pra ele: “depois de tudo isso tu continua aí, falando sozinho, dormindo ao lado de um espaço oco. Tu já escutou toda a chuva, e todo o vento, e todo o som do temporal e ainda continua aí sozinho”. Eu fico preocupado com ele: o que vai restar ali? Se ele não tentar, o que ele vai fazer com tudo isso dentro dele: todas essas frases sussurradas no meio da madrugada pra ninguém, todas as fantasias e as situações que ele simula naquela cabeça baixa e tristonha, onde ele vai botar isso tudo? Tenho medo que ele acabe enlouquecendo, matando alguém ou se matan[...]
(Pronto, acabei. Agora pode te levantar, pode sair. Não, não comente nada. Não quero saber o que tu pensa disso, não quero saber a tua opinião. Só te levante a saia daqui. Vai, sai. Viva com isso que te contei, se puderes).
Intramuros
Não há nada no mundo que me faça suar. Nada. Porém, hoje eu senti um desânimo profundo – em outras épocas eu seria mais sincero: diria que era medo mesmo – em ter de entrar em casa. Abri a porta e me virei de costas para a abertura na parede. Entrei de marcha ré na minha casa. É um horror cada vez que vejo, é um horror! É uma maldição! Limpei tudo: a louça, as roupas, aspirei o carpete. Um horror. Uma parede da minha casa começa a se encher de mofo, e eu finjo que não vejo. Eu finjo que não vejo, finjo que não falo: dissimulo e faço teatro desta minha condição. Da minha garganta saem dragões, os dragões que habitam minha garganta, e me dói. Tu me vem com essa furadeira, com essa machadinha, cortando e separando, fazendo de pedaços em pedaços o pouquinho – bem pouquinho – que tenho a esconder de ti. Não há parte de mim que não cintile quando tu me põe os olhos. E vai crescendo na minha mente, tomando volume, adensando: tu perfura e penetra meu crânio, quebra o muro dos meus ossos. Não dói, e eu adoro. A pior parte é enganar os demais: “não há raio de luz em mim”, quando há, sim, e eu tento encobrir com minha roupa. Com a manga do casaco, com o cachecol. Pergunte que eu te respondo, mas pergunte! Pergunte em voz alta, olhando pra mim e fazendo uma breve introdução: “eu sei que tu não vai mentir se eu perguntar, então eu vou perguntar”. Pois pergunte. Pergunte que eu respondo, e respondo em voz alta. Não há nada no mundo que me faça desistir de deixar tu entrar. Entre e se perca sem demora. Me dói aqui atrás, bem abaixo dos ombros, num ponto médio das escápulas, onde ficam minhas lembranças. Para minha sorte, ele fala outra língua, ele não entende o meu corpo. (a) Não há lugar pra mim extramuros. (b) Permaneço no exílio. (c) Quebro minhas próprias regras. (d) Abaixo meus olhos. (e) Sorrio no canto da boca. (f) Puxo o lábio superior direito ao pronunciar o meu “s” sibilante. (g) Não saio correndo para tropeçar, com a desculpa de ter que pedir ajuda depois para me levantar. (h) Homem, homossexual, homofobia, hosana nas alturas e nas baixezas. (§) Paro de cantar. (&) Não conheço os limites que tu pode me impor. (@) Tu não percebe o quão longe eu fui. Já estou no segundo comprimido da décima terceira cartela. Se dependesse de mim eu continuaria tocando a tua mão, e se tu viesse me perguntar o porquê eu responderia em voz alta. (i) Não se levante, não desenhe, não escreva sobre isso. (j) Pare agora de escrever sobre isso. (k) Mais nenhuma palavra; elas podem perder o controle, podem se materializar. (l) Não pense mais nele, nem redija textos sobre ele, nem textos sobre o que tu pensa que sente sobre ele, nem textos sobre o que tu pensa que ele sente por ti. A hipocondria pode te salvar, mas há um preço caro para pagar. O fígado, uma geleia. O pâncreas, insuficiente. O cérebro, uma sopa. O coração, uma engrenagem. Vou continuar arrancando os pelos das minhas orelhas com a pinça enferrujada que guardo comigo, junto com outras duas mais novas – meu corpo deu pra ser sincero depois de certa idade. Nada me dá mais prazer hoje que cortar minhas unhas e arrancar os pelos das minhas orelhas. Pode não aparecer, mas tenho um pelo enorme, branco e fino, bem no meio da minha testa. Não há outra pessoa no mundo que vai te fazer ver isso, um dia tu vai dar valor pra essas coisas peludas e enferrujadas que tenho aqui dentro dos meus muros de ossos. (m) Feche a mão em concha. (n) Assassine a criança que pede pelo balão a gás. (o) Na cozinha eu afio a faca. (p) Na sala eu rasgo as paredes. (q) Não chame por ajuda, aguente. (®) Poderia haver uma saída pra mim, mas não nesse corpo, não nesse mundo: e, de qualquer forma, é só o teu corpo que me serve de entrada. Vou deixando que tu vá, e tu vai, e tu desprende de mim. Não há nada no mundo que me faça chorar, mas hoje eu entrei de costas na minha casa com medo de chorar. Se há algo que pode me fazer chorar, isso existe intramuros. Tu me pediu, eu sei que tu me pediu, mas eu não posso ir até lá contigo. Poderia ir se tu me jogasse uma âncora, mas não me imagino exatamente como um barco ancorado. Não me vejo velejando. Não sou do mar, menino das águas extensas. Se eu não vejo, eu sinto o cheiro. O problema é que, no teu caso, eu vejo E sinto o cheiro. (s) Tu me escuta? (t) Tu saiu e nunca mais voltou. (u) O remédio começa a fazer efeito. (v) O fígado para de funcionar. (w) Faliu o corpo sem outro corpo, foi encontrado dias depois pelo cheiro, não pelo carinho. (x) A vida sem ti, seja na minha imaginação ou quando tu não vem tomar um chimarrão, me dá sono. E como tenho estranhado a luz do meio-dia, os paralelepípedos da calçada úmida. A gota de chuva que cai na minha nuca e que me estremece. É impossível de haver fora de mim um lugar mais seguro pra ti nesse mundo. (y) Pare de escrever sobre ele. (z) Pare de trazê-lo para o texto, pare de dedicar este texto a ele. (*) Saí de casa hoje só para conseguir um abraço teu, e tu me deu uma flor. Que jeito lindo de derrubar meus muros e de se espraiar por todos meus cantos. Que belo, que sentimento morno, que aconchegante que é a tua presença nisso tudo que construo. Um trovão, e eu sem ti - isso deveria ser proibido por lei.
Netuno em oposição a Mercúrio
Estou pendurado pelos pés. O sangue todo desce para a cabeça, e a mente agora exagera na imaginação.
Por onde andavas, em que mares velejavas? Chegaste até aqui quando, como foi que isso se deu, eu não posso lembrar. Mas se não lembro, eu crio: vestias azul. E sorrias. Era turva a imagem que eu via, não a distinguia muito bem de alguns vultos e sombras. Eu o vi. Havia três caminhos possíveis para que tu chegasses até mim, e tu escolheste todos. Fincaste as três pontas em mim, e elas só poderiam fincar em mim. Não havia outra saída para as tuas múltiplas entradas: tu só podes terminar em mim. Não te enganes: mire teu radar espiritual pro meu lado, sintonize na minha frequência. Há aqui uma paz, uma beleza e um som tranquilo que só eu posso te dar.
Tampouco adianta pular de um pensamento para outro, me escapar por entre um argumento e outro. Tenho pés com asas. Onde tu supões fugir de mim, ou me despistar, eu já lá te espreito e te surpreendo. E tu gargalhas e foges pra mais outro pensamento, ou outra fantasia. Não é uma fuga por repulsa ou nojo, ou ódio, ou medo. Nem eu nem tu sentimos medo. É um jogo, e como tal tem suas regras, suas penalidades: é um jogo sem ganhadores, só com jogadores. Pode ser um jogo de esconde, mas também é um jogo de estratégia. Olhares e toques, e abraços, e sorrisos, as lições que te dou e que tu me dás, os beijos: estrategicamente pensados para nos deixarmos conquistar um pelo outro.
Essa nossa pujança jovem, as nossas fantasias, o nosso toque silencioso e cúmplice. As nossas promessas de sonos compartilhados, de sonhos materializados. Nossas memórias e nossas lembranças, o cheiro das nossas peles: os pés e as testas que se tocam, e a tua voz que faz vibrar tua garganta e que me adormece. Fale um pouco mais perto do meu ouvido e entre uma palavra e outra morda com parcimônia a ponta da minha orelha. Não é necessário falar apenas palavras doces, ou juras de amor. Não me jure nada. Só vá embora quando deixar de acreditar; enquanto isso vá ficando, me faça dormir, sonhe junto comigo. Dance. Diga que me entende, diga que jamais pensou no que eu te mostro. Diga que é a primeira vez que vês essa beleza. Diga que estamos com os pés e as testas amarrados.
Por onde andavas, em que mares velejavas? Chegaste até aqui quando, como foi que isso se deu, eu não posso lembrar. Mas se não lembro, eu crio: vestias azul. E sorrias. Era turva a imagem que eu via, não a distinguia muito bem de alguns vultos e sombras. Eu o vi. Havia três caminhos possíveis para que tu chegasses até mim, e tu escolheste todos. Fincaste as três pontas em mim, e elas só poderiam fincar em mim. Não havia outra saída para as tuas múltiplas entradas: tu só podes terminar em mim. Não te enganes: mire teu radar espiritual pro meu lado, sintonize na minha frequência. Há aqui uma paz, uma beleza e um som tranquilo que só eu posso te dar.
Tampouco adianta pular de um pensamento para outro, me escapar por entre um argumento e outro. Tenho pés com asas. Onde tu supões fugir de mim, ou me despistar, eu já lá te espreito e te surpreendo. E tu gargalhas e foges pra mais outro pensamento, ou outra fantasia. Não é uma fuga por repulsa ou nojo, ou ódio, ou medo. Nem eu nem tu sentimos medo. É um jogo, e como tal tem suas regras, suas penalidades: é um jogo sem ganhadores, só com jogadores. Pode ser um jogo de esconde, mas também é um jogo de estratégia. Olhares e toques, e abraços, e sorrisos, as lições que te dou e que tu me dás, os beijos: estrategicamente pensados para nos deixarmos conquistar um pelo outro.
Essa nossa pujança jovem, as nossas fantasias, o nosso toque silencioso e cúmplice. As nossas promessas de sonos compartilhados, de sonhos materializados. Nossas memórias e nossas lembranças, o cheiro das nossas peles: os pés e as testas que se tocam, e a tua voz que faz vibrar tua garganta e que me adormece. Fale um pouco mais perto do meu ouvido e entre uma palavra e outra morda com parcimônia a ponta da minha orelha. Não é necessário falar apenas palavras doces, ou juras de amor. Não me jure nada. Só vá embora quando deixar de acreditar; enquanto isso vá ficando, me faça dormir, sonhe junto comigo. Dance. Diga que me entende, diga que jamais pensou no que eu te mostro. Diga que é a primeira vez que vês essa beleza. Diga que estamos com os pés e as testas amarrados.
Ontem, antes de dormir
[...]atro cobertores sobre mim. Não está tão frio, eu diria inclusive que está quente, que está úmido. Mas eu gosto do peso, sabe, do peso dos cobertores. Imobilizam meu corpo sobre o colchão, me impedem de cair da cama. Ouço um parabéns a você no apartamento ao lado – quem será que tem a inglória tarefa de viver mais um ano? Os cobertores... Eu poderia dormir novamente, mais treze horas ininterruptas. Sem remédios, sem truques químicos. Dormiria com esse poder imaginativo cruel e perverso que me faz achar carinho em qualquer corpo. E acho. Não há ninguém aqui desse lado da cama, nunca houve, é só um espaço oco por dentro, uma casca sem conteúdo – pois o conteúdo e a substância eu mesmo enxerto, eu mesmo dou conta de preencher. Quem está de aniversário hoje? Quem comemora esse dia? É com profundo pesar que me deito dentro dos teus olhos e mordo tenramente essa tua boca linda: eis o conteúdo da casca oca que jaz ao me lado, toda noite, na minha cama. Como tu é bonito! Ao alcance da minha mão, a tua: dedos e unhas, pele, ossos. Bastante concreto. Minha imaginação me presenteia tão somente com um abraço durante a noite, assim, um pouco inconsciente por causa do álcool, um pouco consciente demais também e justamente por causa do álcool. Tu vem e senta na beirada da minha cama, eu quase dormindo, e tu me pede com a voz torta pra se deitar comigo debaixo dos cobertores. Eu respondo que ‘sim’ um pouco confuso pelo sono, mesmo não entendendo direito o que tu quer, mesmo estando um pouco nervoso, mesmo pensando que talvez o melhor fosse negar o pedido e dizer que nossa relação não é dessa esfera, mas de outra. Eu aceito, todavia. Tu te enfia debaixo dos cobertores pesados, cola teu peito e tua barriga nas minhas costas, me abraça e coloca tua mão direita sobre meu peito. Meu coração já bate bem forte, e o teu também, eu posso sentir. Entrelaço meus dedos nos teus. Depois de um silêncio um pouco constrangedor tu me pergunta se pode dormir ali. Eu respondo ‘sempre’. Os cobertores pesados nos imobilizam: tu nunca mais vai conseguir sair da minha cama, pra sempre preso dentro da casca oca ao meu lado[...]
O nosso quartinho
Sabe do que eu to falando? Do nosso quartinho, aquele que ficava lá atrás de casa, na parte mais austral da casa. O nosso quartinho escuro, secreto, que a gente frequentava quando éramos bem crianças, quando a gente acreditava nos amigos imaginários. Pois é: o quartinho não existe mais, tá? Nunca existiu.
Entende? Deixa de ser ridícula e vê se cresce: nunca houve quartinho nenhum. Sua louca. Eu tentei de avisar, eu gritei contigo, até te dei uns tapas: nunca existiu. Eu me dei conta disso no dia em que tu decidiu que eu simplesmente não fazia mais parte da confraria do quartinho. E nesse dia tu me impediu de entrar no nosso quartinho, mas daí eu vi que aquele cubo obscuro onde a gente entrava e fingia tecer histórias reais, eu vi que ele não existia porque mesmo tu dizendo que estava lá dentro eu ainda conseguia te ver do lado de fora. Era como se fosse um cubo de acrílico transparente. Sua louca ridícula.
Sabe?... Eu fiquei te olhando, falando sozinha, mexendo nos teus brinquedos. Não me deu nem pena. Vai embora, eu nunca mais entraria lá, nem se existisse. Foi quando tu me mandou embora que eu fui viver minha vida – bem longe de cubos de acrílico transparente enfiados no breu. Tu me mandou embora e isso não resolveu teus problemas. Não é me mandando embora, nem mandando qualquer outra pessoa embora, que tu vai conseguir resolver teus problemas. Feia. Isso te faz uma pessoa feia.
Muito me surpreende o fato de tu não entender que não houve, nunca, um quartinho nosso. Era só uma fantasia que era realidade enquanto nós dois acreditávamos nela. Não me culpe por isso, não me responsabilize. Não me mande embora novamente desse teu quartinho apertado onde tu vives hoje. Não vai adiantar. Ridícula. Só vai piorar e estreitar, apertar ainda mais o cubo seco onde tu mora.
O meu quartinho já está cheio pra te receber.
Entende? Deixa de ser ridícula e vê se cresce: nunca houve quartinho nenhum. Sua louca. Eu tentei de avisar, eu gritei contigo, até te dei uns tapas: nunca existiu. Eu me dei conta disso no dia em que tu decidiu que eu simplesmente não fazia mais parte da confraria do quartinho. E nesse dia tu me impediu de entrar no nosso quartinho, mas daí eu vi que aquele cubo obscuro onde a gente entrava e fingia tecer histórias reais, eu vi que ele não existia porque mesmo tu dizendo que estava lá dentro eu ainda conseguia te ver do lado de fora. Era como se fosse um cubo de acrílico transparente. Sua louca ridícula.
Sabe?... Eu fiquei te olhando, falando sozinha, mexendo nos teus brinquedos. Não me deu nem pena. Vai embora, eu nunca mais entraria lá, nem se existisse. Foi quando tu me mandou embora que eu fui viver minha vida – bem longe de cubos de acrílico transparente enfiados no breu. Tu me mandou embora e isso não resolveu teus problemas. Não é me mandando embora, nem mandando qualquer outra pessoa embora, que tu vai conseguir resolver teus problemas. Feia. Isso te faz uma pessoa feia.
Muito me surpreende o fato de tu não entender que não houve, nunca, um quartinho nosso. Era só uma fantasia que era realidade enquanto nós dois acreditávamos nela. Não me culpe por isso, não me responsabilize. Não me mande embora novamente desse teu quartinho apertado onde tu vives hoje. Não vai adiantar. Ridícula. Só vai piorar e estreitar, apertar ainda mais o cubo seco onde tu mora.
O meu quartinho já está cheio pra te receber.
Enganos
[...]anado, muito e redondamente. Eu lembro de ter me esquivado um pouco, de ter sido reticente. Okay. Mas isso não nos dá o direito de tomar os lixos como o jeito privilegiado de levarmos a vida. Tu te engana quando diz que foi assim, que sempre foi assim, que desde o início tem sido assim. Que nunca mudou. Eu não sei que narrativa linear de tropeços e entrecruzamentos é essa que nós estamos tentando reconstruir. Sim, eu vou revisitar os nossos cantos obscuros quantas e quantas mais vezes me forem necessárias. Se tu não quiser ir lá comigo, não precisa: fica aí nesse canto estreito onde cintila a luz. Eu prefiro os nossos breus, os nossos lusco-fuscos. A escuridão é mais criativa, mais surpreendente. Não, é um engano teu. Não te dou o direito de reconstruir a nossa história, que é também um pouco da minha história, a partir do eixo daquilo que sempre foi dito da mesma forma. Não é a repetição que nos trouxe até aqui da forma com que chegamos aqui. Não é recriando uma inteligibilidade racional que vai nos fazer parar. Não adianta falar, verbalizar, desenhar, escrever, tirar fotos: Freud e Lacan estavam errados. Eu quis retornar para aquele lugar, para aquela parede e para aquele pilar, tantas vezes. Eu quis repetir aquela roupa, aquele corte de cabelo. Pedi para o DJ tocar novamente aquela mesma música. Eu cheguei a olhar no relógio naquela mesma hora. Mas tudo já foi embora, já foi longe, tudo é tão radicalmente outra coisa. Não, tu te engana e ainda tenta me enganar: eu voltei lá, eu te chamei pra voltar. Chamei por ti, chamei pelos outros. Nenhum voltou. E mesmo que tivessem voltado, seria outro que os chamaria, não eu – não o mesmo eu. Não há bonecos de cera ou obeliscos lá onde nossas histórias começaram. Eu recolhi pedaços do que eu lembrava, uma memória bastante entrecortada devido ao álcool, mas recolhi com carinho e emoldurei na minha mente: não adiantou. Eu revisitei essa memória tantas vezes, e ela mudava tanto. Sim, estou te dizendo. E quando eu os reencontro, tu inclusive... Não são os mesmos. Não são. E tu vem me pedir pra “deixar, pra esquecer, pra silenciar e não falar sobre o que não foi dito”? Eu quero mais é mexer na merda mesmo. Eu levei um susto quando eu o reencontrei – na verdade foi ele quem me achou. E não foi como da primeira vez; ou melhor, foi. Como sempre, ele sente meu cheiro à distância, ele reconhece meu rosto e meu corpo. Ele sabe quem eu sou, ele sabe quem eu fui, ele sabe que eu posso ser outro, mas que esse outro pode também ser bonito a seu modo. Foi mais frio, mais triste dessa vez. Mas não foi feio. Não éramos mais nós – aqueles nós de dois, três anos atrás. Os nós de hoje, tão psicanalisados, tão tratados, tão descolados (e deslocados), tão moderninhos: os nós de hoje ainda pensam que são os nós que se encontraram da outra vez. Trocamos umas palavras cintilantes e calamos. Investimos num silêncio gostoso, com a diferença que o último silêncio que nos envolveu nós estávamos um dormindo no colo do outro. Quantas noites, mesmo quando um terceiro ainda se deitava na minha cama, quantas noites eu lembrei com uma ponta de dor e uma maré de saudade daquele último silêncio. Aquele me rodopiava, que me fazia dançar e sapatear: aí está ele de novo. Mas é novo? Não sei se é novo, radicalmente novo, mas é estranho, é estrangeiro. E tu vem me pedir pra não falar? Tu está enganado. Eu vou falar, sim: vou me esgueirar por esse lixo que a gente deixou entre nós, me arrastar por entre o lixo que a gente deixou acumulando no nosso breu, e eu vou gargalhar esse reencontro de dois estrangeiros estranhos. Não te dou o direito de recontar uma história que é a minha, nem te dou o direito de me fazer calar. Eu vou falar, sim. Vou falar sobre ele, sobre como eu o desejei, sobre como eu fui ridículo gostando dele, sobre como eu fiz coisas patéticas pra ficar com ele. Sobre como eu desliguei o telefone dizendo que ia dormir e na verdade fui abraçá-lo, beijá-lo; deitar no colo dele pra ficar em silêncio. Eu vou falar, sim, sobre como eu menti pra ficar com ele, sobre como eu fantasiei ficar com ele. Até pra conjurar qualquer esperança de que ele seja o mesmo. Agora que já posso falar, que já posso gritar e gargalhar o que eu quiser, no escuro e no breu que eu quiser, eu vou desfazer a moldura da memória que tenho do nosso primeiro encontro. Vou jogá-la fora. Vou me sentar ali, ó, por entre aquelas coisas todas que eu e ele não nos dissemos, vou me sentar bem no meio do nosso silêncio um no colo do outro, que é a única coisa de nós que se manteve mais ou menos incorruptível, que é a única coisa de nós que pode se repetir, que é a única coisa de nós que essa tua baixeza não pode confiscar. Vou me sentar ali e só vou ficar ali gostando de estar ali. Não, tu está enganado: quando eu quiser falar, eu falo; quando eu quiser calar eu calo, e eu vou calar no meio do breu e do silêncio pra tu nunca mais me reenc[...]
Um retorno inesperado
Noite dessas eu parei tudo e fui tentar fumar: saí de casa. Não gosto do cheiro do cigarro infestando meus espaços, a não ser meus pulmões. Escorei na máquina de lavar, na área de serviço, e acendi o cigarro. Fiquei ali olhando em volta: o pó se grudou aos vidros e há mofo no teto. As lajotas do chão estão manchadas e pode haver infiltração de água que produz mofo no apartamento de baixo. Eu já sabia, já pressentia, mas ali mesmo eu soube que teria de sair daqui.
Voltar pra onde, pros braços de quem? Nunca houve. Minhas mãos já estão velhas, já estão ásperas, não dão mais o mesmo carinho. Ir pra onde, levando o quê? O que eu haveria de tirar de dentro de um para por dentro do outro? Carregar minhas coisas, varrê-las e juntá-las com pá, ajeitar as pontas cortantes dentro de uma trouxa de roupa suja e ir embora. Muitas pontas cortantes. Ou fazê-las minha coroa, meu diadema. Arrastá-las, engoli-las, sair andando com todas dentro do meu estômago. Empurrá-las com toda a minha força até onde eu as pudesse ou até onde elas aguentassem. Abraçá-las, embrulhá-las pra levar. Não me distanciar de nenhuma delas, nem do pó que pousa sobre elas, nem das suas manchas. Preservá-las comigo em sua integralidade, mantê-las intactas. Ancorá-las em mim e por mim. Ignorar outras coisas, que não são minhas. Ir apenas pra onde e pra quem aceitá-las.
Ou deixá-las todas, doá-las a quem não tem coisas. Não esquecê-las, mas superá-las. Acho que eu preciso superar minhas coisas todas, uma a uma. Das feias e úteis até as belas e cosméticas. Jamais esquecê-las, ou esquecer de algumas [só das belas] – uma memória reconstituída das minhas coisas, refeitas e redistribuídas ao ponto de despistar meu passado daquilo que ele realmente foi. Porque ele nunca foi realmente coisa alguma – nem a minha coisa. Esquecer estrategicamente das minhas coisas, só de algumas delas, e lembrar de coisas que não foram minhas mas que eu gostaria que tivessem sido. Sim! Isso sim seria superá-las. Distribuí-las de maneira comedida na distância fria da morte em relação ao nascimento: bastante ecumenicamente reparti-las ao longo dessa linha temporal e inundar os espaços com elas – as minhas coisas. E aquela mais doída, mais sofrida, mais triste, essa seria dissolvida ou quebrada em pedacinhos bem pequenos como açúcar e espalhada assim, num movimento rápido, em todo meu passado. Um temperinho de dor, mas só um temperinho que é pra eu ficar bonito – eu fico mais bonito quando estou um pouco triste.
Ou queimá-las. Incinerá-las para que não pertencessem a mais ninguém. Pulverizá-las, triturá-las. Julgá-las culpadas de tudo, as minhas coisas, responsáveis pela minha demência, pela minha indecência. Rasgá-las e fazê-las de adubo para árvores, plantas, legumes e hortaliças. Desligá-las dos aparelhos, eutanasiá-las e cremá-las e com elas dizer adeus a esse moribundo que não morre nunca. Fazê-las morrer e fazê-las partir. Chorar por elas, sentir saudades, pedir pra ser enterrado junto com elas. Viver o luto de perdê-las e viver com sua falta transbordante, com sua falta constitutiva. Defenestrar as minhas coisas. Cortá-las para sempre, extirpá-las e começar a fazer novas coisas minhas. Ignorá-las, fingir que não existem, que são de outro, que não me dizem respeito e que mentem sobre meus defeitos, sobre meus hábitos. Ocultá-las por detrás de portas, dentro de bueiros, em cima de grandes prédios, amordaçá-las. Sequestrá-las e afogá-las. Negá-las e acusá-las de estarem mentindo, acusá-las de perjúrio, pedir a pena capital ou reclusão vitalícia. Fugir delas. Ou traí-las. Traí-las e dizer que não as amo mais, que estou indo embora reconstruir minha vida com outras coisas minhas com quem tenho um caso há vários anos. Deixá-las no vácuo da depressão e da solidão.
As minhas coisas: o que posso fazer com elas antes que meu cigarro apague?
Voltar pra onde, pros braços de quem? Nunca houve. Minhas mãos já estão velhas, já estão ásperas, não dão mais o mesmo carinho. Ir pra onde, levando o quê? O que eu haveria de tirar de dentro de um para por dentro do outro? Carregar minhas coisas, varrê-las e juntá-las com pá, ajeitar as pontas cortantes dentro de uma trouxa de roupa suja e ir embora. Muitas pontas cortantes. Ou fazê-las minha coroa, meu diadema. Arrastá-las, engoli-las, sair andando com todas dentro do meu estômago. Empurrá-las com toda a minha força até onde eu as pudesse ou até onde elas aguentassem. Abraçá-las, embrulhá-las pra levar. Não me distanciar de nenhuma delas, nem do pó que pousa sobre elas, nem das suas manchas. Preservá-las comigo em sua integralidade, mantê-las intactas. Ancorá-las em mim e por mim. Ignorar outras coisas, que não são minhas. Ir apenas pra onde e pra quem aceitá-las.
Ou deixá-las todas, doá-las a quem não tem coisas. Não esquecê-las, mas superá-las. Acho que eu preciso superar minhas coisas todas, uma a uma. Das feias e úteis até as belas e cosméticas. Jamais esquecê-las, ou esquecer de algumas [só das belas] – uma memória reconstituída das minhas coisas, refeitas e redistribuídas ao ponto de despistar meu passado daquilo que ele realmente foi. Porque ele nunca foi realmente coisa alguma – nem a minha coisa. Esquecer estrategicamente das minhas coisas, só de algumas delas, e lembrar de coisas que não foram minhas mas que eu gostaria que tivessem sido. Sim! Isso sim seria superá-las. Distribuí-las de maneira comedida na distância fria da morte em relação ao nascimento: bastante ecumenicamente reparti-las ao longo dessa linha temporal e inundar os espaços com elas – as minhas coisas. E aquela mais doída, mais sofrida, mais triste, essa seria dissolvida ou quebrada em pedacinhos bem pequenos como açúcar e espalhada assim, num movimento rápido, em todo meu passado. Um temperinho de dor, mas só um temperinho que é pra eu ficar bonito – eu fico mais bonito quando estou um pouco triste.
Ou queimá-las. Incinerá-las para que não pertencessem a mais ninguém. Pulverizá-las, triturá-las. Julgá-las culpadas de tudo, as minhas coisas, responsáveis pela minha demência, pela minha indecência. Rasgá-las e fazê-las de adubo para árvores, plantas, legumes e hortaliças. Desligá-las dos aparelhos, eutanasiá-las e cremá-las e com elas dizer adeus a esse moribundo que não morre nunca. Fazê-las morrer e fazê-las partir. Chorar por elas, sentir saudades, pedir pra ser enterrado junto com elas. Viver o luto de perdê-las e viver com sua falta transbordante, com sua falta constitutiva. Defenestrar as minhas coisas. Cortá-las para sempre, extirpá-las e começar a fazer novas coisas minhas. Ignorá-las, fingir que não existem, que são de outro, que não me dizem respeito e que mentem sobre meus defeitos, sobre meus hábitos. Ocultá-las por detrás de portas, dentro de bueiros, em cima de grandes prédios, amordaçá-las. Sequestrá-las e afogá-las. Negá-las e acusá-las de estarem mentindo, acusá-las de perjúrio, pedir a pena capital ou reclusão vitalícia. Fugir delas. Ou traí-las. Traí-las e dizer que não as amo mais, que estou indo embora reconstruir minha vida com outras coisas minhas com quem tenho um caso há vários anos. Deixá-las no vácuo da depressão e da solidão.
As minhas coisas: o que posso fazer com elas antes que meu cigarro apague?
Pequena monstra
Não digas que não recebeu, pequena monstra: eu sei que recebeste e que estás louca pra me responder. Se não o fazes, é porque és uma fraca. Não diga que não vais poder comparecer, que não vais poder estar presente, pequena monstra: eu sei que é uma desculpa, um porém bem calculado para te esquivares das responsabilidades. Não digas que não sabias, que deslizaste, que estás doente, que estás sofrendo. Pequenos monstros e pequnenos vermes são muito pouco para desconhecer, para deslizar, para adoecer e para sofrer. Desconhecer é uma imensa tarefa, demais pros teus pequenos ombros.
Sons
Ele batia TAM TAM TAM, um som ácido e metálico!!!! E tirou um martelo gigante de dentro de uma maletinha de plástico!!! E martelava com força, com dor, com a vontade de abrir minha grade!!! Entortou um chave de fenda e entortaria várias outras!!!
§§§§
Eu escondia meu rosto com a mão. Tinha vergonha. Porque sabia que todos eles e todas elas, todos/as olhavam pra mim escorado na parede, pedindo por favor pra dormir na minha própria cama. Não dormi.
§§§§
EU NÃO SEI! Se eu soubesse eu não estaria aqui! Foi uma semana assim: de gritos.
PÁ PÁ PÁ PÁ. Passos no chão. E eu aguardando, sabendo que seria patrolado. Desejando ser atropelado. E não fui.
§§§§
Silêncio. Nem a criança do apartamento da frente existe. Nem tu respiras – sai daqui, já estás morto. Só eu. Um cello lá no fundo. Uma gota da chuva, gota atrasada em cair. Meu piscar, BRALMLURLAM, demolidor!
§§§§
Estalos. Minha boca na tua. Tua parte convexa em uma das minhas partes côncavas, entrando e saindo entrando e saindo entrando e saindo entrando e saindo entrando e saindo. Estalos da saliva.
§§§§
E tu, TUM TUM TUM, batendo aqui dentro a semana toda. Não esqueci de ti. Eu te escuto bem daqui. Saudades.
§§§§
Eu escondia meu rosto com a mão. Tinha vergonha. Porque sabia que todos eles e todas elas, todos/as olhavam pra mim escorado na parede, pedindo por favor pra dormir na minha própria cama. Não dormi.
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EU NÃO SEI! Se eu soubesse eu não estaria aqui! Foi uma semana assim: de gritos.
PÁ PÁ PÁ PÁ. Passos no chão. E eu aguardando, sabendo que seria patrolado. Desejando ser atropelado. E não fui.
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Silêncio. Nem a criança do apartamento da frente existe. Nem tu respiras – sai daqui, já estás morto. Só eu. Um cello lá no fundo. Uma gota da chuva, gota atrasada em cair. Meu piscar, BRALMLURLAM, demolidor!
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Estalos. Minha boca na tua. Tua parte convexa em uma das minhas partes côncavas, entrando e saindo entrando e saindo entrando e saindo entrando e saindo entrando e saindo. Estalos da saliva.
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E tu, TUM TUM TUM, batendo aqui dentro a semana toda. Não esqueci de ti. Eu te escuto bem daqui. Saudades.
Surpresas
Eu bato aqui e faz TUM. TUM. TUM. Um soco sobre a pele e faz TUM. TUM. TUM. Oco, vazio. Mas não é um vazio ruim, triste ou solitário. É um vazio que se alastra e engloba tudo, cresce e rompe. Não é triste, nem dói. é um pouco de mim que ficou aí contigo, um pouco da minha surpresa, um pouco da minha ousadia. Eu te dei a minha ousadia e nós aproveitamos. De tudo isso que é oco, de tudo isso que é vazio, de todo esse vácuo absoluto que vem se deitando sobre mim tu é a parte mais bonita e, de longe, a mais preciosa: faz TUM. TUM. TUM quando eu bato no teu peito. E mais uma vez me supreendo contigo - tu, sempre pronto para me sorrir: "não é um vazio, é um músculo que bomba o meu sangue". Eu também o tenho? "Sim, está aqui, ó": e tu bates no meu peito, com os nós dos dedos sobre minha pele: TUM. TUM. TUM. Se eu rasgar meu corpo, tu entras?
Onde teus pés sentem o chão
E ela sai, belíssima, no seu vestido de sereia. O que isso garante a ela? Nada. Sua pele bem branca, seu perfume. Sua conta bancária. Sim, garantem. Minha mão. Minha mão calejada, e a dela? E a sua voz? Taquara rachada. A minha é de barítono. Mas é isso, é real, é essa coisa concreta: essa coisa que nos jogam na cara e nos dizem que esquecemos. “Vocês esquecem que temos que fazer alguma coisa quando um paciente surta”. Sempre temos de fazer alguma coisa, não apenas quando o paciente surta – meu bem! Isso que tu diz pra mim, o vinho que tu bebe, a cerveja que tu derruba nos meus pés, o movimento das tuas mãos, o tom da tua voz, o olhar que desliza: sempre há alguma coisa pra fazer, não é apenas quando o teu paciente surta. Aí quando tu decide ser outro, quando tu mente. E ela? Mente o tempo inteiro – e a gente paga por isso. Mas há algo que me prende a ela, há algo que me liga: uma senha, uma biometria. O que ela fez por mim, por milhões, ninguém poderá fazer novamente. Outras e outros farão, mas por mim, só ela. É difícil dar-se conta que se está nas mãos dessa pessoa tão pequena (não necessariamente baixa). E estou. Só sou por causa dela, mas também sou apesar dela. Somos. Veja: agora eu estou surtando – e o que você vai fazer? Contenção? Aqui onde teus pés tocam o chão, aqui onde a materialidade do mundo chega o extremo, aqui: aqui é onde finco os olhos.